… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

terça-feira, 1 de novembro de 2016

1 de novembro de 1755 • Sermões do Grande Terramoto de Lisboa



1 de novembro de 1755 Sermões do Grande Terramoto de Lisboa
Voltaire zombou da bondade de Deus e das lições morais tiradas do Terramoto de Lisboa

O Revendo Charles Davy estava a escrever entre as nove horas e as dez horas da manhã deste dia, 1 de novembro de 1755, quando os seus papéis começaram a tremer. Isso surpreendeu-o porque o dia estava calmo e bonito. Ele ouviu um barulho, que pensou que vinha das carroças, na rua. Nisto, o seu quarto estremeceu. Ocorreu-lhe que tinha sido sacudido por um terramoto leve. Enquanto ele pensava na possibilidade de ficar dentro de casa ou correr para o exterior, a casa tremeu com tanta violência que os andares superiores desmoronaram-se.

Buracos surgiram na pedra trabalhada do seu quarto. O ar estava tão abafado com o pó que durante alguns minutos, mal podia respirar. Só com muita dificuldade foi capaz de manter o equilíbrio. Lá fora, ouviu gritos e lamentos. Em todas direções, as igrejas e os edifícios de pedra caíam em ruínas. Os sacerdotes rezavam. As pessoas, assustadas, gritavam aos santos para obter ajuda e agarravam crucifixos e imagens tomadas das igrejas, supondo, claramente, que esses objectos inanimados poderiam salvá-las.

“O rio Tejo está subindo, todos estaremos perdidos”, gritou uma voz. Davy virou-se e viu uma parede de água, com cerca de vinte metros de altura, caindo sobre ele. O tremor de terra gerou um tsunami. Ele correu para terrenos mais elevados. A onda devastadora rebentou com tudo no seu caminho. Quando a onda recolheu ao leito do rio, viu uma enorme multidão de corpos humanos jazendo inanimados. De repente, encontrou-se na água até a cintura e agarrou-se fortemente a uma pesada viga para não ser arrastado. Seguiu-se um gigantesco incêndio. As velas, que estavam acesas nas muitas igrejas que celebram missas àquela hora, e, os fornos da cidade tinham pegado o fogo aos destroços. Muitos daqueles que se entregavam à pilhagem iam deitando mais fogo. Lisboa, a jóia do Atlântico, ardeu durante cinco dias.

O Revendo Charles Davy era um clérigo inglês, que se encontrava em Lisboa no dia 1 de novembro de 1755, e eis como ele conta como viu a tragédia daquele dia:

“A casa em que eu estava abanou com tal violência que os andares superiores caíram logo; e embora o quarto em que me encontrava, que ficava no rés-do-chão, não tenha tido o mesmo destino, tudo o que lá se encontrava foi atirado de um lado para o outro, de tal maneira que só com dificuldade me conservei de pé, e não esperava outra coisa senão ser esmagado, pois as paredes continuavam a abanar da maneira mais aterradora, abrindo brechas em vários locais; de todos os lados, caíam grandes pedras das brechas e da maior parte das vigas que saíam do tecto. Para agravar esta cena aterradora, o céu ficou repentinamente tão escuro que já não conseguia distinguir nenhum objecto; era sem dúvida uma escuridão egípcia a que se podia sentir; devida, certamente, às prodigiosas nuvens de poeira levantadas por abalo tão violento e, como alguns relataram depois, às emanações sulfurosas, mas isso não posso afirmar; a verdade é que fiquei quase paralisado durante dez minutos.

Apressei-me a sair de casa e avancei pelas ruas estreitas, onde os edifícios estavam caídos ou caíam continuamente, e trepei sobre as ruínas da igreja de São Paulo para chegar à margem do rio, onde pensei que poderia encontrar segurança. Encontrei ali uma prodigiosa aglomeração de pessoas de ambos os sexos, e de todas as condições sociais, entre as quais observei alguns dos principais cónegos do patriarcado, com as suas túnicas púrpura e sobrepeliz que fazem parte do hábito dos bispos; vários padres que tinham fugido dos altares no meio da celebração da missa; senhoras meio despidas, e algumas sem sapatos; toda aquela gente tinha acorrido ali em busca de um lugar seguro, e estava de joelhos a rezar, com o terror da morte estampado no rosto, batendo no peito e clamando incessantemente: Misericórdia, meu Deus!...

(...) Podem avaliar a força deste abalo se vos disser que foi tão violento que mal me conseguia manter de joelhos; mas foi acompanhado por circunstâncias ainda mais terríveis que o outro. Subitamente, ouvi um grito geral: «Vem aí o mar, vamos morrer todos.» Então, voltando os olhos para o rio, que naquele ponto tem perto de quatro milhas de largura, vi-o a agitar-se e a elevar-se de maneira inexplicável, já que não havia vento. Num instante, apareceu a curta distância uma grande massa de água, a elevar-se como se fosse uma montanha.

(...) Como parecia agora que o perigo tanto vinha do mar como de terra, e não sabia onde deveria procurar protecção, tomei a súbita resolução de voltar para trás, com as roupas a pingar, rumo à zona de São Paulo. Fiquei ali algum tempo, e vi os navios a rolar e derivar como se estivessem numa tempestade violenta; alguns tinham quebrado as amarras e estavam a ser arrastados para a outra margem do Tejo; outros rodopiavam com incrível rapidez; vários barcos ficaram de quilha para o ar; e tudo isto sem vento, o que parecia ainda mais espantoso.

Não há dúvida que as entranhas da terra devem ter sido excessivamente agitadas para causarem estes feitos surpreendentes; mas se os abalos se deveram a qualquer explosão súbita de vários minerais a misturarem-se, a acumulação de ar, a uma busca de escape ou a águas subterrâneas que procuravam passagem, só Deus sabe. Quanto às erupções de que se falou, creio que não têm fundamento, embora seja certo que ouvi muita gente queixar-se de fortes odores sulfurosos, tonturas, enjoo e dificuldades respiratórias, mas eu próprio não senti nenhum desses sintomas.

(...) No que se refere aos edifícios, verificou-se que os mais sólidos em geral caíram primeiro. Todas as igrejas, conventos, palácios e edifícios públicos, com um número infinito de casais privadas, ou ruíram ou ficaram tão abalados que se tornava perigoso passar por eles.

“Posso assegurar-lhes que esta cidade outrora opulenta agora não passa de ruínas...” (Relato do Reverendo Charles Davy, testemunha presencial do Terramoto de 1755.)

Toda a Europa e o Norte da África se compadeceram com a tragédia ocorrida neste dia em Lisboa, pelo que o terramoto inspirou centenas de sermões. Os ministros tomaram o terramoto como um aviso. Alguns viram isso como um sinal da vinda de Cristo - um dos grandes terramotos do Apocalipse. Milhares de pessoas perceberam que não estavam preparadas para a eternidade.

Uma delas, Rachel Low, que depois se tornou uma metodista fervorosa, contou como o terramoto a fez tremer pela sua alma. “Eu nunca fui muito com provas de culpabilidade até à sexta-feira após o Terramoto em 1755. Fui ler a notícia, e depois que acabei, fui ver o Sr. Brown, quando o dia se aproximava do seu fim. Ao vê-lo, a minha mente foi afectada com uma consideração de que eu poderia estar na eternidade antes dele, e de que eu ainda não estava preparada espiritualmente. Indo para casa, tinha a sensação de que a cada passo que dava, ia-me aproximando da eternidade, e, o facto de não estar preparada espiritualmente pesava sobre mim. E, quando cheguei a casa, o Sr. Caleb Burnam chegou lá depois de mim e começou a contar como a cidade de Lisboa, foi destruída por um terramoto. Isso afligiu-me tanto, que eu vi os meus pecados tão numerosos ...”

O filósofo deísta Voltaire tomou um rumo mais cínico acerca do Terramoto de Lisboa de 1755, num poema que ele escreveu:

Dirás: 'Isto é resultado de leis eternas
Os actos dirigidos por um Deus livre e bom!’ ...
Será que Lisboa, que não é maior, tem mais vícios
Do que Londres e Paris, mergulhadas nos seus prazeres?
Lisboa é destruída, e eles dançam em Paris!”


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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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