… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

31 de outubro de 1517 • Lutero fixou as suas 95 Teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg



31 de outubro de 1517 Lutero 
fixa as suas 95 Teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg
Hoje, 31 de outubro de 2016, comemoram-se 499 anos em que segundo a tradição, a 31 de outubro de 1517, Lutero fixou as suas 95 Teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, com um convite aberto ao debate sobre elas.

Essas Teses condenavam o que Lutero cria ser a avareza e o paganismo na Igreja como um abuso e pediam um debate teológico sobre o que as Indulgências significavam. Para todos os efeitos, contudo, nelas Lutero não questionava diretamente a autoridade do Papa para conceder as tais indulgências.

As 95 Teses foram logo traduzidas para o alemão e amplamente copiadas e impressas. Ao cabo de duas semanas haviam sido espalhado por toda a Alemanha e, em dois meses, por toda a Europa. Este foi o primeiro episódio da História em que a imprensa teve um papel fundamental, pois facilitou a distribuição simples e ampla do documento.

Para uns, Lutero é o ogro que destruiu a unidade “da” igreja, a besta selvagem que pisou a vinha do Senhor, um monge renegado que se dedicou a destruir as bases da vida monástica. Para outros, é o grande herói que fez com que uma vez mais se pregasse o Evangelho puro de Jesus e a Bíblia, o Reformador de uma igreja corrupta.

Há 499 anos, em 31 de outubro de 1517, véspera da festa Católica de “Todos os Santos”, Martinho Lutero deu a conhecer as suas Teses, e o impacto foi tal que se destaca essa data como o começo da Reforma Protestante.

Poucos personagens na história do Cristianismo foram discutidos tanto ou tão acaloradamente como Lutero. Ele mudou o curso da história ao desafiar, com valentia, o poder do Papado e do Império, sustentando pontos de vista contrários à prática e às ordenanças da religião estabelecida, o Catolicismo, por considerá-las contrárias ao conteúdo da Bíblia.

A principal doutrina evangélica que Lutero elevou contra o sistema ritualista de penitências foi a de que a salvação é por graça somente, não por obras. A faísca que moveu o monge surgiu-lhe provavelmente em 1515, quando Lutero começou a dar conferências sobre a “Epístola aos Romanos”, pois ele mesmo disse depois que foi no primeiro capítulo dessa Epístola onde encontrou a resposta às suas dificuldades espirituais.

Essa resposta não veio facilmente. Não foi simplesmente como se num belo dia Lutero abrisse a Bíblia no primeiro capítulo de Romanos, e descobrisse ali que “o justo viverá pela fé.” Segundo ele mesmo conta, o grande descobrimento foi precedido por uma demorada luta espiritual e por uma amarga angústia, pois Romanos 1:17 começa dizendo que “no Evangelho a justiça de Deus se revela.” Segundo este versículo, o Evangelho é revelação da justiça de Deus.

E era precisamente a justiça de Deus o que Lutero não podia tolerar. Se o Evangelho fosse a mensagem de que Deus não é justo, Lutero não teria tido problemas. Mas este texto relacionava indissoluvelmente a justiça de Deus com o Evangelho. Segundo conta Lutero, ele rejeitava a frase “a justiça de Deus”, e esteve meditando nela dia e noite para finalmente compreender a relação entre as duas partes do versículo que, depois de afirmar que “no evangelho a justiça de Deus se revela”, conclui dizendo que "o justo viverá pela fé."

A resposta que Lutero encontrou foi surpreendente! A “justiça de Deus” não se refere na Carta aos Romanos, como pensa a teologia tradicional, ao facto de que Deus castigue os pecadores. Refere-se, pelo contrário, a que a “justiça” do justo não é obra sua, mas é dom de Deus. A “justiça de Deus” é que quem a tem vive pela fé, não porque seja em si mesmo justo, ou porque cumpra as exigências da justiça divina, mas porque Deus lhe dá este dom. A “justificação pela fé” não quer dizer que a fé seja uma obra mais subtil do que as obras boas, e que Deus nos pague essa obra. Quer dizer, pelo contrário, que tanto a fé como a justificação do pecador são obra de Deus, um dom gratuito.

Em consequência, Lutero continua comentando a respeito do seu descobrimento, «senti que tinha nascido de novo e que as portas do paraíso me tinham sido franqueadas. Todas as Escrituras cobraram um novo sentido. E a partir de então, a frase “a justiça de Deus” não me encheu mais de ódio, mas tornou-se infinitamente doce em virtude dum grande amor.»

Lutero parece ter sido um homem relativamente reservado, dedicado aos seus estudos e à sua luta espiritual. O seu grande descobrimento espiritual, ainda que lhe tenha trazido uma nova compreensão do Evangelho, não o levou imediatamente a protestar contra o modo como a Igreja Católica entendia a fé cristã. Pelo contrário, o nosso monge continuou dedicado aos seus trabalhos docentes e pastorais, e se bem que há indícios de que ensinou a sua nova teologia, não pretendeu contrapô-la ao que ensinava oficialmente a Igreja Católica.

Quando por fim decidiu que tinha chegado o momento de lançar o seu grande repto, compôs noventa e sete Teses, que deviam servir de apoio para um debate académico. Nelas, Lutero atacava vários dos princípios fundamentais da teologia escolástica, e, portanto, esperava que a publicação dessas Teses, e o consequente debate que sobre elas se seguiria, seriam uma oportunidade de dá-las a conhecer ao resto da Igreja.

A controvérsia foi maior do que o que Lutero se propunha. O que tinha acontecido era que, ao atacar a venda das indulgências de João Teztel, na Alemanha, crendo que não se tratava mais que da consequência natural do que se havia discutido no debate anterior, Lutero tinha-se atrevido, ainda sem o saber, a opor-se ao lucro e aos desígnios de vários personagens muito mais poderosas do que ele.

Segundo Lutero, se é verdade que o Papa tem poder para tirar as almas do purgatório, tem de utilizar esse poder, não por razões tão corriqueiras como a necessidade de recursos para construir uma igreja, mas simplesmente por amor, e tem de fazê-lo gratuitamente (Tese 82). Porém, ainda que muitos cristãos naquele tempo abrigavam estes sentimentos, ninguém protestava, e a venda continuava.

Foi então quando Lutero afixou as suas famosas noventa e cinco Teses na porta da Igreja do castelo de Wittenberg. Essas Teses, escritas em latim, não tinham o propósito de criar uma comoção religiosa. Lutero deu a conhecer as suas Teses na véspera da festa de Todos os Santos, e seu impacto foi tal que normalmente se destaca essa data, em 31 de Outubro de 1517, como o começo da Reforma Protestante e a reafirmação de que a Palavra de Deus é o ponto de partida e a autoridade final da Igreja e de toda teologia.

A história diz que Lutero afixou as suas 95 Teses (escritas em alemão para que todos, inclusive o menos culto, as pudesse ler) nas portas da Igreja do Castelo do Wittenberg em 31 de outubro de 1517. A ação de afixar escritos nessa porta era a maneira acostumada de anunciar um acontecimento no campus universitário daquela época. As portas das Igrejas funcionavam naquela época tal como os modernos quadros de anúncios. A maioria dos historiadores estão de acordo que Lutero remeteu as suas Teses ao Arcebispo da Mogúncia, ao Papa, a alguns amigos e a outras universidades nessa data. Contudo, as 95 Teses foram impressas muito rapidamente, e antes de 1518 tinham sido extensamente lidas por toda a Europa.

Lutero redigiu as suas 95 Teses como suporte para um debate teórico, uma "disputa" teológica, prática corrente na época. Concebidas para ser difundidas num círculo restringido de teólogos, o seu êxito teria surpreendido o próprio Lutero. Depois de serem impressas em grande quantidade e amplamente difundidas, as Teses tiveram grande ressonância, mas as autoridades religiosas vacilaram, sem embargo, em condenar a Lutero. Este continuará discutindo com teólogos partidários das doutrinas de Roma, por exemplo, com Johann Eck na famosa disputa de Leipzig de 1519.

As 95 Teses são finalmente condenadas definitivamente em 15 de junho de 1520 pela bula “Exsurge Domine” do Papa Leão X. Lutero, então abertamente em conflito com a Igreja Católica, foi excomungado nos princípios do ano seguinte.

O Papa Leão X exigiu que Lutero se retratasse pelo menos de 41 das suas Teses, mas o monge alemão, já famoso em toda a Europa, rejeitou esta exigência publicamente na Dieta do Worms de 1521 arriscando a sua vida. Era o passo definitivo para o que logo seria a Reforma Protestante.

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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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