… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

segunda-feira, 3 de abril de 2017

3 de abril de 1327 • Marsílio e João: Filhos da Perdição




3 de abril de 1327 Marsílio e João: Filhos da Perdição
Marsílio de Pádua (1280 - 1343) denunciou o papado, culpando os papas das misérias da Itália. “A excomunhão e a interdição papal tinham interferido com os governos legais”, alegou ele, “sujeitando a Itália ao crime, às guerras, à corrupção e a muitas outras influências malignas.” No seu livro “Defensor Pacis” (Defensor da Paz), Marsílio defendeu que o Estado deve executar os seus próprios assuntos sem a interferência da Igreja.

Existem dois tipos de governo: o que governa com o consentimento das pessoas e o que governa sem ele. O último é a tirania. O governo ideal governa não só com o consentimento do povo, mas por eleição, disse Marsílio. Creia ou não, isto foi escrito no dealbar do século XIV!



Se fosse seguido este caminho, o povo elegeria os governadores dos seus concelhos, assim como os governantes nacionais. Marsílio chegou à separação completa dos poderes, no entanto, para os juízes fez um apêndice no poder executivo.



Assim como os Reformadores que vieram depois dele, também Marsílio afirmou que os papas não têm nenhuma base bíblica para a sua autoridade. "O Meu reino não é deste mundo" (Evangelho de João 18:36, ARC), disse o Senhor Jesus. Da mesma forma, os Apóstolos não se agarraram ao poder secular. A sua disciplina não se estendia para além das paredes da Igreja. Em contrapartida, os Papas e os outros clérigos, muitas vezes interferiam com a administração das nações quando, em vez de tomarem o poder, eles deveriam era ter servido. Ao fazer tais argumentos, Marsílio assumiu que as Escrituras são a única regra de fé. Nem mesmo os Concílios da Igreja, afirmou ele, poderiam substituir-se à autoridade da Palavra de Deus, (Isto quantos séculos antes de Martinho Lutero?!)



Este tipo de ataque sobre as alegações da Igreja Medieval não poderia ser ignorado. O livro de Marsílio foi concluído a 24 de junho de 1324. Dentro de dois anos, ele e o seu colaborador, Jean de Jandun, foram forçados a fugir de Paris para a Baviera, para o exílio. Neste dia, 3 de abril de 1327, o Papa emitiu uma bula em que denuncia a dupla como "filhos da perdição e frutos de maldição." É evidente que os clérigos não gostaram do que leram. Para se certificar de que ninguém mais lesse a obra, Roma condenou-a novamente em 27 de abril de 1324.



O Imperador Luís IV, o Bávaro, protegeu Marsílio. Quando ele invadiu Roma em 1328 e depôs o Papa João XXII, ele tomou o erudito e fê-lo Vigário Imperial de Roma. Marsílio revelou-se um tirano, perseguindo vigorosamente aqueles clérigos que se mantiveram fiéis a João XXII, e provando assim que o controlo e o equilíbrio a que ele tinha feito referência eram necessários também para ele. É mais fácil escrever a teoria do que implementá-la!



Durante a sua vida, o livro foi pouco estudado. Após a sua morte, assumiu maior importância. Segundo a Enciclopédia Católica, "Marsílio certamente é selecionado por dar ênfase apenas às ideias que seriam importantes no futuro." Cópias do livro sobreviveram à sua condenação e ele foi impresso em 1517, no mesmo ano em que Lutero afixou as suas 95 teses. De facto, reformadores como Lutero e Calvino e os defensores da Igreja Anglicana foram acusados de ressuscitar as ideias de Marsílio. Os reformadores ingleses Cranmer e Hooker estudaram a obra de Marsílio a quando da constituição da Igreja Inglesa. A condenação de uma obra raramente destrói a sua influência.



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PEQUENA NOTA BIOGRÁFICA DE MARSÍLIO DE PÁDUA (1280 - 1343)



Pensador medieval, jurisconsulto e político italiano nascido em Pádua, conhecido como precursor da Reforma e da democracia moderna, propôs uma conceção de Estado e de Governo que se distanciava do lugar comum da reflexão política medieval ao insistir na necessidade do consentimento dos súbditos como critério de legitimidade política. Filho de Bonmatteo, notário da Universidade de Pádua, teve formação em Direito, Filosofia e Medicina, em Pádua, e ensinou na Universidade de Paris (1312-1314), quando aderiu ao partido dos gibelinos, que, em nome dos imperadores alemães, combatiam o poder temporal dos papas. Defendia que a única realidade política é o Estado que chamava de Regnum, baseado na soberania do povo, e que o clero teria de se subordinar às leis e normas ditadas pelos leigos. Essa doutrina foi citada por reformadores como Lutero e Calvino e pelos defensores da Igreja Anglicana. Escreveu a sua obra principal “Defensor pacis” (1324), um tratado sobre teoria política determinante para a moderna ideia de estado, traduzido como “O Defensor da Paz.” Declarado herético neste dia, 3 de abril de 1327, foi excomungado pelo Papa João XXII em virtude das teses defendidas no “Defensor da Paz”, teve de fugir de Paris e refugiou-se na corte do Imperador Luís IV, o Bávaro, a quem continuou servindo como conselheiro político. Dois anos depois, acompanhou o Imperador a Roma (1328) e foi nomeado vigário imperial da cidade. Ainda era conselheiro político de Luís IV quando morreu em Munique. Além do “Defensor pacis”, foi autor de outros trabalhos como “Defensor Menor”, “De Translatione Imperii” e Sobre a jurisdição do Imperador em questões matrimoniais.



Marsílio da Pádua nasceu em Pádua pouco depois de 1270 e morreu entre 28 de outubro de 1336 e 10 de abril de 1343. O sobrenome de sua família era De Raimundinis, como o seu amigo Alberto Mussato lhe chama, ou De Mainardinis, como os documentos oficiais eclesiásticos e outras fontes contemporâneas registram. Ao escolher uma vocação duvidou entre o direito e a medicina, servindo supostamente nas casas della Scala, em Verona e Visconti, em Milão, durante algum tempo, encontrava-se em 1312 em Paris com um título de professor, sendo ordenado sacerdote. Aqui ficou em contato com Guillerme de Occam e Jean de Jandun, tomando os três parte ativa na controvérsia que tão ferozmente irrompeu sob João XXII, especialmente depois de 1322 na ordem franciscana em relação à pobreza de Cristo e aos apóstolos, pondo-se do lado dos observantes estritos contra o Papa. Ainda que Marsílio tenha escapado do cárcere que sofreram Occam e outros, esteve indubitavelmente em algum perigo, pedindo ao imperador Luís IV, o Bávaro, amparo. Luís estava nesse momento em conflito com o Papa e recebeu a Marsílio e Jean de Jandun a seu lado. Logo estariam imersos na preparação da grande obra que faria com que o nome do Marsílio fosse recordado, “o Defensor pacis”, que em dois meses estava pronto para ser levado perante o imperador, na Alemanha. Isto ocorreu entre 1324 e 1328, por isso a data de um manuscrito de Viena (24 de junho de 1324) pode ser a exata. Luís recebeu-os, declarando posteriormente que o tinha feito simplesmente porque eram eruditos que lhe podiam ser úteis, sem ele mesmo se comprometer com as suas subtilezas teológicas. A influência de Marsílio foi importante para determinar a marcha de Luís sobre Roma e para instituir o franciscano Pedro de Corbara como antipapa, sob o nome de Nicolau V. Marsílio foi nomeado vigário papal de Roma, sendo designado arcebispo de Milão. O fracasso da expedição imperial acabou com a influência preponderante de Marsílio. Luís humilhou-se, pedindo a reconciliação com o Papa a quem havia despojado e prometeu que Marsílio também se submeteria ou perderia o amparo imperial. Felizmente para Marsílio, nem João nem os seus sucessores, Bento XII e Clemente VI, aceitaram a oferta de Luís.



No seu discurso de 10 de abril de 1343 o Papa declarou que nunca tinha lido um livro tão herético como o “Defensor pacis”, enquanto que Flacius, por outro lado, no seu “Catalogus testium” diz que entre as obras mais antigas (da pré-reforma) não há outra mais sólida, erudita, valente e piedosa contra o poder papal. A obra no conjunto pode dividir-se em duas partes: a primeira desenvolve, segundo bases aristotélicas, a teoria política e a segunda trata com a constituição da Igreja, discutindo-se finalmente as relações com o Estado. Para a sua época, Marsílio foi muito audaz e de aguda percepção, ultrapassando os seus antecessores Dante, Johannes Parisius, etc. Em política abstrata estabelece o aforismo de que a soberania do povo, ou de uma maioria, é a fonte de todo o poder. Nas coisas espirituais, afirma a validez do Novo Testamento como lei, mas diz que somente deve ser implantando por meios internos, não pelo castigo temporário. Falando de dignidades na Igreja, deduz do Novo Testamento e de Jerónimo a afirmação de que bispos e presbíteros foram originalmente o mesmo e deriva o episcopado posterior da convenção humana, negando que um bispo esteja por cima de outro. Combate veementemente a pretensão da hierarquia, de retirar toda a sua propriedade e combate os membros da jurisdição secular e afirma o direito do 'legislador humano' usar totalmente ou em parte tais possessões temporais, acima do que a Igreja necessita para a adoração. Buscou uma reforma dos males do seu tempo nos concílios e sínodos consistentes de bispos, sacerdotes e laicos, convocados pela autoridade secular. Essas conclusões notáveis, se bem que procediam mais de um raciocínio aristotélico do que, como no caso do de Lutero, de um instinto piedoso, são características importantes na preparação da Reforma.



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PEQUENA NOTA BIOGRÁFICA DE JEAN DE JANDUN (1286-1328)



Jean de Jandun (também é chamado, Johannes de Genduno, de Ganduno, e do Gandavo, Joannes Jandum ou Giovanni Jandun) nasceu por volta de 1286 em Jandun, na Champagne, França e morreu em 1328 em Todi, nos Estados papais. Depois de estudar na universidade de Paris, Jean veio a ser professor de artes no colégio de Navarra em Paris, onde deu aulas sobre Aristóteles. Associou-se com Marsílio da Pádua, escritor do “Defensor Pacis”, que afirmava a superioridade do poder civil sobre o eclesiástico. Por causa da controvérsia desta obra, Jean e Marsílio pediram amparo a Luís IV da Baviera. Depois de uma série de bulas condenatórias papais, foram excomungados como hereges pelo Papa João XXII neste dia, 3 de abril de 1327. Os seus escritos mais influentes são comentários sobre Aristóteles. O seu maior interesse foi a divisão entre a fé e a razão. Alguns críticos pensam que sustentou uma teoria da 'dupla verdade', crendo que declarações contraditórias da fé e da razão podem ser simultaneamente verdadeiras. Outros denominam-no anti-cristão, enquanto que há quem o julgue como um pensador de tradição agostiniana. Jean de Jandun escreveu uma obra "De Laudibus Parisiis" que é considerado o primeiro guia turístico de Paris.

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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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