… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

2 de fevereiro de 1502 • Damião de Góis, uma luz bruxeleante nas trevas!



2 de fevereiro de 1502 Damião de Góis, uma luz bruxeleante nas trevas!
 Damião de Góis em desenho de Dürer, Galeria Albertina, Viena

Damião de Góis nasce neste dia, 2 de fevereiro de 1502, em Alenquer, filho de Rui Dias de Góis e de Isabel Gomes de Limi.



Quando ficou órfão do pai, aos nove anos de idade, Damião de Góis torna-se pajem do Paço de D. Manuel I. Na Corte Manuelina tem o primeiro contacto com a cultura da época: a música polifónica, o teatro Vicentino, os poetas do Cancioneiro de Garcia de Resende. É também na Corte que conhece o humanista Cataldo Parísio Siculo e Duarte Pacheco Pereira.



Em 1521, morre D. Manuel I e D. João III sobe ao trono.



D. João III nomeia Damião de Góis secretário da Casa da Índia, em Antuérpia, cidade onde irá permanecer até 1533.



Esta época é marcada pela grande afirmação das ideias de Erasmo na Europa. É nesta atmosfera erasmiana que Damião de Góis se começa a posicionar em Antuérpia. A sua amizade com poeta do humanismo Cornélius Grapheus de Schrijver, seguidor das ideias de Erasmo e que viria depois a ser preso e obrigado a abjurar publicamente o luteranismo, permite-lhe o estudo do latim erudito, através da interpretação das obras retóricas e dos discursos de Cícero.



Damião de Góis faz também inúmeras viagens de negócios ao serviço da feitoria da Flandres, entre 1528 e 1531. Esta atividade permitiu-lhe contactos e informação importante no exercício da diplomacia e alargou-lhe a sua dimensão intelectual.



Nesse período, faz viagens a Inglaterra e a França, à Alemanha e aos Países Baixos, à Polónia, com passagem pela Hungria, Boémia, Dinamarca e Lituânia.



O domínio do Latim permitia-lhe também a comunicação com as elites do poder económico, político e cultural europeu.



Em 1529, Damião de Góis desloca-se a Danzig para comprar cereais que depois seriam enviados para Portugal passando, provavelmente, por Poznan e Cracóvia.



Nos inícios de 1531, de novo a caminho de Danzig, passa por Schleswing, Lubeck, Luneburg, Ulzen, Wittenberg, Magdeburgo, Berlim, Frankfurt, Poznan. É durante esta viagem, ao longo de quase todo o ano de 1531, que Damião de Góis encontra várias figuras culturais marcantes. Em 3 de abril, janta em Wittenberg com Lutero e Melanchthon, os dois nomes chave do protestantismo alemão.



A estadia de dois dias e meio em Wittenberg permite a Damião de Góis ouvir Lutero pregar, bem como iniciar relações amistosas e duradouras com Melanchthon, com quem irá corresponder-se durante sete anos.



A sua afinidade com Filipe Melanchthon (1497-1560), professor de Grego na Universidade de Wittenberg, é grande. Quando se encontraram em 1531, Melanchthon já tinha publicado, o “De artibus liberalibus” em 1518, o “De corrigendis adolescentiae studiis” em 1521, os “Loci Communes rerum theologicarum” em 1526, o “In Laudem novae scholae” e, em 1528, o “Encomion eloquentiae”, e então era já considerado o grande pedagogo da Reforma.



Em 31 de dezembro de 1531 vamos encontrar Damião de Góis em Bruxelas, no banquete oferecido pelo embaixador D. Pedro de Mascarenhas ao Imperador Carlos V para comemorar o nascimento, a 1 de novembro desse ano, de D. Manuel, o quinto filho de D. João III.



Damião de Góis, nos Países Baixos, à medida que se afirma como humanista surge também como músico e colecionador de arte, e mecenas ilustre de muitas formas culturais.



É também um distinto executante de clavicórdio, címbalo e cítara. É um reconhecido adepto da polifonia flamenga e compositor musical de prestígio que em 1545, 1547 e 1549 vê impressas três das suas composições, sendo assinalado na conhecida obra de teoria musical “Dodecachordon”, de 1547, de Henricus Glareanus.



Na coleção particular de obras de arte de Damião de Góis, iniciada em Antuérpia, contam-se várias pinturas de motivo religioso. Quentin Metsys, o pintor flamengo de maior êxito em Portugal, executou para Góis uma “Crucificação” e uma “Virgem Maria a chorar junto da Cruz”.



A primeira obra de Damião de Góis, impressa em Antuérpia em 1532, intitula-se “Legatio magni indorum imperatoris presbyteri Loannis, ad Emmanuelem Lusitaniae regem” (A Embaixada do Grande Imperador das Índias Preste João a D. Manuel Rei de Portugal).



Em 1532 Damião de Góis muda-se para Lovaina onde, desenvolve os seus estudos clássicos com dois reputados professores da Universidade de Lovaina: Rogério Réscio, professor de Grego e de Filosofía Grega e Conrado Goclénio, professor de Latim. Em 1533 Damião de Góis dirige-se a Friburgo, onde se encontra pela primeira vez com Erasmo, oferecendo-lhe então um exemplar da “Legatio” acabada de publicar no ano anterior.



No regresso a Antuérpia, Damião de Góis é chamado a Portugal por D. João, III para o cargo de Tesoureiro da Casa da Índia. Mas em janeiro de 1534, e sem razão aparente, já está a caminho de Compostela, e a 9 de abril do mesmo ano, já se encontra em Basileia.



Em 11 de abril de 1534, Góis inicia uma estadia de cinco meses em Friburgo como hóspede de Erasmo, apelidado de “o príncipe dos humanistas.” Este, acabaria por morrer a 12 de julho de 1536.



A 18 de agosto de 1534, Damião de Góis parte para Pádua, na Itália, com uma carta de recomendação de Erasmo para Pietro Bembo.



Em 1537, Damião de Góis entra numa discussão religiosa com setores mais conservadores, o que Ihe trará futuras consequências gravosas. Desta vez, Damião de Góis envolve-se num debate religioso em Pádua, em que participa o jesuíta português Simão Rodrigues, da fação mais conservadora. Em Veneza, Damião de Góis publica em 1538, a sua segunda obra intitulada “Livro de Marco Tullio Ciqueram, chamado Catam maior ou da Velhice.” Trata-se da tradução do “De sececture de Cícero” e trata-se, ao mesmo tempo, da primeira obra publicada em Português, em Itália, e a primeira tradução portuguesa de Cícero.



A obra é dedicada ao primeiro conde de Vimioso, D. Francisco de Portugal.



Em 1538, Damião de Góis regressa a Lovaina e onde fica com autorização de D. João III, até 1544. Em 1539, matricula-se na Universidade de Lovaina, cidade onde publicará a sua terceira obra “Comentarii rerum gestarum in India 1538 citra gangem” (Comentários aos Acontecimentos na Índia aquém-Ganges em 1538) ainda nesse ano.



Esta obra foi dedicada a Pietro Bembo referindo Damião de Góis o estímulo que recebeu dele para a realização dessa obra.



Em 1540, Damião de Góis publica a obra “Fides, religio, moresque Aethiopum sub império Preciosi Joannis” (A fé, a religião e os costumes da Etiópia do Império do Preste João) dedicando-a ao Papa Paulo III.



Em Portugal, tendo sido estabelecida a Inquisição em 1536, desenvolve-se entre 1537 e 1540 toda a estrutura de censura, sendo publicado em 1547 o primeiro índice de livros proibidos, Proibição dos Livros Defesos.



A obra de Damião de Góis chega a Lisboa e é examinada por censores inquisitoriais.



O juízo de frei Aleixo, frei Cristóvão, possivelmente também de Álvaro Gomes e de Pedro Margalho, entre outros, é negativo e a obra é proibida de circular por D. Henrique (Inquisidor-geral do reino desde 1539).



O cardeal D. Henrique (numa carta plena de amabilidade e fraternidade que escreveu ao humanista), “proíbe Damião de Góis de escrever sobre assuntos teológicos e incentiva-o a desenvolver outras escritas. E, na verdade, Góis jamais voltará a publicar seja o que for diretamente sobre matérias religiosas.” (Barreto, 2002: 81)



Em meados de 1542, é publicada em Lovaina uma nova obra de Damião de Góis sobre a Península Ibérica “Hispania, Damiani a Goes, equitis Lusitani”, que é dedicada a Pedro Nânio, humanista e professor de Latim na Universidade de Lovaina.



Em 1542, Francisco I (de França) declara guerra ao Imperador Carlos V. Lovaina é atacada nesse mesmo mês pelo exército francês. Damião de Góis é um dos chefes da defesa da cidade, acaba por ser feito prisioneiro e é levado para França tendo sido libertado em 1543, pelo pagamento de um resgate por D. João III. Este rei ordena, então, a Damião de Góis que regresse a Portugal, o que é cumprido.



O longo período que Damião de Góis viveu fora de Portugal aproximava-se do fim. Como refere Luís Barreto (2002:89) “Homem maduro, com família e filhos, o humanista atingirá muitos dos seus objetivos culturais no panorama europeu. Ao mesmo tempo desempenhara com eficiência funções burocráticas e diplomáticas para a Coroa Portuguesa no difícil teatro europeu de altos conflitos e de rápidas transformações.”



Em 1544, em Lovaina, edita ainda um conjunto das suas obras mais significativas, sob o título de “Aliquot opuscula” (Alguns Opúsculos). Junta também uma seleção de cartas em latim que havia trocado com relevantes figuras da época. “Aliquot opuscula” é como que um testemunho da atividade cultural de um intelectual português que passou grande parte da sua vida estudando com os mais conceituados humanistas e pensadores da época, discutindo e publicando ideias num meio erudito que nunca antes tinha sido palco de olhares portugueses.



Na altura em que Damião de Góis chega a Portugal vindo de Antuérpia, pensando que vira ocupar o cargo de mestre do Infante D. João, chega também à coroa a denuncia contra ele, gerada em volta da sua publicação de “Fides, religio, moresque Aethiopum sub imperio Preciosi Joannis.” Duas denuncias são feitas quando Damião de Góis se apresenta na Cortes em Évora, sendo o denunciante o Padre Simão Rodrigues.



“O nosso humanista tinha sabido criar importantes defesas. Continua a corresponder-se com o cardeal Pietro Bembo, que morre em 1547, ano em que também morre o cardeal Sadoleto. A sua ligação ao papa Paulo III é também pública, mas este morre em 1549, tal como morre, no mesmo ano, D. Francisco de Portugal, conde de Vimioso, um protetor interno de Góis.” (Barreto, 2002:100)



Entretanto, em 1546, Damião de Góis publicara, em Lisboa “Urbis Lovaniensis obsidio.” A obra é sobre a defesa de Lovaina sendo dedicada ao Imperador Carlos V.



Em 1548, Damião de Góis é nomeado guarda-mor da Torre do Tombo.



Em 1549, publica em Lovaina mais um trabalho cultural “De bello Cambaico ultimo commentarii três”, (Os Três Comentários acerca da Última Guerra de Cambaia) que é dedicado ao infante D. Luís, considerado “uma das figuras políticas cimeiras do tempo de D. João III e patrono de círculos humanistas da Coroa.” (Barreto, 2002:103)



Em 1550 é apresentada uma terceira denúncia contra Damião de Góis pelo mestre Simão Rodrigues.

Esta investida de Simão Rodrigues não tem consequências de maior para Damião de Góis, pois o próprio cardeal D. Henrique escreve que “por agora não é de proceder.”



Em Évora, em 1554, Damião de Góis publica a “Urbis Olisiponis descriptio”, a Descrição da Cidade de Lisboa, obra que é dedicada ao cardeal D. Henrique que surge então como o maior protetor do nosso humanista.



Em 1557, Damião de Góis conclui a “Crónica do Príncipe D. João” (falecido nesse mesmo ano) que será impressa em Lisboa, em 1567, durante a regência do cardeal D. Henrique.



Em 1561, por alvará do cardeal D. Henrique, os membros do Conselho Geral do Santo Ofício passam a integrar o Conselho do Rei.



Em 1562, o regente cardeal D. Henrique determina amplos privilégios para os oficiais e familiares do Santo Ofício.



Em 1563, volta o confisco dos bens dos cristãos-novos, e dos heréticos e, em 1564, os Decretos do I Concílio de Trento são equiparados a Leis do Reino.



“Damião de Góis está cada vez mais só e isolado, em termos ideológicos, no aparelho da Coroa portuguesa. (...) A sua situação depende quase única e exclusivamente do cardeal D. Henrique.” (Barreto, 2002:113)



Em 1566 é publicada a última obra de Damião de Góis: a “Chronica do Felicíssimo Rei Dom Emanuel.”



Esta obra foi muito criticada. É de destacar a crítica de Gaspar Barreiros que assinala na obra várias omissões graves.



Gaspar Barreiros foi um importante erudito humanista do século XVI formado em Salamanca e profundamente ligado ao cardeal D. Henrique. Este ataque significou distanciamento e desagrado do cardeal D. Henrique, por Damião de Góis e pela sua “Crónica de D. Manuel.”



Este episódio da vida de Damião de Góis, mostra quão isolado e carente de proteção institucional se encontra o nosso humanista.

Em 1568, D. Sebastião é coroado Rei no Paço dos Estaus.



Em 1569 o Rei ordena ao guarda-mor da Torre do Tombo, Damião de Góis, que abandone os aposentos que ocupa nos Paços de Alcáçovas.



Em 1571, Damião de Góis é preso pela Inquisição de Lisboa e é ativado com a denúncia feita pelo próprio genro, Luís de Castro, tesoureiro do cardeal D. Henrique e membro fidalgo da sua Casa.



O processo de Damião de Góis arrasta-se durante dezanove meses, até 1572, ano em em que é condenado ao cárcere perpétuo.


Entre os dias 6 e 18 de dezembro, Góis é transferido da prisão inquisitorial para o Mosteiro da Batalha.



Algum tempo depois, é inexplicavelmente libertado.



Reza a história que pernoita numa estalagem a caminho de Alcobaça, e que é encontrado morto na manha seguinte, caído e meio queimado junto à lareira em frente à qual adormecera. Isto em 30 de janeiro de 1574.



Quando em 1941, os seus restos mortais foram transferidos da Igreja da Várzea, em Alenquer para a Igreja de S. Pedro, reparou-se que o crânio apresentava aquilo que poderia ser uma forte pancada na parte de trás da cabeça...



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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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