… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

domingo, 2 de outubro de 2016

2 de outubro de 1792 • Sociedade Missionária Baptista formada na Inglaterra


 2 de outubro de 1792 Sociedade Missionária Baptista formada na Inglaterra
 
Grupo Fundador da Sociedade Missionária Baptista no salão da Senhora Beeby Wallis

O grupo de homens jovens que se encontraram no Salão da Senhora Beeby Wallis neste dia, 2 de outubro de 1792 não era um grupo apropriado para começar a maior obra missionária em todo o mundo. Os doze ministros eram todos de pequenas igrejas no distrito de Kettering, Inglaterra. Dois deles tinham assembleias locais que congregavam menos de 25 membros cada. Mas eles estavam convencidos, e cada vez mais, de que as igrejas deviam enviar a mensagem do Evangelho a todos os vastos cantos do globo. Surpreendentemente, muitos Cristãos  no século XVIII, aceitavam o argumento de que os pagãos tinham rejeitado o Evangelho e seriam responsabilizados pela sua rejeição no futuro dia do juízo. Alguns Cristãos chegavam a argumentar que se Deus quisesse salvar os pagãos, Ele iria iluminá-los sem qualquer ajuda humana.

O jovem pastor William Carey não podia aceitar essas opiniões. Ele dizia que aos Apóstolos tinha sido ordenado ensinar todas as nações; e, como antigamente a promessa do Evangelho foi verdadeira, certamente a ordem para ensinar as nações ainda era verdadeira também.

Na sua pequena oficina Carey pendurou um mapa-múndi feito pelas suas próprias mãos. Neste mapa, ele incluiu todas as informações disponíveis: população, flora, fauna, características do povo, etc. Enquanto trabalhava, olhava para ele, orava, sonhava e agia! Foi assim que sentiu mais e mais a chamada de Deus na sua vida. Quando quis introduzir o assunto de missões na associação local de pastores, Carey teria sido repreendido pelo reverenciado presidente John Collett Ryland (1723-1792), pastor baptista em Northampton, o qual teria rebatido o seu desejo de enviar missionários para terras remotas. Mas Carey continuou a sua propaganda pró-missões estrangeiras, e tomando Isaías 54:2 como texto, pregava sobre o tema: "Esperai grandes coisas de Deus; praticai proezas para Deus."

Carey colocou no papel os seus pensamentos sobre o estado do mundo na sua época, a necessidade de missões, e os métodos que deviam ser utilizados na realização da tarefa. Em maio de 1792, publica-os como “An Enquiry into the Obligation of Christians to use Means for the Conversion of the Heathens” (Um inquérito sobre a obrigação dos Cristãos de usar meios para a conversão dos pagãos).

Nele, ponto por ponto Carey responde às acusações que haviam sido apresentados contra a actividade missionária. Eram as terras pagãs muito distantes? A navegação tinha melhorado muito nos últimos séculos. Eram os caminhos pagãos bárbaros? Os mercadores e os comerciantes não pareciam incomodados com a inconveniência de lidar com eles. Havia perigo físico para a actividade missionária ou dificuldades na aquisição de bens ou barreiras linguísticas? Se todos eles puderam ser superadas no interesse do comércio e do lucro, certamente, eles poderiam ser superados no interesse do Reino de Cristo. Carey anima os seus leitores com o texto de Isaías 542: "Esperai grandes coisas de Deus; praticai proezas para Deus."

O panfleto de Carey e a sua apaixonada exposição sobre missões na reunião semestral de ministros em Kettering agitou os jovens para a ação. Quando eles se reuniram neste dia, 2 de outubro de 1792 no salão da senhora Beeby Wallis, eles formaram a “Baptist Missionary Society” (A Sociedade Missionária Batista), para difundir o Evangelho entre os gentios. Originalmente, o nome da organização era “Particular Baptist Society for the Propagation of the Gospel Amongst the Heathen” (Sociedade Batista Particular para a Propagação do Evangelho entre os Pagãos). Andrew Fuller foi nomeado secretário, e uma pequena caixa de rapé com uma imagem da conversão de São Paulo sobre a tampa tornou-se a tesouraria. Cada ministro anotou o que achava que podia dar, e 13£ 20s 6d foi prometido. Em dinheiro de hoje, qualquer coisa entre os treze e os catorze euros! Era muito pouco para essa grande finalidade, mas não tinha o Senhor feito muito mais com cinco pães e dois peixes de um rapaz?

Carey ofereceu-se para ser o primeiro missionário. Através do testemunho do Dr. John Thomas (1757-1800), missionário e médico que tinha trabalhado durante vários anos em Bengali, na Índia, William Carey recebeu a confirmação da sua chamada no dia 10 de janeiro de 1793. Andrew Fuller (1754-1815), pastor baptista em Kettering, tornou-se o principal teólogo do movimento missionário, aliando a profunda teologia da escola calvinista de Jonathan Edwards (1703-1758) com um fervoroso zelo missionário e uma acção pastoral prática e piedosa. Homens como os pastores batistas Samuel Pearce (1766-1799) e John Sutcliff (1752-1814), e John Newton (1725-1807), o conhecido clérigo anglicano e escritor de hinos, foram grandes encorajadores da obra missionária que ele se propôs a realizar.

Apesar de Carey ter a certeza da sua chamada, a sua esposa recusava-se a deixar a Inglaterra. Isto doeu-lhe muito no seu coração. Foi decidido, no entanto, que o seu filho mais velho, Felix, o acompanharia à India. Além deste fator, outro problema que parecia insolúvel era a proibição da entrada de qualquer missionário na Índia. Sob tais circunstâncias era inútil pedir licença para entrar, mas mesmo assim, conseguiram embarcar sem o documento no dia 4 de abril de 1793.

Ao esperar na Ilha de Wight por outro navio que os levaria à Índia, o comandante recusou-se a levá-los sem a permissão necessária. Com lágrimas nos olhos e o coração apertado, William Carey viu o navio partir e ele ficar. A sua jornada missionária para Índia parecia terminar ali. Porém, Deus, que tem todas as coisas sob Seu controle, tinha outro propósito.

Ao regressar a Londres, a Sociedade Missionária conseguiu reunir recursos e comprar as passagens para um navio dinamarquês. Uma vez mais, Carey rogou à sua esposa que o acompanhasse. Ela ainda persistia na recusa, e ele ao despedir-se dela pela segunda vez disse: "Se eu possuísse o mundo inteiro, tudo daria alegremente pelo privilégio de levar-te e aos nossos filhos comigo; porém, o sentido do meu dever sobrepuja todas as outras considerações. Não posso voltar atrás sem incorrer em culpa para com a minha alma." A preparar-se para embarcar, um dos amigos que iria viajar com Carey, o Dr. Thomas, voltou e conversou com Dorothy, a esposa de William Carey, e, como que por um milagre, ela decidiu acompanhá-lo. Foi uma imensa alegria para ele, quando viu a sua esposa e os seus filhos com as malas prontas para o acompanhar! Agora ele compreendia a razão de não haver viajado no primeiro navio. O comandante do navio comoveu-se a ponto de permitir que a família viajasse sem pagar as passagens. Finalmente, no dia 13 de junho de 1793, a bordo do navio Kron Princesa Maria, William Carey, com trinta e três anos, deixou a Inglaterra e nunca mais voltou, partindo para a Índia com a sua família, onde, em condições dificílimas e de oposição, trabalhou durante quarenta e um anos. Durante a sua viagem, aprendeu suficiente o Bengali, e ao desembarcar, já comunicava com o povo.

Alguns biógrafos dizem que William Carey “não foi dotado de inteligência superior e nem de qualquer dom que deslumbrasse os homens”. Não obstante, todos identificam “o seu carácter perseverante, com espírito indómito e inconquistável, que completava tudo quanto iniciava”. O facto, porém, é que apesar de não haver recebido educação formal na sua mocidade, Carey chegou a ser um dos homens mais eruditos do mundo, no que diz respeito à língua sânscrito e a outros idiomas orientais. Distinguiu-se notavelmente no campo da linguística, e as suas gramáticas e dicionários são usados ainda hoje.

Durante o seu primeiro ano na Índia, todos seus familiares adoeceram, um após outro. O seu filho Peter, de cinco anos, foi vitimado pela febre e morreu. Para manter-se, Carey trabalhava como gerente de uma fábrica que produzia anil. Decorridos sete anos, o primeiro convertido foi baptizado, Krishna Pal (m. 1822), um carpinteiro. Outros missionários se juntaram a Carey. Em 1799, William Ward (1769-1823) e Joshua Marshman (1768-1837) vieram somar esforços. Juntos eles fundaram 26 igrejas, 126 escolas com 10 000 alunos, traduziram as Escrituras em 44 línguas, produziram gramáticas e dicionários, organizaram a primeira missão médica na Índia, seminários, escolas para meninas, e o jornal na língua bengali.

Além disso, William Carey foi responsável pela erradicação do costume "suttee", o qual queimava a viúva juntamente com o corpo do defunto numa fogueira. Foi também responsável pela cessação do sacrifício de crianças, que eram atiradas às águas do rio Ganges.

Entre os efeitos de seu trabalho estão vários experimentos agrícolas; a fundação da Sociedade de Agricultura e Horticultura na Índia em 1820; a primeira imprensa, a primeira fábrica de papel e o primeiro motor a vapor na Índia; e a tradução da Bíblia em sânscrito, bengali, marati, telegu e nos idiomas dos Sikhs.

Calcula-se que William Carey traduziu a Bíblia para a terça parte dos habitantes do mundo. Alguns missionários, em 1855, ao apresentarem o Evangelho no Afeganistão, acharam que a única versão que esse povo entendia era o pushtoo, feita em Sarampore por Carey.

Durante mais de trinta anos, William Carey foi professor de línguas orientais no Colégio de Fort Williams. Fundou, também, o Serampore College para ensinar os obreiros. Sob a sua direção, o colégio prosperou, preenchendo um grande vácuo na evangelização do país.

A Sociedade Missionária Batista foi a primeira sociedade missionária estrangeira criada pelo Avivamento Evangélico da última metade do século XVIII. Em pouco tempo outras sociedades missionárias foram estabelecidos, e uma nova era começou em missões que espalhou a fé no Senhor Jesus por todo o mundo.

Os seus esforços, inspiraram a fundação de outras missões, dentre elas: a Associação Missionária de Londres, em 1795; a Associação Missionária da Holanda, em 1797; a Associação Missionária Americana, em 1810; e a União Missionária Batista Americana, em 1814.

O trabalho que começou na sala da Senhora Wallis continua até hoje. Duzentos e vinte anos depois, a Baptist Missionary Society, ainda trabalha na Índia, em colaboração com a igreja nativa. Há 33 estações de missão no sub-continente indiano sob a sua égide, com numerosas igrejas, escolas, hospitais, clínicas e programas agrícolas. Em 1981, a sociedade tinha mais de 191 missionários estrangeiros em toda a Ásia e África. Carey estava certo: "Esperai grandes coisas de Deus; praticai proezas para Deus."


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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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