… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

terça-feira, 18 de outubro de 2016

18 de outubro de 1662 • Matthew Henry, comentou quase todos os versículos da Bíblia

 18 de outubro de 1662 Matthew Henry, 
comentou quase todos os versículos da Bíblia
Henry? Matthew Henry!? Deixa lá ver! Esse nome não me é estranho! Tenho lá em casa um calhamaço dele! Pois é! Toda a gente, em especial os Cristãos, já ouviu falar, ou fala dele, mas poucos verdadeiramente leram as suas obras, e muito especialmente o seu monumental Comentário sobre toda a Bíblia.

Robert Hall (1764 – 1831), George Whitefield (1714 –1770) e Spurgeon (1834 — 1892) fizeram grande uso dessa obra excelente e recomendaram-na ferverosamente aos crentes dos seus dias. Whitefield leu-a toda quatro vezes, a última das quais muito demoradamente, e Spurgeon exortando os seus leitores, escreve a favor do Comentário de Matthew Henry, na página 3 do seu “Commenting and Commentaries” que “Todo o ministro deveria lê-lo inteiro e cuidadosamente, ao menos uma vez.”

O autor de uma obra tão excelente, Matthew Henry, nasceu em Broad Oak, perto de Bangor-Iscoed, Flintshire, no País de Gales, no dia de hoje, em 18 de outubro de 1662, numa quinta. Foi o segundo filho de Philip Henry (24 de agosto de 1631 – 24 de junho de 1696) e de Katharine Henry (25 de março de 1629 – 25 de maio de 1707). O seu pai tinha sido sacerdote da Igreja Anglicana na paróquia do Worthenbury, mas a consciência dele não lhe permitiu utilizar as novas formas da liturgia introduzidos pelo Ato de Uniformidade de 1662, promulgado pelo rei Jorge II, e devido a isto, teve de abandonar a Igreja de Inglaterra.

A família de Matthew Henry mudou-se para Iscoid, Flintshire, em outubro de 1662. Seu pai, Philip Henry, era um famoso ministro da Igreja da Inglaterra e foi considerado dissidente. A sua mãe provinha de uma família com história própria no Parlamento Inglês. Os seus Pais possuíam uma herança modesta, e portanto, Philip Henry e a família deveriam viver do trabalho de uma quinta que possuíam, já que Philip Henry tinha sido obrigado a prescindir do sustento como ministro.

Matthew, segundo disse o seu pai, nasceu tão frágil que foi baptizado com um dia de vida somente pelo medo de que ele não sobrevivesse uma semana. Matthew era um rapaz fisicamente débil, mas mentalmente e espiritualmente extremamente forte. Assim o demonstrou destacando-se como um estudante perito e diligente.

Matthew foi criado em sua casa, com todas as vantagens de um lar cristão, já que o seu pai possuía bens que o permitiu. A família desde a sua infância notou que ele era de grande fragilidade física pelo que pensaram que ele não viveria mais do que uma semana. Porém, à medida que o menino foi crescendo mostrou uma aptidão precoce para aprender, sendo capaz de repetir tudo o que era lido no tempo devocional da família aos três anos de idade! Era costume da família Henry reunir-se toda, em cada dia, para um culto familiar. Depois das orações e leituras bíblicas, era costume de seu pai fazer uma breve exposição de uma passagem da Bíblia em que os meninos se animavam depois a compartilhar as suas próprias histórias. O grande valor desta prática ficou demonstrou quando mais tarde Matthew reconheceu que estava escutando o seu pai falando quando leu na Bíblia, esta passagem de Salmo 51:17, "Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus” (Salmo 51:17), que afetou profundamente o seu coração e levou-o a interrogar-se "Que tenho eu feito com Cristo."

A afeição de Matthew por aprender prosperou rapidamente e ele conseguia ter uma rotina de passar várias horas em cada dia no estudo exaustivo das Escrituras, embora a sua saúde não fosse muito boa. Depois de sobreviver a um grave ataque de febre aos dez anos de idade, os seus pensamentos sentiram-se atraídos pela sua própria condição espiritual e em 7 de dezembro de 1673 foi profundamente comovido por um sermão. Ele escreveu a esse propósito, "Eu tinha um grande temor do Inferno, até que o Senhor me consolou. Ele fez um exame sério de mim mesmo. O que tenho são esperanças que quando morra e deixe este tabernáculo terrestre sei que serei recebido no céu. Tenho-me encontrado em várias situações difíceis mas sei que possuo as marcas de que sou um filho de Deus."

Depois de ter começado a sua educação privadamente no seu lar com o seu pai, o reverendo Philip Henry, Matthew foi para a academia de Thomas Doolittle, em Islington, que frequentou entre 1680 e 1682. Devido à exclusão dos não conformistas das Universidades de Oxford e de Cambridge e ao baixo tom moral da vida universitária durante o período da Restauração, o pai de Matthew conseguiu um lugar para ele em 1680 na academia dos "dissidentes" em Islington, em Londres, mas a sua estadia ali foi breve, porque o director Thomas Doolittle foi obrigado pelas autoridades a fechar a escola.

Como resultado, Matthew continuou os seus estudos no seu lar por vários anos. Em maio de 1685 foi para Londres, desta vez para estudar direito em Gray’s Inn. Entretanto, não encontrou satisfação neste curso e logo escreveu uma carta a seu pai, dizendo, "Quanto mais conheço o mundo e os assuntos vários dos filhos dos homens nele, quanto mais vejo da vaidade dele, tanto mais deseja o meu coração separar-me dele, e fixar -me nas realidades invisíveis do outro mundo". O seu desejo era ingressar no ministério cristão, dedicando muito tempo aos estudos teológicos.

Assim, após um ano, abandonou os seus estudos de Direito e passou a dedicar-se integralmente à obra de Deus, regressou à quinta onde tinha nascido, aí fez uma aliança com um dos seus amigos chamado George Illidge que o acompanhou e começaram a pregar em reuniões a perto donde morava. Normalmente Henry preparava-se com grande dedicação, e o seu zelo pela obra do Evangelho era tão evidente que rapidamente começou a receber convites para pregar nas cidades de Chester e Nantwich. Henry sabia sem dúvida que isto era a obra que Deus tinha estado preparando para ele e em maio de 1687 aceitou ser o pastor de uma congregação em Chester.

Durante vinte e cinco anos, Henry dedicou-se a proclamar o Evangelho em Chester em cada oportunidade que surgia. Além dos dois serviços aos domingos e das duas reuniões durante a semana, com frequência pregava nas povoações vizinhos e aos presos no Castelo de Chester.

A exposição fiel que Henry fazia das Escrituras abençoou-o durante esses anos e ele viu como Deus lhe abriu uma área maior o seu ministério. Foi convidado a celebrar reuniões mensais em Wrexham e Beeston, e a pregar em muitas cidades, incluindo Londres, enquanto que ao mesmo tempo a congregação que se reunia em sua casa cresceu tanto que um edifício novo e maior teve de ser construído em 1699 para poder albergar a toda a congregação.

Talvez seja importante assinalar que Henry mantém esta pregação intensiva e o seus ministério pastoral durante um período de tempo no qual se viu afetado na sua vida pessoal pela tragédia. A sua primeira esposa Katherine morreu no parto em 1689 só dois anos após o casamento, e ainda que ele tenha voltado a casar em 1690, ele e sua segunda esposa, Mary, nos sete anos seguintes, perderam três dos seus nove filhos. Henry negou-se a culpar a Deus por estas perdas, porque ele aceitava que, "o Senhor é justo, Ele toma e dá, e dá e toma de novo." Tampouco ia permitir que as suas penas lhe obstaculizariam o seu trabalho, já que em sua opinião, "não deve chorar e evitar a sementeira”, mas antes continuou com perseverança e segurança o seu trabalho para o Senhor.

Matthew costumava orar pela manhã e à tarde. Pela manhã estudava o Antigo Testamento e pela tarde o Novo.

Os seus sermões eram dirigidos às pessoas, nunca com intenção política, embora nunca deixasse de mencionar os perseguidos e discriminados por causa da sua Fé.

Pelo final do ano de 1704, em novembro, quando Henry tinha quarenta e dois anos de idade, começou a compilar a grande quantidade de notas e de escritos que tinha escrito sobre a Bíblia durante o seu ministério. Ele tinha aprendido latim, grego e hebraico desde menino, e também possuía um bom conhecimento do francês, de modo que Henry sendo um grande leitor e um profundo estudioso tinha coligido muitas notas durante muitos anos. A isto Henry adicionou um agudo espírito de investigação, um profundo conhecimento e uma capacidade para transmitir as questões doutrinais duma maneira tão simples como clara. E disto foi surgindo seu o "Comentário", que pouco a pouco, durante os próximos dez anos da sua vida foi completando tanto os livros do Antigo como do Novo Testamento

Em 1712, depois de vinte e cinco anos de ministério em Chester, Henry aceitou uma chamada dos dissidentes da Capela de Hackney, em Londres. Nunca tinha ele previsto deixar a congregação de Chester, mas confiava nos propósitos de Deus que o levava para Londres e Henry fielmente obedeceu. Na nova Capela a sua pregação foi abençoando a muitos que aí se reuniam e deixando muito fruto. Ao mesmo tempo, ele ia fazendo os preparativos para completar o seu "Comentário", tendo em 1714 acabado de completar os comentário do livro de “Atos dos Apóstolos”.

Matthew muitas vezes viajava para Chester a fim de realizar os serviços religiosos na sua antiga congregação, e em junho de 1714, enquanto fazia uma dessas visitas para pregar em Chester e Nantwich, caiu doente.

Quando regressava a Londres no dia seguinte caiu do seu cavalo em Tarporley e foi levado por umas pessoas para casa de um ministro onde faleceu ao dia seguinte. Era o dia 22 de junho de 1714. Tinha tão só 52 anos.

A importância e o valor do "Comentário" de Henry era tão evidente para os seus colegas ministros que foram tomadas medidas, já depois da sua partida para o Lar, para serem recolhidas as notas que Henry tinha preparado dos restantes livros da Sagrada Escritura, desde “Romanos” até ao “Apocalipse”, de modo que o Comentário ficasse completo e pudesse ser editado.

O "Comentário" de Matthew Henry tornou-se rapidamente numa obra de referência indispensável a cada Cristão. Henry procurou escrever uma obra que estivesse ao alcance de todos, e se o comentário está repleto de bosquejos para sermões, é notório que Matthew Henry era mestre dos idiomas originais das Escrituras, muito mais do que a maioria de seus críticos modernos. Quanto à sua teologia, não poucos crentes a qualificariam como insuperável. A sua teologia é um fiel testemunho da verdade, enfatizando a depravação total do homem e a graça soberana e salvadora de Deus. Esta sua obra, além disso, não só demonstra uma enorme capacidade de profundidade espiritual, como também a erudição que um grande conhecimento do grego e do hebreu proporciona.

A fama de Matthew Henry deve-se ao seu célebre comentário “An Exposition of the Old and New Testaments” (5 vols., Londres, 1708-10). Matthew Henry só chegou ao livro de Atos”, mas depois da sua morte alguns puritanos prepararam os comentários das epístolas e do “Apocalipse” a partir dos manuscritos de Henry. Esta obra é aclamada como sendo o melhor dos comentários ingleses com propósitos devocionais. O autor demonstra uma notória fertilidade de sugestões práticas e embora a obra seja colossal, contém ricos tesouros de verdades que prendem a atenção dos leitores pela sua frescura e aptidão, alimentando a vida espiritual dos leitores pela sua unção espiritual.

Outras obras de Henry são “Memoirs of... Philip Henry” (1696); “A Scripture Catechism” (1702); “A Plain Catechism” (1702); “The Communicant's Companion” (1704); “A Method for Prayer” (1710) e numerosos sermões, incluídos no seu livro “Miscellaneous Works” (1809).

Ao longo da sua vida como ministro, Henry foi um estudante diligente da Palavra que às vezes se levantava, inclusive, às 4 da manhã, e, geralmente, passava 8 horas por dia no seu gabinete de estudo, além de cumprir os seus trabalhos pastorais.

Também foi, sem embargo, um homem de oração. A sua preocupação de toda a vida com respeito à oração originou-se, conforme se diz, quando recuperou de uma enfermidade potencialmente terminal que sofreu aos 10 anos. Qualquer que seja o caso, a totalidade dos seus trabalhos está marcado pela sabedoria que só podem esperar alcançar aqueles que dependem habitualmente do Omnipotente em oração.

Henry completou o seu livro sobre oração em março de 1712, apenas dois meses antes de deixar Chester, onde tinha servido durante 25 anos, para pastorear uma igreja em Londres. Por consequência, o volume reflete uma vida de oração, o ministério e a experiência cristã. O título completo do livro é “Um Método de Oração com Expressões Escriturísticas apropriadas para ser usadas sob cada título”. Nele, Henry esboça um plano de oração: Adoração, Confissão, Petição, Acção de Graças, Intercessão e Conclusão, e provê os conteúdos de dita oração a partir das próprias Escrituras.

Henry é hoje lembrado como um pastor afectuoso, um amante apaixonado da Palavra de Deus, e um Homem/Cristão de grande integridade pessoal que tem deixado a sua marca nos corações de inúmeros cristãos que anelam compreender mais profundamente as riquezas das Escrituras.

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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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