… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

2 de dezembro de 1381 • Jan Van Ruysbroeck afirmava que podemos conhecer Deus diretamente!



2 de dezembro de 1381 Jan Van Ruysbroeck afirmava que podemos conhecer Deus diretamente!
Uma pintura de Jan Van Ruysbroeck
Os teólogos ensinam-nos que o homem foi criado para desfrutar da presença de Deus. Mas, será que podemos conhecer Deus, diretamente, nesta vida? Como outros místicos do século XIV, Jan Van Ruysbroeck pensava que sim. Ele até ensinou mesmo que podemos tornar-nos um com Deus.

Enquanto vivemos nas sombras não podemos ver o Sol, pois como disse São Paulo enxergamos obscuramente através de um espelho. Mesmo assim, a sombra é iluminada pelo Sol, de modo a percebermos as distinções entre todas as virtudes, e toda a verdade, que são de valor para a nossa condição mortal. Mas, se havemos de nos tornar unos com a luz do Sol devemos seguir o Amor e esquecer-nos de nós mesmos no “Caminho”, e então o Sol atrair-nos-á a nós mesmos, com os nossos olhos cegos, para dentro do seu fulgor, onde possuiremos a unidade com Deus... Em Sua benevolência, Ele quer ser todo nosso, então, Ele ensina-nos a viver nas riquezas das virtudes. Em Seu toque interno todos os nossos poderes nos abandonam, e, então sentamo-nos sob a Sua sombra, e o Seu fruto é doce para os nossos sentidos, pois o fruto de Deus é o Filho de Deus, a Quem o Pai faz nascer em nosso espírito. Este Fruto é tão infinitamente doce aos nossos sentidos que não podemos, nem engolí-Lo, nem assimilá-Lo, mas antes, é Ele quem nos absorve em Si mesmo e nos assimila em Si mesmo.” Jan Van Ruysbroeck in “A Pedra Faiscante, XI.”

Para os contemporâneos de Jan Van Ruysbroek, isto soou perigosamente como panteísmo. O panteísmo ensina que Deus é tudo e tudo é Deus. Jan Van Ruysbroek, rapidamente, esclareceu os seus leitores para lhes assegurar que o que ele quis dizer é que podemos tornar-nos um com Deus no Amor, não na nossa natureza essencial, ou no ser essencial, como foi com Cristo.

Johan van Ruysbroeck (ou Jan van Ruusbroec) (1293 ou 1294-2 de dezembro de 1381) foi um místico belga, de expressão flamenga, nasceu em Ruysbroeck, (de onde recebeu o nome), nas proximidades de Bruxelas.

Jan van Ruusbroec tinha apenas onze anos quando saiu de sua casa, sem sequer dizer adeus à sua piedosa mãe. Ele queria ficar com um dos seus tios, estava ansioso por viver o tipo de vida simples, que ele imaginava que os primeiros cristãos viveram. Como o seu tio, ele desejava achar uma profunda espiritualidade.

Depois de realizar estudos em Bruxelas, foi ordenado sacerdote, em 1317. Permaneceu em Bruxelas ao serviço da catedral de Saint-Gudule e a sua mãe mudou-se para essa cidade, para estar perto dele. Até aos cinquenta anos Jan Van Ruysbroeck viveu em Bruxelas.

Por volta dos seus 50 anos, ele juntou-se ao seu tio e a um outro homem que pensava como eles, e retiraram-se para o convento de Groenendael, dos Cónegos de Santo Agostinho. Depois, muitos outros homens se lhes juntaram. Nesse eremitério ele ia alternando a oração com o trabalho manual, ao mesmo tempo que foi organizando a comunidade dos religiosos residentes no eremitério, da qual foi Prior em 1343.

Jan van Ruusbroec começou a escrever, a fim de combater os ensinamentos dos falsos místicos. Ele vagueou pela floresta com um bloco de notas, pensando em Deus. Quando chegava a qualquer entendimento, ele escrevia-o.

Numa ocasião escreveu:

“Aqueles que seguem o caminho do Amor
São os mais ricos dos viventes:
São ousados, francos e destemidos,
Não têm aflições, nem preocupações,
Pois o Espírito Santo carrega todos os seus fardos.

Eles não procuram aparências exteriores,
Nem desejam nada que o homem estima,
Não ostentam uma conduta especial,
E passariam, por homens bons, como quaisquer outros.”

Ainda que fosse um flamengo e escrevesse na sua língua nativa, e não em latim, os seus escritos tiveram um grande impacto e foram até traduzidos para as principais línguas da Europa Ocidental. Os textos de Ruysbroeck, que como disse, usava o flamengo, destinam-se ao leitor comum. Caracterizam-se pelo uso de imagens simples, através das quais Ruysbroeck buscava mostrar a Verdade ao mais ao profundo da alma.

Os seus escritos expõem uma espiritualidade que abandona o formalismo intelectualista da escolástica de até então, enveredando por um misticismo mais acentuado. Ruysbroek é dos que, como Tauler e Gerson, é classificado entre os místicos ortodoxos, diferentemente dos do modelo, por exemplo de Eckhart, mais próximo do panteísmo e da tradição neoplástica de Pseudo Dionísio e de Escoto Erígena. Contudo mantém-se próximo destes.

O misticismo não fez de João um homem inacessível. Pelo contrário, ele era tão amável a ajudar os outros, ensinando como eles deviam agir em determinadas situações que muitos acorriam a pedir-lhe conselhos. Os seus escritos eram avidamente copiados e passavam de mão em mão. Gerard Groot, o fundador dos Irmãos da Vida Comum e um dos notáveis Cristãos da sua época, tornou-se seu amigo íntimo. Através de Groot, João também influenciou Tomás de Kempis, autor do livro “A imitação de Cristo.” Tauler, que se tornaria um dos mais famosos místicos alemães, por sua vez, também visitou o eremitério e foi profundamente influenciado por João.

As suas obras são cerca de 12: “O adorno das bodas espirituais” (De Chierheit der geeesteleker brulocht), sobre as formas da vida ativa, interior, contemplativa; “O tabernáculo” (... ), imaginando sete moradas no interior da alma; “O espelho da salvação eterna” (De Spieghel der ewigher salicheit), em que a alma se espelha como imagem de Deus; “O reino dos amantes de Deus” (... ), “sobre os dons do Espírito Santo”; “O livro da mais alta verdade” (... ), explicando os dons a que se refere o anterior; “O livro dos sete claustros” (... ), ou sete renúncias; “As doze virtudes” (... ), as virtudes que servem de meios para atingir a contemplação); “Quatro tentações” (... ), em que, entre outros temas, é refutado o panteísmo dos “irmãos do livre espírito.”

Johan van Ruysbroeck (ou Jan van Ruusbroec) morreu neste dia, 2 dezembro de 1381, em Groenendael. Em 1908, o Papa Pio X (nascido Giuseppe Melchiorre Sarto; Riese, 2 de junho de 1835 — Roma, 20 de agosto de 1914) declarou-o bem-aventurado.

****

Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

Este texto é de livre utilização, desde que a sua ortografia seja respeitada na íntegra porque já está escrito com o Português do Novo Acordo Ortográfico e que não seja nunca publicado nem utilizado para fins comerciais; seja utilizado exclusivamente para uso e desfruto pessoal.

Sem comentários: