… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

quarta-feira, 15 de março de 2017

15 de março de 1594 • Casiodoro de Reina cerrou os olhos e entrou na presença do Senhor

15 de março de 1594Casiodoro de Reina
 cerrou os olhos e entrou na presença do Senhor

Casiodoro de Reina nasceu em Montemolín, Badajoz, na Espanha, cerca do ano de 1520, e faleceu em Francfort do Meno, Sacro Império Romano Germânico, neste dia, 15 de março de 1594. Foi um frade jerónimo espanhol convertido ao protestantismo, famoso por realizar a muito conhecida tradução castelhana da Bíblia, a chamada a “Bíblia do Urso”, em castelhano “Biblia del Oso”, que é a primeira tradução castelhana da Bíblia.

Casiodoro de Reina ingressou no mosteiro jerónimo de San Isidoro del Campo de Sevilha como monge. Logo teve contactos com o luteranismo e se converteu em partidário da Reforma, sendo perseguido pela Inquisição, em parte pela distribuição clandestina da tradução do Novo Testamento de Juan Pérez de Pineda (Montilla, Córdova, c. 1500 - Paris, 1567). Iniciada a repressão, preferiu abandonar o mosteiro e fugir com os seus amigos de confiança para Genebra em 1557, entre eles acompanhou-o Cipriano de Valera (Fregenal de la Sierra (Badajoz), 1532 – Londres, 1602).

Entretanto, o que viu em Genebra não foi do seu agrado: em 27 de outubro de 1553 Miguel Servet [Miguel Servet (em latim: Michael Servetus) (Villanueva de Sigena, Espanha, 29 de setembro de 1511 - Genebra, 27 de outubro de 1553)] foi executado e o tratamento dado aos dissidentes era muito controvertível. Reina opunha-se à execução de hereges reais ou supostos, por a considerar uma afronta ao testemunho de Jesus. Traduziu secretamente o livro de Sébastien Châteillon (1515 – 29 de dezembro de 1563) a que deu o nome de “Sobre os hereges”, e que Sébastien Châteillon publicara sob o pseudónimo de Martinus Bellius como “De haerectis an sint persequendi De herectis an sint persequendi” no qual condena as execuções por razões de consciência e documenta a rejeição original do cristianismo a semelhante prática. Lá se dizia que «Matar um homem não é defender uma doutrina, é matar um homem.»

Ainda que Casiodoro de Reina fosse firmemente trinitário e, portanto, não compartilhasse das crenças unitárias de Miguel Servet, por causa das quais ele foi queimado, não podia aceitar na sua consciência que se executasse alguém pelas suas crenças. Entrou em contradição com João Calvino e a rigidez imperante por Genebra levou-o a dizer que “Genebra se converteu numa nova Roma”, por isso, Casiodoro de Reina decidiu partir para Francfort do Meno. Sustentava, contra a opinião dominante na época, que os anabatistas pacifistas deveriam ser considerados “como irmãos.”

Enquanto isso, a Inquisição católica realizou em Sevilha em abril de 1562 um “Auto de fé” no qual foi queimada uma efígie de Casiodoro de Reina. As suas obras foram incluídas no chamado “Índice dos Livros Proibidos” (Index Librorum Prohibitorum) e ele foi declarado “heresiarca” (chefe de hereges).

Na Inglaterra, onde a reina Isabel I lhe concedeu permissão de pregar aos espanhóis perseguidos, foi ordenado em 1562 como pastor da Igreja da Inglaterra, no templo de Santa Maria de Hargs, e aí começa a sua tradução da Bíblia para a língua castelhana, a primeira que se fez nesta língua comum, já que a Bíblia Poliglota, impressa entre 1514 e 1517 em Alcalá de Henares, só apareciam o latim mais as línguas originais: o grego do Novo Testamento, e o hebraico e o aramaico, do Antigo Testamento. Mais tarde Casiodoro de Reina sentido-se caluniado, decidiu fugir para Amberes, como antiguamente era conhecida Antuérpia, na Bélgica, em janeiro de 1564, passando enormes dificuldades económicas para poder terminar a tradução da Bíblia.

Escreveu além disso o primeiro grande livro contra a Inquisição espanhola, intitulada “Algumas artes da Santa Inquisição espanhola”, publicado em Heidelberg, em 1567, sob o pseudónimo de Reginaldus Gonsalvius Montanus. A obra foi editada em latim, mas foi traduzida imediatamente para o inglês, o holandês, o francês e o alemão.

A sua versão castelhana da Bíblia, foi conhecida como “A Bíblia do Urso”, em castelhano “Biblia del Oso”, por aparecer um desenho com este animal na sua capa, por fim, foi publicada em Basileia, em 14 de junho de 1569. Os líderes cristãos e o Conselho Municipal dessa cidade tinham apoiado a publicação desta obra com todas as suas forças, e como mostra de gratidão, Casiodoro de Reina dedicou um exemplar à Biblioteca da Universidade de Basileia. Desta tradução da Bíblia de Casiodoro de Reina foram impressos 2600 exemplares na sua primeira edição, e apesar dos obstáculos que havia para a sua venda, em 1596 já se tinha esgotado totalmente.

Esta obra foi a primeira Bíblia completa impressa em idioma castelhano, o que hoje é reconhecido como o seu mais valioso contributo. A Bíblia de Cipriano de Valera, publicada em 1602, é de facto uma edição corrigida da tradução de Casiodoro Reina, tal como se reconhece nas versões contemporâneas de Reina-Valera, as quais, entretanto, suprimem os livros deuterocanónicos traduzidos por Casiodoro de Reina que estão colocados como apêndices na edição de Valera, como na tradução alemã da Bíblia do Lutero.

Casiodoro de Reina viveu em Amberes até 1585, ano em que as tropas do rei espanhol Felipe II se apoderaram da cidade, e nessa altura regressou a Francoforte do Meno (ou como é conhecida actualmente simplesmente como Frankfurt, na Alemanha), onde lhe tinham concedido a cidadania em 1573. Aí estabeleceu um comércio de sedas, com o qual se sustentou durante oito anos, com o produto do seu trabalho. Aí, em 1593, tendo já mais de 70 anos, foi eleito pastor auxiliar, tendo exercido o seu ministério apenas durante oito meses, acabando por cerrar os olhos e entrar na presença do Senhor em 15 de março de 1594.

Além da tradução da Bíblia e doutras traduções, são ainda obras originais de Reina as seguintes:

“Confissão de Fé cristã, feita por certos fiéis espanhóis, os quais, fugindo os abusos da Igreja Romana e à crueldade da Inquisição de Espanha, deixaram a sua pátria, para ser recebidos na Igreja dos fiéis, por irmãos em Cristo”, 1559;

“Algumas artes da Santa Inquisição espanhola”, 1567;

“Comentários aos Evangelhos de João e Mateus”, publicados em latim em Frankfurt, na Alemanha, 1573;

“Catecismo” 1580, publicado em latim, francês e holandês; e

“Estatutos para a sociedade de ajuda aos pobres e perseguidos”, publicado em Frankfurt.



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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

Este texto é de livre utilização, desde que a sua ortografia seja respeitada na íntegra porque já está escrito com o Português do Novo Acordo Ortográfico e que não seja nunca publicado nem utilizado para fins comerciais; seja utilizado exclusivamente para uso e desfruto pessoal.

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