… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

7 de dezembro de 374 • Os desordeiros exigem Ambrósio como bispo de Milão



7 de dezembro de 374 Os desordeiros exigem Ambrósio como bispo de Milão

Mosaico na Basílica de Santo Ambrósio em Milão
Pensemos numa grande Assembleia Local numa cidade tão populosa como S. Paulo, no Brasil, ou em Seul, na Coreia do Sul. O pastor dessa Assembleia Local acaba de morrer. Ele ensinava uma doutrina herética - de que Jesus não era realmente divino. Será que na nessa Assembleia Local haveria um motim para ver quem seria o seu próximo líder? Será que escolheriam como seu candidato um advogado que nem sequer havia sido baptizado?



Isso foi exatamente o que aconteceu em Milão, na Itália, em 374. O falecido bispo Auxêncio de Milão tinha apoiado a heresia ariana que negava que Cristo é plenamente Deus. Quando ele morreu, os milaneses provocaram tumultos. Alguns queriam um bispo ariano. Outros queriam um pastor ortodoxo.



Ambrósio era então um advogado que andava pelos 35 anos, que trabalhava na cidade de Milão, filho de um nobre, e era tão hábil na oratória que o governador da Itália do Norte o havia designado como seu sucessor. Para assegurar a ordem na eleição, Ambrósio compareceu, pessoalmente, na qualidade de prefeito da polícia. Este jovem, sendo um homem inteligente abriu caminho através da multidão fervilhante e argumentou com eles para que mantivessem a paz. Os seus argumentos devem ter sido convincentes. Alguém gritou: “Ambrósio para bispo!” e em breve todos repetiam entusiasticamente o “slogan.” Agiu com tamanha eficácia, controlou os ânimos das duas fações com tanta moderação que os partidos opostos se uniram para elegê-lo bispo.



Ambrósio protestou. Esta era a última ideia que lhe passaria pela mente. Por quê, se ele ainda nem sequer era baptizado! Mas os seus protestos foram inúteis. O povo assim o queria. Quando o imperador Valentiniano aprovou a seleção de Ambrósio e ameaçou com sanções severas contra qualquer um que ajudasse a esconder o advogado, Ambrósio desistiu e foi baptizado.



Oito dias depois destes acontecimentos, no dia de hoje, 7 de dezembro de 374, Ambrósio foi consagrado bispo de Milão. Ele tomou as suas novas responsabilidades muito a sério. Ambrósio deu todos os seus bens aos pobres e mergulhou profundamente no estudo da teologia. Com os seus conhecimentos jurídicos e com a sua erudição do grego, ele defendeu a igreja e o seu povo.



A oratória do advogado não o abandonou quando ele subiu ao púlpito. Ele falava de improviso, não escrevendo os seus sermões. Estes eram tão bons que o grande Agostinho de Hipona foi ganho para Cristo enquanto o escutava pregando. Ambrósio foi defensor da ortodoxia contra o arianismo.



Ele manteve uma correspondência frequente com Basílio, o Grande, bispo famoso do Oriente Médio. Por causa dos seus escritos, Ambrósio é considerado com Jerónimo, Agostinho e Gregório Magno como um dos quatro Pais da Igreja Latina.



Corajoso quando a igreja estava em causa, o próprio Ambrósio impediu o imperador Teodósio de entrar no santuário até que o governante se arrependeu publicamente de um massacre que ele tinha cometido em Tessalónica. Assim naquele ano de 388, Ambrósio, bispo de Milão, não deixa que Teodósio entre na catedral de Milão. O imperador Teodósio também era cristão. Tinha sido baptizado no ano de 380. Por que é que ele não podia entrar na catedral de Milão? Porque ordenara um massacre em Tessalónica. O bispo de Milão recriminava a crueldade do imperador. Exige que este faça penitência. Teodósio invoca o exemplo do rei David. Ambrósio responde-lhe que o imperador deve imitar David não só no pecado, mas também na penitência.



A proibição mantém-se durante oito meses, até que Teodósio, vestido com um “saco de penitência”, pelo Natal, foi perdoado. Mais tarde, o imperador diria: “Sem dúvida que Ambrósio me fez compreender pela primeira vez o que deve ser um bispo.”



O episódio é visto como um primeiro exemplo de submissão do poder político ao poder religioso. Pelo menos para isso será evocado ao longo da história. Mas, na origem, não é essencialmente isso. É apenas a exigência da coerência entre a fé professada e os actos.



E é interessante descortinar o que esteve por detrás do massacre de Tessalónica.



No massacre de Tessalónica terão morrido entre 500 a 5000 pessoas. Os relatos variam. Mas foi um massacre. Os populares estavam num estádio, durante um espectáculo, e o imperador mandou matá-los. Mais tarde, escreveu-se que Teodósio teria revogado a ordem. Mas já era tarde. A ordem foi executada.



Mas por que é que mandou matá-los? Simplesmente, porque os populares tinham matado antes o general Buterico, o qual, cumprindo as novas leis que condenavam a homossexualidade, mandara matar um condutor de quadrigas (ou seja, um auriga), pederasta, muito popular na época.



Aqueles que Teodósio mandara executar eram na sua grande maioria não cristãos e, é de concluir, defensores da homossexualidade, que era praticada entre os mais velhos e até entre os mais novos. É por causa da morte deles que Ambrósio ordena a penitência de Teodósio.



O bispo Ambrósio estipulou como penitência ao imperador Teodósio neste episódio do impedimento da entrada na igreja, que ele devia permitir que decorressem 30 dias entre o decretar-se qualquer sentença de morte e a sua execução, de modo que o próprio imperador teria tempo para esfriar e mudar de ideia, se necessário.



O bispo Ambrósio aconselhou gentileza ao invés de dureza para com aqueles que tinham traído a fé sob tortura. «Por este motivo o Senhor Jesus teve compaixão de nós, a fim de chamar-nos para Si, e não nos afugentou. Ele veio em mansidão, Ele veio em humildade, e por isso Ele disse: “Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei.” Assim, pois, o Senhor Jesus renova e não fecha a porta a ninguém, e Ele apropriadamente escolheu os discípulos, que devem ser os intérpretes da vontade do Senhor, que é reunir e não afastar o povo de Deus.”



Ambrósio morreu na Sexta-Feira Santa de 397, isto é, em 4 de abril de 397. Enquanto morria estendeu os braços como Cristo na cruz. Cristo (dizem!!?) apareceu-lhe na sua última agonia. A sua morte causou tal impressão sobre o público que cinco bispos dificilmente podiam atender com êxito todas as pessoas que pediam para ser baptizados no dia seguinte.



Há quem afirme que uma das melhores frases da história da Teologia é de Ambrósio de Milão: “Non in dialectica complacuit Deo salvum facere populum suum.” (Não aprouve a Deus salvar o Seu povo com a dialéctica [isto é, filosofia].)



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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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