… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

25 de novembro de 1854 • João Kitto, estudioso surdo da Bíblia


25 de novembro de 1854 João Kitto, estudioso surdo da Bíblia

João Kitto melhorou a aparência e o conteúdo das ajudas no estudo da Bíblia
João Kitto é lembrado como o compilador e ilustrador de histórias da Bíblia e das melhores enciclopédias bíblicas até à sua época. Ironicamente, foi um trágico acidente, que preparou o seu caminho para a imortalidade.

A frequência da escola não era obrigatória quando João nasceu numa família pobre em Plymouth, na Inglaterra, em 1804. Quando ele tinha a oportunidade de ir à escola ele ia de boa vontade. E mesmo assim conseguiu apenas obter três anos de escolaridade e para isso frequentou quatro escolas diferentes. Mas, com a ajuda da sua avó, ele aprendeu o suficiente para devorar todos os livros que lhe viessem parar às suas mãos.

João era um rapaz frágil. No entanto, aos doze anos de idade foi obrigado a ter de ajudar o seu pai, um pedreiro alcoólico. Foi nesta ocasião que a sua vida mudou definitivamente. Ele caiu duma altura de mais de 10 metros enquanto carregava telhas de ardósia por uma escada. Embora tenha recuperado da maioria dos ferimentos causados pela queda, nunca mais foi capaz de ouvir.

A avó de João morreu no ano seguinte. O menino foi atirado para um reformatório em Plymouth, na Inglaterra. As autoridades encaminharam a sua aprendizagem para um fabricante manual de sapatos. Este homem tinha o máximo prazer em chicotear o João por ele não cumprir as ordens que lhe dava. Pudera, o rapaz não as podia ouvir! Então os magistrados mandaram o menino de volta para o reformatório.

Gradualmente as portas foram-se abrindo para ele. Os provedores do asilo conseguiram algum dinheiro para sustentá-lo e obtiveram permissão para ele trabalhar na biblioteca pública da localidade. Aqui, ele continuou a educar-se. Por essa altura João começou a pintar quadros, sempre que podia, e ilustrações para as histórias da Bíblia.

Um dos seus benfeitores foi o médico dentista Anthony Norris Groves, que em 1824 lhe ofereceu emprego como seu assistente. João Kitto tinha então dezanove anos.

Kitto passou então a viver com a família Groves. Kitto foi profundamente influenciado pela prática da fé cristã do seu empregador. Em 1829 João acompanhou Groves na sua missão pioneira a Bagdade e serviu como tutor dos dois filhos de Groves. Em 1833, Kitto regressou a Inglaterra via Constantinopla, acompanhado por outro membro da missão de Groves a Bagdade, Francisco William Newman. Pouco depois ele casou-se, e, oportunamente, teve vários filhos.

No seu regresso a Inglaterra, João Charles Knight, um editor de Londres daquele tempo, pediu a Kitto para escrever uma série de artigos sobre os seus diários de viagem para a “Penny Magazine” (Revista Penny). Esta publicação tinha um milhão de leitores na Grã-Bretanha, era reimpresso nos Estados Unidos da América e era traduzida para francês, alemão e holandês. Outros projectos de escrita se foram seguindo porque os leitores o foram questionando sobre as suas experiências no meio do povo do Médio Oriente que viviam em circunstâncias muito semelhantes às descritas na Bíblia.

A partir de então, João produziu obras da sua autoria, incluindo “The Pictorial Bible” (A Bíblia Ilustrada), “Pictorial History of Palestine” (Historia Ilustrada da Palestina), “Cyclopedia of Biblical Literature” (Enciclopédia de Literatura Bíblica) e muitas mais, vinte e três no total. Ele fundou o «Journal ‘Sacred Literature’» (Jornal de Literatura Sagrada). Um dos seus livros tinha o curioso título de “The Lost Senses, Deafness and Blindness” de (“Os sentidos perdidos, surdez e cegueira”).

Kitto tinha sido durante as suas viagens um observador atento da topografia, dos animais, da arquitectura, dos métodos agrícolas e da forma como as pessoas interagiam entre si. A sua narração de histórias da Bíblia à luz do que ele tinha visto trouxe-as à vida e confirmou a exactidão dos antigos textos bíblicos. Ele mostrou como as actividades descritas pelos profetas e pelos apóstolos estavam conforme as realidades da cultura oriental. Ele completou as suas próprias observações com os pormenores das revistas de outros viajantes, e ajudou o leitor da Bíblia a entender muitas coisas antes obscuras ou contraditórias para a mente ocidental. A sua pesquisa cuidadosa sobre a geografia, biologia e arqueologia das terras da Bíblia serviu para apoiar e incentivar a confiança na precisão da Bíblia.

Na sua geração o Dr Kitto foi o contribuinte mais significativo para o saber cristão, e ele deu muita ajuda aos Evangélicos para estes defenderem a Bíblia contra o ataque dos críticos liberais. Ele finalmente escreveu um total de 23 livros, dos quais Charles Spurgeon considerava a “Daily Bible Illustrations” (“As Ilustrações diárias da Bíblia”) de ser “mais interessante do que qualquer romance que já foi escrito, e tão instrutivo como o mais profundo tratado de teologia.”

Inevitavelmente, as obras enciclopédicas de Kitto foram substituídas pelas pesquisas das últimas gerações de estudiosos. No entanto, a sua “Pictorial Bible and Cyclopaedia of Biblical Literature” (“Bíblia Ilustrada e Enciclopédia de Literatura Bíblica”) teve, por quase um século, um lugar único e valiosos na prateleira das bibliotecas académicas e a sua “Daily Bible Illustrations” (“As Ilustrações diárias da Bíblia”) encorajou a fé dos leitores de todas as idades e origens, e estimulou a imaginação de muitos professores da escola dominical.

João Kitto resumiu a sua vida com as seguintes palavras: “Eu, talvez, tenho tanto direito quanto qualquer outro homem que vive, para testemunhar que não há ninguém tão vil, que não possa subir, nem condição tão abatida, para estar realmente sem esperança, e nem alguma privação por que se passa pode, por si só, fechar a qualquer homem os caminhos do esforço honrado ou da esperança da utilidade na vida. Tenho pensado, às vezes, que era essa possivelmente a minha missão para confirmar e estabelecer essas grandes verdades.”

Ele também escreveu alguns poemas. Num deles, “Alternative” (“Alternativa”), ele disse que daria todos os sons que tinha perdido, em troca, se pudesse apenas escutar um sussurro do Céu.

Nele João Kitto escreveu:

“Se o grande abismo agora oferecesse todos
Os tesouros guardados no seu seio,
E aos meus pés eu pudesse agora chamá-los
E isso pudesse aí acumulá-los!
Eu, alegremente, os desprezaria completamente por algum
pequeno tesouro do mundo por vir.”

Antes da sua morte aos cinquenta anos, em 1844 a Universidade de Giessen, conferiu-lhe um Doutoramento em Teologia. Em 1850 o governo concedeu-lhe uma pensão vitalícia. Ele morreu em Cannstatt, perto de Stuttgard, na Alemanha, neste dia 25 de novembro de 1854. Ele tinha ido até lá para tentar aproveitar os benefícios das nascentes de água mineral.

***

João Kitto nasceu em Playmouth em 4 de dezembro de 1804 e morreu em Cannstadt, Alemanha, em 25 de novembro de 1854. Ao fazer 11 anos deixou a escola para ajudar o seu pai, que era pedreiro, e em 1817, enquanto levava telhas de ardósia por uma escada sofreu uma queda que o deixou completamente surdo para o resto da sua vida. Bloqueado da sociedade normal por esta enfermidade entregou-se a estudar e recorreu a diversos expedientes para ganhar um pouco de dinheiro com o que comprava livros. Com a exceção de uns poucos meses passados como aprendiz de sapateiro em Plymouth, esteve empregado no trabalho doméstico desde novembro de 1819 até julho de 1823. Então, os seus amigos obtiveram-lhe permissão para que ele usasse a biblioteca pública e em 1824, A. N. Groves, um dentista de Exeter, tomou-o como aluno. Em julho de 1825 João Kitto entrou no colégio missionário em Islington para aprender a arte da impressão e em junho de 1827 foi para Malta como impressor empregado pela Church Missionary Society. Em janeiro de 1829 regressou a Inglaterra e em junho seguinte uniu-se à missão particular de Groves como tutor dos seus filhos. O grupo missionário de Groves chegou a Bagdad em dezembro desse ano de 1829. Em 1883 João Kitto regressou a Inglaterra, obtendo emprego com Carlos Knight, que era então editor de publicações da “Society for the Diffusion of Useful Knowledge” e por essa altura começou a escrever laboriosamente para Knight, no “Penny Magazine” e na “Penny Cyclopaedia.” Através de relações formadas com editores de Londres e Edimburgo pôde agora seguir a sua inclinação literária e veio a ser um popular e reputado escritor sobre assuntos bíblicos e orientais. Em 1844, ainda que fosse laico, foi-lhe outorgado o título D. D. pela universidade de Giessen; em 1845 foi eleito membro da Sociedade de Antiquários e em 1850, em reconhecimento das suas “úteis e meritórias obras literárias”, foi-lhe outorgado uma pensão de 100 libras anuais. Os seus últimos anos ficaram escurecidos pela sua má e pouca saúde e por grandes dificuldades financeiras. Quando em fevereiro de 1854 se viu obrigado a deixar de trabalhar, os seus amigos contribuíram para o seu sustento, com o que pôde passar os últimos três meses de sua vida na Alemanha. As obras pelas que Kitto é especialmente recordado são “The Pictorial Bible” (3 vols., Londres, 1835-38), “Cyclopædia of Biblical Literature” (2 vols., Edimburgo, 1843-45), que editou e em que colaborou grandemente e “Daily Bible Illustrations” (8 vols., 1849-53). Outras obras que merecem a nossa atenção são: “Pictorial History of Palestine” (2 vols., Londres, 1841) e “The Lost Senses” (2 partes, 1845). Também fundou e editou o “Journal of Sacred Literature” (Londres, 1848-53).

João Kitto morreu em Cannstatt, perto de Stuttgard, na Alemanha, neste dia 25 de novembro de 1854. Ele tinha ido até lá para tentar aproveitar os benefícios das nascentes de água mineral.

A mim parece-me, realmente, que ele nesse dia jornadeou em busca das fontes “do rio puro da água da vida, claro como cristal, que procediam do trono de Deus e do Cordeiro” (Ap 22:1) e que as encontrou!

****

Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

Este texto é de livre utilização, desde que a sua ortografia seja respeitada na íntegra porque já está escrito com o Português do Novo Acordo Ortográfico e que não seja nunca publicado nem utilizado para fins comerciais; seja utilizado exclusivamente para uso e desfruto pessoal.

Sem comentários: