… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

terça-feira, 11 de outubro de 2016

11 de outubro de 1962 • Começa o Concílio Vaticano II

11 de outubro de 1962 Começa o Concílio Vaticano II
A abertura do Concílio Vaticano II
O Concílio Vaticano II, XXI Concílio Ecuménico da Igreja Católica, foi convocado no dia 25 de dezembro de 1961, através da bula papal “Humanae salutis”, pelo Papa João XXIII. Este mesmo Papa inaugurou-o, neste dia, 11 de outubro de 1962. O Concílio, realizado em 4 sessões, só terminou no dia 8 de dezembro de 1965, já sob o papado de Paulo VI.

Nestas quatro sessões, mais de 2 000 Prelados convocados de todo o Planeta discutiram e regulamentaram vários temas da Igreja Católica Romana. As suas decisões estão expressas nas 4 constituições, 9 decretos e 3 declarações elaboradas e aprovadas pelo Concílio. Apesar da sua boa intenção em tentar renovar a Igreja Católica, os resultados deste Concílio, para alguns estudiosos, ainda não foram totalmente entendidos nos dias de hoje, enfrentando por isso problemas que perduram. Para muitos estudiosos, é esperado que os jovens teólogos dessa época, que participaram do Concílio, salvaguardem a sua natureza; depois de João XXIII, todos os Papas que lhe sucederam até Bento XVI, inclusive, participaram no Concílio ou como Padres conciliares, isto é, como Prelados ou como consultores teológicos isto é, como peritos.

Em janeiro de 1959, o Papa João XXIII anunciou a sua intenção de convocar um concílio ecuménico. Depois de um ano inteiro procurando sugestões colhidas de todas as partes da igreja Católica Romana, estabeleceu dez comissões para preparar minutas de documentos para o concílio considerar. Por fim, o concílio foi formalmente convocado em 25 de dezembro de 1961, e aberto na Basílica de São Pedro, em Roma, neste dia, 11 de outubro de 1962.

Em vários comunicados, incluindo no seu discurso de abertura, o Papa João XXIII indicou as necessidades dos tempos. O mundo ocidental havia experimentado durante a década de 1950 uma enorme expansão técnica, científica e económica, que proporcionava, a um número incontável de pessoas, a ocasião de confiarem nos bens materiais, enquanto milhões de pessoas viviam em pobreza e sofrimento devastadores. O ateísmo militante crescia, e o mundo estava passando por uma grave crise espiritual. Proclamou o Papa João XXIII que o mundo precisa não da condenação dos seus erros, mas do pleno suprimento do “remédio da misericórdia” e com isso determinou o carácter de todo o Concílio Vaticano II. A Igreja Católica Romana, através do concílio, visava ajudar o mundo renovando a sua própria fé e vida em Cristo, atualizando-se, promovendo a unidade de todos os cristãos e dirigindo a presença cristã no mundo com as obras da paz, da justiça e do bem-estar.

A principal característica do Concílio Vaticano II foi um espírito pastoral que predominou do princípio ao fim dele. Havia, também, um espírito bíblico. Desde o início, os bispos indicaram que não aceitariam as minutas abstractas e teologicamente minuciosas que lhes foram preparadas. Ao invés disso, desejavam expressar-se em linguagem bíblica direta. Além disso, havia uma consciência evidente da história - a história da salvação, a igreja peregrina, a tradição que avançava, o desenvolvimento da doutrina, a abertura diante do futuro. O Concílio Vaticano II foi ecuménico por procurar alcançar os cristãos não-católicos, que estiveram representados por observadores de vinte e oito denominações, e humilde no seu relacionamento com as religiões não-cristãs. Estava notavelmente aberto ao mundo inteiro, especialmente pela cobertura maciça de imprensa mundial, e por dirigir-se diretamente ao mundo com uma “Mensagem à Humanidade” inaugural e uma série de mensagens finais aos governantes políticos, aos intelectuais, aos cientistas, aos artistas, aos pobres, aos trabalhadores e aos jovens. Mesmo assim, o Concílio Vaticano II manteve a Igreja Católica Romana totalmente apegada à sua identidade e tradição católico-romanas.

Indubitavelmente, o tema central dos documentos promulgados foi a Igreja. A “Constituição Dogmática sobre a Igreja”, documento de novembro de 1964, foi a principal declaração doutrinária do Concílio Vaticano II. Uma segunda constituição dogmática foi “A Respeito da Revelação Divina”. Uma terceira, chamada simplesmente de constituição, foi “A Respeito da Liturgia”; e uma quarta, chamada constituição pastoral, foi “A Respeito da Igreja no Mundo Moderno”. Além disso, foram promulgados nove decretos práticos e três declarações de princípio. Destes, cinco diziam respeito à vocação da Igreja Católica Romana, cumprida pelos bispos, sacerdotes (dois decretos), membros das ordens religiosas e leigos. Três tratavam de educação, de missões e veículos de comunicação. Quatro referiam-se ao relacionamento entre a Igreja Católica Romana e os católicos orientais, ao ecumenismo, às religiões não-cristãs e aos governos civis (a liberdade religiosa).

A Constituição “A Respeito da Igreja”, em oito capítulos, também chamada “Lúmen Gentium”, foi a primeira a ser publicada acerca deste assunto por um concílio. De um modo directo, continuou e completou explicitamente a obra do Vaticano I. Em especial, incorporou no capítulo 3, quase verbalmente a declaração controversa sobre a infabilidade papal, acrescentando que a infalibilidade também se aplicava ao grupo dos bispos quando este exercia o magisterium, isto é, a autoridade doutrinária, juntamente com o papa. A primazia do papa foi ratificada mais uma vez, porém, de modo significativo, e a centralidade dos bispos também foi afirmada. Este era o princípio da colegialidade, isto é, os bispos como um todo eram a continuação do grupo dos apóstolos, do qual Pedro era o cabeça. Combinando a colegialidade episcopal com a primazia papal, e mediante a infalibilidade compartilhada, o Concílio Vaticano II resolveu a antiga tensão entre o papa e os concílios.

O mesmo documento (no capítulo 4) introduziu o ensino bíblico de que a Igreja Católica Romana como um todo era o povo de Deus, incluindo-se os clérigos e os leigos. Assim foi invertida a asseveração praticamente explícita, feita no decurso dos séculos, de que somente os clérigos eram a Igreja (Católica Romana). Tanto os clérigos quanto os leigos, afirmava o documento, compartilhavam das funções sacerdotais, proféticas e reais de Cristo. O decreto “A Respeito dos Leigos” e a constituição “A Respeito da Igreja no Mundo Moderno”, também chamado “Gaudium Et Spes” incumbiram os leigos da Igreja Católica Romana de assumirem o seu trabalho no mundo, em todas as esferas da vida, como vocações cristãs, como um apostolado leigo que participava directamente da continuação da obra dos Apóstolos de Cristo. Além disso, o decreto desfez séculos de ênfase sobre clérigos, monges e freiras como praticamente os únicos detentores da vocação cristã dentro da Igreja Católica Romana.

A segunda constituição dogmática “A Respeito Da Revelação Divina” continuou a obra do Vaticano I, porém modificando-a profundamente. Como continuação, ressaltava a necessidade do “magisterium” da igreja funcionando dentro da contínua tradição sagrada “que vem dos apóstolos e se desenvolve na Igreja com a ajuda do Espírito Santo”. A profunda modificação foi a nova primazia dada de facto às Escrituras Sagradas. Quatro dos seis capítulos definem as Escrituras do A. T. e do N. T. como a comunicação sagrada de Deus, sob a inspiração do Espírito Santo, “daquelas coisas que Ele desejava”. Embora o uso dos métodos críticos seja apropriado, “atenção séria deve ser prestada ao conteúdo e à unidade da totalidade da Escritura”. A Escritura Sagrada é interpretada de modo próprio dentro do contexto da tradição sagrada e do magisterium da Igreja Católica Romana; todos os três juntos e cada um isoladamente devem-se à acção do mesmo Espírito Santo. A ênfase bíblica é tornada explícita aqui e noutros decretos pela centralidade dada às Escrituras na liturgia revista, na educação dos clérigos, na exposição dos ensinos do concílio e na insistência de que todas as pessoas tenham pleno e fácil acesso às Escrituras Sagradas. Os resultados foram imediatamente experimentados na transformação das missas nas paróquias da Igreja Católica Romana para os seus próprios idiomas vernáculos em todas as partes do mundo.

O decreto “A Respeito do Ecumenismo” também deu continuidade ao ensino tradicional, mas adaptou-o de modo dramático. O Concílio Vaticano II reafirmou que “a plenitude dos meios de salvação pode ser obtida apenas através da Igreja Católica de Cristo, sendo esta o meio abrangente de salvação”. Pela primeira vez, no entanto, os protestantes e os anglicanos foram explicitamente considerados cristãos (“irmãos separados”), e os ortodoxos orientais foram considerados descendentes directos dos Apóstolos. De modo mais significativo, a Igreja Católica Romana, pela primeira vez, alegou que a solução para essas divisões na Cristandade não se acha numa “volta” destas Iigrejas a Roma, mas num futuro aberto em que todos podem estar “tendendo para aquela plenitude com a qual nosso Senhor deseja que o Seu corpo seja dotado no decurso do tempo”. O Papa Paulo VI tornou concreta esta consideração ao criar um Secretariado para a “Promoção da Unidade Cristã”, permanente e, ao promulgar em dezembro de 1965, com o Patriarca Atenágoras, líder da Ortodoxia Oriental, uma declaração onde eram esquecidas as excomunhões recíprocas, de 1054 d. C, manifestando a esperança de restauração da plena comunhão da fé e da vida sacramental.


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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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