… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

sexta-feira, 14 de abril de 2017

14 de abril de 1682 • A chama do génio de Avvakum

14 de abril de 1682A chama do génio de Avvakum
“A queima na fogueira de Avvakum” (1897), por Grigoriy Myasoyedov (Wikipédia).
O arcipreste Avvakum ficou horrorizado. A Igreja Ortodoxa Russa tinha um novo patriarca autoritário, Nikon. Este falso beato queria incorporar mudanças na liturgia semelhantes às da Igreja Católica Romana. Como Avvakum e muitos outros perceberam, essas mudanças ameaçavam a pureza da velha fé. Os seus protestos foram recebidos com uma crueldade terrível. Sophia Alekseyevna (17 (27) de setembro de 1657 - 3 (14) de julho de 1704) que era a regente de Rússia naquela época, e que governou aquele enorme país, de 1682 até 1689, decretou que os Velhos Crentes fossem torturados. Qualquer um que persistisse “obstinado”, devia ser queimado até a morte.



Avvakum tornou-se o porta-voz dos Velhos Crentes. Felizmente para a Rússia, ele não foi imediatamente condenado à morte, mas acorrentado, preso, espancado, cuspido e exilado para a Sibéria. Ele e a sua família sobreviveram comendo as miudezas que os lobos haviam rejeitado. Dois dos seus filhos morreram sob essas condições miseráveis. Forçado a participar duma expedição ao rio Amur sob um líder brutal, Avvakum pronunciou-se contra a sua crueldade. Por isso, ele foi açoitado e acorrentado a um barco durante uma noite fria, debaixo duma carga de água outonal. “Depois, a testemunha fiel foi arremessada nua para uma cela”, “mas Deus manteve-me aquecido, sem roupas!” relatou ele.



Para que foi o seu protesto contra as mudanças litúrgicas? Interrogava-se ele. As novas fórmulas implementavam-se, não importava o que ele dissesse. Ele perguntou à sua esposa se devia continuar a falar ou calar-se. “Tu tens-me subjugado”, disse ela, pensando nos seus sofrimentos e nos dos seus filhos.



“Senhor, tem piedade, o que estás dizendo Petrovich?” Respondeu a boa mulher. “Eu e as crianças abençoamos-te: ousa pregar a Palavra de Deus como antes e não te sintas preocupado connosco, pela vontade de Deus, viveremos juntos, e se formos separados, lembra-te de nós nas tuas orações. Cristo não nos abandonará!” Expelindo a sua “cegueira temporária de desânimo”, Avvakum reiniciou a sua pregação.



Não obstante toda a sua fé, a sua esposa não poderia deixar de perguntar ao marido uma vez mais: “Quanto tempo vais sofrer ainda, Arcipreste?” “Até à morte”, respondeu-lhe ele. Suspirando, ela sussurrou, “Assim seja, Petrovich, vamos caminhando penosamente.”



Assim caminhou penosamente Avvakum. Preso, ele escreveu centenas de páginas de doutrina cristã. E também produziu uma autobiografia. Escrito num saboroso russo contemporâneo, é considerado um marco da linguagem quanto as “Cartas Provinciais” (Provincial Letters) de Pascal são para o Francês e “Os contos de Cantebury” (Canterbury Tales) de Chaucer são para o Inglês. O seu imediatismo conciso foi insuperável até Tolstoi. Carcereiros simpáticos fechavam os olhos quando os amigos de Avvakum levavam da prisão os seus escritos: os seus tratados ou o texto da sua autobiografia.



Milhares de Velhos Crentes foram executados. A vez de Avvakum veio neste dia, 14 de Abril de 1682. Por ordem czar Teodoro, ele e os seus companheiros prisioneiros foram trancados numa cabana de madeira e queimados vivos. Assim pereceu em chamas um herói espiritual e um génio literário, cuja memória perdura até hoje.



O arcipreste Avvakum Petrov (Grigórovo, província de Nizhny Nóvgorod, 20 de novembro de 1620 ou 1621 - Pustozersk, província do Arjángelsk, 14 de abril de 1682), foi um eclesiástico e escritor russo, líder do cisma dos Velhos crentes (os raskólniki) durante a Reforma de Nikon.



Filho de um pope (sacerdote ortodoxo russo), desde a sua infância viveu na sua família num ambiente piedoso, especialmente influenciado por sua mãe, que posteriormente tomaria os hábitos e ingressaria num mosteiro. Aos 21 anos foi designado diácono e aos 23 foi ordenado pope. Homem de caráter robusto, de convicções firmes e moral irrepreensível, opôs-se à Reforma do Nikon (1656), que queria aproximar a liturgia da Igreja Ortodoxa Russa à da Igreja Ortodoxa Grega, passando a encabeçar o cisma dos Velhos crentes. Perseguido ele e toda a sua família de forma implacável, foi escarnecido, encarcerado, torturado e desterrado, viu morrer de inanição a dois dos seus filhos e presenciou a mutilação dos seus seguidores. Mas nada quebrantou a sua vontade, nem o apartou do caminho que ele tinha escolhido: a fidelidade aos velhos cânones ortodoxos russos, a oposição firme às inovações nikonianas e uma defesa até à morte dos seus fiéis seguidores, os Velhos Crentes. Em 1667, depois de permanecer encadeado e exposto à brincadeira do povo, foi desapossado do seu sacerdócio, anatematizado e banido para Pustozersk (ao norte do círculo polar ártico, na província de Arcanjo), onde viveu 15 anos numa choça padecendo o inexprimível e vendo morrer como mártires os seus seguidores. Morreu na fogueira acusado de «injúrias ao czar».



A maior parte das suas obras foram escritas nos últimos 15 anos de sua vida: tratados de religião e moral, diálogos, ensinos, epístolas e biografias. É de destacar o seu Livro de conversas, de 1669 a 1675, que contém dez conversas sobre questões da fé cristã; mas a sua obra mais importante é sua própria autobiografia, “Vida do arcipreste Avvakum”, escrita por ele mesmo (1672-1675), uma confissão apaixonada e lírica de um indomável lutador pelas suas ideias. Esta obra possui um caráter variegado em torno da figura do protagonista: acontecimentos da época, debates religiosos e ideológicos, lembranças, vida familiar e em comunidade com os seus correligionários, aos quais dedica páginas cheias de amor e de reconhecimento. Dostoievski, Tolstoy e Gorki, entre outros, declararam ter em grande estima a obra do arcipreste Avvakum, escrita numa linguagem colorida e rica, que mistura o culto e o popular. A “Vida do arcipreste Avvakum” é uma obra chave da literatura russa daquele período.



A Reforma de Nikon foi, na Rússia, a nova redação de livros de cânones e litúrgicos ordenada em 1654 pelo patriarca Nikon a fim de aproximar a Igreja Ortodoxa Russa da Igreja Ortodoxa Grega, sobressaindo o papel intervencionista do estado nos assuntos eclesiásticos. A ordem de queimar os velhos livros provocou uma forte resistência entre os crentes e parte do clero na Rússia daquele tempo, iniciando-se assim o cisma dos velhos crentes (ou raskólniki, do russo raskol ou cisma), comandados pelo arcipreste Avvakum.



Nikita Mínov ou Nikita Minin, mais conhecido como Nikon (Veldemanovo (Nizhni Nóvgorod), 7 de maio de 1605 - Yaroslavl, 17 de agosto de 1681) foi um Patriarca de Moscovo e de todas as Rússias, reformador dos cânones da liturgia ortodoxa russa, para a aproximar dos cánones gregos; as ditas reformas defendiam a ideia do distanciamento da Igreja e do Estado, fazendo com que este último reconhece a superioridade dos líderes e das instituições eclesiásticas, o que provoco o importante cisma na Igreja Ortodoxa Russa ou raskol. O grupo opositor das reformas de Nikon é conhecido como staroviery (os velhos crentes) ou raskólniki (os cismáticos), que defende o uso das orações antigas.



Hoje trouxe a lume a história do arciprestre Avvakum, nomeadamente o episódio relativo à sua punição com o exílio siberiano, na sequência da sua não aceitação de reformas na liturgia e da sua firme defesa da teologia da Igreja Ortodoxa Russa da sua época (séc. XVII). O arciprestre Avvakum, também sofreu (e os seus seguidores) uma “pena acessória” que foi a ter de se dirigir, com a sua mulher e filhos, para o exílio, a pé. A certa altura, a sua mulher cai numa vereda cheia de neve, clamando: “Até quando durará este sofrimento?” Avvakum, ofegante, respondeu que duraria até à morte. Ao que a sua mulher retorquiu, sem hesitar: “Seja, Petrovitch, continuemos o nosso caminho.” E, pela graça de Deus, lá chegaram!


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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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