… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

sábado, 25 de fevereiro de 2017

25 de fevereiro de 1900 • Samuel Matthey e a Acção Bíblica em Portugal



25 de fevereiro de 1900Samuel Matthey e a Ação Bíblica em Portugal

O Casal Matthey, em 1943
Paul Samuel Matthey-Prévôt nasce neste dia, 25 de fevereiro de 1900, em La Sagne, no Cantão de Neuchâtel, na Suíça.



Samuel Matthey converte-se em 1916, aos 16 anos, pela leitura da sua Bíblia, especialmente do capítulo 8 de Romanos.



Aprende a arte de marceneiro que mais tarde ainda exerce em Portugal.



Por este tempo a Suíça românica, isto é, a de fala francesa, atravessava um período de despertamento espiritual, durante o qual Deus usa de modo especial a acção do evangelista escocês Hugh Edward Alexander (1884-1957), o qual veio a fundar a Missão da Acção Bíblica e a Escola Bíblica de Ried (mais tarde instalada perto Genebra).



Em 1923, com 23 anos, Samuel Matthey frequenta o 4.º Curso da Escola Bíblica de Ried, instituição de ensino da Palavra Viva e de formação missionária. Aí uma frase, em especial, lhe é sublinhada pelo Espírito de Deus, como já vinha sendo desde o tempo da sua conversão: “Me esforcei por anunciar o Evangelho, não onde Cristo houvera sido nomeado, para não edificar sobre fundamento alheio” (Rm 15:20).



Nesse 4° Curso da Escola Bíblica de Ried, Samuel Matthey tinha uma colega portuguesa, Lídia Coelho e um dia o seu pai, João de Oliveira Coelho (1880-1981), da Figueira da Foz, foi de Portugal à Suíça visitar a filha.



Este homem culto, que frequentara aulas nocturnas, na sua cidade natal, empregando-se muito novo no comércio e, depois, nos escritórios da Companhia dos Caminhos de Ferro da Beira Alta, tendo em Lisboa, frequentado e concluído com bom aproveitamento do Curso Superior de Letras, como aluno voluntário, em 1908, havendo já nascido de novo, abriu uma escola primária, na Figueira da Foz, no ano de 1901, na qual se dedicou ao ensino gratuito e à evangelização, expôs na Escola Bíblica de Ried as grandes necessidades do seu país, onde o Evangelho bíblico era conhecido apenas por pequenos grupos de pessoas, em 2 ou 3 grandes meios populacionais!



Ao escutá-lo, Samuel Matthey toma logo a sua decisão. E, sem perda de tempo, em novembro de 1923, Samuel Matthey embarca num navio em Bordéus para Portugal, com seis outros jovens companheiros na Obra do Senhor, todos eles alunos do mesmo 4° Curso da Escola Bíblica.



Esse grupo de sete jovens é constituído por D. Mange, filha do então Cônsul suíço em Lisboa; D. Rose Petit, que haveria de tornar-se a Esposa do Sr. Charles Mathez, também obreiro da Acção Bíblica em Portugal; D. Lídia Coelho, a filha do Sr. João Coelho, a qual viria a casar com um Tio dos Irmãos Dubois, Jean-Jacques e Paul-André, conhecidos dos crentes de Portugal, particularmente o segundo; o Sr. Charles Kohler, que já estivera em Portugal como agricultor, em Massamá, perto de Sintra, e que foi, talvez, o 1.º membro da Acção Bíblica a viver em Portugal. Vinha também no barco a noiva deste último, D. Sylvia Sanbuch. Fazia parte do grupo ainda outra jovem cujo nome não é mencionado; para além do Sr. Matthey, claro.



O barco em que viaja este grupo de jovens missionários da Acção Bíblica sofre alguns estragos durante a viagem, pois enfrenta uma forte tempestade no Golfo da Biscaia, e tem de atracar a Leixões. Aí, no cais, perante marinheiros e estivadores, que se juntam à sua volta para os ouvirem, dão um primeiro testemunho público em terra portuguesa, a sua terra missionária, e cantam o conhecido hino «Foi na cruz, na cruz, onde um dia eu vi meu pecado castigado em Jesus».



Depois de reparados os estragos no navio, este segue para o porto de Lisboa, onde os esperava, naturalmente João de Oliveira Coelho. Já este tinha arranjado, na Figueira da Foz, um lugar para o Sr. Matthey exercer a sua profissão de marceneiro, na Empresa de Construção Civil, de um francês, Collet-Meigret. Ainda na mesma noite do dia em que chega a Lisboa, o Sr. Matthey parte logo para a Figueira da Foz e aí trabalha cerca de um ano e meio.



Em maio de 1925, Matthey parte para a França, e depois para a Suíça, para Ried. Lá, os crentes da Assembleia Local de Locle, uma pequena povoação suíça, decidem sustentar um missionário em Portugal, e dessa forma o Sr. Matthey torna a partir para Portugal, mas agora como evangelista a tempo integral. Ainda passa por Paris, para lá dar apoio a uns trabalhos práticos na Casa da Bíblia, durante um mês.



Em Lisboa fica morando com o Casal Charles Mathez, obreiros da Acção Bíblica, na Rua Sebastião Saraiva Lima, no n.° 61-3.º andar. Na Av. Conde Valbom é entretanto aberto uma pequena Casa da Bíblia que acaba por fechar mais tarde. Foi a 1.ª em Portugal.



Os três, o Casal Charles Mathez e Samuel Matthey alugam uma pequena Sala para a pregação do Evangelho em Palma de Cima, e logo a seguir em Palma de Baixo, sempre em Lisboa. Estas são, portanto, as primeiras Salas de testemunho evangélico da Acção Bíblica. É evidente que em Lisboa há por este tempo, mais salas de pregação do santo Evangelho, de várias Congregações. Mais tarde abrem outra Casa da Bíblia, na Costa da Caparica, aldeia piscatória e concorrida estância balnear no Verão, na margem esquerda do Tejo, mas voltada de frente para o mar. E, por fim, é inaugurada a Sala do Alto do Pina, em agosto de 1926.



No ano seguinte vem pregar a Lisboa o Director da Missão da Acção Bíblica, o Evangelista H. E. Alexander.



A actividade do Sr. Matthey, nestes anos, reparte-se entre a visita a mercados e feiras e à acção bíblica directa, a que se chama «colportagem». São estabelecidos outros postos de pregação, ainda fora de Lisboa, em Cascais em 1928 e em Sesimbra em 1930.



Em 1927 Matthey adoece com a febre tifóide. Este ano é marcado em Portugal por uma sangrenta revolução, com focos em Lisboa e no Norte, de 7 a 14 de fevereiro, o que preocupa muito os obreiros suíços da Acção Bíblica e de que há os seus curiosos relatos, para oração, publicados em francês. E para além do tremor de terra abalando Lisboa, em 1928, em 1930 a pequena aldeia piscatória da Costa da Caparica, sofre uma catastrófica tempestade, que não será a última! Em que o mar revolto varre toda aquela costa, destruindo casas e matando muita gente. Os missionários Sr. Matthey e Charles Mathez ali acorrem em apoio e conforto das inúmeras vítimas.



No que diz respeito à Esposa, cujo nome de solteira é Emmy Kunz, ela chega a Portugal em 1921. Vinha de Stãfa, no Cantão de Zürich, onde tinha nascido em 1901. Em Lisboa ocupa-se d  crianças numa família portuguesa, deum advogado, António de Abreu, cuja esposa era suíça alemã, na Av. Duque d'Ávila. Estas pessoas eram cunhadas do célebre político Afonso Costa (1871 — 1937), que estava exilado nesta altura em Paris.



Ao fim de três anos regressa à Suíça para aprender o francês, em Neuchâtel, e também para ganhar o dinheiro necessário para fazer o seu Curso (o 8.°) na Escola Bíblica, agora há 3 anos, instalada em Cologny, nos arredores de Genebra. Ela volta a Portugal em 1928. E no ano seguinte fica noiva do Sr. Matthey; tinham-se conhecido nas campanhas de evangelização do Sr. Philippe Duvanel. Este, Director da Escola Bíblica da Acção Bíblica, prega em Lisboa, e também na Figueira da Foz, Porto, Braga e demais localidades, em diferentes congregações evangélicas, baptistas, episcopais, presbiterianas e outras, utilizando um modelo miniatura do «Tabernáculo», que ele próprio construíra. Essas campanhas interessam vivamente a todo o meio evangélico português, a julgar pelo testemunho de homens deste tempo, como Eduardo Moreira e Pascoal Pitta.



Samuel e Emmy casam então a 20 de setembro de 1930, na Suíça, na Escola Bíblica de Cologny («Le Roc»). As alianças de casamento têm gravado o versículo de Mat. 6:33! Partem de novo para Portugal em outubro deste mesmo ano tendo como objectivo o Algarve. Aqui desembarcam, no dia 12 de novembro de 1930, pelas 4 horas da tarde, tendo-se instalado numa Pensão adequada aos seus recursos, o «Palácio das Lágrimas», na Rua Castilho. Nessa mesma rua, num 1° andar do n.° 14, existe  ainda uma das várias sinagogas da cidade.



O Sr. Matthey já conhece essa Pensão, pois não é a primeira vez que vem ao Algarve. Já na Figueira da Foz a Família Coelho lhe lembra essa terra, lá para o Sul do País, onde o Evangelho bíblico é ignorado. Em fevereiro de 1926 vem até ao Algarve, acompanhado do Sr. Kohler, que pretende também procurar trabalho como agricultor. Desembarcam, com as suas bicicletas, em Tavira, porque era lá que os espera o Sr. Arduíno Correia, célebre vendedor itinerante da Sociedade Bíblica, e a sua Esposa. Durante três semanas fazem acção bíblica, ele e o Sr. Kohler, percorrendo todo o Algarve, de lés a lés, e de bicicleta, desde Vila Real de Santo António a Sagres! Matthey regressa depois sozinho, passando ainda pelo Alentejo. É esse o seu primeiro contacto com aquela Província, em que centenas de Novos Testamentos e Bíblias foram depois vendidos.



Em junho de 1930, alguns meses antes de casar, a noiva já se encontra na Suíça, o Sr. Matthey vem novamente ao Algarve, agora em companhia do Sr. Paul Edouard Vallon, outro jovem suíço, que mais tarde será Secretário-Geral da Sociedade Bíblica, em Lisboa, substituindo o inglês, o Revendo Moreton, metodista. Novamente percorre de uma ponta a outra o Algarve, em acção evangelizadora. Mas desta feita não vão de bicicletas... vão de carreira de autocarros! Passam também desta vez três semanas, e instalam-se na já referida Pensão «Palácio das Lágrimas».

Por este tempo no Sul do Tejo não há qualquer Congregação Evangélica, nem testemunho evangélico permanente, apesar de ser visitado pelos vendedores itinerantes da Sociedade Bíblica. Há a notícia de um postal escrito de Faro por um crente em 1901 falando de Conferências em S. Brás de Alportel e em Faro. Há notícia de crentes fazendo reuniões em Silves, de 1908 a 1910, assim como em Olhão e Fuzeta; tal como em Portimão, por meados dos anos 20, das Assembleias de Deus. Mas nenhum desses trabalhos teve continuidade; 75% da população não sabe ler; e já neste tempo agentes de doutrinas de erro (adventistas e espíritas) atraem a população.



No dia 12 de novembro de 1930, o Casal Matthey desembarca em Faro. Durante 15 dias procuram uma casa, com um mínimo de condições de habitabilidade; mas não encontram nenhuma habitação livre com casa de banho! Por fim é-lhes indicada uma, na «Circunvalação» 2, que atualmente é a Rua Cândido Guerreiro. Esta casa ainda existe, com o n.° 12 e a fachada tal como é. Pagam por mês, 250$00 de renda! Aí ficam 7 anos. Em 1931 nela recebem o Sr. Jean Bühler, de 30 anos de idade, e que acaba de fazer um Curso na Escola Bíblica de Cologny. Antes estivera no Brasil.



O Sr. Bühler mais tarde, em 1935, instala-se num quarto, também do n.° 12, mas na Rua do Pé da Cruz, uma velha casa pertencente a uma senhora de nome Ana Ortigão. É uma grande habitação, com muitas divisões, dois pisos e um jardim. O Casal Matthey vem depois a interessar-se por esta casa e aluga-a, por 200$00! Isso implica uma forte perseguição contra a proprietária, por parte do Bispo da Diocese de e da Igreja Católica, com referência incriminatória até publicado no jornal da diocese de Faro!



É-lhes necessário fazer reparações e adaptações no edifício, mas começam logo com reuniões públicas da pregação do Evangelho, no 1° andar; e uns meses depois estam a habitá-la, em 1937. A outra metade da casa ainda foia ocupada pela proprietária. Só em 1952 a Missão da Acção Bíblica pôde comprar toda a moradia.



Entretanto, em 1933, recebem o seu 1° carro, um Ford. Uma Senhora crente, da Suíça, põe no seu coração oferecer uma viatura, através da Missão, destinada ao trabalho evangélico em Portugal. O Sr. Voumard, obreiro da Acção Bíblica, vem ao nosso País para visitar a Obra, e numa certa ocasião, em Faro, acompanhado do Casal Matthey, têm de esperar tanto tempo pelo autocarro da carreira para Vila Real de Santo António, que logo ali decide: «Não há mais que ver! O carro é para aqui!». Custara nesta altura 20 contos e no preço está incluído o ensino da condução. Com 6 lições o Sr. Matthey faz exame e obtem a sua carta de condução. Que belos tempos!



Durante a II Guerra Mundial, na sequência das dificuldades impostas pelo racionamento da gasolina e outras limitações, resolvem vender este carro. Vêm a ter nova viatura, um Morris, já com muitos milhares de quilómetros de estrada, feitos no serviço da Obra. Também este carro é uma oferta de uns Amigos crentes que vêm visitar o Casal Matthey, ao Algarve, o conhecido pintor suíço Paul Robert e a Família.



Até que se retira para a Suíça, em setembro de 1974, o Casal Matthey exerce um árduo, persistente e frutuoso serviço de pioneiros, de evangelistas e de pastores, a partir do qual se edificou a Acção Bíblica que hoje existe em Portugal.



No seu vade-mécum Matthey escreve “Umas semanas mais tarde regressávamos definitivamente à Suíça, em 21 de setembro de 1974 tendo deixado no Algarve a Obra missionária em pleno desenvolvimento, e também um enquadramento material que nos tinha acompanhado durante tantas dezenas de anos: a casa, os móveis, o carro, fiel «companheiro», ... e sobretudo o nosso coração tão ligado afectivamente aos nossos queridos portugueses! Felizmente que em várias visitas posteriores temos podido ir matando saudades e acompanhar diretamente os desenvolvimentos efectuados.”



Realcemos ainda estas suas palavras: «Que graça de Deus sermos dois neste duro trabalho, e de poder ter constantemente a colaboração de minha Mulher, na acção directa, pela difusão das Escrituras, nas diversas reuniões, nas lições para crianças, nos acampamentos, nas pequenas como nas grandes deslocações. Cada dia minha Mulher estava pronta a acompanhar-me, a tomar uma parte activa no trabalho missionário, a participar comigo na intercessão, em lutas tremendas, agonizando pelas almas, até que fossem formadas e se tornassem vitoriosas em Cristo!».



Os servos de Deus, Sr. Paul Samuel Matthey Prévot e a sua esposa, D. Emmy Matthey sentiram a chamada para vir trabalhar em Portugal. Foram missionários pioneiros do movimento da Acção Bíblica em Portugal.



O tempo da actividade que ambos dedicaram ao serviço de Deus, foi desde fins de 1923 até 1974. Em 21 de setembro de 1974 retiraram-se, depois de mais de 50 anos de um abençoado e frutuoso trabalho para a glória do Senhor, em Portugal, na área da Figueira da Foz em 1923, depois na de Lisboa, na Vila de Cascais em 1928, também no Alentejo, na sua capital Beja em 1929, na Mina de S. Domingos, em Mértola em 1945, e por fim no Algarve na maior parte desses anos, Sesimbra e a Olhão, no ano de 1930, Loulé e a Vila real de Santo António, em 1931, a Boliqueime, em 1948, etc, etc!...



Outros obreiros vieram depois para Portugal a fim de desenvolver o movimento da Acção Bíblica, como, os Srs. Charles Mathez, Pierre Edward, Daniel e Felipe Mathez, Heinz Muhlheim, o St. Ernest Eicher e esposa e a sua família e o Sr. Robert Spichiger.



Notas:



Afonso Costa com a implantação da República a 5 de outubro de 1910, foi chamado a integrar o Governo Provisório da República, na pasta da Justiça e Cultos, lugar que ocupou até à dissolução daquele Governo (por ter sido aprovada a nova Constituição) a 4 de setembro de 1911. Recebeu, dos seus opositores, a alcunha de "mata-frades" (anteriormente atribuída a Joaquim António de Aguiar), pela legislação laicista que mandou publicar - Lei da Separação do Estado das Igrejas, a expulsão dos jesuítas, o registo civil, lei da família e lei do divórcio, abolição do delito de opinião em matéria religiosa, a legalização das comunidades religiosas não católicas, a privatização dos bens da Igreja Católica, a proibição das procissões fora do perímetros das igrejas, proibição do uso das vestes talares (religiosas) fora dos templos, etc.



Quem desejar saber mais sobre a Acção Bíblica em Portugal, poderá fazê-lo lendo a obra – "Poder do Evangelho em Portugal", Relatos missionários de Samuel Matthey – Faro, 1988. Pedidos a: Associação da Acção Bíblica em Portugal -Rua do Pé da Cruz, 12, 8000 Faro.




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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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