… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

quarta-feira, 19 de abril de 2017

19 de abril de 1506 • Início do massacre de Judeus em Lisboa




19 de abril de 1506 Início do massacre de Judeus em Lisboa
 Monumento em Lisboa em homenagem aos Judeus mortos no massacre de abril de 1506

A historiografia situa o início da matança no Mosteiro de São Domingos (Santa Justa), neste dia, 19 de abril de 1506, um domingo, quando os fiéis Católicos rezavam pelo fim da seca e da peste que tomavam Portugal, e alguém jurou ter visto no altar o rosto de Cristo iluminado — fenómeno que, para os Católicos presentes, só poderia ser interpretado como uma mensagem de misericórdia do Messias - um milagre!

Um cristão-novo que também participava da missa tentou explicar que a luz era apenas o reflexo do Sol, mas foi calado pela multidão, que o espancou até à morte.



A partir daí, os judeus da cidade, que anteriormente já eram vistos com desconfiança, tornaram-se o bode expiatório da seca, da fome e da peste: três dias de massacre sucederam-se, incitados por frades dominicanos que prometiam a absolvição dos pecados dos últimos 100 dias para quem matasse os “hereges”, e que, juntaram um grupo de mais de quinhentas pessoas, incluindo marinheiros da Holanda, da Zelândia e de outras terras, com as suas promessas.



A corte encontrava-se em Abrantes - onde se instalara para fugir à peste - quando o massacre começou. D. Manuel I tinha-se posto a caminho de Beja, para visitar a mãe, D.ª Beatriz, terá sido avisado dos acontecimentos em Avis, logo mandando magistrados para tentar pôr fim ao banho de sangue. Entretanto, mesmo as poucas autoridades presentes foram postas em causa, e, em alguns casos, obrigadas a fugir.



Como consequência, os judeus, tanto homens, como mulheres e crianças foram torturados, massacrados, violados e queimados em fogueiras improvisadas no Rossio. Os judeus foram acusados entre outros “males”, de deicídio e de serem a causa da profunda seca e da peste que assolava o país. A matança durou três dias - de 19 a 21 de abril, na Semana Santa de 1506 - e só acabou quando foi morto um cristão-novo que era escudeiro do rei, João Rodrigues Mascarenhas, e as tropas reais chegaram finalmente para restaurar a ordem.



O Massacre de 1506 ficou como que apagado da memória coletiva, um pedaço de história esquecida que não está nos livros de História, caiu no esquecimento e são poucos os historiadores que lhe fazem referência. O horror e a violência foram descritos e reproduzidos por Damião de Góis, Alexandre Herculano, Oliveira Martins, Garcia de Resende, Salomon Ibn Verga e Samuel Usque.



Damião de Góis in «Chronica do Felicissimo Rey D. Emanuel da Gloriosa Memória» regista: “No mosteiro de São Domingos existe uma capela, chamada de Jesus, e nela há um Crucifixo, em que foi então visto um sinal, a que deram foros de milagre, embora os que se encontravam na igreja julgassem o contrário. Destes, um cristão-novo (julgou ver, somente), uma candeia acesa ao lado da imagem de Jesus. Ouvindo isto, alguns homens de baixa condição arrastaram-no pelos cabelos, para fora da igreja, e mataram-no e queimaram logo o corpo no Rossio.



Ao alvoroço acudiu muito povo a quem um frade dirigiu uma pregação incitando contra os cristãos-novos, após o que saíram dois frades do mosteiro com um crucifixo nas mãos e gritando: “Heresia! Heresia!” Isto impressionou grande multidão de gente estrangeira, marinheiros de naus vindos da Holanda, Zelândia, Alemanha e outras paragens. Juntos mais de quinhentos, começaram a matar os cristãos-novos que encontravam pelas ruas, e os corpos, mortos ou meio-vivos, queimavam-nos em fogueiras que acendiam na ribeira (do Tejo) e no Rossio. Na tarefa ajudavam-nos escravos e moços portugueses que, com grande diligência, acarretavam lenha e outros materiais para acender o fogo. E, nesse Domingo de Pascoela, mataram mais de quinhentas pessoas.



A esta turba de maus homens e de frades que, sem temor de Deus, andavam pelas ruas concitando o povo a tamanha crueldade, juntaram-se mais de mil homens (de Lisboa) da qualidade (social) dos (marinheiros estrangeiros), os quais, na segunda-feira, continuaram esta maldade com maior crueza. E, por já nas ruas não acharem cristãos-novos, foram assaltar as casas onde viviam e arrastavam-nos para as ruas, com os filhos, mulheres e filhas, e lançavam-nos de mistura, vivos e mortos, nas fogueiras, sem piedade. E era tamanha a crueldade que até executavam os meninos e (as próprias) crianças de berço, fendendo-os em pedaços ou esborrachando-os de arremesso contra as paredes. E não esqueciam de lhes saquear as casas e de roubar todo o ouro, prata e enxovais que achavam.



E chegou-se a tal dissolução que (até) das (próprias) igrejas arrancavam homens, mulheres, moços e moças inocentes, despegando-os dos sacrários, e das imagens de Nosso Senhor, de Nossa Senhora e de outros santos, a que o medo da morte os havia abraçado, e dali os arrancavam, matando-os e queimando-os fanaticamente sem temor de Deus.



Nesta (segunda-feira), pereceram mais de mil almas, sem que, na cidade, alguém ousasse resistir, pois havia nela pouca gente visto que por causa da peste, estavam fora os mais honrados. E se os alcaides e outras justiças queriam acudir a tamanho mal, achavam tanta resistência que eram forçados a recolher-se para lhes não acontecer o mesmo que aos cristãos-novos.



Havia, entre os portugueses encarniçados neste tão feio e inumano negócio, alguns que, pelo ódio e malquerença a Cristãos, para se vingarem deles, davam a entender aos estrangeiros que eram cristãos-novos, e nas ruas ou em suas (próprias) casas os iam assaltar e os maltratavam, sem que se pudesse pôr cobro a semelhante desventura.



Na terça-feira, estes danados homens prosseguiram em sua maldade, mas não tanto como nos dias anteriores; já não achavam quem matar, pois todos os cristãos-novos, escapados desta fúria, foram postos a salvo por pessoas honradas e piedosas, (contudo) sem poderem evitar que perecessem mais de mil e novecentas criaturas.



Na tarde daquele dia, acudiram à cidade o Regedor Aires da Silva e o Governador Dom Álvaro de Castro, com a gente que puderam juntar, mas (tudo) já estava quase acabado. Deram a notícia a el-Rei, na vila de Avis, (o qual) logo enviou o Prior do Crato e Dom Diogo Lopo, Barão de Alvito, com poderes especiais para castigarem os culpados. Muitos deles foram presos e enforcados por justiça, principalmente os portugueses, porque os estrangeiros, com os roubos e despojo, acolheram-se às suas naus e seguiram nelas cada qual o seu destino. (Quanto) aos dois frades, que andaram com o Crucifixo pela cidade, tiraram-lhes as ordens e, por sentença, foram queimados.”



Durante muitos anos, o episódio foi ignorado. Em 2006 a cidade de Lisboa homenageou as vítimas com um monumento no largo da Igreja de São domingos, na Baixa de Lisboa.



Esse massacre é lembrado hoje por um monumento construído no largo de São Domingos (que fica diante do Convento de São Domingos de Lisboa) em homenagem ao Judaísmo, o qual foi inaugurado em 23 de abril de 2008.



Nota:


D.ª Beatriz, infanta de Portugal, nascida em 1430, era filha do Infante João (quarto filho do rei João I e de Filipa de Lencastre) e da sua esposa Isabel de Barcelos, filha de Afonso, Duque de Bragança. Casou com o seu primo, o Infante Fernando, Duque de Beja e de Viseu, irmão de Afonso V, de quem teve vários filhos, nomeadamente o rei Manuel I e a rainha Leonor. Era ainda bisneta de D. Pedro I, rei de Portugal, de Nuno Álvares Pereira e de João de Gante, Duque de Lancaster.

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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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