… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

sexta-feira, 31 de março de 2017

31 de março de 1685 • Bach cantou o seu Cristianismo em música


31 de março de 1685Bach cantou o seu Cristianismo em música
  Johann Sebastian Bach, retrato pintado por Elias Gottlob Haussmann em 1748 (Wikipédia)

Eisenach foi, bem a propósito, o berço natal de Johann Sebastian Bach, neste dia, 31 de março de 1685. Ali, no castelo de Wartburg, algum tempo antes, Lutero havia-se recolhido para traçar os planos da Reforma. O mesmo espírito que presidiu à Reforma foi o que deu vida e força à sua obra: a paixão pelo Cristianismo na sua pureza primitiva. A grande obra da vida de Bach foi oferecer-nos uma versão musical do Cristianismo. Os pintores do Renascimento, os seus escultores e arquitetos, cuidaram de fixar o espírito cristão em linhas, cores e volumes. Bach transformou o Cristianismo em som. E essa versão é, sem dúvida, a mais fiel, a mais pura e a mais profunda. Há, entre a música e o Cristianismo, um parentesco íntimo. Em ambos o que vale é o que não se vê, o real é o que está acima dos nossos sentidos. O Reino de Cristo não é o mundo físico: o seu domínio começa justamente onde termina a nossa capacidade de ver, de compreender e de sentir. O reino de Cristo é uma linguagem além das palavras, uma escada que nos liga ao mundo que os nossos pés não podem atingir, mas onde a nossa alma se sente como na sua própria pátria. A música no Cristianismo representa um esforço no sentido do crente se libertar do frio e imutável silêncio que o cerca, para entrar em comunhão com o Seu Criador, Salvador e Senhor, que o acolhe.



A música, como toda linguagem, é uma criação coletiva, uma convenção geralmente aceite. Onde cada qual inventa a sua linguagem, ninguém se entende. Há sempre uma Torre de Babel no fim de toda a cultura: o povo que deixa de ter uma linguagem comum, deixa de ter, também, um mesmo destino. O Cristianismo foi a grande paixão do tempo de Bach, e a sua própria. Ele é protestante no exato sentido de Lutero: o seu desejo era o retorno à verdadeira doutrina de Cristo, isenta das adaptações e das interpretações dos Padres. A sua música fixa e exalta de tal forma esse sentimento que dá a impressão de uma longa prece, que sobe aos Céus e vai até ao Trono de Deus. A linguagem musical de Bach alcançou uma significação universal porque é a expressão do anseio e da esperança do imutável coração humano de se encontrar com o Seu Salvador. Não apenas as suas energias espirituais cristãs, mas todas as forças espirituais cristãs do seu tempo se reuniram em torno da criação do seu estilo – esse majestoso e imponente barroco, tão propício à fixação das altas e luminosas visões do espírito cristão.



O barroco não é uma linguagem para as ideias comuns, para a descolorida existência de cada dia. Não é um estilo para a construção de choupanas, mas de palácios e de catedrais. A sua base é a valorização do espírito, do conteúdo. A ideia deve ser tão densa, tão violentamente presente, que força a matéria e a subjuga. As cantatas de Bach arrastam-nos para um mundo de estranhas, majestosas e fantásticas visões. Bach levou o estilo barroco às últimas consequências. A sua polifonia é tão intrincada, a floresta da sua música é tão densa, que os próprios contemporâneos não chegaram a perceber a sua beleza selvagem. Ele é tão claro e ardente quanto o Sol, que ninguém consegue olhar a olho nu. Foi necessário que a névoa do tempo se interpusesse entre ele e nós para podermos contemplar o seu fulgurante esplendor. O barroco de Bach é a vida em plenitude, a vida na sua impetuosidade de anseios, de beleza, de miséria e de infinita beleza. Não é uma arte para o receio, mas para o trabalho, o duro do trabalho do espírito, uma convocação de todas as forças interiores. Bach sentiu a música como uma porta aberta para o Eterno, a qual é dada ao homem cristão, para ele poder consolar-se da sua miséria e das suas fraquezas, quer alegrando-se com a esperança da sua vocação eterna, para comunicar-se com o Ser Divino, com o mundo dos seus anseios, a pátria das suas íntimas esperanças, o Paraíso de Deus!



É ouvindo uma cantata de Bach que somos tocados pela compreensão da nossa presença no mundo e do sentido do nosso destino. Fomos feitos, como os pássaros, como as flores, para louvor e honra do nosso Criador. O desejo mais alto de Bach foi chegar a Deus. E conseguiu esse intento libertando-se de toda a contingência humana e pondo toda a sua esperança no sacrifício vicário de Jesus. Bach buscou traduzir em música esse seu sentimento de alegria na vitória final de Jesus. E fê-lo com tanta força criadora e com tanta sinceridade, que é, ainda hoje, escutando a sua maravilhosa música que os Cristãos são como que transportados ao Céu e dialogam com Deus.



Não se pode dizer que Bach foi o maior dos músicos, porque não há fita métrica para medir o génio. E como as árvores, os homens devem ser avaliados, não pela sua aparência, mas pelas raízes que têm sobre a Terra. Essas raízes são o sustentáculo contra o vendaval do tempo, que tudo leva de roldão. Nesse sentido Bach dispõe de uma situação privilegiada. A sua fortaleza é uma glória inexpugnável já que tem as suas raízes numa fé simples e sincera na obra de salvação do Seu Senhor e Salvador, Jesus Cristo. A música de Bach é densa e impenetrável como uma floresta tropical. Os que, no entanto se aventuram a enfrentar os perigos dessa selva, descobrem no seu interior maravilhosas estradas, calçadas de pedrarias raras e atapetadas de flores, que nos induzem ao distante e verdadeiro Reino de Emanuel.



Os Evangelistas trouxeram-nos, através de palavras, até nós a lição de Cristo. Bach compreendeu que o Homem vive longe do Seu Criador. O Homem perdido nos seus pecados tem medo do Seu Criador, não compreende as coisas espirituais. Bach era um crente em Jesus. Na sua obra Jesus surge na sublime apoteose da pureza, como o Filho do Homem, capaz de sentir as dores e as alegrias, e, sobretudo, o Salvador capaz de perdoar os pecados e as fraquezas, que são as contingências da nossa natureza e os símbolos do nosso nada. Desde o “Oratório de Natal” até às “Paixões”, Bach acompanha toda a vida terrena de Jesus. Nunca na música o espírito de Cristo foi tão bem fixado.



Em Mülhlausen, confessou humildemente: “Tive sempre o pensamento de fazer progredir a música, para maior glória de Deus”.



No “Orgelbüchlein”, em que reúne uma série de trabalhos compostos em Weimar, Bach escreveu essa epígrafe: “Para maior glória do Altíssimo e melhor instrução do próximo”



E aos seus alunos da Escola de São Tomás ditou essa explicação do baixo cifrado: “O baixo cifrado é o mais perfeito fundamento da música, em que a mão esquerda toca as notas indicadas, tomando a mão direita as consonâncias e dissonâncias, a fim de que surja uma agradável harmonia para a glória do Senhor e o prazer permitido à alma. Como a de toda música, a finalidade do baixo cifrado não deve ser outra senão a glória de Deus e a recreação da alma.”



A música de Bach valorizava e purificava todos os temas. Nas suas mãos os temas mais comuns adquiriam brilho e o esplendor. Transformou, seguindo o exemplo de Lutero, canções licenciosas e picantes em corais piedosos.



De tal maneira a música de Bach fixa a alegria da Terra, dos homens simples e das almas puras, pela vinda do Salvador!



A arte tem, sobre as demais atividades humanas, a vantagem de estar liberta das contingências do tempo. Um estudante de astronomia pode hoje refutar Aristóteles; muita da ciência de Platão faz rir, agora, ao aluno mais medíocre; um neófito na medicina muito teria a ensinar a Hipócrates. No terreno da Música, tudo se passa diferentemente. Há, sim, um torvelinho de escolas e estilos, de linguagens e expressões. Mas uma obra, como a de Bach, que expressa uma conceção do mundo e simboliza o sentido de uma época, jamais será superada. As gerações hão de reverenciá-la pelos séculos fora, como uma das mais altas expressões do espírito humano, que nela se fez música para viver além do tempo e levar a Deus a gratidão do homem crente, satisfeito com a obra redentora de Jesus Cristo, verdadeiro Homem e verdadeiro Deus!



Antes, durante, e após, a audição de música de Bach, eu apenas pronuncio: “Assim, os justos louvarão o Teu nome; os retos habitarão na Tua presença.” (Sl 140:13)



****

Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

Este texto é de livre utilização, desde que a sua ortografia seja respeitada na íntegra porque já está escrito com o Português do Novo Acordo Ortográfico e que não seja nunca publicado nem utilizado para fins comerciais; seja utilizado exclusivamente para uso e desfruto pessoal.

Sem comentários: