… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

segunda-feira, 1 de maio de 2017

SALMO 8

C. H. Spurgeon
 O Tesouro de David
 SALMO 8

Podemos intitular este Salmo como o Salmo do astrónomo.

Vers. 1. Ó SENHOR, Senhor nosso, quão admirável é o teu nome em toda a terra, pois puseste a tua glória sobre os céus! Incapaz de expressar a glória de Deus, o Salmista profere uma exclamação: Ó SENHOR, Senhor nosso! A estrutura sólida do universo apoia-se sobre o Seu braço eterno. Ele está presente universalmente, e por toda a parte o Seu nome é excelente.

Desce, se quiseres, às maiores profundidades do oceano, onde dorme a água imperturbável, e a própria areia, imóvel em quietude perene, proclama que o SENHOR está ali, revelando a Sua excelência no palácio silencioso do mar. Pede emprestadas as asas da manhã e percorre os limites mais distantes do mar, e Deus está ali. Sobe aos mais altos Céus, ou lança-te ao Inferno mais profundo, e Deus é num e noutro, cantado num cântico eterno ou justificado numa vingança terrível. Por toda a parte e em todo o lugar, Deus reside e é manifestado na Sua obra.

Apenas podemos achar as palavras mais apropriadas como as de Neemias: «Só tu és SENHOR; tu fizeste o céu, o céu dos céus, e todo o seu exército, a terra e tudo quanto nela há, os mares e tudo quanto neles há, e tu os guardas com vida a todos; e o exército dos céus te adora.»(Ne 9:6, ARC, Pt) Voltando para o versículo, ele leva-nos a observar que este Salmo é dirigido a Deus, porque ninguém senão o próprio Senhor pode plenamente conhecer a Sua própria glória. C. H. S.

Vers. 2. Da boca das crianças e dos que mamam tu suscitaste força, por causa dos teus adversários. Com que frequência, os meninos nos falam de um Deus ao Qual nós temos esquecido! Não proclamaram o seu «Hosana!» os meninos no Templo, quando os fariseus, orgulhosos, guardavam silêncio e mostravam desprezo? E não cita o Salvador estas mesmas palavras como justificação dos seus gritos infantis?

Fox diz-nos no seu “Livro dos mártires” que quando o Sr. Lawrence foi queimado em Colchester, depois de o levarem à fogueira numa cadeira por causa da crueldade dos papistas e não podia sustentar-se em pé, vários meninos aproximaram-se da fogueira e gritaram, conforme eles puderam: «Senhor, fortalece o teu servo, e guarda a Tua promessa.» Deus respondeu à sua oração, porque o Sr. Lawrence morreu com uma calma e uma firmeza que qualquer um poderia desejar para si nos seus últimos momentos.

Quando um dos capelães papistas disse ao Sr. Wishart, o grande mártir escocês, que tinha dentro de si um diabo, um menino que estava perto, exclamou: «Um diabo não pode dizer palavras como as que este homem diz.» Temos mais um exemplo dum período mais próximo ao nosso tempo. Num post scriptum (pós-escrito) duma das suas cartas, na qual pormenoriza a sua perseguição quando começou a pregar em Moorfields, Whitefield diz: «Não posso pelo menos deixar de acrescentar que vários meninos e meninas que costumavam sentar-se ao meu redor, no púlpito, enquanto eu pregava, e me entregavam as repreensões que lhes davam o povo, por mais frequência com que lhes acertassem com ovos podres, fruta, lama, etc., que eram dirigidos para mim, nunca cederam e nunca deixaram de fazê-lo; pelo contrário, cada vez que me tocavam com algo, olhavam-me com os seus olhitos cheios de lágrimas, e parecia que desejavam receber os impactos que eram dirigidos a mim. Deus fez deles, nos seus anos de crescimento, grandes e vivos mártires para Ele, porquanto «da boca dos meninos e dos que mamam aperfeiçoa o louvor!» C. H. S.

Quem são estes «meninos e meninas que mamam»? O homem em geral, que vem de um começo tão débil e pobre como são os meninos e os que mamam, contudo, acaba tendo tal poder que pode enfrentar e vencer o inimigo e o rebelde. Os apóstolos, cuja aparência externa era deplorável, em certo sentido comparável aos meninos e aos que mamam, se os cotejamos com os grandes do mundo, ainda que eram criaturas pobres e desprezadas, eram, contudo, instrumentos principais para o serviço e a glória de Deus. Portanto, é notável que quando Cristo glorificou o Seu Pai pela sábia e gratuita dispensação da Sua graça salvadora (Mateus 11:25), dissesse: «Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, que ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos.» (Mt 11:25, ARC, Pt)

É nos dito: «Se não vos converterdes e não vos fizerdes como meninos» (Mt 18:3, ARC, Pt), etc. É como se nos fosse dito: vós esforçais-vos por obter lugares preeminentes e também pela grandeza mundana no Meu reino; Eu digo-vos que o Meu reino é um reino de meninos, e nele não há senão os que são humildes e os que se têm em pouca monta aos seus próprios olhos, e estão contentes sendo pequenos e desprezados aos olhos dos demais, e não procuram os grandes lugares e as coisas do mundo. Thomas Manton, 1620-1677.

A obra que se faz em amor passa a ser muitíssimo menos difícil e tediosa. É como com uma pedra grande, que se tentamos movê-la no ar ou sobre o chão não o conseguimos. Mas, se inundarmos o campo onde ela se acha e a pedra fica enterrada na água, agora, uma vez submersa, achamos que aplicando a nossa força a podemos mover do seu lugar com o nosso braço. Do mesmo modo, sob as influências celestiais da graça, a maré do amor levanta-se, envolve os nossos deveres e dificuldades, e um menino pode fazer o labor de um homem, e um homem a de um gigante. Thomas Guthrie, D.D.

Não nos assombramos todos, tanto da obra perfeita das mãos de Deus realizada na formiga, este pequeno insecto que se arrasta, como daquela que as mãos de Deus têm feito no maior dos elefantes? De que haja tantas partes e membros enxamblados (=embutidos) num espaço tão pequeno? Como uma criatura tão pobre possa prover no Verão o alimento que necessitará no Inverno? Daniel Rogers, 1642.

Para fazeres calar o inimigo e vingativo. Esta mesma confusão e rebeldia de Satanás, que foi a causa da queda do homem, foi dirigida primeiro contra Deus; portanto, a primeira promessa e a primeira pregação do evangelho a Adão que se lhe fez ao sentenciá-lo foi que a semente da mulher quebraria a cabeça da serpente, sendo o objectivo de Deus tanto o confundir a Satanás como o salvar o homem. Thomas Goodwin.

Vers. 3. Quando vejo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que preparaste.

A mente carnal não vê a Deus em nada, nem mesmo nas coisas espirituais, nem na Sua Palavra, nem nas Seus ordenanças. A mente espiritual vê-O em tudo, inclusive nas coisas naturais, olhando ela para os céus e para a terra e para todas as criaturas. Robert Leighton, D. D.

Se pudéssemos transladar-nos para lá da Lua, se pudéssemos alcançar as estrelas mais elevadas com a nossa cabeça, poderíamos descobrir, prontamente, novos céus, novas estrelas, novos sóis, novos sistemas, e, possivelmente, adornados, de um modo mais magnífico. Mas, inclusive, então, os vastos domínios do nosso grande Criador não teriam terminado; para nosso assombro, veríamos que só tínhamos chegado aos inícios das obras de Deus.

Que admiráveis são os corpos celestes! Estou assombrado pelo seu esplendor, e deleito-me na sua formosura! Mas, apesar disto, por formosos e ricamente adornados que sejam, este céu carece de inteligência. Ele não se dá conta da sua própria formosura, enquanto que eu, que sou mera argila, moldada pela mão divina, estou dotado de sentido e razão. Christopher Christian Sturm's "Reflections", 1750-1786.

Vers. 4. Digo: Que é o homem mortal para que te lembres dele? E o filho do homem, para que o visites? Quiçá não haja por todo o universo seres racionais entre os quais o orgulho pudesse aparecer mais impróprio e incompatível do que no homem, considerando a situação em que está colocado. Está exposto a numerosas degradações e calamidades, à fúria das borrascas e das tempestades, à devastação dos terremotos e dos vulcões, ao ímpeto dos torvelinhos, às ingentes ondas do oceano, aos estragos da espada, à fome, à pestilência e a toda espécie de enfermidades; e, no final, tem de afundar-se na tumba e o seu corpo será pasto dos vermes! O mais altivo e satisfeito de si mesmo entre os filhos dos homens está submetido às mesmas vicissitudes que os mais humildes da família humana. Não obstante, até nestas circunstâncias, o homem, este débil verme de pó, cujo conhecimento é tão limitado e cujas necessidades são tão numerosas e evidentes, tem o descaramento de pavonear-se na altivez do orgulho e de glorificar-se na sua desvergonha.

O Dr. Chalmers, nos seus “Discursos astronómicos”, diz verdadeiramente: «Damo-vos uma débil imagem da nossa relativa insignificância quando dizemos que o esplendor de um bosque extenso não sofreria mais pela queda de uma só folha do que a glória deste extenso universo, se este globo no qual nos achamos, ‘e tudo o que dele provém, se dissolvesse’». C. H. S.

É algo maravilhoso que Deus pense nos homens e os recorde continuamente. João Calvino, 1509-1564.

Pode uma criatura tão desprezível como eu alcançar favor aos olhos de Deus? Em Ezequiel 16:1-5, temos uma relação da maravilhosa condescendência de Deus para com o homem, o qual ali é comparado a um menino de origem desprezível, abandonado no dia do seu nascimento, no seu sangue e na sua imundície, sem ainda estar envolto em faixas, de quem ninguém se compadece; criaturas lastimosas assim somos diante de Deus; e, contudo, quando Ele passou e nos viu agitando-nos no nosso sangue disse: «Vive». James Janeway, 1674.

Pergunta o profeta Isaías: «O que é o homem?», e responde: «O homem é erva. Toda a carne é erva, e toda a sua glória como flor do campo» (40:6). Pergunta David: «O que é o homem?» Responde-te: «O homem é uma mentira» (Salmo 62:9); é não só um mentiroso, um enganador, mas também «uma mentira» e um engano. A natureza pecaminosa do homem é inimizade para com a natureza de Deus e queria arrancar Deus do Céu; e, apesar disso, Deus, ao mesmo tempo, está elevando o homem para o Céu; o pecado queria diminuir o grande Deus, e, apesar disso, Deus engrandece o homem pecador. Joseph Caryl.

Que é o homem? Oh a grandeza e a pequenez, a excelência e a corrupção, a majestade e a baixeza do homem! Pascal, 1623-1662.

Vers. 5. Contudo, pouco menor o fizeste do que os anjos. Em ordem à dignidade, o homem acha-se por debaixo dos anjos, é um pouco menos do que eles; no Senhor Jesus isto também foi realizado, porque Ele foi feito um pouco menor que os anjos por causa do sofrimento da morte. C. H. S.

É uma coisa misteriosa, a que apenas nos atrevemos a aludir, que tenha aparecido um Redentor dos homens caídos, mas não dos anjos caídos. Não queríamos elaborar teorias sobre esta verdade tão terrível e inescrutável; mas, não é demasiado sugerir que a intervenção em favor do homem, e a não intervenção em favor dos anjos, não nos dá base para a convicção de que os homens ocupam um lugar que não é inferior ao dos anjos no amor e na solicitude do seu Criador?

O Redentor apresenta-Se-nos como submetendo-Se a ser humilhado -«pouco menor o fizeste do que os anjos»- por amor ou com vistas à glória que havia de ser a recompensa dos Seus sofrimentos. Isto é uma representação importante, que deve ser considerada com a máxima atenção; e da qual podemos tirar, creio, um argumento claro e sólido em favor da divindade de Cristo.

Não deveríamos nós considerar que pudesse ser humildade numa criatura, fosse qual fosse a dignidade da sua condição, o facto de que assumisse o ofício de Mediador e obrasse a nossa reconciliação? Não nos esqueçamos a que degradação extrema um Mediador consente em ser reduzido, e através de que sofrimentos e ignomínia deve submeter-Se para poder conseguir a nossa redenção; porém, tampouco esquecemos a incomensurável exaltação que foi o resultado ou a recompensa deste Mediador, e que se a Escritura for certa, havia de fazê-Lo muito mais elevado do que os mais altos principados e potências, e nós não podemos conhecer onde teria estado a assombrosa humildade, e a condescendência sem paralelo, se alguma mera criatura tivesse consentido em aceitar este ofício com a perspectiva de tal recompensa. Henry Melvill, B.D., 1854.

Tradução de Carlos António da Rocha

****

Esta tradução é de livre utilização, desde que a sua ortografia seja respeitada na íntegra porque já está traduzida no Português do Novo Acordo Ortográfico e que não seja nunca publicada nem utilizada para fins comerciais; seja utilizada exclusivamente para uso e desfruto pessoal.

Sem comentários: