… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

14 de novembro de 1921 • José Fontoura, a graça de Deus fez isto


14 de novembro de 1921 José Fontoura,

a graça de Deus fez isto

Neste dia, aos catorze dias do mês de novembro de 1921, no lugar do Palhal, freguesia da Branca, concelho de Albergaria-a-Velha, distrito de Aveiro, Portugal, nasce um varão a quem chamaram José Fontoura (na foto) e  a quem deram a religião da família.

Seguiu o catolicismo com sinceridade, até aos 17 anos de idade. Por então, sofrer grandes desilusões desertou e embrenhou-se na obscuridade do ateísmo, até aos 20 anos. Procurou viver a sua juventude o mais intensamente que pôde, evitando, todavia, os caminhos da imoralidade, avisado pelas misérias físicas e morais que via. Aos poucos começou a temer o seu futuro temporal, por não descortinar o real sentido da vida. Mercê disso, foram acudindo à sua mente os primeiros pensamentos de suicídio.

Eram frequentes os encontros, e as “discussões” entre ele e um crente no Senhor da mesma terra. O crente que nunca se dava por vencido, insistia em o convidar para ele ouvir o Evangelho quem lhe falasse melhor do que ele próprio. E foi para se livrar daquele “maçador” que este jovem foi escutar o Evangelho numa igreja, sem o desejar.

Iniciou-se no dia 11 de setembro de 1942, uma semana de conferências especiais, em Estarreja. Joaquim Silvério Vieira, de Lisboa, pregou sobre a ressurreição de Lázaro. A contenda do Espírito de Deus com o raciocínio do jovem ateu, na primeira metade da mensagem, foi tremenda e decisiva. Antes que o pregador terminasse, Fontoura estava reconciliado com Deus, pois havia recebido Cristo como Salvador e Senhor na sua vida. No dia seguinte já encorajado pelo Senhor, apresentou-se no ensaio de uma revista, porquanto o teatro de amadores era uma das suas grandes paixões. Apresentou-se, não para ensaiar e mas sim para se despedir. O espanto foi geral. Ninguém podia acreditar, por muitos motivos. Nessa mesma noite o novo crente experimentou a primeira prova da sua fé com perseguição. Nas noites seguintes voltou às conferências.

Pouco passava de um mês, após a conversão, quando ele assentou praça no Exército. No fim da recruta, seguiu num corpo expedicionário para a Ilha Terceira, uma das doze ilhas dos Açores. Estava em curso a Segunda Guerra Mundial. Não existia na ilha uma igreja evangélica e nenhum dos seus camaradas era crente. Para escapar à corrupção reinante entre os militares e o meio civil, o nosso Irmão conduziu-se como um velho. Por causa do seu testemunho ele foi transferido da Secretaria do Comando para o Depósito de Abastecimentos do batalhão. Foi uma recompensa do Senhor. Desde então não houve mais roubos nas rações, os militares receberam boa alimentação e em quantidade, razão porque ele era mais respeitado do que alguns oficiais.

Negociado o acordo secreto sobre o arrendamento dos Açores entre os Governos português e britânico, Fontoura regressou ao Continente e ao emprego.

Os militares seus conterrâneos que tinham ido no corpo expedicionário para a Ilha Terceira e regressaram antes do Irmão Fontoura, ao saberem da sua conversão garantiram que ele se perderia naquele ambiente de tentações e voltaria “curado”. Uma vez que isso não se confirmou, os sinais de maior endurecimento tornaram-se evidentes. Quando ele se cruzava com as pessoas e as cumprimentava, elas voltavam a cara para outro lado e cuspiam ruidosamente.

Certo dia, à hora do almoço, no refeitório do seu emprego, estudava ele o Novo Testamento com mais dois crentes. Um dos seus amigos aproximou-se e avisou o Irmão Fontoura acerca de um plano, urdido da parte da manhã, contra a sua vida. Referenciou os nomes dos três conjurados, que ele ouvira sem eles saberem. Era sexta-feira, dia de reunião na assembleia local. O nosso Irmão fazia o trajecto para a igreja, de noite, através de uma zona arborizada e sem casas. Esperá-lo-iam aí, para o matar. Todos se compenetraram da gravidade do momento.

O nosso Irmão recusou a ideia de ficar em casa e não teve a veleidade de se arvorar em herói da fé. Ao longo da tarde admitiu a possibilidade de ir por outro caminho.

Mal chegou a casa, dirigiu-se ao calendário, porque na manhã daquele dia não tinha podido ler a folhinha. “Não temas as coisas que hás-de padecer ... Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida” (Ap.2:10). Era a palavra que lhe faltava. Foi, sem trocar caminho. A eternidade revelará o que levou estes inimigos a desistirem dos seus sinistros intentos. Os anos passaram, e hoje o seu nome é recordado e respeitado pelas gentes da sua terra.

A sua alma assemelhava-se a uma esponja enxuta, sedenta de um maior conhecimento do Senhor e dos valores espirituais eternos. O Irmão Sobral [Viriato Dias Sobral (4 de agosto de 1908 - 27 de junho de 1992)], que o tinha ajudado muito no período da sua ausência nos Açores com as suas cartas, iniciou uma pequena escola bíblica para futuros pregadores, no Palhal. Resultou desse esforço que depressa este Irmão começasse a visitar as igrejas, numa área cada vez mais dilatada, e expusesse a Palavra que ia recebendo da parte de Deus. Ao mesmo tempo, Irmãos e igrejas, cá e no estrangeiro, oravam pela sua consagração à Obra, se o Senhor lhe mostrasse ser essa a Sua vontade. O primeiro sinal foi dado por uma irmã inglesa, que mandou um cheque, para lhe ser entregue no dia da sua eventual consagração. O dia chegou em julho de 1945, na igreja que está no Palhal.

O Irmão Fontoura foi viver com a família Sobral, em Espinho. O seu ministério ia-se estendendo a distâncias cada vez maiores, consoante se confirmavam e desenvolviam os seus dons. Em janeiro de 1949, casou com Lila Marques Pereira, filha de Manuel Marques Pereira (1868-1940), que foi o pregoeiro - sofredor do Baixo Vouga por muitos anos.

O novo casal fixou residência em Cacia, onde permaneceram até à partida de ambos para a eternidade. Deus contemplou-o com dois filhos - Ruben e Normando.

Este nosso Irmão foi abrindo novos trabalhos e cooperando com o Irmão Sobral e outros obreiros. Nesta já longa carreira tem-se visto confrontado com situações difíceis. Em S. João de Loure, freguesia rural de Albergaria-a-Velha, ele abriu um trabalho. As almas convertiam-se. Num domingo terminada a missa, o padre saiu para a porta do templo e ordenou ao povo que expulsasse os protestantes, vivos ou mortos. “Podeis matá-los” - disse ele - “porque para eles não há lei que os proteja”. Três vezes seguidas, em noites de reunião, o povo acorreu em massa com toda a sorte de alfaias agrícolas. Informadas, as forças da G. N. R. de Albergaria-a-Velha acudiram prontamente. Mas o povo, incitado pelo padre, dispunha-se a um confronto com as Forças da Ordem. Salazar [António de Oliveira Salazar (Vimieiro, Santa Comba Dão, 28 de abril de 1889 — Lisboa, 27 de julho de 1970) foi um estadista, político português e professor catedrático da Universidade de Coimbra. Notabilizou-se pelo facto de ter exercido, de forma autoritária e em ditadura, o poder político em Portugal entre 1932 e 1968. Foi também ministro das Finanças entre 1928 e 1932.], a quem Fontoura telegrafou, comunicou ao Governo Civil de Aveiro e este, por seu lado, ordenou a toda a G. N. R. desde Coimbra até Albergaria, que interviesse em força, se a ordem não fosse imediatamente restabelecida. Salazar também escreveu ao Irmão Fontoura para o tranquilizar. O povo deixou de se amotinar, é certo, mas o ódio ficou-lhe no coração. No decorrer desta grave crise, Deus praticou milagres bem dignos de uma descrição pormenorizada. Os cabecilhas foram julgados, mas Fontoura perdoou-lhes.

A família Sobral acolheu um indivíduo, ainda novo, que se apresentou como padre em busca da Verdade. Após o seu baptismo foi feito pregador. Quando Fontoura lidou com ele de perto, suspeitou do seu carácter. Para não jurar falso levou a efeito uma investigação quase a nível nacional. Desmascarado o burlão em reunião pública, foi disciplinado. De Lisboa para onde foi, escreveu ao Irmão Fontoura a prometer “emoções fortes “para breve. O indivíduo ingressou na PIDE [A Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE) foi uma polícia existente em Portugal entre 1945 e 1969. Apesar de ser, hoje em dia, sobretudo conhecida como polícia política, as funções da PIDE eram bastante mais abrangentes, sendo especialmente importantes as suas funções nos setores dos serviços de estrangeiros, fronteiras e segurança do Estado.]. Pouco depois, o Irmão Ilídio Freire preveniu o Irmão Fontoura de que o seu telefone estava sobre escuta e que tivesse cuidado com as suas conversas, etc.. Tinha sido informado disto por um oficial seu amigo naquela Polícia Política. Com efeito, este Irmão passou a ser seguido, durante muitas semanas e sempre pelo mesmo carro, nos trajectos para as reuniões e regresso. Finalmente, foram nomeados os agentes que procederiam à sua prisão, em Cacia. A anulação dessa ordem ficou a dever-se a um “curioso” milagre de Deus, que também mereceria ser contado. A carreira do Irmão Fontoura está assinalada pelos mais diversos episódios.

À medida que os filhos iam medrando cresciam as preocupações do nosso Irmão pelo futuro espiritual deles. Depois da Escola Dominical, nada era feito especificamente para adolescentes e jovens, salvo o excelente trabalho da Mocidade para Cristo, na área de Lisboa. O Senhor atendeu à sua preocupação e ele iniciou reuniões de jovens, juntamente com sua mulher, nas igrejas sob sua responsabilidade. Desde então muitos jovens têm sido salvos nestas reuniões.

Deus tinha reservado outra missão para o Seu servo, que ele nunca previra, também na área da juventude. Em 9 de agosto de 1971, chegou ao Palhal, acompanhado por D. Lila, a sua esposa, os seus dois filhos e um pequeno grupo de jovens. Improvisaram o primeiro Acampamento, com extrema pobreza e sem nenhum plano.

O plano na verdade, existia, mas nas mãos de Deus. Estes Acampamentos, feitos num pedaço de paraíso, continuaram a ser dirigidos pelo Irmão José Fontoura até ao ano da sua partida. Posteriormente à sua morte, os Irmãos das igrejas que contribuíram para a obra naquele lugar criaram uma Associação - Centro Evangélico de Retiros do Palhal - para que a obra pudesse continuar, como ainda hoje continua. De facto, muitos jovens têm feito ali o seu encontro real com Cristo. E muitos outros, convertidos, vão lá “carregar as baterias”- como dizem. No decurso de todos estes anos já não têm conta os servos e servas de Deus que O servem nesta obra, incluindo os construtores, com os seus dons e capacidades. O Senhor os honrará.

Deus concedeu ao nosso Irmão os dons de evangelização, edificação e ensino. Tudo fez para se conservar fiel à revelação das Escrituras, e na defesa das suas convicções chegou a ser polémico e intransigente. Nos últimos tempos da sua vida labutou em defesa da verdade do baptismo na água, negada por alguns como sendo uma doutrina para os nossos dias.

Também serviu o Senhor fora de Portugal: Na Alemanha, na Suíça e nos Estados Unidos da América. E houve tempo que o fez diversas vezes em Espanha.

Após doença que o afligiu durante os últimos anos da sua vida, partiu para o Senhor, no leito de sua casa, no dia 29 de dezembro de 1996. A comunidade evangélica foi à cerimónia do funeral, e pelas ruas da sua terra, Cacia, testemunhou publicamente do Senhor Jesus Cristo, entoando lindos hinos. O trânsito parou e o povo de Cacia parou perante o testemunho que ali foi deixado.

José Fontoura (14/XI/1921 – 29/XII/1996), obreiro a tempo integral entre os Irmãos, na Região da Beira-Vouga, Portugal.

Fontes:
Refrigério n.º 55 [Mai-Jun 1996] páginas 8 e 9
http://www.refrigerio.net/images/stories/pdf/refrigerio055.pdf

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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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