… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

segunda-feira, 20 de março de 2017

20 de março de 579 • Martinho, o evangelizador dos suevos

20 de março de 579Martinho, o evangelizador dos suevos
Representação de Martinho de Dume numa miniatura do Códice Albeldensis, c. 976 (Biblioteca do Mosteiro de San Lorenzo de El Escorial, Madrid). À esquerda, junto da cabeça, pode-se ler “Martinus episcopus bracarensis.

Martinho nasceu na Panónia (Hungria), por volta do ano de 518, talvez de descendência romana e morreu em Dume, perto de Braga (Portugal) neste dia, 20 de março de 579.

Foi o evangelizador dos suevos que então eram maioritariamente arianos (heresia cristológica do séc. IV, que era defendida por Ario, sacerdote de Alexandria (256 - 336), que praticamente negava a Trindade, a divindade de Cristo e a Redenção, e que foi condenada no concílio de Niceia). Este homem marcou o fim de uma civilização e foi o precursor dos tempos modernos. Foi um dos homens mais eruditos do seu tempo.

Quando era jovem viajou para os Lugares Santos e, nomeadamente na Palestina, conheceu a vida dos eremitas do deserto e de outros religiosos.

Por volta de 550 veio para a Galécia. Fixou-se em Dume, junto da corte dos suevos, ajudando o rei Teodomiro (Teodomiro, Teodemiro ou Theodenar foi rei dos suevos de 559 a 570.Teodomiro é tido como o primeiro monarca cristão ortodoxo dos suevos, desde a morte de Requiário, e o responsável pela conversão do seu povo do arianismo à ortodoxia com a ajuda do missionário Martinho de Dume) a converter os suevos ao cristianismo.

Fundou várias igrejas e mosteiros, em que o principal foi a de Dume, e aí estabeleceu a sua regra à semelhança do que aprendera no Oriente. Foi elevado a bispo pelo rei Carrarico, em 556, o qual lhe concedeu a criação da diocese de Dume, com o seu mosteiro e respectivos domínios.

Cerca do ano de 569 sucedeu ao bispo de Braga, permanecendo, ainda com a tutela de Dume.

Martinho de Dume, bispo de Braga no século VI, destacou-se no seu tempo como um grande pensador e um verdadeiro estratega da doutrinação dos cristãos e da expansão do cristianismo entre os suevos.

Teve uma ação importante na criação de um notável centro de vida religiosa e cultural no seu mosteiro, tendo contribuído com a tradução de várias obras e com a redação de obras para orientação do rei e dos seus súbditos, e também dos bispos, e ainda com a publicação de obras ascético-morais, canónicas e poéticas.

Para além de batalhar pela ortodoxia contra os arianos, foi também um fecundo escritor. Entre as principais obras, citamos: Escritos canónicos e litúrgicos. Destacou-se também como tradutor (designadamente, dos Pensamentos dos padres egípcios).

Martinho de Dume é também uma figura de capital importância para a história da cultura e língua portuguesas; de facto, considerando indigno de bons cristãos que se continuasse a chamar os dias da semana pelos nomes latinos pagãos de Lunae dies, Martis dies, Mercurii dies, Jovis dies, Veneris dies, Saturni dies e Solis dies, foi o primeiro a usar a terminologia eclesiástica para os designar (Feria secunda, Feria tertia, Feria quarta, Feria quinta, Feria sexta, Sabbatum, Dominica Dies), donde os modernos dias em língua portuguesa (segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, quinta-feira, sexta-feira, sábado e domingo), caso único entre as línguas novilatinas, dado ter sido a única a substituir inteiramente a terminologia pagã pela terminologia cristã.
Por causa da crítica de Martinho de Dume à designação dos dias da semana com nomes de divindades pagãs, o português foi a única língua românica que passou a utilizar a expressão de “feira” (ou “feria”). Assim devemos a Martinho a forma como chamamos os dias da semana. Este foi um dos sucessos do abade de Dume e bispo de Braga.

Isto explica o facto de os mais antigos documentos redigidos em português, fortemente influenciados por este latim eclesiástico, não terem qualquer vestígio da velha designação romana dos dias da semana, prova da forte ação desenvolvida por Martinho e dos seus sucessores na subsituição dos nomes.

Martinho tentou também substituir os nomes dos planetas, mas aí já não foi tão bem sucedido, pelo que ainda hoje os chamamos pelos seus nomes clássicos pagãos.

Tendo falecido neste dia, 20 de março de 579, foi sepultado no mosteiro de Dumio (Dumio, também conhecido como Dume ou Dumium, é um antigo mosteiro próximo de Braga, no nordeste de Portugal, por ele fundado, no século VI d. C., durante os anos de 550 a 560). Martinho de Dume compôs para si o seguinte epitáfio: Nascido na Panónia, atravessando vastos mares, impelido por sinais divinos para o seio da Galiza, sagrado bispo nesta tua igreja, ó Martinho confessor, nela instituí o culto e a celebração da missa. Tendo-te seguido, ó patrono, eu, o teu servo Martinho, igual em nome que não em mérito, repouso agora aqui na paz de Cristo.

As obras de Martinho de Dume compreendem:

Pro Repellenda Iactantia” (Em favor da jactância que deve ser repelida)
Item de superbia” (Acerca da soberba)
Exhortatio humilitatis” (Exortação da humildade)
Sententiae Patrum Aegyptiorum” (Sentenças dos Padres Egípcios)
“De ira” (Da Ira)
“De correctione rusticorum” (Da Corecção dos rústicos)
“Formula vitae honestae” (Fórmula da vida honesta)


Reino Suevo com a capital em Braga, século V a VI



Os suevos (do proto-germânico swēbaz, baseado na raiz proto-germânica swe, “o próprio”) foram um grupo de povos germanos, parte dos quais migraram para Hispânia durante as Invasões bárbaras, fundando um reino na antiga província romana da Galécia (actual norte de Portugal e Galiza) que duraria entre 409 e 585 d.C., data em que foi anexado pelos Visigodos.



Os suevos eram oriundos da região entre os rios Elba e Oder, na atual Alemanha. O historiador romano Tácito chegou a referir-se a todos os germanos do além-Elba como “suevos.”


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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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