… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

sábado, 1 de outubro de 2016

1 de outubro de 1529 • Colóquio de Marburg: não se consegue chegar a consenso no tocante à Ceia do Senhor




1 de outubro de 1529 O Colóquio de Marburgo: 

não se consegue chegar a consenso no tocante à Ceia do Senhor

O Colóquio de Marburgo foi a reunião que se realizou entre os teólogos protestantes naquela cidade alemã de 1 a 4 de outubro de 1529.

A controvérsia sobre a Ceia do Senhor tinha assumido proporções extraordinárias quando foi convocada a Dieta de Espira no verão de 1526. Os protestantes sentiram muita dificuldade em chegar a um acordo para se apresentarem numa frente unida aos seus opositores católicos. Os teólogos de Estrasburgo muito se esforçaram para que houvesse harmonia entre eles, mas viram-se frustrados pela posição de Lutero, muito irredutível nas suas convicções. Houve primeiramente uma tentativa de Bucer no verão de 1526 para influenciar Lutero por meio de Justo Jonas, que não resultou. Jonas sugeriu que talvez a solução fosse um encontro pessoal entre os líderes da reforma, mas foi Johann Haner, antigo pregador da catedral de Vurzburgo, quem propôs ao landgrave Filipe de Hesse que se realizasse uma conferência. Ulrich de Vurtemberga exerce a sua influência sobre o jovem príncipe de Hesse com o mesmo propósito. Desde o começo as maquinações políticas foram um factor muito importante para obter a harmonia. Em fevereiro de 1528 o duque Ulrich de Vurtemberga convidou Oekolampadius e Bucer para a corte do landgrave em Marburgo, provavelmente com o propósito de obter de Filipe o apoio dos alemães protestantes do sul.

Entretanto, o landgrave Filipe de Hesse estava desejoso de atrair Lutero e Oekolampadius para a sua posição, porque o desenvolvimento dos assuntos na Dieta de Espira por volta de 1529 tornava necessário um acordo entre todos os protestantes. Os teólogos de Estrasburgo apresentaram em Epira, em 22 de abril de 1529, uma fórmula da Santa Ceia que habilmente evitava a oposição das partes em desacordo, que serviu de base para uma aliança temporária entre os protestantes da Saxónia, do Hesse, de Nuremberga, de Estrasburgo e de Ulm. Entretanto, as autoridades protestantes envolvidas concluíram que essas negociações preliminares só resultariam se houvesse um acordo real entre os luteranos e os zuinglianos no tocante à Ceia do Senhor. Então o landgrave convidou Zuínglio no mesmo dia para uma conferência religiosa, estando este disposto a assistir. Os teólogos de Vitemberga tomaram uma atitude diferente. Melâncton sentiu-se ofendido pela natureza política da aliança proposta e Lutero desaconselhou o eleitor Frederico, o Sábio, a dar seu consentimento porque “nenhuma melhoria se podia esperar entre os principais oponentes” referindo-se a Zuínglio, mesmo que os membros da conferência chegassem a um acordo. Depois de 10 de junho os teólogos de Wittenberg receberam um convite formal de Filipe para que fossem à Conferência de Marburgo. Sob influência do eleitor Frederico, o Sábio, Lutero e Melâncton acabaram aceitar o convite em 8 de julho, mas reticentes e sem esperanças de bons resultados. Entretanto, o landgrave perseverou e Zuínglio, cheio de zelo, pretendeu juntamente com ele alcançar uma grande aliança política entre todos os estados evangélicos. Mas, nem os teólogos de Vitemberga, nem o eleitor Frederico, o Sábio, sabiam nada das intenções políticas do landgrave.

Em 27 de setembro de 1529 Zuínglio, Ulrich Funk de Zurich, Oekolampadius, Rudolph Frey de Basilea, Bucer, Hedio e Jacob Sturm de Estrasburgo chegaram a Marburgo. E até mesmo antes da chegada de Lutero, já Zwinglio tinha chegado a um entendimento com o landgrave sobre as questões políticas; mas para torná-lo efetivo era necessário a anuência de Lutero. Este chegou a Marburgo em 30 de setembro, com Melanchthon, Jonas, Cruciger, Veit Dietrich e Georg Rörer de Vitemberga, Myconius de Gota e Menius e Eberhard von der Thann de Eisenach. O duque Ulrich de Vurtemberga chegou lá nessa mesma noite também. A conferência começou em 2 de outubro, depois da chegada dos luteranos alemães do sul: Osiander, Brenz e Stephan Agrícola. Embora uma grande multidão se congregasse em Marburgo, só entre 50 e a 60 pessoas foram admitidas no local do Colóquio, o salão do Castelo de Marburgo. No princípio dos trabalhos foi relembrado que a questão da Ceia do Senhor seria o ponto principal da discussão. Logo Lutero se referiu às palavras claras e simples de Cristo “Isto é meu corpo”, que escreveu com um pedaço de giz na mesa, rechaçando qualquer interpretação metafórica. Oekolampadius, que replicou a Lutero primeiramente, referiu-lhe o Capítulo 6 do Evangelho de João e logo assinalou a existência de numerosas metáforas na Escritura, o que Lutero não negou. Entretanto, o que Lutero exigiu foi a justificação para a assunção de uma metáfora na passagem da Ceia do Senhor, onde o texto é claro sem necessidade dela.

Também declarou que não rechaçava de maneira nenhuma o comer espiritual, como está mencionado em João 6:53, inclusivamente o via necessário, mas disto não se seguia que o comer corporal instituído e mandado por Cristo fosse inútil ou desnecessário. Este foi o ponto no qual a controvérsia se centrou: se além do comer espiritual, que ambas as partes sublinhavam igualmente, também o comer corporal era necessário. Um ponto acrescentado ao debate foi a questão da ubiquidade do corpo de Cristo, que Zuínglio rechaçou sobre a base de Romanos 8:3; Filipenses 2:7 e Hebreus 2:7. A diferença principal nas concepções fundamentais de Zuínglio e Lutero reflectia-se na avaliação que ambos faziam da razão. Lutero não concedia à razão direito de decisão em questões de fé, enquanto que Zuínglio replicava que Deus não nos proporia algo inconcebível para a nossa crença. No final do debate nada se alcançou.

Então Bucer, como principal representante dos teólogos do Estrasburgo, definiu como sua doutrina, a doutrina da Trindade, do pecado original, do batismo, etc. e pediu a Lutero um testemunho da sua ortodoxia, mas este negou-se a dá-lo. “O nosso espírito e o vosso espírito não concordam”, disse; pois o mesmo espírito, na sua opinião, não podia morar em gente que simplesmente cria na palavra de Cristo e nos que veementemente a combatiam. Portanto entregou os seus oponentes ao juízo de Deus; eles poderiam ensinar o que pensavam que era justificável diante de Deus.

Assim se terminaram as negociações oficiais, mas ainda o landgrave esperava obter algo mediante a sua influência pessoal nos esforços para a união. Lutero declarou-se disposto a elaborar uma declaração sobre os mais importantes pontos de doutrina, nos quais era possível um acordo. Desta maneira se elaboraram em 4 de outubro os chamados “Artigos de Marburgo”. Catorze teses atestaram o acordo sobre a doutrina da Trindade, a pessoa de Cristo, a fé e a justificação, a palavra de Deus, o batismo, as boas obras, a confissão, a autoridade secular, a tradição ou ordem humana e o batismo infantil. O décimo quinto artigo, sobre o sacramento do corpo e sangue de Cristo, confessava a uniformidade de doutrina na necessidade de participar do mesmo em ambas as espécies e rechaçava a missa, também que o comer espiritual do corpo e sangue é principalmente necessário para cada cristão. Quanto ao ponto em disputa da Ceia do Senhor, a caridade cristã deveria mostrar-se reciprocamente. O documento foi assinado em três cópias pelos 10 participantes oficiais no Colóquio: Lutero, Jonas, Melâncton, Osiander, Agrícola, Brenz, Oekolampadius, Bucer, Hedio e Zuínglio.

Ao assinar os artigos, Zuínglio tinha ido evidentemente até ao limite extremo da concessão em favor dos seus grandes planos políticos. Não sem razão, Melâncton pensou que os suíços haviam “seguido a opinião do Lutero”. Como o círculo de Vitemberga não tinha ideia das maquinações políticas que provocaram a busca da paz por Zuínglio, tiraram conclusão de que seus oponentes tinham sido humilhados completamente. Mas Zuínglio reclamou a vitória e explicou os “Artigos de Marburgo” segundo os seus pontos de vista.

Logo que acabado se tornou óbvio que em lugar de estender pontes, o Colóquio de Marburgo era a expressão clara da oposição não sanada entre as declarações confessionais dos zuinglianos e dos luteranos.

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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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