… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

domingo, 23 de outubro de 2016

23 de outubro de 524 • Boécio executado por traição

23 de outubro de 524Boécio executado por traição
Ilustração medieval de Boécio
A coragem com que um homem enfrentou a tortura e a morte na Roma antiga tornou-se uma fonte de inspiração para toda a cristandade durante séculos. Boécio viveu quando os ostrogodos tinham conquistado o Império Romano. O seu pai morreu quando ele tinha sete anos, e ele foi criado por um aristocrata chamado Símaco.

Boécio adorava aprender e impôs a si mesmo a tarefa de traduzir as maiores obras gregas para o latim com comentários seus. Ele esperava conciliar as aparentes contradições de Aristóteles e de Platão. A sua morte por traição pôs um fim a esse curto projecto, mas as traduções que ele terminou formaram a base para a aprendizagem na Idade Média. Foi Boécio que designou o quadrivium, um ciclo de estudos necessários para todos os alunos daqueles anos difíceis.

Teodorico tornou-se rei da Itália. Boécio ascendeu muito no seu favor, servindo-o como cônsul em 510. O rei honrou-o ainda mais com a nomeação dos seus dois filhos como cônsules, em 522.

A política e a religião meteram Boécio em apuros. Ele não só aceitava a Trindade, mas ainda escreveu uma defesa corajosa acerca dela, enquanto Teodorico era um ariano que considerava Cristo um ser criado. Teodorico temia que os seus súbditos ortodoxos tomam-se posição ao lado dos de Bizâncio contra ele. Ele acusou o senador Albino de conspirar contra ele com a corte bizantina. Boécio corajosamente defendeu o acusado. Teodorico mandou prender Boécio e fê-lo ser torturado. Como peças de dominó caindo, Símaco defendeu Boécio, mas também ele foi condenado à morte.

Enquanto esperava no corredor da morte, Boécio questionou-se sobre os acontecimentos que lhe tinham acontecido. Ele, o inocente, foi torturado, enquanto Teodorico não sofreu nenhum dano. O livro que ele escreveu, chamado “A Consolação da Filosofia”, foi o livro latino mais influente da Idade Média. Nele, ele interrogou-se com as questões profundas do certo e do errado, da presciência e do tempo.

C. S. Lewis escreveu sobre “A Consolação da Filosofia”, “Até há cerca de duzentos anos atrás, seria, penso eu, ter sido difícil encontrar um homem educado em qualquer país europeu que não a estimasse.” Talvez a razão porque “A Consolação da Filosofia” era tão amada é porque esta obra colocou a vida e a morte na perspectiva eterna. As glórias terrenas são vistas nela como ilusórias. Ela ajudou a contribuir para a desgraça e morte de Boécio. Neste dia, 23 de outubro de 524, ele foi executado por traição por um método cruel e atormentador.

Anício Mânlio Torquato Severino Boécio (em latim Anicius Manlius Torquatus Severinus Boethius), Roma, c. 480 — Pavia, 23 de outubro de 524, mais conhecido simplesmente por Boécio, foi um filósofo, estadista e teólogo romano que se notabilizou pela sua tradução e comentário do “Isagoge” de Porfírio, obra que se transformou num dos textos mais influentes da Filosofia medieval europeia. Traduziu, comentou ou resumiu, entre outras obras dos clássicos gregos, para além do “Isagoge” de Porfírio e do “Organon” de Aristóteles, vários tratados sobre matemática, lógica e teologia. Notabilizou-se também como um dos teóricos da música da antiguidade clássica greco-latina, escrevendo a obra “De institutione musica”, também aparentemente com base em antigos escritos gregos. Sendo senador de Roma, no ano de 510 foi nomeado cônsul e em 520 foi elevado a chefe do governo e dos serviços da corte pelo rei ostrogodo Teodorico, o Grande. Pouco depois, devido a desacordos políticos e por ter apoiado um senador apontado pelo rei como traidor, foi ele próprio acusado de traição a favor do Império Bizantino e de magia, sendo subsequentemente torturado, condenado à morte e executado. Enquanto aguardava na prisão a execução, escreveu “De Consolatione Philosophiae” (Do Consolo pela Filosofia), obra que versa, entre outros temas, o conceito de eternidade e na qual tenta demonstrar que a procura da sabedoria e do amor de Deus é a verdadeira fonte da felicidade humana. Membro de uma família ligada ao então nascente cristianismo, é considerado pela Igreja Católica Romana, pelo seu contributo para a teologia cristã e pelos serviços que prestou aos cristãos, um mártir e um dos Padres da Igreja.

Chamado por muitos “o último dos romanos e o primeiro dos escolásticos”. Um homem de atividade prodigiosa e de intelecto brilhante, Boécio, com a sua enorme produção literária, ligou o abismo entre a antiguidade e a Idade Média. O seu alvo era traduzir para o latim todas as obras de Aristóteles e de Platão; desta maneira, estas obras foram tornadas acessíveis a todos. Além das traduções, os seus escritos ocupam-se de quatro áreas: teológica (cinco obras sobreviveram); filosófica (“O Consolo da Filosofia”, traduzido repetidas vezes em quase todas as línguas europeias); obras sobre as quatro artes do quadrivium; e a lógica (a maioria destas obras sobreviveu).

Boécio via a tarefa da teologia como a de fazer distinções entre a razão e a fé. A razão devia ser convocada para apoiar a fé. Procurou explicar a Trindade em termos das categorias aristotelianas. Deus é supersubstancialmente um com as três Pessoas com relacionamentos internos. Visto que Deus existe e deseja o bem, o mal não tem existência positiva alguma. Semelhante abordagem demonstra que Boécio devia algo ao neoplatismo e ao estoicismo, e que foi o precursor lógico de Tomás de Aquino.

Boécio nasceu em Roma, na família cristã dos Anícios, que teve um de seus membros, Olíbrio, como Imperador por pouco tempo, em 472. Depois da morte do pai em 487, Boécio foi criado pelo competente Senador Símaco, com cuja filha, Rusticiana, se casou. Boécio veio a ser amigo do soberano ostrogodo de Roma, Teodorico, que o fez cônsul de Roma, em 510. Pode ter sido líder do Senado, e cerca de 520 foi feito magister officiorum, chefe de todos os serviços públicos e outros de Roma. Mas em 522, pouco depois de ter colocado os seus dois filhos no Senado como cônsules como ele era, foi acusado de traição por Teodorico, que viera a suspeitar de todos os romanos que eram cristãos. É incerto se Boécio estava conspirando contra Teodorico, mas entre as acusações contra ele havia a de conspiração a favor do Imperador Justino I, de Constantinopla, de escrever cartas sediciosas, e de praticar a magia. Teodorico baniu-o à prisão, em Pavia, e decapitou-o, sem julgamento, neste dia, 23 de outubro de 524. Enquanto estava na prisão, Boécio escreveu a sua maior obra, “O Consolo da Filosofia”.


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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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