… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

sexta-feira, 5 de maio de 2017

5 de maio de 1813 • Kierkegaard, o fundador involuntário do existencialismo

5 de maio de 1813Kierkegaard, o fundador involuntário do existencialismo
 Retrato de Kierkegaard em 1840 (Da Wikipédia)
Søren Aabye Kierkegaard foi um teólogo leigo dinamarquês e o fundador involuntário do existencialismo. Nasceu em Copenhagen, neste dia, 5 de maio de 1813, e herdou o espírito melancólico de seu pai, um rico e devoto comerciante de lã. Kierkegaard passou dez anos preparando-se para o ministério luterano na Universidade de Copenhagen, tendo feito o seu mestrado em 1840, mas nunca foi ordenado. Ainda que a sua vida tenha sido cheia de tragédia pessoal e de solidão, ele familiarizou-se com os principais movimentos literários, artísticos e intelectuais dos seus dias.



Os escritos de Kierkegaard foram moldados de modo significativo pelos seus relacionamentos pessoais. Talvez o mais importante deles tenha sido o rompimento do seu noivado com Regine Olsen. Embora Kierkegaard a amasse profundamente, pôs fim ao relacionamento, convicto de que a intimidade do casamento acabaria com ambos. O seu amor por Regine tornou-se um símbolo da fé de Abraão na sua disposição de sacrificar Isaac, tema este ao qual Kierkegaard voltava repetidas vezes.



Terminando o noivado, Kierkegaard procurou refúgio em Berlim. Pouco depois voltou para Copenhaga com a sua primeira obra de vulto: “Either-Or” (“Ou-Ou” - 1843). Trata-se de um debate brilhante, dialético e poético em que procurava justificar as suas ações, mas que também expunha a doutrina básica do existencialismo. Kierkegaard argumentava que cada indivíduo deve escolher — de modo consciente e responsável — entre as alternativas que a vida oferece.



Muitos estudiosos de Kierkegaard dividem as suas obras em dois grupos, embora a divisão seja arbitrária. Os primeiros escritos — 1843-46 — são caracterizados por temas estéticos e filosóficos. Títulos deste período incluem “Fear and Trembling” (“Temor e Tremor” — 1843), “Philosophical Fragments” (“Fragmentos Filosóficos” — 1844), “The Concept of Dread” (“O Conceito do Pavor” - 1844), e “Concluding Unscientific Postscript to the Philosophical Fragments” (“Epílogo Definido Não-científico aos Fragmentos Filosóficos” - 1846).



Depois de um maldoso ataque contra ele em 1846, por parte de uma revista literária de ampla divulgação, Kierkegaard tornou-se ainda mais retraído e pensou até mesmo em parar de escrever.



Em 1848, Kierkegaard passou pela experiência de conversão e registou num de seus Jounals (Diários) o seguinte testemunho: “A totalidade do meu ser está transformada... Mas a crença no perdão dos pecados significa crer que aqui no tempo o pecado é esquecido por Deus, que é realmente verdade que Deus o esquece.”



A experiência de conversão em 1848, no entanto, convenceu-o da necessidade de esclarecer os seus contemporâneos a respeito da verdadeira natureza do cristianismo. Títulos característicos deste período posterior incluem “Works of Love” (“Obras de Amor” - 1847), “Christian Discourses” (“Dissertações Cristãs” - 1848) e Training in Christianity (“Treinamento no Cristianismo” — 1850).



Filosoficamente, o alvo de Kierkegaard foi o “sistema” (idealismo) de G. W. F. Hegel. Ele atacou a tentativa de Hegel de sistematizar toda a realidade, porque este havia omitido o elemento mais importante da experiência humana, a saber: a própria existência. Kierkegaard, na realidade, achava que nenhum sistema filosófico poderia explicar a condição humana. A experiência da realidade, tal como a perda de um ente querido, era o que importava, e não a ideia (conceito) dela. Ao passo que Hegel enfatizava proposições universais, Kierkegaard argumentava a favor da decisão e do compromisso. Hegel procurava uma teoria objetiva do conhecimento. Kierkegaard acreditava na subjetividade da verdade.



Esta ênfase na subjetividade levou-o ao modo paradoxal de entender a fé. A fé genuína exige um “salto da fé”, uma dedicação apaixonada a Deus, a despeito da incerteza e do raciocínio objetivo. Para Kierkegaard, somente a livre escolha da fé traz consigo a autêntica existência humana.



Os últimos anos de sua curta vida foram cheios de escritos que criticavam asperamente a Igreja Luterana oficial. Em 1854, depois da morte do amigo de seu pai, o Bispo Jacob Pier Myster, Kierkegaard não conseguiu abster-se de atacar a formalidade e indiferença frias da igreja nacional. Foi especialmente severo com os clérigos, simbolizados por Myster, que se acomodaram confortavelmente na sociedade secular, em lugar de se esforçarem por serem seguidores de Cristo, eram servidores públicos espiritualmente falidos. Depois de dois anos desta cruzada, a saúde de Kierkegaard estava arruinada, e ele morreu pouco depois em Copenhague, no dia 11 de novembro de 1855.



Durante a sua vida, Kierkegaard foi pouco conhecido ou lido fora da Dinamarca. No século XX, e também, já neste nosso século XXI, à medida que suas obras têm sido traduzidas, Kierkegaard veio a ser muitíssimo apreciado pela sua afirmação da fé e pela sua crítica da condição humana.



****

Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

Este texto é de livre utilização, desde que a sua ortografia seja respeitada na íntegra porque já está escrito com o Português do Novo Acordo Ortográfico e que não seja nunca publicado nem utilizado para fins comerciais; seja utilizado exclusivamente para uso e desfruto pessoal.

Sem comentários: