… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

sábado, 13 de maio de 2017

13 de maio de 1497 • Girolamo Savonarola excomungado

13 de maio de 1497Girolamo Savonarola excomungado
 
Girolamo Savonarola escrevendo e meditando em reclusão - 1853 gravura pela A. H. Payne Publishers (de: Dr. Nuno Carvalho de Sousa Private Collections - Lisboa.)
Desde garoto que Savonarola era uma pessoa marcada por Deus. Era muito contemplativo e passava horas em oração. A Itália do seu tempo era dominada por pequenos tiranos e por sacerdotes corruptos e pelas lutas políticas entre duques e papas. A sua alma entristecia-se com a maldade, com o luxo e desperdício de uns poucos, em contraste com a extrema pobreza da maioria. Emoções fortes já ferviam no seu interior. A oração era o seu único consolo.



Um dia, ele viu uma visão do céu aberto, e todas as futuras calamidades da igreja passaram diante de seus olhos. A voz de Deus depois o encarregou de advertir o povo. Daquele momento em diante, sentiu profunda convicção da sua chamada profética.



Se bem que tivesse fortes feições físicas, Savonarola não tinha boa aparência e era desajeitado na postura e nos gestos.



Quando começou a pregar em Florença, inicialmente não teve muito impacto. Nesta cidade, capital da Renascença, ele opunha-se com grande energia à vida pagã e imoral prevalecente na sociedade, e, especialmente, na corte de Lorenzo de Médici.



O seu método e modo de falar eram repulsivos aos florentinos, mas isto não o deteve. De 1485 a 1489, pregou em várias outras cidades de Itália, onde começou a expor o livro do Apocalipse e a empolgar-se cada vez mais com a mensagem do iminente juízo de Deus. Em essência, ele anunciava três simples proposições: a Igreja será disciplinada; a Igreja será renovada; e, isto acontecerá em breve.



Com esta mensagem do iminente juízo de Deus e com as suas exposições do livro do Apocalipse, aplicadas à sua própria época, o povo começou a afluir para ouvi-lo.



As suas pregações não foram caracterizadas por defesas doutrinárias ou teológicas, mas por chamadas claras e apaixonadas ao arrependimento e a mudanças morais na sociedade.



A sua voz, antes hesitante e falha, agora era como trovão, e as suas advertências contra o pecado eram tão aterradoras que os seus ouvintes frequentemente andavam pelas ruas atordoados, desnorteados e sem palavras. Durante os sermões, normalmente a catedral inteira ressoava com sons de soluços e choro. Operários, poetas e filósofos, todos caíam em prantos; ficavam pálidos, estremeciam, os seus olhos ficavam envidraçados de terror, lágrimas jorravam; batiam no peito e clamavam a Deus por misericórdia.



Em pelo menos uma ocasião, o rosto de Savonarola brilhou a ponto de todos o notarem. Apesar de todas as tentativas do corrupto regente da cidade o impedir de pregar contra o pecado, ele continuava. O povo levantava-se, às vezes, à meia noite e esperava na rua até à hora do abrir da catedral para o ouvir pregar.



Houve vários efeitos destas pregações. O maior deles foi a mudança de comportamento na cidade de Florença. Livros de feitiçaria e de magia negra, vaidades e objectos obscenos ou impuros eram recolhidos e queimados em enormes fogueiras na praça pública. Comerciantes devolviam ganhos desonestos; os pobres eram amparados, todos oravam e buscavam a Deus. Jovens e crianças andavam nas ruas e visitavam as pessoas de casa em casa, implorando que todas abandonassem o pecado, e colectando recursos para ajudar os pobres.



Vários acontecimentos específicos foram profetizados por Savonarola. A sua mensagem de juízo vindouro incluiu a previsão da morte do papa Inocêncio VIII, a morte do rei de Nápoles, a vinda de um poder estrangeiro com grande exército como castigo de Deus e o colapso do governo da família Médici em Florença. Todos aconteceram com precisão surpreendente. Além disso, ele não poupava palavras de advertência e de censura directa às classes sociais mais elevadas, aos governantes e ao clero da Igreja Católica, incluindo o próprio Papa.



Entretanto, Savonarola incorreu em alguns erros próprios do ministério profético. Foi além da sua unção de advertir o povo contra o pecado, e tentou implantar uma teocracia em Florença. Achou que seria possível trazer a santidade e o reino de Deus através de estabelecer leis justas e derrubar governantes injustos. Inicialmente, contou com grande apoio da população de Florença e parecia que as circunstâncias e os acontecimentos o estavam ajudando. Quando o rei da França invadiu a Itália e a família Médici fugiu de Florença, o caminho ficou aberto para o novo regime cristão. Savonarola introduziu uma nova constituição e ajudou a organizar um conselho para governar a cidade de acordo com princípios bíblicos.



Como sempre acontece com tais tentativas de implantar o reino de Deus através de leis, de governantes justos e de policiamento para punir os infractores, depois de pouco tempo o experimento fracassou. Quando Savonarola foi excomungado pelo Papa Alexandre VI neste dia, 13 de maio de 1497, e o cerco contra ele estava ameaçando, a vida económica da cidade, a maioria do povo, que antes o apoiava apaixonadamente, de repente, virou-se contra ele.



Conclui-se, portanto, em conformidade, que padrões morais através de sistemas de governo ou leis justas não resultam em conversão ou mudança permanente de vida. Mais do que isto, elevados efeitos emotivos causados pela pregação, ainda que divinamente inspirada, se não forem canalizados e edificados dentro de princípios sólidos das Escrituras, podem dissipar-se e perder-se totalmente. Mesmo com Jesus, as multidões maravilhadas, que proclamaram louvores durante a Sua entrada triunfal em Jerusalém, poucos dias depois ajudaram a pedir a Sua crucificação.



Apesar deste desvio do verdadeiro alvo da sua pregação, Savonarola manteve-se isento de ambições e de mistura com o sistema corrupto até ao fim. Resistiu a todas as tentativas da família Médici de suborná-lo para não continuar expondo os seus erros. Tampouco aceitou quando o Papa lhe ofereceu uma posição de cardeal, a fim de induzi-lo a não combater as imoralidades e irregularidades do sistema eclesiástico. Não usou da sua popularidade para se tornar governador da cidade, nem fez parte do conselho organizado para este fim. Porém, como um verdadeiro João Batista, Savonarola continuou na sua posição e denunciou os pecados, sem se intimidar até ao fim. Mesmo depois de ser excomungado, continuou pregando. Acabou sendo preso pelas autoridades papais, condenado num julgamento forjado, torturado e morto por enforcamento, juntamente com dois companheiros. Os seus corpos foram queimados em 23 de maio de 1498, em Florença.



Girolamo Savonarola (Ferrara, 21 de setembro de 1452 — Florença, 23 de maio de 1498), cujo nome é por vezes traduzido como Jerónimo Savonarola ou Hieronymous Savonarola, foi um padre dominicano, e, por um curto período, governou Florença.



Este reformador dominicano veio de uma antiga e tradicional família de Ferrara. Intelectual muito talentoso, devotou-se aos seus estudos, em especial à filosofia e à medicina. Em 1474, quando numa viagem a Faenza, ouviu um forte sermão, proferido por um padre agostiniano, e resolveu renunciar ao mundo, incorporando-se à ordem dominicana em Bolonha, sem o conhecimento de seus pais.



Savonarola terminou preso por ordem papal e condenado à morte em 1498. Foi torturado e, em 25 de maio, foi enforcado e o seu corpo queimado na praça pública, na Piazza della Signoria, em Florença juntamente com Fra Silvestro e Fra Domenico da Pescia.



Cogita-se que Leonardo da Vinci teria retratado Savonarola na sua famosa obra “A Última Ceia” no rosto de Judas Iscariotes.



Entre os escritos de Girolamo Savonarola, estão: “Triumphus Crucis de fidei veritate” (Florença, 1497), o seu principal trabalho na apologia ao cristianismo; “Compendium revelationum” (Florença, 1495); “Scelta di prediche e scritti”, (Florença, 1898); “Trattato circa il Reggimento di Firenze”, (Florença, 1848); “Cartas”, Archivio storico italiano (1850); “Poemas” (Florença, 1847) e “Dialogo della verita” (1497).


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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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