… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

5 de dezembro de 633 • IV Concílio de Toledo, Espanha


5 de dezembro de 633 IV Concílio de
Toledo, Espanha

O Lux beata Trinitas:
Oh luz da bem-aventurada Trindade:
Et principalis Unitas:
Unidade fundamental:
Jam sol recedit igneus,
Que ofusca o fogo do próprio Sol
Infunde lumen cordibus.
Enche de luz os corações.

Te mane laudum carmine,
A Vós eleva-se nosso cântico matutino,
Te praedicamus vespere;
A Vós se volta a nossa oração vespertina;
Te nostra supplex gloria
Que a nossa glorificação suplicante;
Per cuncta laudet saecula.
Vos louve pelos séculos dos séculos.

Deo Patri sit gloria,
A Deus Pai seja dada a glória,
eiusque soli Filio,
E a Seu filho Unigénito,
cum Spiritu Paraclito,
Ao Espírito Santo Paráclito,
et nunc, et in perpetuum.
Agora e para sempre.

(Repete:)
O Lux beata Trinitas:
Oh luz da bem-aventurada Trindade:
Et principalis Unitas:
Unidade fundamental:
Jam sol recedit igneus,
Que ofusca o fogo do próprio sol
Infunde lumen cordibus.
Enche de luz os corações.

Parecem-lhe impróprias as palavras deste hino para si?

“In illo Tempore” (Naquele tempo) de 633, o povo que então vivia no reino visigótico (onde hoje é a atual a Península Ibérica) não tinha tanta certeza. O modo de expressar-se não era diretamente inspirado na Bíblia. Não, este hino foi escrito por um homem no século IV, Ambrósio, bispo de Milão (337 – 4/IV/397).

Preocupados com tantas inovações na igreja ia realizar-se neste dia, 5 de dezembro de 633, um Concílio em Toledo, capital do Reino Visigótico.

Presidindo ao Concílio estava o arcebispo Isidoro de Sevilha. Isidoro, amado pela sua vida virtuosa, era também admirado pela sua imenso cultura que o tornou o principal sábio da Europa daquele tempo. Ele lia grego, latim e hebraico.

Isidoro de Sevilha foi considerado o último dos antigos Filósofos Clássicos, foi também considerado derradeiro Padre da Igreja, influenciando o ensino na Idade Média. Como escritor, foi extraordinariamente versátil e prolífero, utilizando um estilo simples e lúcido. Mais do que um autor original foi um grande compilador do conhecimento existente, sobretudo da literatura. Entre as suas obras mais importantes contam-se as “Etimologias”, também chamadas de “Origenes”, divididas em 20 livros, que foram os livros de estudo mais utilizados na Idade Média. A sua reputação era tal que era preferido aos originais clássicos e nem no Renascimento a sua importância esmoreceu, tendo sido impresso dez vezes só entre 1470 e 1529. Mostrando um grande domínio dos poetas gregos e latinos, Isidoro de Sevilha cita cerca de 150 autores cristãos e pagãos com um estilo surpreendentemente conciso e claro.

Isidoro de Sevilha foi também autor de uma outra obra intitulada “Libri duo differentiarum” e dividida em dois livros, “De differentiis verborum”, um dicionário de sinónimos, e “De differentiis rerum”, uma exposição de conceitos ascéticos e teológicos. Uma das obras mais conhecidas de Isidoro de Sevilha durante a Idade Média foi um manual de física elementar, “De natura rerum”, que trata de astronomia, geografia e outros assuntos diversos. Sobre história e biografia escreveu “Chronicon”, uma crónica universal, “Historia de regibus Gothorum, Wandalorum, et Suevorum”, sobre os reis góticos e a influência das suas conquistas e governo na civilização da Ibéria, e “De viris illustribus”, uma biografia cristã. Dos seus muitos estudos teológicos e sobre as Escrituras destaca-se a “De fide catholica ex Veteri et Novo Testamento, contra Judaeos”, um dos trabalhos mais conhecidos e aclamados de Isidoro de Sevilha, traduzido na Idade Média para muitas das línguas vernáculas da época, abordando as profecias messiânicas e consistindo, no geral, num apelo à conversão dos judeus.

Os Concílios de Toledo eram reuniões magnas do antigo estado visigótico na Península Ibérica; neles tomavam parte não apenas os prelados, como também a nobreza goda, e longe de se reportarem apenas a discutir problemas religiosos, eram sobretudo assembleias políticas. A sua convocação, à maneira do Primeiro Concílio de Niceia (convocado por Constantino), era feita pelo rei visigodo.

Neste IV Concílio de Toledo, neste dia, 5 de dezembro de 633, a intervenção de Isidoro de Sevilha foi decisiva para a promulgação de um decreto que obrigava os bispados a manter escolas nas catedrais das suas cidades, tal como acontecia em Sevilha. Esta iniciativa foi fulcral para combater a crescente influência da rudeza de costumes dos Godos.

Foi instituído o estudo da língua grega e hebraica e encorajado o ensino das leis e da medicina. Muito antes de os árabes terem começado a apreciar a filosofia grega já Isidoro tinha introduzido o estudo de Aristóteles na Península. Foi o primeiro escritor cristão a tentar a compilação de um sumário do conhecimento universal, uma enciclopédia que reuniu o conhecimento antigo e moderno, impedindo a perda de muitas partes dos conhecimentos clássicos.

Ainda neste mesmo dia de  5 de dezembro de 633, no IV Concílio de Toledo, os participantes receberam o rei Sisenando, respeitosamente, apesar da mácula da ilegitimidade do seu trono porque ele tinha deposto o rei anterior. Mas o rei Sisenando caiu de joelhos diante dos bispos, em lágrimas, implorando as suas orações e pedindo-lhes que curassem os abusos da Igreja no seu reino. Os bispos ficaram muito sensibilizados com o rei que tão piedosamente se apresentava perante o Concílio.

Neste Concílio foram formuladas as coleções de Leis, tanto civis quanto eclesiásticas, citando entre as primeiras, o famoso “Forum Iudiciorum” (foro dos juízes), e entre as segundas, 29 cânones relativos à disciplina e à administração da Igreja. Os clérigos foram declarados isentos de impostos e taxas, previram-se punições para quem faltasse aos juramentos de lealdade para com o rei ou se revoltassem contra ele, além de considerarem o rei como o “Ungido do Senhor.”

Este Concílio também decidiu sobre a forma de sucessão do monarca e foi taxativo: a coroa seria atribuída por eleição, tendo por votantes os aristocratas e os bispos.

O IV Concílio de Toledo aprovou setenta e cinco cânones ou regras. Um deles reputava os ensinamentos que os arianos tinham ensinado aos godos, que haviam conquistado a Península Ibérica. Os arianos ensinaram que no batismo a pessoa tinha de ser mergulhado três vezes para mostrar as divisões na Trindade. Isidoro e os bispos neste Concílio ensinaram que não, pois Deus é um, então um mergulho é suficiente.

Sabiamente, o Concílio tornou ilegal forçar os judeus a converterem-se ao Cristianismo. No entanto, considerou que os judeus que já haviam sido convertidos pela força não poderiam retornar ao Judaísmo. Estas rígidas leis foram comunicadas aos judeus, quer tivessem sido batizados ou não.

O Concílio decidiu também que quando uma pessoa se tornava monge, seria para sempre um monge, era monge vitalício. Alguns meninos que haviam sido levados para os conventos quando eles tinham pouca idade para escolher se queriam ser ou não ser religiosos, a estes o Concílio autorizou-os a optar, uma vez que não eram monges por sua própria escolha. Mas o Concílio declarou que eles deviam continuar a viver nos conventos durante toda a sua a vida. Eles não podiam abandonar o convento.

O Concílio também meteu o nariz na política do reino visigótico. Ele tomou o partido do novo rei (rei Sisenando) contra o deposto, e proibiu ao rei deposto ou algum dos seus familiares o tentar recuperar o reino perdido. O rei Sisenando, por sua vez, libertou o clero do serviço prestado ao estado e de todos os impostos estatais.

E o que dizer dos hinos compostos pelo homem? O Concílio declarou que os hinos dos bispos Ambrósio e Hilário poderiam ser usados na Igreja.

As instituições e a cultura romana estavam a desaparecer, substituídas pelo controlo político dos Godos, que então dominavam a Península Ibérica há quase dois séculos. Isidoro contribuiu para que houvesse uma integração harmoniosa entre os vários povos da Península Ibérica, utilizando todos os recursos religiosos e culturais que possuía. Os seus esforços foram coroados de sucesso, tendo o arianismo sido erradicado e a heresia de Acéfalo completamente abafada.

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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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