… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

domingo, 29 de janeiro de 2017

29 de janeiro de 1499 • Katharina von Bora, um exemplo para as esposas cristãs


29 de janeiro de 1499 Katharina von Bora, um exemplo para as esposas cristãs
 Retrato de Catarina von Bora, por Lucas Cranach, o Velho (1526)

Katharina von Bora casou-se com Martinho Lutero, líder da Reforma protestante, a quem ele carinhosamente chamava “Herr Käthe” (Senhor Caty). Considera-se que Catarina, foi uma das mulheres mais importantes da Reforma devido ao seu papel, porquanto ajudou a definir a vida da família protestante e fixar os casamentos do clero.



Catarina von Bora era filha de Hans von Bora e de Catarina von Bora. Nasceu neste dia, 29 de janeiro de 1499 em Lippendorf, ao sul de Leipzig, na Alemanha. Descende de uma família de nobres empobrecidos da Saxónia, provavelmente com três irmãos e uma irmã.



A mãe de Catarina von Bora morreu quando ela tinha cinco anos, no ano de 1504, e seu pai tendo voltado a casar, enviou Catarina para um convento beneditino em Brehna, perto de Ache. Em 1508, seu pai mudou-a para outro convento, desta vez da Ordem de Cister, em Nimbschen, perto de Grimma. Uma das suas tias paternas, Magadalena von Bora, era monja neste convento, e uma tia materna, Margarete von Haubitz, era a madre superiora. Em 8 de outubro de 1515, com 16 anos de idade, Catarina von Bora tomou os votos como monja. No convento aprendeu a ler, a escrever e algumas noções de latim.



Estando ao corrente da Reforma de Lutero, ela e outras onze monjas conseguem fugir do convento em 4 de abril de 1523. Era pela Páscoa, tendo chegando a Wittenberg, onde encontra acolhida na casa do pintor Lucas Cranach, o Velho.



Nessa ocasião desenvolve simpatia por Jerónimo (Hieronymus) Baumgärtner, de Nuremberg, que estuda ma universidade de Wittenberg, mas os pais deste ordenam-lhe que regresse a casa, gorando o casamento. Tampouco ajuda no intento a mediação de Lutero. Depois, o docente e pastor Glatz, de Orlamünde, propõe-lhe matrimónio, mas Catarina rejeita-o. Numa conversa com Nikolaus von Amsdorf, Catarina von Bora teria expresso que gostaria de casar-se com Lutero. Este, por outro lado, teria preferido antes a Ave de Schönfeld, outra das ex-monjas do grupo de Nimbschen...



Contudo em 13 de junho de 1525 celebra-se o noivado e o casamento de Catarina von Bora com Martinho Lutero. A festa tem lugar em 27 de junho de 1525.



A respeito da qual, Felipe Melâncton escreve em 1525: "Inesperadamente, Lutero casou-se com a Bora, sem informar sequer os seus amigos das suas intenções..."



A partir de então, Catarina assume o governo da sua casa, exerce o direito do convento de fabricar cerveja, dedica-se ao gado, arrendando para isso vários terrenos.



Em 7 de junho de 1526 nasce o primeiro filho de Martinho e de Catarina, João (Johannes/Hans). Em 10 de dezembro de 1527 nasce Isabel (Elisabeth), mas não vive mais de oito meses. Madalena, nascida em 4 de maio de 1529, falece aos 13 anos. Em 1531, 1533 e 1534 nascem os filhos Martinho (Martin) e Paulo (Paul) e a filha Margarida (Margarethe). Todos os descendentes atuais do Martín Lutero são da linha desta sua filha, Margarida.



Diz-se que Catarina von Bora recusou uma oferta de casamento de Dr. Kasper Glatz, vigário em Orlamünde, tendo expresso a sua preferência por Amsdorf ou por Lutero. Catarina von Bora era quinze anos mais nova do que Martinho Lutero, não sendo notória pela sua beleza nem pela sua cultura, mas era saudável, forte, sincera, inteligente e de elevada disposição. Katharina tinha ficado atraída por um antigo estudante do Wittenberg, mas este mudou de opinião e casou-se com uma mulher rica em 1523.



Finalmente, Lutero escreveu em 4 de maio de 1525 ao Dr. Rühel (conselheiro do conde Alberto de Mansfeld e do cardeal Alberto do Mainz) de que tomaria Katie como esposa. Não disse nada aos seus amigos sobre os seus planos, considerando imprudente falar muito sobre assuntos delicados. ‘Um homem’, disse ‘deve pedir a Deus conselho, orar e atuar em consequência’.



Na tarde de 13 de junho, terça-feira depois do domingo da Trindade, Lutero convidou Bugenhagen, Jonas, Lucas Cranach e a sua esposa, e um professor de jurisprudência, Apel (ex-deão da catedral de Maberg, que se tinha casado também com uma ex-monja) para a sua casa e na presença deles tomou como esposa a Catarina von Bora no nome da Santa Trindade. Bugenhagen oficiou a cerimónia na maneira acostumada. Na manhã do dia seguinte Lutero convidou os seus amigos para tomarem o pequeno almoço em sua casa. Justo Jonas informou Spalatin por um mensageiro especial do casamento de Lutero, o qual emocionado, viu nisso a mão de Deus.



Em 27 de junho, Lutero celebrou o seu casamento numa forma mais pública, embora modesta, mediante uma festa nupcial. Convidou o seu pai e a sua mãe e os seus amigos distantes para ‘selar e ratificar’ a união e para ‘pronunciar a bênção’. Mencionou com especial satisfação que agora tinha completado a realização de um antigo dever a seu pai, que desejava casá-lo.



A universidade de Wittenberg deu aos noivos  de presente de casamento uma taça de prata que tinha a inscrição: ‘A honorável universidade da cidade eleitoral de Wittenberg apresenta este presente de bodas ao doutor Martinho Lutero e a sua esposa Katharina von Bora’. O magistrado ofereceu ao casal um barril de cerveja, uma pequena quantidade de bom vinho e vinte “guilders” de prata. É muito relevante que o arcebispo Alberto tenha enviado a Katie, por Rühel, um presente de casamento de vinte “guilders” de ouro; Lutero não aceitou este presente para si, mas deixou que Katie o recebesse. O novo casal passou a viver no antigo mosteiro agostinho, que agora estava vazio e abandonado.


 


Apesar do seu casamento Lutero não interrompeu muito os seus estudos e em finais desse ano publicou o seu violento livro contra Erasmo, o qual se maravilhou de que o casamento não lhe tivesse suavizado o seu temperamento.




O casamento deu origem a calúnias e falatórios. Os seus inimigos difundiram a insídia de que Lutero tinha violado previamente o voto de castidade e predisseram que, segundo uma tradição popular, o ex-monge e a ex-monja dariam à luz o Anticristo. Erasmo contradisse satiricamente o rumor, dizendo que se isso fosse verdade teria havido milhares de anticristos antes disto. Melâncton (que tinha sido convidado para a festa de 27 de junho, mas não para a cerimónia do dia 13), numa carta em grego ao seu amigo Camerarius de 16 de junho, expressou o temor de que Lutero, ainda que podia ser beneficiado pelo casamento, teria cometido um lamentável ato de ligeireza e debilidade, prejudicando a sua influência num momento em que a Alemanha mais necessitava dele. O próprio Lutero sentiu-se ao princípio estranho e inquieto na sua nova condição, mas logo se recuperou. Em 11 de agosto de 1526 escreveu a Stiefel: ‘Katharina, a minha amada costela, saúda-te, e agradece-te a tua carta. Ela é, graças a Deus, gentil, obediente, cumpridora em todas as coisas, além do que esperava. Não trocaria a minha pobreza pela riqueza do Creso’. Algumas vezes Lutero pregou sobre as provas e deveres da vida matrimonial com rigor e eficácia, a partir da sua experiência prática e com gratidão pelo sagrado estado que Deus instituiu no paraíso e que Cristo honrou com o Seu primeiro milagre. Lutero chama ao casamento dom de Deus, vida casta, superior ao celibato ou se não será um verdadeiro inferno.



Lutero e Catarina estavam bem adatados um ao outro. Viveram felizes durante vinte e um anos e compartilharam as cargas e alegrias de um casamento normal. A sua vida doméstica era muito característica, cheia de bom ambiente, humor inocente, afeto cordial, simplicidade e completamente alemã. Nenhuma mancha houve no seu lar, no qual Martinho era gentil como um cordeiro e menino entre os meninos. ‘Depois da palavra de Deus’, disse Lutero a partir da sua experiência pessoal, ‘não há tesouro mais precioso que o santo matrimónio; o mais alto dom de Deus na terra é uma esposa piedosa, alegre, temerosa de Deus e dona-de-casa, com a qual se possa viver pacificamente e a quem podes confiar os teus bens, corpo e vida’.



Martinho Lutero amou a sua esposa afetuosamente e chamou-lhe nas suas cartas ‘meu amado coração, graciosa dona-de-casa, mão decidida e pé em amante serviço’. Catarina von Bora era uma boa “hausfrau” [dona de casa, etimologia de Haus (casa) + Frau (senhora)] alemã, cuidando do que seu marido e filhos necessitavam, contribuindo para a sua comodidade pessoal na saúde e na enfermidade e exercendo a hospitalidade. Tinha uma forte vontade e sabia como atuar. Lutero falava dela às vezes como ‘Senhor Katie’ e dele mesmo como ‘servo disposto’. ‘Katie’ dizia-lhe ‘tens um marido piedoso que te ama e tu és uma imperatriz’. Uma vez em 1535 Martinho Lutero prometeu-lhe os seus cinquenta guilderes se ela lesse a Bíblia inteira, por isso teve, conforme disse a um amigo, um sério assunto com ela.



A Katie e Melâncton escreveu Martinho as suas últimas cartas (cinco a ela, três a Melâncton) desde Eisleben pouco tempo antes de morrer, informando-a da sua viagem, da sua dieta e condição, queixando-se de cinquenta judeus que estavam sob o amparo da condessa viúva de Mansfeld, enviando-lhe saudações para o professor Philip (Melâncton) e dissipando as suas apreensões sobre sua morte.



No seu testamento (1542), dezassete anos depois do seu matrimónio, chama-lhe a ‘piedosa, fiel e devota esposa, cheia de amor e tenros cuidados para com ele’. Havia momentos, entretanto, quando Lutero se sentia oprimido por problemas domésticos quando disse uma vez que não se casaria outra vez, nem sequer com uma rainha. Mas esses eram momentos passageiros. Lutero pôs a mulher na mais alta honra: ‘Todos os homens são concebidos, nascidos e criados por mulheres. Delas procedem, portanto, os queridos pequenos, os herdeiros tão apreciados. Esta honra deveria compensar, com justiça, toda a debilidade feminina’. Depois da morte de Lutero (18 de fevereiro de 1546) Katharina permaneceu em Wittenberg sumida na pobreza. Durante a guerra de Esmalcalda, em 1546, Catarina refugia-se em Dessau e Magdeburgo. A sua morte deveu-se a um acidente que ocorreu quando estava a caminho com os seus filhos para Torgau. Katharina von Bora (Catarina von Bora) morre em 20 de dezembro de 1552 em Torgau, aonde tinha chegado fugindo da peste que açoitava em Wittenberg



Termino esse relato breve acerca de vida de Katharina von Bora (Catarina von Bora) (1499–1552) citando o último testemunho do seu esposo. Escrevendo, certa vez, a um amigo, Martinho Lutero disse: “A Minha querida Kate mantém-me jovem, e em boa forma também… Sem ela, eu ficaria totalmente perdido. Ela aceita de bom grado as minhas viagens e quando volto, está sempre aguardando-me com alegria. Cuida de mim nas minhas depressões e suporta os meus acessos de cólera. Ela ajuda-me no meu trabalho, e acima de tudo, ama a Cristo. Depois dEle, ela é o maior presente que Deus já me deu nesta vida. Se algum dia, vierem a escrever a história de tudo o que já tem acontecido (isto é, a Reforma), espero que o nome dela apareça junto ao meu. Eu oro por isso…”.



Ao tomar conhecimento desta declaração, Katharina von Bora (Catarina von Bora) respondeu: “Tudo o que tenho feito resume-se simplesmente a duas coisas: ser esposa e mãe, e tenho a certeza de que sou uma das mais felizes de toda a Alemanha!”



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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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