… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

7 de fevereiro de 1478 • Tomás Moro, um homem de família honrada, sem ser célebre, e um tanto entendido em letras

7 de fevereiro de 1478 Tomás Moro, um homem de família honrada, sem ser célebre, e um tanto entendido em letras
Tomás Moro, por Hans Holbein, o Jovem (1527)
Nascido em Londres, neste dia, 7 de fevereiro de 1478, Sir Thomas More, por vezes latinizado em Thomas Morus ou aportuguesado em Tomás Moro oi homem de estado, diplomata, escritor, advogado e homem de leis, ocupou vários cargos públicos, e em especial, de 1529 a 1532, o cargo de “Lord Chancellor” (Chanceler do Reino - o primeiro leigo em vários séculos) de Henrique VIII da Inglaterra. É geralmente considerado como um dos grandes humanistas do Renascimento. Foi canonizado como santo da Igreja Católica em 9 de maio de 1935 e a sua festa litúrgica é a 22 de junho.

Tomás Moro chegou a auto descrever-se como “de família honrada, sem ser célebre, e um tanto entendido em letras.” Era filho do juiz Sir John More, investido cavaleiro por Eduardo IV, e de Agnes Graunger. Casou-se com Jane Colt em 1505, em primeiras núpcias, tendo tido como filhos: Margaret, Elizabeth, Cecily e John. Jane morreu em 1511 e Thomas More casou-se em segundas núpcias com Lady Alice Middleton. More era homem de muito bom humor, caseiro e dedicado à família, muito próximo e amigo dos filhos. Dele se disse que era amigo de seus amigos, entre os quais se encontravam os mais destacados humanistas de seu tempo, como Erasmo de Rotterdam e Luís Vives.

Deu aos filhos uma educação excepcional e avançada para a época, não discriminando a educação dos filhos e das filhas. A todos indistintamente fez estudar latim, grego, lógica, astronomia, medicina, matemática e teologia. Sobre esta família escreveu Erasmo: “Verdadeiramente, é uma felicidade conviver com eles.”

Fez carreira como advogado respeitado, honrado e competente e exerceu por algum tempo a cátedra universitária. Em 1504, fazia parte da Câmara dos Comuns da qual foi eleito Speaker (ou presidente), tendo ganho fama de parlamentar combativo. Em 1510, foi nomeado Under-Sheriff de Londres, no ano seguinte juiz membro da Commission of Peace. Entrou para a corte de Henrique em 1520, foi várias vezes embaixador do rei e tornou-se cavaleiro (Knight) em 1521. Foi nomeado vice-tesoureiro e depois Chanceler do Ducado de Lancaster, e, a seguir, Chanceler da Inglaterra.

A sua obra mais famosa é “Utopia” (1516) (em grego, utopos = “em lugar nenhum”). Neste livro criou uma ilha-reino imaginária que alguns autores modernos viram como uma proposta idealizada de Estado e outros como sátira da Europa do século XVI. Um dos aspectos desta obra de More é que ela recorreu à alegoria (como no Diálogo do conforto, ostensivamente uma conversa entre tio e sobrinho) ou está altamente estilizada, ou ambos, o que lhe abre um largo campo interpretativo.

Como intelectual, ele foi inicialmente um humanista no sentido consensual do termo. Latinista, escreveu uma “História de Ricardo III” em texto bilingue latim-inglês, em que Shakespeare, mais tarde se basearia para escrever a peça de igual nome. Foi um grande amigo de Erasmo de Roterdão que lhe dedicou o seu “In Praise of Folly” (A palavra “folly” equivale à “moria” em grego).

Era um leitor das obras de Santo Agostinho e traduziu para o vernáculo “A Vida de Pico della Mirandolla”, obras que exerceram sobre ele grande influência. Escolheu John Colet, sacerdote, como diretor espiritual, que lhe estabeleceu um plano intenso de práticas pietistas.

De Tomás Moro teria dito Erasmo: “É um homem que vive com esmero a verdadeira piedade, sem a menor ponta de superstição. Tem horas fixas em que dirige a Deus as suas orações, não com frases feitas, mas nascidas do mais profundo do coração. Quando conversa com os amigos sobre a vida futura, vê-se que fala com sinceridade e com as melhores esperanças. E assim é More também na Corte. Isto, para os que pensam que só há cristãos nos mosteiros.”

Thomas Wolsey, Arcebispo de York, não foi bem sucedido na sua tentativa de conseguir o divórcio e anulação do casamento do rei com Catarina de Aragão como Henrique VIII de Inglaterra pretendia e foi forçado a demitir-se em 1529. More foi nomeado chanceler em sua substituição, sendo evidente que Henrique ainda não se tinha apercebido da retidão de caráter de Tomás Moro nesta matéria.

A sua chancelaria (1529-32) distinguiu-se pela sua exemplaridade, tratando pessoalmente, de todos os litígios existentes, até mesmo os herdados, sendo extremamente eficiente, imparcial e justo nas suas decisões.

Sendo profundo conhecedor de teologia e do direito canónico e homem religioso - ao ponto de se mortificar por Deus - usava por baixo das roupas uma camisa cilício [carece de fontes] - Tomás Moro via no anulamento do sacramento do casamento uma matéria da jurisdição do papado, e a posição do Papa Clemente VII era claramente contra o divórcio em razão da doutrina sobre a indissolubilidade do matrimónio. Contrário às Reformas Protestantes então já efetuadas e percebendo que na Inglaterra poderia acontecer o mesmo (devido às questões pessoais do soberano que conduziram à crise político-diplomática com Roma), Tomás Moro, apoiante das decisões da Santa Sé e arraigadamente católico - deixa o seu cargo de Lord Chancellor do rei em 16 de maio de 1532, provocando desconfiança na Corte e em Henrique VIII particularmente.

A reacção de Henrique VIII foi atribuir-se a si mesmo a liderança da Igreja em Inglaterra sendo o sacerdócio obrigado a um juramento ao abrigo do Acto de Supremacia que consagrava o soberano como chefe supremo da Igreja.

Tomás Moro escapara, entretanto, a uma tentativa de o implicar numa conspiração. Em 1534, o Parlamento promulgou o “Decreto da Sucessão” (Succession Act), que incluía um juramento (1) reconhecendo a legitimidade de qualquer criança nascida do casamento de Henrique VIII com Ana Bolena, e (2) repudiando “qualquer autoridade estrangeira, príncipe ou potentado.” Tal como no juramento de supremacia, este apenas foi exigido àqueles especificamente chamados a fazê-lo, por outras palavras, a todos os funcionários públicos e àqueles suspeitos de não apoiarem Henrique.

Tomás Moro foi convocado, excepcionalmente, para fazer o juramento em 17 de abril de 1534, e, perante a sua recusa, foi preso na Torre de Londres, juntamente com o Cardeal e Bispo de Rochester, John Fisher, tendo ali escrito o “Dialogue of Comfort against Tribulation.” A sua decisão foi manter o silêncio sobre o assunto. Pressionado pelo rei e pelos amigos da corte, Tomás Moro decidiu não enumerar as razões pelas quais não prestaria o juramento.

Inconformado com o silêncio de Tomás Moro, o rei determinou o seu julgamento, sendo condenado à morte, e posteriormente executado em Tower Hill a 6 de julho. Nem no cárcere nem na hora da execução perdeu a serenidade e o bom humor, e, diante das próprias dificuldades reagia com ironia.

Pela sentença o réu era condenado “a ser suspenso pelo pescoço” e cair em terra ainda vivo. Depois seria esquartejado e decapitado. Em atenção à importância do condenado o rei, “por clemência”, reduziu a pena a “simples decapitação”. Ao tomar conhecimento disto, Tomás Moro comentou: “Não permita Deus que o rei tenha semelhantes clemências com os meus amigos.” No momento da execução suplicou aos presentes que orassem pelo monarca e disse que “morria como bom servidor do rei, mas de Deus primeiro.”

A sua cabeça foi exposta na ponte de Londres durante um mês, foi posteriormente recolhida pela sua filha, Margaret Roper. A execução de Thomas More na Torre de Londres, no dia 6 de julho de 1535 “antes das nove horas”, ordenada por Henrique VIII, foi considerada uma das mais graves e injustas sentenças aplicadas pelo Estado contra um homem de honra, consequência de uma atitude despótica e de vingança pessoal do rei.

A sua trágica morte - condenado a pena capital por se negar a reconhecer Henrique VIII como cabeça da Igreja da Inglaterra, é considerada pela Igreja Católica como modelo de fidelidade à Igreja e à própria consciência, e representa a luta da liberdade individual contra o poder arbitrário.

Devido à sua retidão e exemplo de vida cristã, foi reconhecido como mártir, declarado beato em 29 de dezembro de 1886 por decreto do Papa Leão XIII, e, devido à instância do Cardeal Bourne, dos arcebispos e bispos da Inglaterra, Escócia e Irlanda e de diversas universidades, foi canonizado como santo da Igreja Católica em 9 de maio de 1935 pelo Papa Pio XI. O seu dia festivo é 22 de junho.

Deixou vários escritos de profunda espiritualidade e de defesa do magistério da Igreja Católica. Em 1557, seu genro, William Roper, escreveu a sua primeira biografia. Desde a sua beatificação e posterior canonização publicaram-se muitas outras.

Em 2000, São Tomás Moro foi declarado “Patrono dos Estadistas e Políticos” pelo Papa João Paulo II: “Esta harmonia do natural com o sobrenatural é talvez o elemento que melhor define a personalidade do grande estadista inglês: viveu a sua intensa vida pública com humildade simples, caracterizada pelo proverbial «bom humor» que sempre manteve, mesmo na iminência da morte. Esta foi a meta a que o levou a sua paixão pela verdade. O homem não pode separar-se de Deus, nem a política da moral: eis a luz que iluminou a sua consciência. Como disse uma vez, “o homem é criatura de Deus, e por isso os direitos humanos têm a sua origem nEle, baseiam-se no desígnio da criação e entram no plano da Redenção. Poder-se-ia dizer, com uma expressão audaz, que os direitos do homem são também direitos de Deus” (Discurso, 7 de abril de 1998).

É precisamente na defesa dos direitos da consciência que brilha com luz mais intensa o exemplo de Tomás Moro. Pode-se dizer que viveu de modo singular o valor de uma consciência moral que é “testemunho do próprio Deus, cuja voz e juízo penetram no íntimo do homem até às raízes da sua alma” (Carta enc. Veritatis splendor, 58), embora, no âmbito da ação contra os hereges, tenha sofrido dos limites da cultura de então.

Em 1966, foi realizado o filme “A man for all seasons”, que no Brasil recebeu o título de “O homem que não vendeu sua alma” e que em Portugal foi nomeado como “Um homem para a Eternidade.” O filme, de Fred Zinnemann, conta a história de Tomás Moro, desde o divórcio de Henrique VIII até à perseguição que lhe foi feita por este rei de Inglaterra. Tomás Moro foi interpretado por Paul Scofield.


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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

Este texto é de livre utilização, desde que a sua ortografia seja respeitada na íntegra porque já está escrito com o Português do Novo Acordo Ortográfico e que não seja nunca publicado nem utilizado para fins comerciais; seja utilizado exclusivamente para uso e desfruto pessoal.

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