… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

sexta-feira, 7 de abril de 2017

7 de abril de 1498 • A prova de fogo de Savonarola

7 de abril de 1498A prova de fogo de Savonarola
 
 Enforcamento e incineração do corpo de Savonarola na Piazza della Signoria (Anónimo, 1498, Museu Nacional de São Marcos

Girolamo Savonarola (Ferrara, 21 de setembro de 1452 — Florença, 23 de maio de 1498), cujo nome é por vezes traduzido como Jerónimo Savonarola ou Hieronymous Savonarola, foi um padre dominicano e, por um curto período de tempo, governou Florença.

Este reformador dominicano veio de uma antiga e tradicional família de Ferrara. Intelectual muito talentoso devotou-se aos seus estudos, especialmente à filosofia e à medicina. Em 1474, quando foi numa viagem a Faenza, ouviu um forte sermão, proferido por um padre agostiniano, e resolveu renunciar ao mundo, incorporando-se à ordem dominicana, em Bolonha, sem o conhecimento de seus pais.

Sentindo profundamente a perda de valores trazida pelo ideário do Renascimento, como é evidente no poema “No declínio da igreja”, que escreveu no primeiro ano da sua vida monástica, fortaleceu-se com a instrução dos noviços no mosteiro, em Bolonha, e começou a escrever os seus tratados filosóficos baseados em Aristóteles e em Santo Tomás de Aquino. Em 1481, foi designado pelo seu superior para pregar em Florença. Nesse centro do Renascimento, opôs-se imediatamente, com grande energia, à vida pagã e muito frequentemente contra a imoralidade prevalecente em muitas classes da sociedade, em especial na corte de Lourenço de Médici.

Foi tomado, ao mesmo tempo, por um zelo intenso para com a salvação das almas, e estava pronto a arriscar tudo a fim de combater as fraquezas humanas. Em 1489 regressou a Florença, a qual devia ser o palco dos seus trabalhos e triunfos futuros, tanto quanto da sua queda.

Era inevitável que esse movimento independente a favor de reformas, apesar de poderoso, viesse a colidir com os interesses e com a política do papado. O Papa Alexandre VI denunciou Savonarola como herege e interditou as suas atividades como pregador. Inicialmente Savonarola obedeceu a esta determinação, mas, finalmente, disse que Deus lhe havia revelado que não deveria submeter-se a um tribunal corrupto, e continuou a pregar. Começava a surgir, também, a oposição do ponto de vista político fazendo com que o Frade viesse a perder grande parte do seu antigo apoio popular. “Nesse meio tempo a rivalidade existente entre as ordens monásticas, encorajadas pela corte de Roma, fez surgir um líder que viesse combater Savonarola”.

Assim, um frade dominicano — Francisco de Apulia — desafiou Savonarola a passar pela fogueira juntamente com ele para ver qual dos dois contava com a aprovação de Deus. Savonarola recusou o desafio, mas um seu amigo devoto, o Frade Domenic Buonvicino, disse que passaria pela prova em seu lugar. Toda a população de Florença recebeu a notícia com expectativa e alegria. Neste dia, 7 de abril de 1498, uma plataforma foi erguida na praça pública de Florença. Nela foram colocadas grandes pilhas de madeira, separadas por um espaço estreito, o qual deveria ser atravessado pelos frades, enquanto o fogo consumia as fogueiras.

Uma grande discussão ocorreu quando os dois frades chegaram ao local. Os oponentes de Savonarola não queriam permitir que o frade Buonvicino entrasse no corredor de fogo carregando uma cruz. Insistiam que ele deveria percorrer o trajeto sem qualquer forma de proteção divina. A disputa foi ficando acalorada. As horas que se seguiram são descritas da seguinte forma por Jean C. L. Sismond: “Várias horas haviam-se passado. A multidão, que havia suportado a longa espera, começou a sentir-se faminta, sedenta e a perder a paciência. Repentinamente, uma chuva torrencial caiu sobre a cidade, vertendo um fluxo considerável de água dos telhados sobre os presentes. As pilhas de madeira ficaram tão encharcadas que não ardiam, a enorme fogueira apagou-se e não podia ser acesa. A multidão dececionada, que havia aguardado com tanta impaciência a manifestação de um milagre, começou a dispersar-se com a noção de que havia sido manipulada. Savonarola perdeu todo o seu crédito e passou a ser considerado, daí para a frente, como um impostor.”

Nos dias que se seguiram, o mosteiro onde foi Savonarola vivia tomado pelos Arabbiati, que se aproveitaram da inconstância da multidão. Savonarola foi preso, juntamente com dois dos seus amigos. Juízes foram enviados de Roma por Alexandre VI com a ordem de efetivar a condenação de Savonarola à morte. Iniciou-se um julgamento no qual a utilização da tortura foi frequente. No dia 23 de maio de 1498, no mesmo local onde seis semanas antes fogueiras haviam sido erguidas antevendo um triunfo, os três monges foram queimados vivos.

Savonarola foi um reformador político e moral que viveu uma intensa e fascinante controvérsia num período crucial da história. As suas reformas legislativas não sobreviveram à sua própria existência. Os seus chamamentos a uma moralidade de vida sem a base de vidas regeneradas pelo Evangelho da Graça de Cristo, foram rapidamente sufocados pela pecaminosidade latente dos que o apoiavam, rapidamente transformados em impacientes perseguidores. A sua rejeição da estrutura hierárquica de Roma, por considerações morais, não o levaram a uma reconsideração das doutrinas e desvios de ensino daquela Igreja, tão distanciados das verdades bíblicas.

Savonarola tem o seu lugar de destaque na história, mas a sua classificação como pré-reformador ou até como um legítimo reformador ocorre apenas se forçarmos ou romancearmos os registos da história. De modo algum pode ser colocado em paridade com Lutero ou Calvino, que clarificaram as principais doutrinas da Igreja, tornando visíveis e permanentes as distinções que separam os protestantes da tradição Católica Romana.

Podemos até mesmo dizer que Savonarola reconheceu problemas na Igreja Católica e identificou-os corretamente, mas não providenciou as respostas, que só poderiam ser extraídas das Escrituras. Lutero e Calvino, pelo contrário, fizeram exatamente isso.

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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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