… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

sábado, 15 de outubro de 2016

15 de outubro de 1585 • Cappel, um sábio huguenote, investigador do hebraico bíblico


15 de outubro de 1585 Cappel, um sábio huguenote, 
investigador do hebraico bíblico
Louis Cappel, o Jovem, nasceu no dia de hoje, em 15 de outubro de 1585, em St. Elier perto de Sedan, e morreu em Saumur, também na França, em 18 de junho de 1658. Sedan é uma comuna francesa situada no departamento de Ardenas (Ardennes), na região Champanha-Ardenas. Sedan foi fundada em 1424. No século XVI, Sedan foi um asilo para os refugiados protestantes das guerras religiosas. O seu pai, que também se chamava Jacques Cappel, era conselheiro da câmara de Rennes, e foi obrigado a demitir-se por causa da sua conversão à Igreja reformada, e aí perdeu todos os seus bens. Para salvar a vida teve de fugir para casa do seu irmão Louis Cappel, o Velho, que era em Sedan. Como a sua esposa estava grávida, a criança nasceu durante a fuga, e o seu pai naquela ocasião deu-lhe o seu nome. Entretanto o seu pai morre em Sedan em 1586 e depois a sua mãe parte para a região de Le Thillot levando consigo o filho Jacques que aí foi educado por Católicos. Mais tarde, Jacques Cappel voltou a Sedan, tendo sido trazido pelo seu Irmão mais velho, que se responsabilizou pelo seu sustento e agasalho, e aí estudou teologia. No ano de 1609, Louis Cappel, recebeu da igreja protestante em Bordéus os meios económicos necessários para estudar quatro anos na Inglaterra, na Bélgica e na Alemanha.

Após os estudos, quando regressou à igreja em Bordéus Louis Cappel, o Jovem, foi nomeado professor de hebraico na Academia Protestante de Saumur. Saumur é uma comuna francesa na região administrativa da Pays de la Loire, no departamento de Maine-et-Loire. Saumur é famosa por ser a sede da Academia Protestante fundada em 1598 pelo sínodo nacional de Montpellier e suprimida pelo decreto real de 8 de janeiro de 1685. A Academia, que desenvolveu a primeira escola de crítica fértil na moderna teologia, ficou a dever, até certo ponto, a sua existência e o seu caráter científico a Philippe Duplessis-Mornay (1549-1623), governador da cidade, que supervisionou a jovem instituição com grande ardor. O escocês John Cameron (c. 1579-1625), um de seus primeiros professores, trouxe com ele o espírito da investigação livre e independente que caracterizaria depois a Academia. Três dos seus antigos alunos tornaram-se nela professores quase ao mesmo tempo, Moïse Amyraut (lat. Moses Amyraldus) (1596-1664), Josua Placeus (Josué de la Place) (1596-1655/1665) e o nosso biografado de hoje, Louis Cappel, o Jovem (1585-1658). A importância teológica da Academia Protestante de Saumur deve-se em grande medida à teoria do universalismo hipotético, relacionada com o nome de Amyraut e às investigações bíblicas de Cappel.

Aquele era o tempo da Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) e tendo-se desenrolado uma nova batalha, no cerco de Montauban no ano de 1621, obrigou, nessa ocasião, Louis Cappel a procurar refúgio com o seu irmão em Sedan, onde ele permaneceria três anos.

Em 1626 Louis Cappel foi nomeado professor de teologia na Academia Protestante de Saumur, e como já referi, foi juntamente com Amyraut, Josué de la Place e ele como professores que Academia Protestante de Saumur se tornou famosa.

Do casamento de Louis Cappel nasceram cinco filhos, dois dos quais morreram prematuramente, sendo que o seu filho mais velho, Jean, ter-se-á convertido à Igreja Católica em idade adulta e o mais novo, Jacques, sucedeu a seu pai como professor de hebraico na Academia Protestante de Saumur quando tinha 18 anos.

Louis Cappel foi um Cristão piedoso, de uma fé sincera, um homem de valor, enérgico e muito sabedor. Dedicou a sua vida ao estudo da história do texto do Antigo Testamento e à refutação de falsas ideias sobre o mesmo.

O seu primeiro livro, “Arcanum punctationis revelatum”, foi terminado em 1623, no qual procurava demonstrar que a pontuação hebraica não se originou com Moisés nem outros autores do cânone bíblico, mas sim que tinha sido introduzida por eruditos judeus depois do tempo da conclusão do Talmude da Babilónia. A novidade do livro não é sua afirmação, mas sim a sua prova lógica. A obra foi enviada pelo seu autor a vários eruditos do seu tempo para receber as suas opiniões, mas enquanto que Johann Buxtorf, o Velho (1564-1629), em Basileia, na Suíça, aconselhava o autor a ter precaução, Thomas Erpenius (Van Erpe) (1584-1624) em Leiden, na Holanda, imprimiu-a anonimamente sob a sua própria responsabilidade em 1624. O livro encontrou uma recepção amistosa em muitas partes, mas 20 anos mais tarde Johann Buxtorf, o Jovem (1599-1664) atacou o autor exasperadamente no seu “Tractatus de punctorum origine” (Basileia, 1648). Cappel replicou-lhe com o “Vindiciæ arcani punctationis”, embora esta resposta só tenha sido publicada pela primeira vez 30 anos depois da sua morte no “Commentarii et notæ criticæ in Vetus Testamentum” que foi editado por seu filho, Jacques Cappel, em Amsterdão, em 1689.

A sua segunda obra famosa foi “Critica sacra” publicada em Paris, em 1650, apoiada na teoria da integridade do texto e terminada em 1664, embora tenha permanecida inédita durante muitos anos por causa da oposição dos protestantes em Genebra, Leiden e em Sedan. Esta obra está dividida em seis livros com os seguintes temas: passagens paralelas no Antigo Testamento; passagens do Antigo Testamento no Novo; as diversas leituras do kere e kethibh, quesão duas palavras aramaicas na forma de particípio empregues pelos massoretas para distinguir o texto com pontuação do texto sem pontuação do Antigo Testamento, os manuscritos dos judeus orientais e ocidentais, as Bíblias impressas e os textos massoréticos e o samaritano do Pentateuco; as separações na Septuaginta do texto massorético; as variantes noutras traduções antigas, o Talmud e escritos judeus antigos; a eleição de leituras e a restauração do texto original. Cappel viu-se obrigado a responder a repetidos ataques. Inclusive, quando a sua obra apareceu pela primeira vez, ela contém uma defesa contra Buxtorf, o Jovem, porque este tinha conhecido o conteúdo do livro antes dele ser impresso e tinha-o combatido no “Tractatus” já mencionado. Certas passagens que foram omitidos na edição original contra a sua vontade foram acrescentados por Cappel na sua “Epistola apologética” editada em Saumur, em 1651, outra obra editada em sua própria defesa.

Uma nova edição da “Critica sacra” foi preparada por G. J. L. Vogel e J. G. Scharfenberg (3 vols., Ache, 1775–86).

O seu terceiro escrito importante foi “Diatribe de veris et antiquis Hebræorum literis” (Amsterdão, 1645), na qual ele demonstrou a anterioridade da escritura samaritana sobre os caracteres quadrados e desta maneira refutou o tratado da Buxtorf, o Jovem, “De litterarum Hebraicarum genuína antiquitate” (1643).

A prática – mais do que a teoria – da depuração dos textos das Sagradas Escituras e da sua verdadeira atribuição autoral constituía preocupação que já vinha desde a antiguidade clássica e até posterior, e foi-se aperfeiçoando ao longo dos tempos. Disso mesmo dá testemunho citando exemplos colhidos entre os antigos, designadamente em Estrabão e, de entre os modernos, em Louis Capell, “Diatriba de varis et antiquis Hebraeorum literis” (1645) o próprio Verney, o conceituado pedagogo, polemista e primeiro iluminista português, Luís António Verney (Lisboa, 1713 — Roma, 1792), que é geralmente conhecido sobretudo pelo seu justamente famoso “Verdadeiro Método de Estudar”, a sua primeira obra de vulto, publicada em Nápoles em 1746 e que ofereceu um decisivo contributo para a reforma do sistema pedagógico em Portugal, tanto universitário como propedêutico.

Franciscus Gomarus (Franz Gomar, François Gomaer, 1563-1641) que teve papel preponderante no Sínodo de Dordrecht, ocorrido em 1618 com o fim de julgar as doutrinas de Arminius, era uma pessoa hábil, entusiasta e erudita, um considerável erudito oriental. Ele tomou parte na equipa que fez a revisão da tradução holandesa do Velho Testamento em 1633, e depois de sua morte, um livro de sua autoria, chamado “Lyra Davidis”, foi publicado, o qual procurava explicar os princípios da métrica hebraica, e o qual criou alguma controvérsia na época, tendo sido criticado judiciosamente por Louis Cappel.

Nas suas obras Louis Cappel discutiu problemas que eram da maior importância para os protestantes na sua controvérsia com os católicos. De seus oponentes Buxtorf, o Jovem, foi o mais importante, que tinha praticamente todos os teólogos da Alemanha e da Suíça do seu lado, enquanto que muitos eruditos proeminentes da França, da Inglaterra e da Holanda defendiam as ideias de Cappel. As primeiras frases do “Consenso Helvético” (a “Formula consensus ecclesiarum Helveticarum”, é o nome de um credo reformado suíço elaborado em 1675 para a proteção contra as doutrinas ensinadas na Academia francesa de Saumur) de 1675 são dirigidas contra Cappel, sendo a maioria do resto delas dirigidas a Amyraut. 
Atualmente um julgamento mais acalmado e justo prevaleceu sobre as investigações de Cappel e os seus resultados são agora geralmente aceites.

Uma lista completa das suas obras publicou-a o seu filho Jacques no já citado “Commentari”. Deve-se fazer também menção do seu “Templi Hierosolymitani delineatio triplex” e “Chronologia sacra” (ambos contidos na “Poliglota” de Walton), assim como da sua “Historia apostolica illustrata” (Genebra, 1634).


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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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