… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

domingo, 27 de novembro de 2016

27 de novembro de 1095 • "Deus o quer!", "Deus o quer!", gritava o povo, e assim se iniciaram as Cruzadas



27 de novembro de 1095  “Deus o quer!”, “Deus o quer!”, gritava o povo, e assim se iniciaram as Cruzadas
O Papa Urbano II apelando à Cruzada

Em 1095, o Papa Urbano II convocou um Concílio para Clermont, na França. A Igreja tinha caído em tempos difíceis após o confronto permanente entre o Papa Hildebrando e o imperador Henrique IV. O Papa Urbano II era um líder vigoroso e estava tentando apaziguar as coisas. No Concílio, ele promoveu o conceito de uma "trégua de Deus", que proibia a guerra na Europa, e apelou aos cristãos para a Primeira Cruzada.


Neste dia, 27 de novembro de 1095, penúltimo dia do Concílio de Clermont, uma grande multidão de leigos e de clérigos reuniram-se num campo aberto para ouvir o Papa falar. O que ele disse exactamente nós não sabemos. Nós temos cinco relatos do acontecimento, mas cada um é diferente dos outros. No entanto, podemos seguir o fio do discurso.

Urbano contou da triste situação dos cristãos no Oriente Médio, agora controlado pelos muçulmanos. Os templos cristãos tinham sido convertidos em mesquitas e estábulos. As ruas por onde Jesus andou estavam a ser calcadas por pés pagãos. Os Cristãos eram perseguidos e torturados. As suas mulheres eram estupradas. O poder dos primitivos reinos cristãos havia sido quebrado, e eles já não conseguiam defender mais os lugares santos ou os lugares cristãos. As peregrinações aos lugares santos haviam-se tornado virtualmente impossíveis.

"Para quem é, portanto, o trabalho de vingar esses erros e de recuperar o território caído, se não para vós? A vós, acima das outras nações, Deus conferiu-vos notável glória de armas, grande coragem, campo de ação, e força para humilhar os infiéis que vos possam resistir.”

Os Francos deveriam colocar de lado as suas disputas e direcionar as suas energias para essa tarefa em prol da Cristandade, disse Urbano. Citando as Escrituras, advertiu os seus ouvintes de que quem ficasse em casa por amor da família não era digno de Cristo, enquanto que quem abandonasse os bens deste mundo e partisse para a Cruzada na Terra Santa herdaria a vida eterna. Ele prometeu a remissão dos pecados a quem quer que fosse na expedição para libertar a Terra Santa.

"... Avançai corajosamente, como Cavaleiros de Cristo, e executai o mais rápido possível a defesa da Igreja do Oriente. Pois foi dela que surgiu a alegria de toda a vossa salvação, foi ela quem derramou nas vossas bocas o leite da sabedoria divina, quem pôs diante de vós as santas doutrinas do Evangelho."

Em março de 1095, o imperador bizantino Aleixo I Comneno enviou uma embaixada ao Concílio de Placência para pedir ajuda ao Papa Urbano II contra os turcos. Urbano concordou, com a esperança de, ao ajudar as igrejas orientais neste momento de grande necessidade, acabar com o Grande Cisma do Oriente de há 40 anos atrás e reunir a Igreja cristã sob o domínio papal, como «bispo e prelado máximo de todo o mundo».

Com a autoridade papal reafirmada em Placência, Urbano II convocou um concílio, que se viria a realizar em de Clermont entre 18 e 28 de novembro de 1095, anunciando também que no fim do mesmo iria fazer uma proclamação de máxima importância para a Cristandade em geral. A afluência da nobreza, do clero e do povo a Clermont foi tão grande que, ao contrário das representações artísticas do evento, este não se realizou dentro da catedral, mas sim ao ar livre.

No seu sermão apaixonado o Papa exortou a sua audiência a tirar o controlo de Jerusalém das mãos dos muçulmanos. Referiu-se à violência dos nobres europeus que saqueavam terras europeias e lutavam entre si, e que a solução para este problema era colocar as espadas ao serviço de Deus: «Que os salteadores se tornem cavaleiros.» Ainda anunciou as recompensas que esperavam quem tomasse a cruz, tanto na Terra como no Céu, uma vez que a cruzada seria uma expedição de penitência e quem morresse na Terra Santa ou a caminho dela, ganharia o seu lugar no Paraíso, isto é, a indulgência plena. Tudo isto o Papa prometia através do poder de Deus que lhe fora concedido.

A multidão reunida foi tomada de um tal entusiasmo frenético que interrompeu o seu discurso gritando «Deus o quer!» «Deus o quer!» (em latim: Deus vult!), frase que seria repetida por toda a Europa.

Considerado um dos sermões mais importantes da história da Europa, o sermão de Urbano II deu origem a diversos relatos, mas estas versões dos acontecimentos foram escritas depois da conquista de Jerusalém, pelo que é difícil saber o que realmente foi afirmado pelo Papa e o que foi acrescentado ou modificado depois do sucesso da Cruzada. No entanto, a resposta do Ocidente ao apelo feito a todos sem distinção, pobres ou ricos, foi claramente superior ao esperado.

Ao pregar e prometer a salvação a todos os que morressem em combate contra os pagãos (na verdade muçulmanos, na sua maioria), o Papa estava a criar um novo ciclo. Com a campanha de salvação da alma a todos os mortos em combate contra os infiéis, Urbano não estava só a garantir um grande exército, mas também um novo foco bélico para as forças que se batiam em lutas intestinas, perturbando a paz na Europa.

É certo que a ideia não era totalmente nova: há algumas décadas atrás já haveria sido declarado que os guerreiros mortos em combate contra os muçulmanos na Itália mereciam a salvação. Mas desta vez a salvação não era prometida numa situação excepcional, seria concedida a todos os que participassem do empreendimento.

Europeus de todas as camadas sociais coseram uma cruz vermelha nas suas roupas, o que lhes deu o seu nome de cruzados. O entusiasmo era tal que muitos venderam ou hipotecaram todos os seus bens para obter as armas e o dinheiro necessários para a expedição. Nobreza e o povo comum procedente da França, do sul da Itália e das regiões da Lorena, Borgonha e Flandres, rapidamente formaram cruzadas separadas e puseram-se a caminho da Terra Santa. Estava, portanto, em curso a Primeira de muitas Cruzadas…

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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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