… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

quinta-feira, 27 de abril de 2017

SALMO 4

C. H. Spurgeon
 O Tesouro de David
 SALMO 4
Se o terceiro Salmo pode ser intitulado o “Salmo matutino”, este, pelo seu conteúdo, merece por sua vez o título de «Hino vespertino».

No primeiro versículo David pede ajuda a Deus. No segundo increpa os seus inimigos, e continua dirigindo-se a eles até ao fim do versículo 5. Depois, do versículo 6 em adiante, deleita-se, contrastando a sua própria satisfação e segurança com a inquietação dos ímpios até no melhor dos estados em que possam achar-se. C. H. S.

Vers. 1. Ouve-me quando eu clamo. Não devemos imaginar que Aquele que nos ajudou em seis tribulações vai abandonar-nos na sétima. Deus não faz nada pela metade, e Ele nunca deixa de ajudar-nos até que a necessidade cessa. O maná cairá em cada manhã até que cruzemos o Jordão. C. H. S.

A fé é um bom orador e um nobre lutador na contenda; ela pode aduzir, partindo da disposição de Deus a escutar. David Dickson

Vers. 2. Até quando? Agora, pergunta-lhes ele, até quando tencionam eles fazer burla da sua honra e mofa da sua reputação. Um pouco de regozijo deste tipo já é excessivo; por que têm eles de continuar na sua diversão? C. H. S.

Filhos dos homens, até quando convertereis a minha glória em infâmia?, etc. Poderíamos imaginar cada sílaba deste precioso Salmo usada por nosso Senhor em alguma tarde, quando estava para sair do Templo naquele dia para retirar-Se para o Seu acostumado repouso em Betânia (vers. 8), depois dos Seus inúteis chamamentos aos homens de Israel. Andrew Bonar

Até quando amareis a vaidade e buscareis a mentira? Crisóstomo disse uma vez que «Se ele fosse o homem mais apto do mundo para pregar um sermão a todo mundo congregado ao seu redor para que este o escutasse, e tivesse alguma alta montanha como púlpito, da qual pudesse ter todo o mundo perante a sua vista, e estivesse provido de uma voz de bronze, uma voz que ressoasse como as trombetas do arcanjo, de modo que todo o mundo pudesse escutá-lo, escolheria como texto do seu sermão este dos Salmos: «Oh mortais, até quando amareis a vaidade, e procurareis a mentira?» Thos. Brooks

Selah. Sem dúvida nós também temos de determo-nos e meditar sobre a insensatez inveterada dos maus, e sobre a sua persistência na maldade, isto é para a sua segura destruição; e podemos aprender a admirar esta graça que nos tem feito diferentes, e nos ensinou a amar a verdade e a procurar a justiça. C. H. S.

Vers. 3. Sabei, pois, que o SENHOR separou para si aquele que é piedoso. David era rei por decreto divino, e, da mesma maneira, nós somos o povo de Deus; digamo-lo na cara dos nossos inimigos, os quais estão lutando contra Deus e o destino, quando se afanam para nos derrubarem. C. H. S.

Vers. 4. Meditai no vosso coração estando na vossa cama, e calai-vos. «Tremam e não pequem Quantos há que invertem o conselho e pecam, mas não tremem. Oh, se os homens seguissem o conselho deste versículo e meditassem nos seus corações. C. H. S.

O meditar contribuirá muito para dobrar a tua obstinação, as tuas paixões. A meditação séria, como o lançar terra entre as abelhas, vai acalmar os afectos desordenados e impetuosos, que fazem tanto ruído e são tão desagradáveis. George Swinnock

Vers. 6. Muitos são os que dizem: Quem me mostrará o bem? Havia muitos entre os próprios seguidores de David que preferiam ver a crer. Ai, esta é a mesma tendência hoje em dia! Quanto aos mundanos, isto é o que dizem: «Quem nos mostrará o bem?» Nunca estão satisfeitos, movendo-se ofegantes em todas direcções, com o coração vazio, ansiosos por beber qualquer engano que inventam os impostores; e, quando estes falham, logo cedem ao desespero e declaram que não há nada bom no Céu ou na Terra. C. H. S.

Os homens querem o bem; aborrecem o mal, porque trazem a dor, o sofrimento e a morte consigo; e desejam achar o bem supremo que vai satisfazer o seu coração e salvá-los do mal. Mas os homens confundem este bem. Procuram dar gratificação às suas paixões; não têm ideia de uma felicidade que não venha por meio dos sentidos. Por isso, rejeitam o bem espiritual, rechaçam o Deus supremo, ainda que seja só por meio dEle que possam ser satisfeitas todas as potências da alma do homem. Adam Clarke

Para que as riquezas não sejam contadas como más em si mesmas, Deus, às vezes, dá-as aos justos; e, para que elas não sejam consideradas como o bem principal, concede-as com frequência aos maus. Mas, em geral, elas são antes a porção dos Seus inimigos do que a de Seus amigos. Ai!, de que serve receber, mas não ser recebido, e não possuir outros orvalhos de bênção do que os que por necessidade irão ser seguidos pelo fogo e pelo enxofre?

O mundo é uma ilha flutuante, e é tão certo que se nós metemos nele a nossa âncora, vamos ser arrastados por ele. Deus, e tudo o que Ele tem feito, não é mais do que Deus sem nada do que Ele tem feito. Ele é suficiente sem a criatura, mas a criatura não é nada sem Ele. Portanto, é melhor gozar d’Ele sem nada mais, do que gozar de todo o resto sem Ele. É melhor ser uma vasilha de madeira cheia com vinho, do que ser uma vasilha feita de oiro cheia com água. William Secker's Nonsuch Professor, 1660.

Vers. 7. Puseste alegria no meu coração, mais do que no tempo em que se multiplicaram o seu trigo e o seu vinho. «É melhor sentir o favor de Deus uma hora nas nossas almas arrependidas do que estar sentado durante eras sob o sol mais quente que este mundo oferece.» Cristo no coração é melhor do que o grão no celeiro ou o vinho na cuba. O trigo e o vinho são os frutos deste mundo, mas a luz do rosto de Deus é o fruto abundante do Céu. Deixa que o meu celeiro esteja vazio, eu estou ainda cheio de bênçãos se Jesus Cristo me sorri; porém, se eu tiver todo o mundo, sou pobre sem Ele.

Este versículo são as palavras do justo em oposição aos ditos de muitos. Quão rapidamente dá a língua evidência do carácter! «Fala, para que possa ver-te!», disse Sócrates a um jovem de bom parecer. O metal de um sino conhece-se melhor pelo seu som. Os pássaros revelam a sua natureza ao cantar. C. H. S.

Que loucura é que os favoritos do Céu tenham de invejar os homens do mundo, que no melhor dos casos se alimentam das migalhas que caem da mesa de Deus! Thomas Brooks, 1608-1680.

Vers. 8. Em paz também me deitarei e dormirei, porque só tu, SENHOR, me fazes habitar em segurança. Uma consciência tranquila é uma boa companhia no travesseiro. Quantas vezes as nossas horas de insónia podem ser atribuídas à nossa mente em desordem e desconfiada. Aquele a quem a fé embala no seu sonho dorme docemente. Não há travesseiro tão doce como uma promessa; não há cobertura tão quente como um interesse seguro em Cristo. C. H. S.

Agora temos de nos retirar um momento da contenda e da disputa e da hostilidade aberta dos inimigos, para a quietude e a intimidade da nossa alcova. E ali há algo que deve ser inefavelmente doce para o crente, porque isso mostra-lhe o cuidado querido de Deus, a individualidade do Seu amor; a forma como Ele condescende e obra, não só nas coisas importantes, mas também nas pequenas; não só quando se pode obter a glória de grandes resultados, mas também quando não tem de alcançar nada, excepto, a gratidão e o amor de uma pobre criatura, cuja vida foi protegida e preservada durante um período de abandono e de sono. Que bem-aventurado seria se pensássemos nEle como estando presente em todas as horas da enfermidade, da inquietação e da dor!

Há algo comovedor neste «me deitarei» do Salmista. Neste deitar-se, ele renuncia voluntariamente a toda guarda pessoal de si mesmo. Muitos crentes deitam-se, mas não dormem. Quiçá se sintam seguros quanto ao seu corpo, mas os cuidados e a ansiedade invadem a intimidade da sua residência. Há uma prova na quietude; e, com frequência, a residência quieta exige mais confiança do que um campo de batalha. Oh, se pudéssemos confiar mais em Deus para as nossas coisas pessoais! Oh, se Ele fosse o Deus da nossa alcova, assim como o Deus dos nossos templos e lares em geral!

O irmão do bispo Ridley ofereceu-se-lhe para permanecer a seu lado durante a noite que precedeu a noite do seu martírio, mas Ridley declinou o oferecimento, dizendo que «queria deitar-se e dormir tão confiado como o tinha feito durante toda a sua vida». Philip Bennett Power's 'I Wills' of the Psalms.

Tradução de Carlos António da Rocha

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Esta tradução é de livre utilização, desde que a sua ortografia seja respeitada na íntegra porque já está traduzida no Português do Novo Acordo Ortográfico e que não seja nunca publicada nem utilizada para fins comerciais; seja utilizada exclusivamente para uso e desfruto pessoal.

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