… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

23 de janeiro de 1899 • Eric Barker aplicou-se de alma e coração à pregação do Evangelho em Portugal


23 de janeiro de 1899 Eric Barker

aplicou-se de alma e coração à pregação do Evangelho em Portugal

Neste dia, 23 de janeiro de 1899, nasceu em Stounbridge, na Inglaterra, um lindo bebé, ao qual os seus pais deram o nome de Eric Harold Barker. Perante este nome não podemos ficar indiferentes, já que por detrás destes três nomes existe uma força, uma perseverança, um amor, uma fé que mexeu com todos que o conheceram. Ele foi o segundo de quatro irmãos, dois rapazes e duas meninas, filhos de servo dedicado de Deus, Harold P. Barker, um homem que usou os seus dons espirituais anunciando o Evangelho em vários países da Europa e mesmo na América do Norte e que escreveu vários livros, alguns dos quais foram mais tarde traduzidos para Português pelo seu filho Harold P. Barker. Podemos, pois, dizer que Eric nasceu num ambiente excepcional. No entanto, ele não tinha a certeza da salvação. Um dia, quando ele tinha cerca de sete anos de idade encontrou-se sozinho em casa. Seus pais tinham ido à reunião de oração e no seu quarto, ele estava preocupado, pensando que se o Senhor voltasse a buscar os seus pais, ele iria ficar ali só. Foi então que se ajoelhou e pediu ao Senhor para entrar no seu coração.



Logo a partir daí a sua fé começou a ser posta em acção. Pouco tempo depois quando ia com a mãe a uma reunião relativamente longe da sua casa e esta lhe disse que teriam de ir a pé, pois não tinham dinheiro, Eric perguntou: “Mas, então, Deus não nos pode dar o dinheiro?” A mãe, Jessie Barker, disse-lhe que sim, ele que Lhe pedisse, e assim na paragem do eléctrico Eric orou. Qual não foi a sua alegria quando abriu os olhos e viu ali perto no chão uma moeda suficiente para a viagem!



Assim começava a crescer a sua fé. Estudou depois até ao quinto ano. Muitas vezes nas férias, para ganhar algum dinheiro, levava turistas a passear de barco a remos ou à vela em Morcombe Bay. Aos dezasseis anos conseguiu um emprego num afamado banco de Londres. Também por essa altura começou a desenvolver um apreciável trabalho na sua Assembleia Local sendo então superintendente da Escola Dominical. O seu ministério não se confinava às quatro paredes da sua Assembleia Local e várias vezes pregou o Evangelho ao ar livre, inclusivamente no famoso Hyde Park.



Aos dezoito anos entra na I Guerra Mundial como voluntário, na Armada inglesa, ai permanecendo cerca de dois anos.



Uma vez, numa das muitas viagens que o seu navio fazia para proteger barcos de carga, aquele foi torpedeado pelo inimigo e começou a afundar-se. Os marinheiros tiveram ordem de saltar para os salva-vidas, mas quando chegou a sua vez, ele saltou mas... caiu na água gelada, pois já não estava lá o salva-vidas. E naqueles momentos, enquanto estava ali naquelas águas ele decidiu que se estava pronto a dar a sua vida pelo seu rei e pelo seu país muito mais deveria estar pronto a dedicar toda a sua vida ao seu Rei Jesus e à Sua Pátria Celestial. O Senhor salvou-o, pois entretanto outro salva-vidas chegou e quando Eric Barker voltou a Inglaterra tinha este desejo bem firme no seu coração. Ainda regressou ao banco onde trabalhou por algum tempo, mas em 1920, com apenas 21 anos decidiu partir para o campo missionário e graças a Deus porque o país escolhido foi Portugal.



Foi ainda por influência de seu pai que esta escolha aconteceu, pois este tinha estado cá e viu as grandes necessidades espirituais deste país. Depois de orarem entenderam claramente que o caminho era Portugal. Eric Barker não tinha dinheiro nem Sociedades Missionários para lhe garantirem o seu sustento diário.



No final do Culto de despedida feito na sua Assembleia Local um irmão idoso convidou-o para ir a sua casa e lá fez-lhe esta pergunta: “Com o que é que estás a contar para o teu sustento em Portugal?” Resposta simples do nosso irmão: “Com a fidelidade do Senhor!” Ao separarem-se aquele irmão deu-lhe um cheque de dez libras que foi o suficiente para a viagem e para pouco mais. Assim Eric Barker chegou à nossa terra.



Convém nesta altura fazer um parêntesis para dizer que o trabalho evangélico das Assembleias dos Irmãos estava, nesta altura, resumido em Lisboa, às Assembleias Locais das Amoreiras e de Santa Catarina, a um esboço de início em Coimbra e a alguns crentes em Aveiro. Hoje, graças a Deus, e em boa parte pela instrumentalidade do seu servo Barker, existem dezenas de Assembleias Locais e de lugares de culto. A Deus toda a glória!



A sua primeira paragem “forçada” em Portugal foi na Pampilhosa, (já naquela altura os ferroviários faziam greves), de onde seguiu depois para Coimbra. Aí permaneceu algumas semanas em casa do Dr. Opie, que era professor na Universidade. No fim do ano de 1920 mais propriamente no Natal, John Opie quis ir a Lisboa passar essa quadra com o Irmão George Howes. Eric acompanha-o e é nessa altura que conhece também José Ilídio Freire que viria a ser o seu companheiro de muitas jornadas.



Com ele e também com a família Howes, começa a praticar o português e em fevereiro de 1921, três meses apenas após a sua chegada, o Senhor usa-o na sua primeira mensagem na língua de Camões na Igreja de Santa Catarina. Foi o início duma gloriosa epopeia que só terminou quando o nosso Pai o chamou à Sua presença no dia 9 de julho 1989.



Depois de Santa Catarina foi a vez de Almada e de outras localidades ao redor de Lisboa, como Alhandra, Caneças e Vila Franca de Xira, sempre acompanhado pelo Irmão Ilídio Freire. Foi então que do Norte vem um apelo. Um Irmão idoso, o Senhor Malaco, estava às portas da morte e era necessário alguém para dirigir o seu funeral. Eric Barker é enviado. Quando chegou à Gafanha da Nazaré, com a alegria da sua chegada, o Irmão Malaco, deu graças a Deus porque Ele tinha respondido à sua oração de mandar um missionário para a sua terra e ele acabou mesmo por melhorar e viver ainda por mais alguns anos! Começaram-se então a fazer reuniões no pátio da casa deste irmão e também na casa de um guarda fiscal convertido, Luís Nunes Sapateiro, nome inscrito no nosso hinário como autor de alguns hinos. Depois o trabalho evangélico começou a alargar-se até Ílhavo, e, também a outras localidades, como a Palhaça, onde o Evangelho era pregado ao ar livre depois de serem feitas grandes caminhadas para chegar a estes lugares. Eric Barker aluga então uma pequena casa na rua principal de Ílhavo e volta a Inglaterra para contrair matrimónio. Estávamos em janeiro de 1923.



A família Clayton que entretanto tinha chegado para ajudar na obra aluga uma casa em Cacia. Eric já casado vem viver para Cacia, fazendo aí reuniões, e também em Aveiro, Quinta do Loureiro, Albergaria-a-Velha e em S. Marcos. Os contactos com Lisboa não estavam no entanto perdidos e o Irmão Ernest Holden, que estava com responsabilidade na área de Almada, teve uma ideia. Com a ajuda de alguns irmãos comprou um carro alentejano e a respectiva mula, para ser usado pelo Irmão Ilídio Freire e Irmão Barker. E o primeiro “raid-todo o terreno” evangélico aconteceu. Partindo de Lisboa estes dois irmãos, dormindo e cozinhando no carro, entenda-se carroça, distribuíram milhares de folhetos, venderam centenas de Bíblias, testemunharam em dezenas de povoações, e depois de mais de vinte dias de viagem, chegaram a Cacia, onde o Irmão Barker vivia. O Irmão Freire regressa a Lisboa de comboio, deixando a carroça com o Irmão Barker que o usa assiduamente em feiras e aldeias naquelas redondezas.



Por esta altura Eric visita um jovem, acerca de quem tinha recebido notícias diretamente dos Estados Unidos pela mão de Arthur Ingleby. Esse jovem era Viriato Dias Sobral que depois também dedicou a sua vida ao serviço do Senhor. Também foi por essa altura que chega a Portugal Frank Smith que se estabeleceu primeiramente em Estarreja. Foi o Irmão Barker que celebrou a cerimónia de casamento deste irmão com Dorothy, a sua primeira esposa. Entretanto, em Cacia a família de Eric Barker crescia. Harold foi o primeiro rapaz, a Kathleen a primeira menina, dum total de oito irmãos. Também a família de Deus ia aumentando, e, este caso maravilhoso vai ser contado por Nascimento de Jesus Freire. “Há muitos, muitos anos, talvez em 1928, passava eu, qual filho pródigo, por Cacia e batia numa porta. Aí morava Eric Barker que eu só conhecia de nome através do meu irmão. Cansado, depois de uma grande viagem, qual judeu errante, ele abriu-me a sua porta de casa, este homem que eu amava... Depois de Marques Pereira e de meu irmão José, foi o homem a quem eu amava e me amava. Ele abriu-me a porta não somente a mim, mas, sobretudo abriu a porta também ao Evangelho para milhares em Moçambique...” “...Recordo uma viagem que juntamente com o ancião Fragoso, das Amoreiras, fizemos até Lisboa, vendendo milhares de Escrituras e pregando o Evangelho...! Estas são as palavras do nosso Irmão Nascimento de Jesus Freire.



Estamos no início dos anos trinta. Eric viaja agora todos os dias de comboio até ao Porto em virtude da sua nova actividade secular como contabilista numa famosa firma inglesa No entanto à noite todo o seu tempo era ocupado com reuniões tanto em Cacia como em todas as áreas vizinhas. Mas com os seus filhos a crescer, surgiu também a necessidade de irem à escola, e o colégio inglês ficava no Porto... Deus conhece todas as necessidades dos seus filhos e assim providencia uma casa na Travessa do Pinheiro Manso, bem perto do seu emprego e não muito longe do Colégio Inglês. Aqui vai surgir o embrião da futura Igreja da Foz e também se vai abrir a porta do Evangelho para toda uma vasta metrópole envolvendo Porto e seus arredores.



Mas não foi por muito tempo que a família Barker viveu nesta casa. O Senhor conduziu-os para a zona da Foz do Douro. Aqui vai passara ser o “quartel general” de toda a sua ação missionária até ao dia em que o Senhor o chamou à Sua Divina presença. De uma forma maravilhosa aparece o sítio ideal para o início dos cultos. Era a sede de um clube, mas como este já devia vários meses de renda ao senhorio foi então o próprio senhorio que propôs o arrendamento ao Irmão Barker. Estamos no início do ano de 1935.



Embora não se saiba exactamente a data da primeira reunião o aniversário é comemorado na última semana de fevereiro e, isto sim está registado, a data da primeira escola dominical é a 17 de março de 1935. Os seus filhos são os primeiros alunos mas havia já um bom grupo. O trabalho ia crescendo não só na zona da Foz, mas também na margem sul do Douro. Havia ainda uma boa relação com outros trabalhos de outras denominações, caso da Igreja Lusitana e da Igreja Metodista, onde pelo menos uma vez por mês o Irmão Barker ia fazer estudos bíblicos. Tempos diferentes... e muitas almas eram salvas.



“Foi por instrumentalidade deste irmão que aceitei a Jesus Cristo, precisamente há 50 anos, pois foi em 1939 em casa da querida irmã D. Madalena Monteiro, cuja conversão tinha constituído um grande acontecimento para a época. Ela pôs a sua casa ao dispor para serem anunciadas as Boas Novas da Salvação, casa que pela mercê do Senhor nós hoje habitamos, e onde muitos encontraram o Salvador. Mas como então houve uma denúncia à P. I. D. E., dizendo que aqui se faziam reuniões políticas, o seu marido, avisado, mandou-as suspender e fomos para casa do Irmão António Monteiro, já tomando então a forma de Igreja, orientada pelo Senhor Barker, embrião da futura Assembleia de Alumiara”. Estas são palavras do Irmão José Maria Azevedo, um crente da velha guarda que recorda assim o tempo da sua conversão.



Aos domingos, depois de Alumiara, os crentes seguiam para Vilar do Paraíso e Valadares, onde pregavam ao ar livre, e onde também havia música, porque alguns Irmãos tocavam violino, bandolim e violão, incluindo o Irmão Barker, que era um especialista em bandolim. Foram muitas vezes insultados, perseguidos, apedrejados e mesmo ameaçados de prisão, mas muitas almas eram salvas domingo após domingo e os núcleos para a formação de novas igrejas naquelas áreas estavam formados.



Os tempos eram difíceis. A II Guerra Mundial estava ao rubro e o consulado britânico em Portugal aconselhou todos os cidadãos ingleses a retirarem-se para o seu país. Assim toda a sua família, esposa, filhos, sogro, irmã e sobrinhas partiram no barco posto à disposição pelo consulado. Depois de vários dias de viagem por uma rota supostamente mais segura e quando já se encontrava peito da costa da Irlanda, o barco foi torpeado por um navio alemão e afundou-se, levando consigo toda esta família. Rude golpe para qualquer pessoa. Mas Eric não era uma pessoa qualquer. No mesmo dia em que recebeu esta notícia, um domingo, o Irmão Barker veio ao culto de Santa Ceia e demonstrando uma coragem, uma fé, uma segurança inabalável, anunciou que “Todos os meus queridos já chegaram ao Lar... Celestial!” Nunca se deixou abater por esta tão dura prova. Os crentes daquele tempo afirmavam que nunca o viram desanimado, ou a derramar alguma lágrima em público, embora o fizesse no seu quarto e a sós com o seu Senhor.



E quando, humanamente falando, poderíamos esperar um homem abatido por este trágico acontecimento, eis que o Senhor o usa ainda mais poderosamente e passa a ser o pregador mais desejado em Portugal.



“Foi em julho de 1942 num domingo à tarde que aceitei Cristo como meu Senhor e Salvador, pela pregação do Irmão Barker ao ar livre, num pátio de uma tia do Irmão José Maria. O texto bíblico usado pelo Espírito Santo para a minha conversão e novo nascimento foi S. João 5:24. A partir daí fiquei ligado à Igreja de Alumiara, sob a liderança do Irmão Barker...”. Palavras do Irmão José Augusto Pontes que como lemos aceitou o Senhor nessa época.



A tragédia no entanto ainda continuava viva em muitos corações, especialmente daqueles que mais de perto com ele conviviam, e quando o Irmão Barker ficou preso no seu leito, retido por uma enfermidade, toda a igreja se envolveu numa forte oração por este irmão. A oração de um justo pode muito em seus efeitos, quanto mais a de tantos justos, e passado pouco tempo realizou-se na A. C. M. uma das mais maravilhosas reuniões lá realizadas.



Crentes de todas as denominações superlotaram o saião para, com a sua presença, lhe testemunhar a sua simpatia, num desejo de ajudar a suavizar a sua dor e confortá-lo. Porém o que aconteceu é que quem ali esteve é que saiu consolado e conformado e também maravilhado por terem ouvido da boca de um verdadeiro servo de Deus, (que se submete à sua vontade), confessar que por tudo glorificava o nome de Deus-Todo-Poderoso, e terminar com as palavras de Paulo em Fl 4: 13 “Posso todas as coisas nAquele que me fortalece.” E assim mesmo sem a sua família, este irmão dispôs-se a ajudar com um prato de sopa todos os que fossem a sua casa, pois devido à II Grande Guerra havia naquela época muita fome e miséria. Recolheu também em sua casa algumas crianças que eram tratadas como se fossem seus filhos, e podemos dizer, sem favor, que mais de metade do seu salário, enquanto funcionário da casa Graham, era distribuído por famílias carecidas, suprindo também muitas necessidades de igrejas locais.



Muitos homens da zona da Foz, recordam ainda hoje essa sopinha, e também a “terça-feira da rapaziada” onde todos os rapazes da rua eram convidados a entrar no salão e para além de uma chávena de café quente e algumas brincadeiras, ouvirem acerca do Bom Pastor. Um trabalho com uma forte componente social mas que deu os seus frutos espirituais.



“Para além disso, era, quanto a mim, Eric Barker um dos melhores exegetas bíblicos nos estudos versículo por versículo, com quem muito aprendi ao longo de décadas, em que semanalmente vinha dirigir o Estudo Bíblico, às sextas-feiras, em Alumiara”, afirmação feita pelo Irmão Pontes e de certo corroborada por muitos outros irmãos. De referir que a viagem da Foz à Alumiara era feita de caíque na travessia do rio Douro e o resto a pé, quer chovesse, quer ventasse, ou fizesse frio. Quando o rigor do temporal impedia os barqueiros de atravessar o rio, ia de eléctrico até Coimbrões e depois a pé, ou fazendo mesmo todo o trajecto a pé, passando pelo tabuleiro inferior da ponte de D. Luís. Uma vez, apenas tinha o dinheiro suficiente para a travessia para lá, mas quando chegou à Alumiara um crente ofereceu-lhe 25 tostões (pouco mais de um cêntimo de um euro!), sem que ninguém tivesse dito nada, dinheiro esse que na altura era suficiente para o regresso e ainda para mais umas idas...



Em 1946 Eric Barker volta a Inglaterra. A sua mãe tivera uma trombose e passava mal. Nessa altura foi convidado para pregar em muitas Assembleias Locais, e, especialmente em Southampton, aonde se deslocava de comboio. Foi numa dessas viagens que conheceu uma interessante professora de um grupo de meninas. Ela era prima de Cecil Scott, que tinha sido missionário em Angola e que depois veio para Lisboa, e tinha o seu coração voltado para o campo missionário. Pensava que talvez a China fosse o seu destino. Mas depois de ter recebido uma carta de Eric convidando-a a vir para Portugal, compreeendeu que essa era a vontade do Senhor, e, assim, ainda nesse ano, contraem matrimónio e vêm trabalhar para Portugal. O trabalho evangélico continuava a avançar agora também para norte de Portugal. Havia já um salão na Ponte da Pedra, e em breve seriam iniciados trabalhos em S. Mamede de Infesta, Gueifães e Sta Cruz do Bispo. Também dava toda a colaboração a outros trabalhos já existentes, como em S. Pedro da Cova, com os mineiros, e também Leça da Palmeira e no Alto da Maia.



Deste novo casamento Eric com Beryl Scott, nascem mais cinco filhos e... alguns netos...



Para as suas deslocações aos diferentes lugares o Irmão Barker dispunha agora de uma bicicleta motorizada, que ele próprio adaptou de uma bicicleta da sua esposa, mas devido aos muitos trilhos dos eléctricos existentes e também ao mau piso das estradas, muitas vezes chegava a casa com a roupa num “mísero estado” e a esposa é que tinha de tratar de coser as calças... Só muito mais tarde ou seja em 1957 é que o Senhor lhe concedeu um carro, mas era já muito usado e estava muito velho. Novas aventuras surgem e também novas provas de fé.



Jessica, a quarta filha do seu segundo matrimónio tinha apenas dois anos de idade, mas já havia perto de seis que a família Barker não visitava a Inglaterra por falta de meios. Porém com a chegada do velho “Austin” que o Senhor lhes tinha dado parecia abrirem-se as portas! Mas a sua esposa estava um pouco céptica em relação a isso. Ir a Inglaterra sim, mas naquele carro tão velho... De barco era mais razoável, mas era mais caro e não tinham dinheiro suficiente. E, conta-nos a nossa irmã D. Beryl: “Orei muito sobre este assunto. Passei mesmo um domingo nesta luta, e à noite, no culto, alguém escolheu aquele hino que no novo hinário tem o n.º 317- Oh! Aleluia, sim é céu... Por terra ou mar ou onde for... - e Deus fez-me ver que tanto fazia ir de carro como de barco porque Ele mesmo estava connosco. Quando o meu marido disse na Garagem que ia a Inglaterra no carro, os homens riram-se: “Ó Senhor Barker, isso não passa de Espanha!”



Partiram. Os quatro filhos atrás misturados com a bagagem que havia por todo o lado. Até aos Pirinéus tiveram três furos. Enquanto o carro estava a ser reparado tiravam a velha máquina a petróleo e preparavam alguma coisa para comer, pois enquanto o carro andava era preciso aproveitar. Até que em França perto de Chartres: «“Foi numa curva, o carro fez um ruído muito esquisito, aninhou-se para o lado direito e não andou mais. O meu marido foi procurar uma oficina enquanto nós ficamos num parque ali perto. Demorou todo o dia. Por fim voltou e disse: “Vamos lá, já podemos continuar!” e contou o que se tinha passado. Os homens da primeira oficina que encontrou levaram o carro a uma outra especializada em Austin’s e lá o gerente depois de ver o problema perguntou: - “O Senhor quer que mande o carro para Portugal ou para Inglaterra?” “- Não, eu quero é seguir viagem. Eu sou missionário e estou aí com a minha esposa e filhos e queremos ir a Inglaterra.” “Missionário? E com a esposa! Então não é Católico?” “- Não, não! Sou evangélico!” Respondeu ele. “-Mas isso então faz toda a diferença!” E então aquele homem deu ordens aos seus empregados para fazerem tudo o que fosse possível para pôr o velho automóvel a funcionar. Demorou todo o dia. Estávamos preocupados porque tínhamos pouco dinheiro, mas francos franceses ainda menos. Quando ficou pronto e o meu marido perguntou quanto era, o homem da oficina disse: “Não é nada... É que o meu pai é pastor batista em Paris e eu tenho muita admiração pela sua obra, e quando disse que era evangélico... tudo mudou.” A viagem prosseguiu e lá chegamos ao destino. Quando um jovem mecânico crente lá em Inglaterra viu o carro disse: “Eu não toco sequer num parafuso porque senão cai tudo!” Agora pensemos! Com tantas centenas de quilómetros de viagem foi precisamente junto a uma garagem de uma família crente que o automóvel parou! Acaso? Não, certamente, Deus é continuamente fiel nas suas promessas! Ele honra a fé de seus filhos, Aleluia!»



Acresce dizer que os irmãos de Inglaterra ofereceram um motor novo para o carro o que permitiu que a viagem de regresso fosse bem menos atribulada. E o trabalho evangélico em Portugal foi prosseguindo. Já não com a mesma força expansiva como anteriormente, embora esse continuasse a ser o desejo da família Barker (pensaram mesmo em arranjar uma autocaravana para ir pregar o Evangelho aonde ainda ninguém tivesse ido), mas fortalecendo a obra já começada. Milhares de estudos bíblicos em variadíssimas Assembleias Locais ensinaram a sã doutrina, com conhecimento profundíssimo de toda a Bíblia. Isto também como consequência da Sociedade Bíblica Portuguesa ter posto a Bíblia de Almeida na nova ortografia, o que claro, o obrigou a lê-la muitas vezes.



O seu apoio a movimentos de Evangelização de caráter indenominacional, Campanhas Evangelísticas na A. C. M. e outros lugares, foi sempre notória. Mas também o seu apoio a missionários noutros lugares e países era bem eficaz. Senão ouçamos mais este testemunho do nosso irmão Nascimento Freire: “Morando na cidade da Beira, com cerca de três mil africanos à minha responsabilidade, fui convidado a ir a Lourenço Marques pregar na Igreja que eu tinha aberto juntamente com outros irmãos. E fui... Ora acontecia que o meu fato não estava assim muito “católico” e antes da reunião passei por uma loja de pronto a vestir onde vi um fato mesmo à minha medida. E disse para os meus botões: “Se tivesse dinheiro comprava este fato, pois o meu já não está decente”. Então lembrei-me que o Eric por vezes me ajudava com um cheque... E se eu fosse à minha antiga caixa postal n.º 1011? Quem sabe?... Como tinha a antiga chave na minha algibeira, dirigi-me à caixa. Abri-a. E lá estava, um cheque de Eric Barker!! Aleluia! O Senhor permitiu tal! E comprei o fato. Ah! Irmãos! Se houvessem mais destes corações nas nossas Assembleias! Apenas duas igrejas se lembravam das necessidades de Nascimento Freire em Moçambique: as Amoreiras e a Foz do Douro.” Este foi o depoimento vivo do nosso amado irmão Nascimento de Jesus Freire que conta também que o último encontro que teve com Eric Barker foi na Convenção em Sangalhos. A próxima será na Glória. “Lá estaremos os dois” afirmou.



Depois de cinquenta anos de intenso ministério em Portugal, altura em que vários irmãos organizaram uma justa homenagem a Eric Barker, seria de esperar um certo e merecido descanso, uma “reforma”. Puro engano.



Com a nova abertura surgida pela Revolução, em 25 de abril de 1974, em Portugal, e após a visita do barco Logos, eis que Eric Barker vai para a rua anunciar as Boas Novas. Juntamente com vários irmãos, (não muitos diga-se de passagem) distribuindo milhares de folhetos, vendendo dezenas de Bíblias e desta forma várias almas foram salvas. Um servo de Deus não pode parar e o nosso irmão Barker foi bem o exemplo disso.



Já com setenta e muitos anos continuava a ir a Alumiara, Valadares, Belomonte, Gueifães e muitos outros lugares anunciando a Palavra e fazendo estudos Bíblicos. São centenas os seus filhos espirituais!



Ele gostava do convívio e da comunhão. Dificilmente faltava aos encontros de anciãos na Livraria Esperança. Sempre estimulou os jovens. Ele dizia: “Aos dezasseis anos eu era superintendente da Escola Dominical e pregava ao ar livre. Vocês têm de ir para a frente.” Tinha sempre uma palavra de apreço por aquilo que os mais novos faziam, um sorriso no seu rosto e muito amor no seu coração.


O nosso irmão Barker era como todos os bons servos do Senhor, um homem com as suas limitações. Às vezes quase que exigíamos dele o que humanamente falando é impossível. Reconhecemos que ele não tinha todos os dons. E quem é que os tem? Ora, tendo isto em conta, queríamos realçar a sua grande paixão pelos perdidos. Sempre o vimos pregando com todo o zelo e amor. Mesmo sendo criticado nos seus últimos anos de vida por alguns, pelo facto de já com poucas forças físicas teimar em ir às quartas-feiras para uma artéria de grande movimento da cidade do Porto, às vezes acompanhado de um, de dois ou três Irmãos e anunciar fielmente o Evangelho. Cremos mesmo que este era o seu grande dom. Foi por muitas razões um Servo fiel, um grande defensor da Palavra de Deus.



Já com 89 anos participou em Esmoriz numa Conferência Missionária organizada pelos JIN, dando ali poderoso testemunho acerca daquilo que o Senhor tinha feito por seu intermédio e animando os mais jovens a confiar sem reservas no Senhor Jesus pois Ele é fiel!!



A comemoração do seu nonagésimo aniversário foi a sua última grande “atividade” em que participou. Pouco depois os seus problemas de saúde começaram a complicar-se. As dores eram fortes, o sofrimento era muito mas o seu sorriso mantinha-se pois a sua confiança estava posta no Senhor Todo Poderoso. Eric sabia que muito em breve iria estar bem perto dEle! O Senhor chamou-o à sua Divina Presença em julho de 1989.
 

Ficou a sua obra, o seu testemunho. Eric Harold Barker, um nome, uma vida, um exemplo de fé no seu Amado Senhor!

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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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