… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

6 de fevereiro de 1564 • João Calvino prega o último sermão

6 de fevereiro de 1564João Calvino prega o último sermão
Retrato de João Calvino
Neste dia, 6 de fevereiro de 1564, uma era chegou ao fim. O homem que tinha feito muito mais do qualquer outro para forjar a teologia da Reforma, pregou o seu último sermão. Incapaz de andar, João Calvino foi levado à igreja numa cadeira. A sua boca enchia-se de sangue, à medida que ele ia pregando, de maneira que teve parar de pregar.



A boca de João Calvino enchia-se de sangue, quando ele pregou o seu último sermão.



Foi um momento significativo. Durante vinte e três anos ele orientou a Reforma em Genebra. Nesse processo, ele lançou as sementes da democracia moderna e construiu uma estrutura lógica para explicar a doutrina da Reforma.



Quando João Calvino veio pela primeira vez a Genebra em julho de 1536, planeava passar nela apenas uma noite. Ele já havia publicado a primeira edição da sua famosa teologia, ‘Institutas da Religião Cristã.’ Tendo recebido alguma formação para ser sacerdote católico, propósito que abandonou, e, em seguida, com o bacharelado em direito, Calvino estava preparado para escrever sobre o tema da lei moral. William Farel, o pregador mais proeminente de Genebra daquele tempo e o homem mais ansioso por melhorar a moral da cidade, viu em Calvino o auxiliar que precisava. Ele tentou convencer o jovem Calvino a permanecer em Genebra. Calvino inventava desculpas. Farel emitiu um aviso severo a Calvino dizendo-lhe ele que era da parte do Senhor. Calvino submeteu-se. Isso foi o início da parceria entre Farel, Calvino e o povo de Genebra.



Genebra era uma cidade que amava a pândega. Como os outros Protestantes, Calvino ensinou que a salvação obtinha-se apenas pelo mérito de Cristo. Ao mesmo tempo, ele insistia que a pessoa que espera pela salvação devia mostrar uma vida transformada. Farel e Calvino reprimiram a imoralidade da cidade. Dentro de um ano, Genebra expulsou-os a eles. Quando lhe disseram que ele devia sair da cidade, Calvino respondeu calmamente: "Se nós tivéssemos procurado agradar aos homens, nós teríamos sido mal recompensados, mas servimos a um Mestre superior, que não irá retirar de nós a nossa recompensa."



Em 16 de janeiro de 1537, as autoridades da cidade de Genebra aprovam o documento escrito pelo líder protestante Farell, que se destina a servir de confissão de fé e orientação para todos os habitantes de Genebra. Calvino faz também algumas sugestões, parte das quais foram rejeitadas. Cerca de vinte artigos dispõem, entre outras coisas, que os idólatras, os quérulos, os assassinos, os ladrões, os bêbados, entre outros, seriam futuramente excomungados. As lojas deviam fechar ao domingo, assim que soassem os sinos das igrejas.



Estas disposições, apesar de aceites pelas autoridades vão criar atritos com Farel e com Calvino. O estigma da excomunhão é extremamente discriminador e destruidor de relações sociais no século XVI.



Em março, os líderes anabatistas de origem holandesa Hermann de Gerbihan e Benoît d'Anglen são expulsos de Genebra, juntamente com os seus seguidores.



Em abril de 1537, por sugestão de Calvino, é constituído um síndico que tem por objetivo ir de casa em casa e inquirir sobre a confissão dos moradores. A ação é contestada. Alguns moradores recusam-se a pronunciar-se sobre a sua fé.



Em junho de 1537 as autoridades de Genebra decidem que o domingo é o único dia feriado. Futuramente nenhum outro feriado será considerado.



A 30 de outubro é definido como o prazo para todos os moradores de Genebra se pronunciarem quanto à sua religião. Aqueles que não reconhecem os decretos de Farel serão obrigados a deixar a cidade em 12 de novembro.



Após esta data, a situação complica-se para Farel e Calvino. Particularmente provocante é o facto de um estrangeiro, francês no caso, como Calvino, decidir sobre a excomunhão e expulsão de habitantes naturais de Genebra. As autoridades, perante estes protestos, passam a ser mais críticas para com os líderes protestantes.



A 3 de fevereiro de 1538 são eleitos para as autoridades da cidade de Genebra 4 pessoas que são inimigos de Calvino e dos protestantes. Em março, estas novas autoridades proíbem Calvino e Farell de se pronunciarem sobre assuntos não religiosos.



Calvino e Farel negam-se a celebrar a comunhão de acordo com a tradição de Berna. São proibidos de celebrar os serviços religiosos. No entanto, no domingo seguinte, a 21 de abril de 1538, Farell e Calvino celebram o culto da Ceia do Senhor como habitualmente, Farel na Igreja de Saint-Gervais e Calvino na de Saint-Pierre. As autoridades dar-lhes-ão três dias para saírem da cidade.



Em 1538, Farell irá refugiar-se em Neuchâtel. Calvino dirige-se a Estrasburgo, após ter inicialmente pretendido ir para Basileia. Estrasburgo era na altura parte da zona de língua alemã, mas a proximidade da fronteira com a França significava que ali se tinha desenvolvido uma comunidade de exilados franceses. Tal como em Genebra, Farel reconhecera o potencial de Calvino, assim também em Estrasburgo, Martin Bucer reconhecendo-lhe o seu potencial, será o protector de Calvino. Durante três anos Calvino dirigiu em Estrasburgo uma igreja de protestantes franceses exilados, a convite de Bucer.



Segundo o biógrafo Courvoisier, Estrasburgo é a cidade onde Calvino se torna verdadeiramente Calvino. O seu sistema de pensamento é aqui consubstanciado em algo de mais marcadamente original. A sua obra “Institutio” é aqui reeditada (1539). É agora três vezes maior do que a primeira edição.



Em outubro de 1539, Pierre Caroli chega a Estrasburgo, onde permanece pouco tempo. Caroli e Calvino, inimigos desde há anos, têm uma disputa. Caroli está agora algures entre o catolicismo e o protestantismo. Ele acusa Calvino de o ter confundido na sua fé. Calvino sofre uma crise nervosa.



Neste outono de 1539, Calvino escreve também um comentário à carta de Paulo aos Romanos. Este tema é particularmente querido ao protestantismo, porque ali se encontra a justificação através da fé como a base de sustentação do movimento protestante, porquanto somente a fé salva e justifica. A Igreja é por este prisma mais uma comunidade de crentes do que um enquadramento jurídico. Os sacramentos só recebem o seu sentido através da fé. Sem fé não têm qualquer efeito. Já Lutero tinha destacado a carta de Paulo aos Romanos como o cerne do Novo Testamento e o mais alto do Evangelho.



Em Estrasburgo, Calvino casa-se em agosto de 1540 com a viúva Idelette de Bure, que tinha sido anteriormente adepta do anabaptismo. Traz duas crianças do seu anterior casamento. Calvino tem 31 anos de idade. A cerimónia do casamento foi dirigida por Guillaume Farel.



Em 1541 a peste negra, ou peste bubónica, recrudesce em Estrasburgo. Idelette e as duas crianças procuram abrigo em casa de um irmão dela, nas redondezas.



Após a expulsão de Calvino, Genebra tinha adotado os ritos de Berna. O Natal, ascensão de Cristo e outras festividades ‘cristãs’ voltaram a ser praticadas. Mas os católicos e os anabaptistas continuavam a ser perseguidos e "convidados" a deixar a cidade. A 18 de março de 1539 o jogo tinha sido proibido em Genebra. Pedintes e vagabundos eram expulsos da cidade. A ausência de Calvino não tinha significado qualquer laxismo na moral estrita imposta na cidade.



As relações de Genebra com Berna permanecem tensas. Entretanto, os líderes que se opunham a Calvino, os chamados "artichoques", começam a perder influência. São acusados de simpatia por Berna. Jean Philip (João Filipe), um de seus líderes, é torturado e decapitado em 1540. Os oponentes, favoráveis a Calvino, chamados de "guillermins" ganham o poder.



Calvino foi convidado em outubro de 1540 a regressar a Genebra, para reaver o seu posto na igreja, tal como o tivera antes da expulsão. Calvino ainda hesitou em regressar. Por fim a sua consciência fê-lo regressar. A 13 de setembro de 1541 Calvino chegou, pela segunda vez, a Genebra, mas, desta vez, definitivamente. Ele propôs uma nova forma de governar. Um dos seus biógrafos, Richard Taylor Stevenson escreveu: "O Catolicismo é uma religião de sacerdotes, o Luteranismo teólogos, o Calvinismo uma congregação de crentes."



Começou, então, a organizar e a estruturar, de acordo com as linhas bíblicas, os ministérios e a ação dos professores e diáconos.



Nos seus últimos anos de vida, a saúde de Calvino começou a vacilar. Sofrendo de enxaquecas, hemorragia pulmonar, gota e pedras nos rins foi, por vezes, levado ou melhor dito, carregado para o púlpito. Calvino continuava a ter detratores declarados que lhe dirigiam ameaças constantes.



Todavia, Calvino apreciava passar os seus tempos livres no lago de Genebra, lendo as Escrituras e bebendo vinho tinto. No fim da sua vida disse aos seus amigos que estavam preocupados com o seu regime diário de trabalho: "Qual quê? Quereis que o Senhor me encontre ocioso quando Ele chegar?"



João Calvino morreu em Genebra a 27 de maio de 1564. Foi enterrado numa sepultura simples e não marcada, conforme o seu próprio pedido.



As ideias de governo criadas por Calvino encontraram maior expressão na Escócia e nos Estados Unidos da América, quando os Calvinistas se implantaram nestes países. O modelo de governo da Igreja de Calvino tornou-se o modelo para os governos nacionais. Assim milhões de pessoas, cristãos e não cristãos, têm sentido e sentem a influência da teologia de Calvino, mesmo desconhecendo quem foi João Calvino (Jean Calvin, aportuguesado como João Calvino: Noyon, 10 de julho de 1509 — Genebra, 27 de maio de 1564).



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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

Este texto é de livre utilização, desde que a sua ortografia seja respeitada na íntegra porque já está escrito com o Português do Novo Acordo Ortográfico e que não seja nunca publicado nem utilizado para fins comerciais; seja utilizado exclusivamente para uso e desfruto pessoal.

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