… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

11 de novembro de 1491 • Martinho Bucer, um pacificador entre os Irmãos Reformados


11 de novembro de 1491 Martinho Bucer, um pacificador entre os Irmãos Reformados
Martinho Bucer aos 53 anos de idade, numa gravura de René Boyvin

Apesar de hoje de não ser bem conhecido, porque os holofotes da Reforma estão postos sobre Martinho Lutero e João Calvino, no entanto, Martinho Bucer teve um enorme impacto sobre os crentes da sua época. A sua maior obra foi a sua dedicação à unificação de todos os verdadeiros crentes, superando as pequenas diferenças que Satanás sempre tem usado para separar a Igreja. Educado em escolas católicas, tornou-se professor de teologia na ordem dominicana. No entanto, após uma audição de Martinho Lutero explicando as Escrituras para os frades da ordem agostiniana, ele foi um dos poucos que se converteu à fé defendida por Lutero a respeito da “salvação pela fé.”

Martinho Bucer foi uma personagem de destaque nos movimentos da Reforma na Europa Continental e na Inglaterra. Bucer entrou para a Ordem Dominicana em 1506, mas a ênfase que acabou dando à obra do Espírito Santo fez dele, de muitas maneiras, um ancestral espiritual de João Wesley.

Martinho Butzer, em alemão, e em português, Martinho Bucer, nasceu neste dia de hoje, 11 de novembro de 1491, em Schlettstadt, na Alsácia, na França actual, que no seu tempo era então parte do Sacro Império Romano-Germânico e que ficou sob a administração dos Habsburgos da Áustria até que foi cedida à França no fim da Guerra dos Trinta Anos em 1648.

Martinho Bucer tomou conhecimento da teologia de Lutero em 1518, em Heidelberg. Convicto dos méritos da Reforma, em 1521 recebeu do papa a dispensa de seus votos religiosos. Retirou-se da sua ordem, e tornou-se um dos primeiros ex-padres católicos romanos a casar-se, tendo sido sua esposa, uma ex-freira, Elizabeth Silvereisen, em 1522. A sua excomunhão por causa da pregação da teologia luterana aconteceu em 1523.

Cativado pela disputa de Lutero contra o escolasticismo medieval realizada em Heidelberg, em 1518, Bucer, embora fosse membro da ordem de Tetzel, foi participar na defesa de Lutero. O seu “Sumário”, um tratado breve, estabeleceu claramente Bucer como discípulo de Lutero, e também como pessoa de espírito teológico independente e livre. No “Sumário” ele prenuncia o tema luterano de que os homens são justificados pela fé somente. Qualquer pessoa que não pode confiar assim ou que ensina de modo contrário à ‘sola fide’ é o anticristo. Um segundo tema mais independente - o poder e a orientação do Espírito Santo na leitura das Escrituras - é ampliado. A Palavra, à parte do Espírito e da fé, está divorciada de Jesus Cristo e da salvação. Este último tema é explorado sistematicamente pelo aluno mais ilustre de Bucer, João Calvino.

Bucer paulatinamente afastou-se de uma doutrina luterana da Eucaristia, e, sob a influência de Zuínglio e de Carlstadt, aceitou uma interpretação mais simbólica dos sacramentos. Mais radical do que Lutero, Bucer não tinha gosto pela doutrina da ubiquidade (omnipresença) do corpo de Cristo; ele achava consolo na ideia de Zuínglio de que o Corpo de Cristo está no Céu. Sentindo-se impossibilitado de aceitar a alegação de Zuínglio no sentido de que a Ceia do Senhor não é um meio de graça, no sentido rigoroso, Bucer passou para uma posição intermediária que rejeitava a declaração de Lutero a favor da ubiquidade do corpo de Cristo, mas que apoiava a noção luterana de que o sacramento é um meio através do qual Deus graciosamente alimenta a Sua igreja; desta forma, a Ceia do Senhor é um meio de graça. Embora afirmasse a insistência de Zuínglio de que o Corpo de Cristo está no Céu, à destra de Deus, Bucer seguiu por um outro caminho quanto à alegação de Zuínglio no sentido de que a Ceia do Senhor é somente um memorial, destituída de energia sacramental.

A posição intermediária de Bucer impulsionou-o a vários esforços conciliatórios no continente europeu e na Inglaterra. Com Wolfgang Capito foi co-autor da ‘Confissão Tetrapolitana’ (1530), uma tentativa feita na Dieta de Augsburgo para levar a efeito uma reconciliação entre as alas reformada e evangélica. Outra vez, na Concórdia de Wittemberg (1536) cooperou com Melanchthon para ajudar os teólogos luteranos da Saxónia a conseguirem união no tocante à doutrina da presença corpórea/espiritual de Cristo no sacramento. Na Inglaterra, desenvolveu uma doutrina de igreja como uma extensão viva da encarnação, dedicada à transformação da totalidade da ordem política e social com a sua ênfase na disciplina, visibilidade e transformação das entidades pessoais e colectivas. Estas opiniões foram publicadas postumamente sob o título “De regno Christi” (“Do Reino de Cristo”, 1551).

A posição mediadora de Bucer procurou ajustar as hostilidades no Continente Europeu entre os zuinglianos e os luteranos. Na Inglaterra, os seus pontos de vista, especialmente a ênfase que dava à obra do Espírito Santo no indivíduo crente, colocaram-no em desacordo com Lutero, porque Bucer não podia concordar com a afirmação de que a justificação desfaz automaticamente os impulsos pecaminosos, deixando de lado a lei e o velho homem. Bucer, portanto, adotou uma doutrina da justificação em duas etapas. Primeira: há o perdão do pecado mediante Jesus Cristo, sem o benefício de qualquer esforço ou contribuição humanos. Na segunda etapa - e esta é a controvertida - a pessoa é justificada à medida que começa a praticar obras de amor. Esta segunda etapa (justificado legis) abre a porta para a doutrina wesleyana do perfeccionismo e para a chamada puritana às evidências visíveis da vida pura.

Depois da Guerra da Esmalcalda e da derrota dos protestantes em 1547, o imperador do Sacro Império, Carlos V, deu a oportunidade de se resolverem as perturbações religiosas mediante o Interim de Augsburgo em 1548, que foi aceite pela maioria dos estados alemães e que foi imposto sobre a cidade livre de Estrasburgo. Bucer, e o seu colega mais jovem Paulus Fagius, opuseram-se energicamente por causa fundamento profundamente católico romano do documento. Mas quando o conselho da cidade livre de Estrasburgo, obrigado pela circunstâncias, aceitou o Interim, Bucer percebeu que não podia continuar a viver mais em Estrasburgo, como sempre fizera e partiu para Inglaterra, juntamente com Fagius, para onde tinha sido convidado por Thomas Cranmer, arcebispo de Canterbury e alma da Reforma na Inglaterra.

Nos seus últimos anos, como Catedrático de Teologia, na Universidade de Cambridge, desempenhou um papel relevante na criação do “Rito de Ordenação”, em 1550, e na reformulação do “Livro de Oração Comum” (1552). A doutrina da igreja adoptada por Bucer emergiu como uma contribuição significante para a discussão da igreja durante o período da Reforma. A sua ênfase dupla sobre a igreja e o Espírito Santo provavelmente influenciou a doutrina de Calvino da dupla predestinação: somente os eleitos têm o Espírito; os frutos do Espírito são evidências de que a pessoa está entre os eleitos.

Em abril de 1549, Bucer ePaulus Fagius chegaram a Londres, tendo-se encontrado com Cranmer e tendo sido recebido pelo rei Eduardo VI, de Inglaterra. Este desejava que traduziram a Bíblia do original para o latim, para que servisse como base da versão inglesa para o povo.

No fim do verão de 1549, Bucer e Fagius estabeleceram-se em Cambridge como professores e ajudaram na educação de candidatos para o ministério cristão. Fagius chegou primeiro a Cambridge, mas morreu de umas febres em novembro de 1549. Em janeiro de 1550 Bucer começou as suas classes em Cambridge, que foram frequentadas por uma grande quantidade de alunos, alguns dos quais exerceriam uma poderosa influência na Igreja anglicana. Bucer examinou o Livro de Oração Comum, o que induziu a uma disputação pública em 8 de agosto de 1550, expondo a oposição entre os bispos ingleses (que ainda dependiam de Roma) e os princípios evangélicos. A pedido do jovem rei Eduardo VI, de Inglaterra, Bucer escreveu “De regno Christiem” em 1551, que preparou em menos de três meses. Esta obra pretendia ensinar a verdadeira natureza do reino de Deus e os meios pelos que se poderia estabelecer num país como a Inglaterra. Esta foi a última obra de Bucer.

Pouco tempo depois do rei Eduardo VI ter recebido “De regno Christiem” com entusiasmo e da Universidade de Cambridge lhe ter concedido o grau de doutor em teologia incondicionalmente, coisa que nunca antes tinha acontecido, Martinho Bucer morreu em 28 de fevereiro de 1551, depois de uma curta enfermidade, em Cambridge, na Inglaterra, Foi enterrado com grandes honras na igreja principal em Cambridge, mas em 1556 o seu corpo foi exumado e queimado publicamente. Quatro anos depois a rainha Isabel I de Inglaterra honrou de novo a sua memória.


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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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