… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

terça-feira, 4 de outubro de 2016

4 de outubro de 1489 • O luminoso Gansfort, um pré reformador desconhecido

4 de outubro de 1489 O luminoso Gansfort, um pré reformador que permanece desconhecido
 Wessel Harmenss Gansfort, Museum Catharijneconvent en Vrije Universiteit, Amsterdão, Holanda

Na época em que Johann Wessel, ou melhor, Wessel Harmenss Gansfort ou Goesevoyrdt viveu, o século XV, raríssimas pessoas tinham a sorte de aceder à educação formal. Gansfort foi um desses poucos privilegiados que soube aproveitar de forma excepcional os seus estudos. Aos nove anos de idade viu-se obrigado a deixar a escola devido à pobreza extrema dos seus pais. Felizmente houve uma senhora viúva com muitos cabedais que se inteirou da sua inteligência e se ofereceu para lhe pagar os estudos. Assim o jovem Gansfort pôde continuar a sua educação. Com o tempo obteve o grau de mestre em Artes, e, ao que parece, também o título de doutor em Teologia.

Gansfort tinha uma insaciável sede de conhecimento, mas no seu tempo não existiam bibliotecas como hoje. Foi pelo seu tempo que João Gutenberg inventou a imprensa de tipos móveis, pelo que a maioria dos livros continuavam a escrever-se à mão, o que os tornava muito caros e raros. Assim, existiam grupos de eruditos, que como Gansfort deambulavam de mosteiro em mosteiro, de biblioteca em biblioteca, em busca de manuscritos raros e de livros escritos à mão esquecidos ou abandonados nas bibliotecas dos conventos, para logo compartilhar os seus achados com outros eruditos. Gansfort copiou páginas e páginas de citações e de passagens de obras clássicas, e acumulou tão grande caudal de conhecimentos, que os outros teólogos frequentemente desconfiavam dele, pois ele sabia muitas coisas das quais eles jamais tinham ouvido sequer falar. Muitos destes teólogos chegaram a apelidá-lo de “o professor das contradições.”

Uns cinquenta anos antes da Reforma, Gansfort conheceu Tomás de Kempis (c. 1379 – 1471), que é geralmente aceite como sendo o autor da famosa obra “A Imitação de Cristo.” Tomás de Kempis pertencia aos “Irmãos da Vida Comum”, uma fraternidade que enfatizava a necessidade de se viver com devoção. Um dos biógrafos de Gansfort diz que Tomás de Kempis em várias ocasiões insistiu com Gansfort para ele acudir a Maria, para ele lhe pedir ajuda, até que Gansfort lhe replicou: “Por que não me dirigo a Cristo, que bondosamente convida a todos que estejam carregados a ir a Ele?”, apoiando-se em Salmos 55:22 e em I Pedro 5:7.

Gansfort opunha-se à ideia de receber as ordens sacerdotais. Quando lhe foi perguntado por que recusava a tonsura, ele respondeu que não tinha medo da forca enquanto conservasse na íntegra a sua capacidade de pensar. Ao que ele se referia era ao facto de que os sacerdotes não podiam ser processados. De facto, parece que a tonsura salvou realmente a muitos deles da forca. Além disso, Gansfort pronunciava-se contra algumas práticas religiosas comuns do seu tempo. Quando o criticaram por se negar a crer nos milagres que tinha recolhido dum livro manuscrito muito em voga nos seus dias, o “Diálogo de milagres”, ele disse: “Seria melhor ler as Santas Escrituras.”

Gansfort estudou hebraico e grego, pelo que adquiriu um extenso conhecimento dos escritos dos Pais da Igreja primitiva. O seu amor pelas línguas originais da Bíblia foi particularmente relevante, tendo em consideração que precedeu a Erasmo de Roterdão e a Johannes Reuchlin. Estes dois homens prestaram uma enorme contribuição às línguas bíblicas originais. Em 1506, Reuchlin publicou a sua gramática hebraica, o que permitiu estudar mais a fundo as Escrituras Hebraicas. Erasmo publicou um texto grego das Escrituras Gregas Cristãs em 1516. Antes da Reforma, poucas pessoas na Cristandade Ocidental sabiam grego. Na Alemanha só um punhado de eruditos tinham conhecimento deste idioma, e não existiam professores para ensiná-lo. Depois da queda de Constantinopla, ocorrida em 1453, Gansfort conseguiu adquir noções daquele idioma com uns monges ortodoxos gregos que tinham fugido para o Ocidente. Quanto ao idioma hebraico, que naqueles tempos estava rigorosamente limitado aos Judeus, é possível que Gansfort o tenha aprendido com os judeus convertidos à fé cristã.

Gansfort amava muito a Bíblia. Considerava-a inspirada por Deus e cria que todos os seus livros se harmonizavam totalmente uns com os outros. Para ele, a interpretação das passagens bíblicas tinha de fazer-se de acordo com o contexto e sem distorções, e dizia ele que qualquer explicação forçada deveria considerar-se suspeita de heresia. Umas das suas passagens bíblicas favoritas era Mateus 7:7, que diz: “Buscai e encontrareis.” Apoiando-se neste versículo, Gansfort tinha a firme convicção de que é bom fazer perguntas, pois raciocinava ele muito bem que “sabemos o que perguntamos.”

Em 1473, Gansfort visitou a cidade de Roma e aí obteve uma audiência perante o Papa Sixto IV, que foi o primeiro de seis Pontífices Romanos cuja escandalosa conduta imoral levou a Igreja finalmente à Reforma. A historiadora Barbara Tuchman afirma que Sixto IV introduziu um período de “busca desenfreada, aberta e implacável de lucro pessoal e de poder político.” Esta Papa assombrou a opinião pública do seu tempo pelo seu descarado nepotismo. Outro historiador escreve que as suas intenções talvez fossem converter o Papado num negócio familiar. Naquele tempo poucos se atreviam a condenar os seus abusos.

Mas Wessel Harmenss Gansfort era diferente. Um dia, o Papa Sixto IV disse-lhe: «Filho, pede o que queiras, e tu daremos.” Gansfort, apoiando-se em Mateus 24:45-47, respondeu sem titubear: “Santo Pai, dado que vossa Mercê é o mais alto sacerdote e pastor de toda a Terra, peço-vos... que cumprais com o vosso elevado dever, de tal modo que, quando o Grande Pastor das ovelhas chegue, possa dizer-vos: ‘Muito bem, servo bom e fiel, entra no gozo de Teu Senhor’». A resposta do Papa Sixto IV foi que isso lhe correspondia a ele, e que Gansfort deveria solicitar algo para si mesmo. Ao que respondeu Gansfort: “Então peço-vos que me deis uma Bíblia grega e uma hebraica da Biblioteca do Vaticano.” O Papa outorgou-lhe a sua petição, não sem antes comentar que ele tinha sido um parvo, ao não pedir o bispado.

O Papa Sixto IV necessitava com urgência duma fonte de rendimentos para a construção da hoje famosa Capela Sixtina, e por isso recorreu à venda de indulgências a favor dos defuntos. As indulgências tornaram-se num rotundo êxito: “Viúvos e viúvas, e pais angustiados tudo gastavam para procurar tirar do purgatório os seus seres queridos”, assinala a obra “Vigários de Cristo - A cara oculta do Papado.” Os cristãos comuns acolheram as indulgências com entusiasmo, com a crença de que o Papa lhes podia garantir que os seus seres amados iriam para o Céu.

Não obstante, Gansfort estava totalmente convencionado de que a Igreja Católica – o Papa incluído- carecia do poder de perdoar pecados, e condenou abertamente a venda de indulgências como “um erro e uma mentira.” Tampouco cria que confessar-se perante um sacerdote fosse necessário para obter o perdão dos pecados. Questionou, além disso, a infalibilidade do Papa dizendo que os fundamentos da fé seriam fracos se os Cristãos tivessem de crer sempre nos papas, dado que cometem erros. Gansfort escreveu: “Se os prelados põem de lado os mandamentos de Deus e estabelecem os seus próprios mandamentos humanos, então o que fazem e mandam é inútil.”

Johann Wessel, ou com mais propriedade, Wessel Harmenss Gansfort ou Goesevoyrdt, nasceu em Groningen, na Holanda, por volta de 1419 e ali morreu neste dia, 4 de outubro de 1489. E, embora se tenha oposto a alguns dos males da Igreja Católica, nunca deixou de ser católico e a Igreja nunca o tachou de herege. Depois da sua morte, contudo, alguns monges fanáticos tentaram destruir os seus escritos porque não os consideravam puros.

O seu nome verdadeiro é ainda hoje assunto de debate. O mais provável é que ele tenha sido batizado com o nome de Wessel, assumindo o nome do Johannes enquanto viveu com os “Irmãos da Vida Comum” em Zwolle, e que o nome Harmenss viria do costume local de dar ao filho o nome do pai, neste caso Harmen, com a adição do sufixo que significa 'filho', e que latinizasse o seu nome Wessel como Basílio, enquanto que Gansfort era o nome de uma aldeia da Westfália, na Alemanha. Wessel Harmenss Gansfort permace ainda hoje praticamente um teólogo desconhecido. Não é para admirar que no tempo de Lutero, o nome de Wessel Harmenss Gansfort quase se tenha esquecido por completo, porque nenhuma das suas obras se havia impresso e muito poucos dos seus manuscritos tinham sobrevivido. A primeira edição das obras de Gansfort publicou-se finalmente entre 1520 e 1522, com prefácio do próprio punho de Martinho Lutero, que pessoalmente recomendava veementemente a sua leitura. Ainda que –diferentemente do Monge Agostiniano, Martinho Lutero- Gansfort não tenha sido um Reformador e tenha condenado de forma aberta alguns dos males que conduziram à Reforma, de facto, a “Enciclopedia de McClintock e Strong” chama-lhe “o mais importante dos homens de origem alemã que contribuíram para preparar o caminho para a Reforma.” Lutero viu um aliado em Gansfort. O escritor C. Augustijn assinala: «Lutero compara a sua própria época e situação com a de Elias. Tal como o profeta pensava que ele era o único que restara para lutar as batalhas de Deus, assim também Lutero sentia que estava totalmente só nas suas lutas contra a Igreja Católica. Mas, ao ler as obras de Gansfort, compreendeu que o Senhor tinha salvo a ‘um resto em Israel’». O mesmo escritor acrescenta: «Lutero chega ao ponto de afirmar: ‘Se eu tivesse lido as suas obras anteriormente, os meus inimigos diriam que eu tinha assimilado tudo de Gansfort, por o seu espírito ser tão acorde com o meu’».

Como sabemos a Reforma não se produziu de maneira repentina. De facto, a corrente de ideias que a ela conduziram não era nada novo. Gansfort deu-se conta de que, a longo prazo, a decadência dos erros doutrinais da Igreja Católica geraria nos Cristãos o desejo de uma mudança radical nas suas vidas espirituais. Numa certa ocasião disse a um de seus alunos: “Jovem estudioso, verás o dia em que os ensinos de teólogos hoje discutidos serão rechaçados por todos os eruditos do verdadeiro Cristianismo.”

Se bem que Gansfort se tenha apercebido de alguns dos males e abusos da Igreja dos seus dias, foi incapaz de revelar a verdade bíblica em todo o seu brilhante esplendor. Contudo, para ele, a Bíblia era um livro que devia ser lido e estudo. “Arguiu ele que segundo a passagem bíblica de II Timóteo 3:16, a Bíblia, sendo inspirada pelo Espírito Santo, é a autoridade final em assuntos de fé.” No nosso tempo, as verdades bíblicas já não são obscuras nem difíceis de encontrar, pois hoje há “Bíblias” por todo o lado, mais do que antes, para que o Pai das Luzes cumpra em nós o princípio bíblico favorito de Gansfort, como vem escrito no Livro de Mateus, capítulo sete e verso sete: “Buscai e encontrareis” o Salvador!

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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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