… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

sábado, 31 de dezembro de 2016

31 de dezembro de 1384 • João Wycliffe, a Estrela d'Alva da Reforma



31 de dezembro de 1384 João Wycliffe, a Estrela d’Alva da Reforma

 João Wycliffe trabalhando no seu “scriptorium” (1320 — 31 de dezembro 1384)


João Wycliffe, também chamado John Wyclif, Wycliff, Wiclef, Wicliffe, Wickliffe, foi um estudioso e teólogo inglês que frequentemente é chamado "a Estrela d'Alva da Reforma." Nascido em 1320 no Condado de Yorkshire, estudou na Universidade de Oxford, e recebeu o doutorado em teologia em 1372. Sustentado por seus cargos eclesiásticos, passou a maior parte da sua vida ensinando em Oxford. Sendo um estudioso brilhante que dominou a tradição escolástica dos fins da Idade Média, chegou ao conhecimento dos membros do governo. O Duque de Lancaster, John de Gaunt, filho de Eduardo III, contratou os seus serviços em várias ocasiões. Gaunt foi de facto o governante na Inglaterra desde a morte do pai, enquanto Ricardo II não tinha idade suficiente para reinar (1377 a 1381). Wycliffe cumpriu deveres diplomáticos para a Coroa, e escrevia a favor do governo civil. As suas obras negavam a validade dos clérigos possuírem terras e propriedades, bem como da jurisdição do papa nos assuntos temporais. A doutrina do domínio, que expôs em ‘On Divine Dominion” (1375) e ‘On Civil Dominion” (1376), declarou que todas as pessoas são inquilinos de Deus e que somente os justos, como mordomos de Deus, devem ter autoridade política, porque somente eles têm o direito moral de governar e ter posses. Os ímpios, por outro lado, mesmo sendo nobres, reis ou papas, não têm semelhantes direitos a despeito do facto de que às vezes Deus lhes permita deter por algum tempo poderes ou propriedades. Wycliffe cria que os clérigos que viviam em pecado mortal perdiam o seu direito como mordomos de Deus, e deviam ser privados das suas riquezas e autoridade.

Essas opiniões levaram-no à condenação por uma série de bulas papais emitidas em 1377, que indicavam que a Universidade de Oxford devia silenciar tais ensinos. A oposição forçou Wycliffe a posições mais extremadas, e ele deixou o ataque contra as riquezas e os poderes temporais da igreja para criticar os dogmas centrais do catolicismo medieval. Rejeitou todas as cerimónias e organizações não mencionadas especificamente na Bíblia, condenou a transubstanciação, renunciou ao poder sacramental do sacerdócio e negou a eficácia da missa. Além disso, desconsiderou toda a estrutura dos rituais, cerimónias e ritos que permeavam a igreja, baseado não somente no facto de serem falsos como também por interferirem na adoração verdadeira de Deus. Chegou a concordar com Agostinho no sentido de a Igreja ser o corpo predestinado dos crentes verdadeiros e de a salvação provir da graça divina e não dos esforços das pessoas para se salvarem a si mesmas.

Em 1381, a Revolta dos Camponeses na Inglaterra forçou a Igreja Católica e a aristocracia a cooperarem entre si na restauração de lei e da ordem. Embora Wycliffe não estivesse envolvido na rebelião, aqueles que se opunham a ele alegavam que a revolta fora resultado dos seus ensinos. Aproveitando-se da situação, os líderes da Igreja Católica forçaram os seus seguidores a saírem de Oxford. Wycliffe foi morar na sua paróquia em Lutterworth (1382), onde morreu de derrame cerebral, neste dia, de 31 de dezembro de  1384.

Os escritos de Wycliffe, além dos seus trabalhos sobre os problemas da Igreja Católica e do Estado, incluem tratados de lógica e metafísica e numerosos livros e sermões teológicos. A sua fama maior, no entanto, deve-se ao facto de ter fomentado uma tradução da Vulgata para o inglês. Segundo a sua doutrina de domínio, os cristãos são directamente responsáveis diante de Deus. A fim de conhecerem e obedecerem à lei de Deus, portanto, é necessário lerem a Bíblia. Para Wycliffe, as Sagradas Escrituras eram o único padrão da fé e a única fonte da autoridade. Foi por isso que achava tão importante torná-las disponíveis no vernáculo. Dedicou os últimos meses da sua vida àquela tarefa e deixou aos seus seguidores a complementação da Bíblia de Wycliffe.

Os seguidores de Wycliffe, conhecido como lolardos, eram estudiosos da Universidade de Oxford, pequenos proprietários e muitos pobres das áreas rurais e urbanas. Baseavam na Bíblia a sua pregação, e aconselhavam desobediência a clérigos injustos, atacavam o sacerdócio, afirmavam a ideia da igreja invisível e condenavam o monasticismo e o ritualismo. Essa mensagem levou-os a serem perseguidos, que, segundo acham alguns histpriadores estudiosos, foi eficaz na destruição deste  movimento até ao fim do século XV. Outros argumentam que sentimentos lolardos foram preservados em certos lugares e que levaram a um entusiasmo pela Reforma do século seguinte.

A influência de Wycliffe sobre o protestantismo na Inglaterra é difícil de ser definida, sendo um pouco mais clara no pensamento da Europa continental. As suas ideias espalharam-se pela Boémia através de estudantes checos que frequentaram a Universidade de Oxford. Em Praga, João Hus adoptou os seus ensinos, e os hussitas, os herdeiros espirituais de João Hus, mantiveram-nos vivos durante muitos anos. Uma das primeiras propostas de Lutero foi que fosse feita justiça aos hussitas que, segundo ele cria, tinham sido condenados erroneamente. Através da ligação com a Boémia, Wycliffe realmente foi um precursor da Reforma Protestante.


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Fontes Utilizadas:

Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.

Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha



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