… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

sábado, 29 de abril de 2017

SALMO 6

C. H. Spurgeon
 O Tesouro de David
 SALMO 6


Este salmo é geralmente chamado o primeiro dos «Salmos penitenciais», e certamente a sua linguagem corresponde aos lábios de um penitente, porque expressa ao mesmo tempo a pena (vers. 3, 6, 7), a humilhação (vers. 2, 4) e o aborrecimento do pecado (vers. 8), que são as marcas infalíveis do espírito contrito que se volta para Deus.

Vers. 1. SENHOR, não me repreendas na tua ira, nem me castigues no teu furor. O Salmista dá-se conta de que merece ser repreendido, e não pede que a repreensão seja suprimida totalmente, porque ele poderia perder uma bênção escondida, mas: «Senhor, não me castigues no teu furor.» Se Tu me recordares o meu pecado, está bem; mas, oh!, não me mo recordes quando estiveres zangado contra mim, para que o coração do Teu servo não desmaie. Assim diz Jeremias: «Oh Senhor, corrije-me, mas com moderação; não na tua ira, para que não me destruas.» C. H. S.

Vers. 2. Tem misericórdia de mim, SENHOR. Para fugir e escapar da ira de Deus, David não vê nenhum outro meio quer no Céu quer na Terra, e, portanto, acerca-se de Deus, ainda que Ele o tenha ferido, para que Ele possa curá-lo. Foge, não como Adão para a espessura, nem como Saúl para a feiticeira, nem como Jonas para Tarsis; mas David apela a um Deus misericordioso em defesa de um desgostoso e justo, ou seja, que vai de Ele para Ele mesmo, como a mulher que foi condenada pelo rei Filipe que foi «de Filipe bêbado para Filipe sóbrio». Mas David vai de uma característica, a justiça, para outra, a misericórdia. A Godly and Fruitful Exposition on the Sixt Psalme, the First of the Penitentials; in a sacred Septenarie; or, a Godly and Fruitful Exposition on the Seven Psalmes of Repentance. by MR. ARCHIBALD SYMSON, late Pastor of the Church at Dalkeeth in Scotland. 1638.

Porque desfaleço. Não arguas a tua bondade ou a tua grandeza, mas hás de apelar ao teu pecado e à tua pequenez. Um sentido de pecado tinha abatido o orgulho do Salmista, tinha eliminado a sua jactanciosa força, de modo que se achava fraco, até para obedecer à lei, fraco por causa da aflição que sentia, muito fraco, quiçá, para lançar mão da promessa. «Desfaleço». O original pode traduzir-se como «Caio sem forças», como se murcha uma planta com o fungão (2Cr 6:28). C. H. S.

Quando te apresentares diante de Deus, o argumento mais poderoso que podes usar é a tua necessidade, a tua pobreza, as tuas lágrimas, a tua miséria, a tua impotência e confessa-as diante dEle, O Qual te abrirá a porta e te proverá de todas as coisas que Ele tem. O mendigo desprezado mostra as suas chagas à vista do mundo para movê-los à compaixão. Assim deploremos as nossas desgraças perante Deus, para que Ele, como o compassivo samaritano, à vista das nossas feridas, possa ajudar-nos no seu devido tempo. Archibald Symson

SENHOR, porque os meus ossos estão perturbados. O seu terror tinha aumentado tanto que até os seus próprios ossos se estremeciam; não só sentia estremecimentos na carne, mas também nos ossos; as colunas do edifício humano estavam tremendo. Ah!, quando a alma tem o sentimento de pecado, basta com ele para que os ossos se estremeçam; basta para que se arrepiem os cabelos da sua cabeça, e possa ver por baixo as chamas do inferno, um Deus zangado acima e o perigo e a dúvida que o rodeiam. C. H. S.

O termo ossos, algumas vezes aplica-se literalmente ao corpo humano de nosso Senhor, ao corpo que foi pendurado na cruz. Às vezes, também se tem feito referência ao corpo místico, a Igreja. Em algumas passagens aplica-se à alma e não ao corpo, ao homem interior do cristão individual. Então, implica a fortaleza da alma, a coragem corajosa que a fé em Deus dá ao justo. Este é o sentido em que se usa no segundo versículo deste Salmo. Agostinho, Ambrósio e Crisóstomo

Vers. 3. Até a minha alma está perturbada. A alma está turvada, a qual é o próprio centro da turbação. C. H. S.

Os companheiros de jugo no pecado são os companheiros de jugo na dor; a alma é castigada por dar as informações; o corpo, pela execução; tal como o que informa e o que executa, a causa e o instrumento, que açula o pecado, e o executor do mesmo são castigados. Sermons on the Penetential Psalms, in "The Works of John Donne, D.D., Dean of St. Paul's," 1621-1631. Edited by HENRY ALFORD, M.A. In six volumes. 1839.

Mas tu, SENHOR, até quando? Esta sentença termina abruptamente, porque as palavras falham e a pena afoga o pouco consolo que tinha assumado.

A exclamação favorita de Calvino era «Domine usquequo»: Senhor, até quando?» E este deveria ser o clamor dos santos que esperam a glória milenial. Por que os carros do Senhor tardam tanto em vir?; Senhor, até quando? C. H. S.

Nisto há três coisas que temos de observar; primeiro, que há um tempo designado, que Deus tem medido para as cruzes de todos os Seus filhos, antes de cujo tempo não serão libertados, e que devem esperar com paciência, não pensando em prescrever a Deus o tempo para a sua liberação ou limitar o Santo de Israel. Os israelitas permaneceram no Egipto até que completaram o número de quatrocentos e trinta anos. José esteve três anos e um pouco mais no cárcere, até que chegou o tempo designado para a sua libertação. Os judeus permaneceram setenta anos na Babilónia. Deus conhece o tempo conveniente para a nossa humilhação e para a nossa exaltação.

Logo, vemos a impaciência da nossa natureza nas nossas desgraças; a nossa carne ainda se rebela contra o Espírito, que com frequência se esquece de si mesma até ao ponto de entrar em argumentações e brigas com Ele, como lemos de Job, Jonas, etc., e aqui também de David.

Em terceiro lugar, ainda que o Senhor demora a Sua vinda para aliviar os Seus santos, contudo, Ele tem a causa deles, se a queremos considerar; porque quando estávamos no calor dos nossos pecados, muitas vezes Ele clamava pela boca dos Seus profetas e servos: «Oh insensatos, até quando continuareis na vossa loucura?» E nós não queríamos escutar; e, portanto, quando estamos no calor das nossas dores, pensando que cada dia é um ano até que somos libertados, não é de estranhar se Deus não nos escuta; consideremos a forma justa como Deus nos trata; que quando Ele nos chamava, nós não queríamos escutar, e agora nós clamamos e Ele não nos escuta. A Godly and Fruitful Exposition on the Sixt Psalme, the First of the Penitentials; in a sacred Septenarie; or, a Godly and Fruitful Exposition on the Seven Psalmes of Repentance. by MR. ARCHIBALD SYMSON, late Pastor of the Church at Dalkeeth in Scotland. 1638.

Vers. 4. Volta-te, SENHOR, livra a minha alma. Disse um antigo matemático que podia fazer mover o mundo se lhe dessem uma alavanca suficientemente grande e um ponto para apoiá-la. Assim também, quando uma petição tem alcançado Deus, obra sobre Deus, move a Deus, prevalece com Deus inteiramente para tudo. David, pois, tendo este ponto de apoio que é Deus, acerca-se mais a Deus; passa da deprecação à petição; não só que Deus não faça nada contra ele mas que Ele queira fazer algo em favor dele. Sermons on the Penetential Psalms, in "The Works of John Donne, D.D., Dean of St. Paul's," 1621-1631. Edited by HENRY ALFORD, M.A. In six volumes. 1839.

Salva-me por tua benignidade. Se apelarmos à justiça, o que podemos dizer? Mas se apelarmos à misericórdia podemos ainda clamar, apesar da imensidão de nossa culpa: «Salva-me, por tua misericórdia.» C. H. S.

Observa que com frequência David invoca o nome de Jeová, o qual se indica quando se usa o nome SENHOR em maiúsculas. Em quatro versículos usa-o cinco vezes. Não é isto uma prova de que o glorioso nome está cheio de consolação para o santo aflito? C. H. S.

Vers. 5. Porque na morte não há lembrança de ti; no sepulcro quem te louvará? É pela glória de Deus que o pecador é salvo. A misericórdia honra a Deus. C. H. S.

Vers. 6. Já estou cansado do meu gemido. O povo de Deus pode gemer, mas não pode resmungar. C. H. S.

Pode parecer uma mudança maravilhosa em David, sendo um homem de uma mente tão grande, que se veja assim abatido e deprimido. Não prevaleceu contra Golias, contra o leão e o urso, com a sua fortaleza e magnanimidade? Mas, agora está soluçando, suspirando, chorando como um menino! Quando os homens e as bestas estão frente a ele, David é mais do que vencedor; mas quando ele tem de entender-se com Deus, contra O Qual pecou, fica reduzido a menos que nada.

Toda a noite faço nadar a minha cama. Rego a minha cama com as minhas lágrimas; ou seja, alago de lágrimas a minha cama. Assim como a mulher com o fluxo de sangue que tocou a orla do vestido de Cristo não foi menos bem recebida por Cristo do que Tomé, que pôs os seus dedos na marca dos cravos, assim Deus não olha à quantidade, mas à sinceridade do nosso arrependimento.

Vers. 7. Já os meus olhos estão consumidos pela mágoa, e têm-se envelhecido por causa de todos os meus inimigos. A convicção de pecado, às vezes, tem tal efeito sobre o corpo que até os órgãos externos têm de sofrer. C. H. S.

Os meus angustiadores ou inimigos. Se um homem não tiver a graça consigo, Satanás não tem muito interesse nele; mas se ele estiver cheio de graça, assim como do amor de Deus, do Seu temor e doutras virtudes espirituais, pode ter a certeza de que Satanás sabe que isto está nele, de modo que não deixará de tentar roubar-lhas, se puder. A Godly and Fruitful Exposition on the Sixt Psalme, the First of the Penitentials; in a sacred Septenarie; or, a Godly and Fruitful Exposition on the Seven Psalmes of Repentance. by MR. ARCHIBALD SYMSON, late Pastor of the Church at Dalkeeth in Scotland. 1638.

Vers. 8. Apartai-vos de mim todos os que praticais a iniquidade. O arrependimento é uma coisa prática. Não basta lamentar a profanação do templo do coração; temos de açoitar os que compram e vendem e derrubar as mesas dos cambistas. Um pecador perdoado vai aborrecer os pecados que custaram ao Salvador o Seu sangue. C. H. S.

Que os membros da igreja não tenham muita familiaridade com os pecadores impenitentes. Sei que o homem é uma criatura sociável, mas isto não desculpa aos santos a ser descuidados na eleição das suas companhias. Lewis Stuckley's "Gospel Glass", 1667.

Os malvados são chamados «os que praticais a iniquidade» isto é, noutra tradução «fazedores de iniquidade» porque estão dispostos a pecar. Têm uma forte inclinação no espírito para fazer o mal, e fazem-no com consciência, não sem querer; não um pouco aqui e um pouco acolá (como é possível que o faça o homem bom), mas engolem-no em grandes quantidades; estão cheios dele e fazem-no plenamente; fazem-no em quantidade, e são «fazedores de iniquidade». Joseph Caryl.

Porque o SENHOR já ouviu a voz do meu pranto. Fala o pranto? Em que linguagem expressa David o que diz? Pois nesta língua universal que é conhecida e entendida em toda a Terra, até mesmo acima, nos Céus. O pranto é a eloquência da pena. Aprendamos a pensar nas lágrimas como orações líquidas, e no pranto como uma intercessão constante e insistente que nos abrirá o caminho diretamente até ao próprio coração da misericórdia, apesar das dificuldades e obstáculos que se interponham no seu caminho. C. H. S.

Não é tanto o olho cheio de lágrimas que Deus respeita como o coração contrito; contudo, não me atreveria a deter as lágrimas daquele que chora. Deus esteve olhando as lágrimas de Ezequias (Isaías 38:5): «Vi as tuas lágrimas». As lágrimas de David eram músicas para os ouvidos de Deus. T. Watson

O choro tem uma voz, e como a música sobre a água soa a maior distância e mais harmoniosamente do que sobre a Terra, assim também as orações, unidas às lágrimas, clamam mais alto aos ouvidos de Deus, e soam mais doces do que quando estão ausentes as lágrimas. Spencer's Things New and Old.

Tal como Deus vê a água da fonte nas veias da Terra antes de que ela borbulhe sobre a sua face, assim também vê Deus as lágrimas no coração do homem antes de que elas apareçam nos seus olhos. John Donne

Bem dizia Lutero: «A oração é a sanguessuga da alma que suga o veneno e o inchaço da mesma.» Bernardo disse: «Com que frequência a oração me achou quase desesperado, mas me deixou triunfante e seguro do perdão!» C. H. S.

Vers. 9. O SENHOR já ouviu a minha súplica; o SENHOR aceitará a minha oração. Aqui há uma experiência passada usada para o alento futuro. Ele escutou, Ele escutará. C. H. S.

Vers. 10. Envergonhem-se e perturbem-se todos os meus inimigos; tornem atrás e envergonhem-se num momento. Os romanos costumavam dizer: «Os pés dos deuses vingadores vão calçados de lã.» Com passos sem ruído se acerca a vingança da sua vítima, e, de súbito e de modo constrangedor, destrói-a de um golpe. Se isto fosse uma imprecação, contudo temos de recordar que a linguagem da antiga dispensação não é o da nova. Nós oramos pelos nossos inimigos, não contra eles. C. H. S.


Tradução de Carlos António da Rocha

****

Esta tradução é de livre utilização, desde que a sua ortografia seja respeitada na íntegra porque já está traduzida no Português do Novo Acordo Ortográfico e que não seja nunca publicada nem utilizada para fins comerciais; seja utilizada exclusivamente para uso e desfruto pessoal.

Sem comentários: