… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

21 de novembro de 1768 • Friedrich Schleiermacher, o teólogo mais influente do século XIX


21 de novembro de 1768 Friedrich Schleiermacher, 


o teólogo mais influente do século XIX
Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher (na imagem) foi o teólogo mais influente do século XIX, frequentemente chamado o pai da teologia Protestante liberal ou da teologia da experiência religiosa. Nasceu em Breslau, neste dia 21 de novembro de 1768, filho de um capelão militar reformado, foi educado nas escolas morávias onde foi profundamente impressionado pelo pietismo místico. Em 1787 entrou na Universidade de Halle e estudou os escritos de Kant (Königsberg, 22 de abril de 1724 — Königsberg, 12 de fevereiro de 1804) e Spinoza (24 de novembro de 1632, Amsterdão — 21 de fevereiro de 1677, Haia).

O desenvolvimento intelectual de Schleiermacher depois de 1796 foi influenciado profundamente pela sua associação, em Berlim, com o movimento romântico que então florescia, e que se revoltava contra as normas clássicas na literatura e na arte, e contra o racionalismo árido do Iluminismo. Instigado por Friedrich Schlegel (10 de março de 1772, Hanôver - 11 de janeiro de 1829, Dresden), um dos líderes do novo movimento, Schleiermacher escreveu “On Religion: Speeches to Its Cultured Despisers” (“Discursos sobre a religião, endereçados aos seus desdenhadores cultos”) em 1799 para os seus companheiros no romantismo. Alegou que eles tinham renunciado à religião porque os racionalistas haviam reduzido erroneamente a essência dela ao conhecimento, adquirido através da razão e expressado em doutrinas, ou à moralidade percebida através da consciência e demonstrada no comportamento moral. Ao fazerem assim, tinham desconsiderado o sentimento, que não somente era um componente primário do romantismo, como também a própria essência da religião. Schleiermacher, portanto, redefiniu a religião como um elemento singular da experiência humana, não localizado na faculdade cognitiva ou moral, que meramente produz um conhecimento indireto de Deus mediante a inferência, mas no sentimento, que oferece uma experiência imediata de Deus.

Tal redefinição da essência da religião não a reduziu à mera emoção psicológica nem ao mero enlevo psicológico, mas certamente tornou a religião radicalmente subjetiva. A sua alegação de que a piedade surge da experiência de Deus (o Infinito) através da nossa experiência do mundo (o finito), não da metafísica racional nem da reflexão doutrinária, formava um paralelo com um tema romântico dominante. As pessoas compreendem o mundo em que vivem mais através da imaginação e das experiências intuitivas na natureza do que pelo estudo através da análise racional ou do método científico. A ênfase que Schleiermacher dava à imanência de Deus, à Sua presença no mundo e à experiência subjetiva de Deus vivida pelo crente, em vez da transcendência de Deus e da Sua realidade objetiva, levou os tradicionalistas a acusá-lo repetidas vezes de panteísmo. “On Religion” é significativo porque introduziu um novo conceito de religião que invertia os métodos tradicionais da teologia. Ao invés da experiência religiosa brotar das expressões doutrinárias ou da vida eclesiástica, a própria religião era postulada como a experiência incomparável e primária da existência humana.

Schleiermacher partiu de Berlim em 1804 para se tornare catedrático de teologia na Universidade de Halle, onde demonstrou a amplitude da sua cultura ao ensinar todas as matérias do currículo menos o AT. Em 1807, voltou para Berlim, deu preleções sobre a filosofia grega e começou a pregar na Igreja da Trindade, até duas semanas antes da sua morte em 1834. Ajudou a planear a Universidade de Berlim e tornou-se Catedrático de Teologia quando a Faculdade foi fundada em 1810.

Assim como Kant havia subjetivado o conhecimento ao reduzir a sua apreensão às categorias do entendimento humano, reinterpretando subsequentemente o cristianismo em “A Religião dentro dos Limites da Mera Razão como um moralismo deísta”, também Schleiermacher reformulou a teologia em “A Fé Cristã conforme a sua redefinição romântica da religião.” No seu pensamento maduro, definiu a religião como “o senso de total dependência” ou “consciência de Deus.” Declarações teológicas não descrevem a Deus de nenhuma maneira objectiva, mas, pelo contrário, são modos de relacionar Deus com o senso cristão de dependência total. A teologia é uma disciplina histórica cuja tarefa é registar a experiência religiosa de cada nova geração.

Schleiermacher rompeu com a teologia reformada, agostiniana e paulina do pecado original ao negar uma queda histórica. Ao invés de ser um evento real, a queda em Génesis é uma história que ilustra como os atos individuais do pecado resultam da natureza pecaminosa em todas as pessoas. Negou não somente que o pecado original é uma corrupção herdada, como também que Adão tivesse sido criado justo e que, pelo seu pecado, tivesse mergulhado a raça humana no mesmo pecado. A natureza humana sempre tem sido uma mistura da “justiça original” (consciência de Deus em potencial) e do “pecado original” (esquecimento de Deus). A justiça e o pecado coexistem dentro da natureza humana conforme foi originalmente criado e o homem depois da queda. O pecado em Génesis 3 não é rebeldia deliberada contra o Criador soberano, mas uma simples falha pela qual a pessoa subordina o seu senso de total dependência às preocupações temporais tais como o prazer e a dor.

A despeito do seu potencial para terem consciência de Deus, os seres humanos são incapazes de se salvarem a si mesmos. A superioridade do cristianismo em relação às outras religiões acha-se na sua provisão da redenção mediante Jesus Cristo. Schleiermacher criticava as discussões tradicionais da Pessoa e da obra de Cristo porque ressaltavam a crença nas ideias a respeito de Cristo, e não a experiência da redenção por si mesma. Como Redentor, Cristo é tanto o exemplo ideal como a origem dessa nossa consciência de Deus que vence o pecado. Argumentava que os crentes experimentam a regeneração (a sua consciência de Deus) ao participarem da vida corporativa da igreja contemporânea, mais do que pela simples crença na morte e na ressurreição de Cristo na história. Indicou que os discípulos de Jesus foram atraídos para dentro da consciência que Cristo tinha de Deus antes de crerem na Sua ressurreição. Chamava “místico” a esse conceito da redenção, para o distinguir do conceito reformado que focaliza a obra vicária de Cristo, uma transação entre Cristo e o Pai que é externa à experiência religiosa do crente. Semelhante ponto de vista seria por demais objetivo e individualista, negligenciando o papel da comunidade dos crentes que é mediar a redenção. Ao mesmo tempo, também rejeitava os conceitos naturais como o de Kant, que reduzia a redenção à obediência moral.

A revisão que Schleiermacher fez da teologia cristã teve o seu impacto mais radical sobre a questão da autoridade. Nenhuma autoridade externa, quer sejam as Escrituras, a Igreja, ou uma declaração histórica na forma de um credo, tem precedência sobre a experiência imediata dos crentes. Essa ideia contribuiu para uma abordagem mais crítica à Bíblia, ao questionar a sua inspiração e autoridade, e a uma rejeição das doutrinas que, segundo ele acreditava, não tinham relação com a experiência religiosa da redenção, tais como o nascimento virginal, a Trindade e a Segunda Vinda de Cristo - crenças estas que subentendiam um conhecimento cognitivo, e, portanto, indireto, ao invés de uma consciência imediata de Deus.

Essas suas ideias conquistaram ampla aceitação no século XIX. A influência de Schleiermacher ficou evidente não somente na morte do deísmo iluminista na Europa, como também na ascensão do liberalismo teológico nos Estados Unidos, onde, na década de 1920, rugiam disputas entre os modernistas e os fundamentalistas a respeito da divindade e da ressurreição de Cristo. As suas ideias foram fortemente desafiadas depois da Primeira Guerra Mundial pelo teólogo neo-ortodoxo Karl Barth (Basileia, 10 de maio de 1886 — 10 de dezembro de 1968), que o acusou de ter não somente reinterpretado doutrinas essenciais, como também de ter comprometido a singularidade de Cristo ao fazer dela apenas uma entre muitas formas de religião.

Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher faleceu em Berlim, no dia 12 de fevereiro de 1834.


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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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