… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

domingo, 13 de novembro de 2016

13 de novembro de 354 • Aurélio Agostinho, o “Doctor Gratiae”


13 de novembro de 354 Aurélio Agostinho, o “Doctor Gratiae”


Agostinho num fresco de Sandro Botticelli
Aurélio Agostinho (em latim: Aurelius Augustinus), Agostinho de Hipona, ou também conhecido como Santo Agostinho foi um dos maiores teólogos da antiguidade cristã. Agostinho nasceu neste dia, 13 de novembro de 354 em Tagaste, que no nosso tempo se chama Souq Ahras, na Argélia, no Norte de África, filho de Patrício, um pagão, e de Mónica, uma cristã. Estudou gramática em Madaura e retórica em Cartago, e foi intelectualmente estimulado ao ler “Hortensius”, de Cícero. Depois de uma vida carnal durante os seus dias de estudante, afiliou-se na religião maniqueísta (373). Ensinou gramática e retórica no Norte de África (373-82) e, depois, em Roma (383), onde abandonou os maniqueus e se tornou um céptico. Mudou-se para Milão a fim de ensinar (384), onde foi posteriormente influenciado pela leitura da filosofia neoplástica e dos sermões de Ambrósio. Foi convertido por meio de uma exortação, ouvida por acaso num jardim, tirada de Rm 13:13-14, foi baptizado por Ambrósio juntamente com seu filho, Adeodato, na vigília da Páscoa, em 387, em Milão, e logo depois, em 388 ele regressou ao Norte de África. E durante esta viagem de regresso sua mãe faleceu, e pouco depois também seu filho, pelo que Aurélio Agostinho achou-se sozinho, sem família.

Depois de anos de retiro e de estudo, Agostinho foi ordenado sacerdote em Hipona, no Norte de África (391), onde estabeleceu um mosteiro, e, mais tarde, foi ordenado bispo (395). O restante da sua vida pode ser melhor visto nas controvérsias em que participou e nos escritos que produziu. Agostinho morreu em 28 de agosto de 430, quando os vândalos estavam sitiando a cidade de Roma.

De modo geral, as obras de Agostinho dividem-se em três períodos.

Primeiro período (386-96). A primeira categoria das suas obras neste período consiste em diálogos filosóficos: “Contra os Académicos” (386), “A Vida Feliz” (386), “Da ordem” (386), “Da Imortalidade da Alma e Da Gramática” (387), “Da Grandeza da Alma” (387-88), “Da Música” (389-91), “Do Professor” (389) e “Do Livre Arbítrio” (388-95). O segundo grupo é composto de obras contra os maniqueus, tais como “Da Moral da Igreja Católica” e “Da Moral dos Maniqueus” (388), “Das Duas Almas” (391), e da “Controvérsia Contra Fortunato, o Maniqueu” (392). Esta última categoria é composta de obras teológicas e exegéticas tais como: “Contra a Epístola de Maniqueu” (397), “Questões Diversas” (389-96), “Da Utilidade de Crer” (391), “Da Fé e do Símbolo” (393) e algumas “Cartas” e “Sermões”.

Segundo período (396-411). Este grupo contém seus escritos anti-maniqueístas posteriores, tais como: “Contra a Epístola de Maniqueu” (397), “Contra Fausto, o Maniqueu” (, 398) e “Da Natureza do Bem” (399). Em seguida, houve uns escritos eclesiásticos, tais como “Do Baptismo” (400), “Contra a Epístola de Petiliano” (401) e “Da Unidade da Igreja” (405). Finalmente, houve neste período a redacção de algumas obras teológicas e exegéticas, tais como as famosas “Confissões” (398-399), “Da Trindade” (400-416), “De Génesis Segundo o Sentido Literal” (400-415), “Da Doutrina Cristã (387) e “Cartas, Sermões e Discursos sobre Salmos”.

Terceiro período (411-30). As obras no período final dos escritos de Agostinho eram, em grande medida, anti-pelagianas. As primeiras obras que escreveu contra os pelagianos foram: “Dos Méritos e da Remissão dos Pecados” (411-12), “Do Espírito e da Letra” (412), “Da Natureza e da Graça” (415), “Da Correção dos Donatistas” (417), “Da Graça de Cristo e Do Pecado Original” (418), “Do Casamento e da Concupiscência” (419-420), “Da Alma e Sua Origem” (419), “O Enquirídio” (421) e “Contra Juliano” (dois livros, 421 e 429-30). O segundo grupo de escritos antipelagianos inclui: “Da Graça e do Livre Arbítrio” (426), “Da Repreensão e da Graça” (426), “Da Predestinação dos Santos” (428-29), e “Da Dádiva da Perseverança” (428-29). As últimas grandes obras neste período são teológicas e exegéticas, incluindo aquela que talvez tenha sido a maior de todas: “A Cidade de Deus” (413-26). “Da Doutrina Cristã” (Livro IV, 426) e as “Retratações” (426-27) que se encaixam bem aqui, assim como um grande número de “Cartas, Sermões e Discursos Sobre os Salmos”.

Agostinho argumentou a favor da auto-existência de Deus (“A Cidade de Deus” XI,5), da Sua absoluta imutabilidade (“A Cidade de Deus” XI, 10), da Sua singeleza (“A Cidade de Deus” VIII, 6), porém Deus é uma unidade de três de Pessoas (“Confissões” 169, 2, 5) nesta única essência. Deus também é omnipresente (“A Cidade de Deus” VII, 30), omnipotente (CGV, 10), imaterial (espiritual) (“A Cidade de Deus” VIII, 6), eterno (“Da Trindade” XIV, 25, 21). Deus não está dentro do tempo mas é o criador do tempo (“Cartas” XI, 4).

Para Agostinho, a criação não é eterna (“Confissões” XI, 13,15). É ex nihilo (do nada) (Confissões XII, 7, 7), e os "dias" de Génesis podem ser longos períodos de tempo) (“A Cidade de Deus” XI, 6-8). Cada alma não é criada na ocasião do nascimento, mas é gerada pelos pais (“Da Alma e Sua Origem” 33).

A Bíblia é divina (“O Enquirídio” 1,4), infalível (“A Cidade de Deus” XI, 6), inerrante (“Cartas” 28,3), e somente ela tem autoridade suprema (“A Cidade de Deus” XI, 3) sobre todos os demais escritos (“Contra Fausto, o Maniqueu” XI, 5). Não há contradições na Bíblia (“A Cidade de Deus” VII, 6,8). Qualquer erro somente poderia estar nas cópias, não nos manuscritos originais (“Cartas” 82, 3). Os onze livros apócrifos também fazem parte do cânon (“A Cidade de Deus” II, 8, 12), porque faziam parte da LXX, que Agostinho cria ser inspirada, e porque contêm muitas histórias maravilhosas dos mártires (“A Cidade de Deus” XVIII, 42). Agostinho reconhecia que os judeus não aceitavam estes livros apócrifos (“A Cidade de Deus” XIV, 14). O cânon foi fechado com os apóstolos do N. T. (“A Cidade de Deus” XXXIX, 38).

Agostinho cria que o pecado tinha a sua origem no livre arbítrio, que é um bem criado (“Da Trindade” XIV, 11). O livre arbítrio subentende a capacidade de praticar o mal (“A Cidade de Deus” XII, 6). É um acto voluntário (“Da Trindade” XIV, 27), não-compulsório (“Das Duas Almas” X, 12), determinado pela própria pessoa (“Do Livre Arbítrio” III, 17,49). Parece que Agostinho se contradisse mais tarde quanto a esse conceito, quando concluiu que os donatistas podiam ser forçados a crer contra a sua vontade (“Correção dos Donatistas” III, 13). Com a queda, o homem perdeu a capacidade de praticar o bem sem a graça de Deus (E 106); contudo, mantém a capacidade de livre escolha para aceitar a graça de Deus (“Cartas” 215, 4; “Do Livre Arbítrio” 7). A verdadeira liberdade, porém, não é a capacidade de pecar mas a capacidade de praticar o bem (“A Cidade de Deus” XIV, 11), e somente os redimidos a têm (“O Enquirídio” 30).

Agostinho cria que o homem foi diretamente criado por Deus, sem pecado (“Da Natureza de Deus”, 3); a raça humana inteira derivou de Adão (“A Cidade de Deus” XII, 21). Quando Adão pecou, todos os homens pecaram nele de forma seminal (“Dos Méritos e da Remissão dos Pecados” 14). O homem é uma dualidade de corpo e alma (“Da Moral da Igreja Católica” 4, 6), e a imagem de Deus está na alma (“A Cidade De Deus” I, 22, 20). A queda não erradicou esta imagem (“Do Espírito e da Letra” 48), embora a natureza do homem fosse corrompida pelo pecado (“Contra a Epístola de Maniqueu” XXXIII, 36). A vida humana começa no ventre na ocasião da animação (“O Enquirídio” 85). Os abortos antes deste tempo simplesmente "perecem" (“O Enquirídio” 86). A alma do homem é superior e melhor que o seu corpo, (“A Cidade de Deus” XII, 1), sendo que este é o adversário do homem (CX, 21, 43; “Da Trindade” 111,103). Haverá uma ressurreição física dos corpos de todos os homens, justos e injustos (“O Enquirídio” 84,92), para a eterna bem-aventurança ou agonia, respectivamente.

Agostinho cria que Cristo era plenamente humano (“Da Fé e do Credo” IV, 8), porém sem pecado (“O Enquirídio” 24). Cristo assumiu no ventre da virgem esta natureza humana (“Da Fé e do Credo” IV, 8), porém Ele também era Deus desde toda a eternidade, da mesma essência do Pai (“Da Trindade” I, 6,9). Cristo, no entanto, era uma só pessoa (“O Enquirídio” 35). Mesmo assim, estas duas naturezas estão tão distintas entre si (“Cartas” CXXXVII, 3,11) que a natureza divina não se tornou humana na encarnação (“Da Trindade” 1, 7, 14).

A fonte da salvação é o eterno decreto de Deus (“A Cidade de Deus” XI, 21) imutável (“A Cidade de Deus” XXII, 2). A predestinação está de acordo com a presciência de Deus sobre a livre escolha feita pelo homem (“A Cidade de Deus” V, 9). Tanto os que são salvos quanto os que são perdidos são predestinados assim (“Da Alma E Sua Origem” IV, 16). A salvação é operada somente pela morte vicária de Cristo (“O Enquirídio” 33). É recebida pela fé (“O Enquirídio” 31). As crianças, no entanto, são regeneradas pelo batismo, à parte da sua fé (“Do Perdão dos Pecados e do Baptismo” I, 44).

Para Agostinho, o amor é a lei suprema (“A Cidade de Deus” XV, 16). Todas as virtudes são definidas em termos de amor (“Da Moral da Igreja Católica” XII, 53). A mentira sempre é errada, até mesmo para salvar uma vida (“Cartas” 22, 23). Em situações conflituantes, é Deus, e não nós, quem determina quais são os pecados maiores (“O Enquirídio” 78, 79). Deus, às vezes, autoriza excepções a um mandamento moral, de modo que matar é permissível numa guerra justa (“A Cidade de Deus” XIX, 7), e até mesmo em casos tais como o suicídio auto-sacrificial de Sansão (“A Cidade de Deus” I, 21).

Os escritos de Aurélio Agostinho têm exercido uma tal influência como nenhum outro Pai da Igreja. Agostinho é o pai de todo o Cristianismo Ocidental do seu tempo. É verdade que o Catolicismo Romano nunca aceitou oficialmente na sua totalidade a doutrina da graça de Agostinho, mas este fato é de relativa pouca importância quando pensamos na colossal influência que os seus escritos tiveram no gradual processo da doutrina na sua totalidade, não existindo um só dogma do Catolicismo Romano que seja totalmente inteligível historicamente sem que se refira o seu ensino. “Não há missa sem vinho, nem sermão sem santo Agostinho”, dizia-se. Não foi só sobre os dogmas da Igreja Ocidental que Agostinho exerceu grande influência, também o seu desenvolvimento hierárquico e científico deriva dele. A grande batalha política entre os chefes rivais da Cristandade Ocidental, o Papa e o Imperador, é explicável, no seu mais profundo significado, através da sua obra “De civitate Dei”. Quando a teologia medieval estava mais ativa, era-o sobretudo pela sua influência, tendo sido o movimento escolástico determinado, nas suas especulações e métodos, por ele. Agostinianas são as influências que moldaram os movimentos precursores da Reforma. Mas quando referi que Santo Agostinho foi o pai do Catolicismo Romano medieval, não disse tudo, porque embora o efeito do seu ensino no Cristianismo do Oriente tenha sido indireto, os Reformadores encontraram um aliado nele, no “Doctor Gratiae”. As características que distinguem as Igrejas Reformadas das de tradição luterana encontram-se na tradição agostiniana. Na história da filosofia também Agostinho de Hipona foi uma força além da Idade Média, pois tanto em Descartes como em Spinoza a sua voz pode ser ouvida. E por aqui me fico porque pretendo apenas dar umas pinceladas graciosas sobre Santo Agostinho já que a sua influência requer muitos volumes para ser contada, o que foge do meu propósito.


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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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