… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

terça-feira, 2 de maio de 2017

2 de maio de 373 • Atanásio de Alexandria, defensor da fé cristã



2 de maio de 373 Atanásio de Alexandria, defensor da fé cristã
Ícone de Atanásio de Alexandria (Da Wikipédia)

Neste dia, 2 de maio de 373, faleceu, em Alexandria, Atanásio. Foi bispo de Alexandria de 328 até 373. Inimigo inexorável do arianismo, Atanásio foi, de modo especial, o instrumento que levou a efeito a sua condenação no Concílio de Niceia (365). É considerado o maior teólogo do seu tempo.



Atanásio foi criado dentro da ordem da igreja imperial, e permaneceu leal a essa instituição durante toda a sua vida. Pouco se sabe dos anos da sua juventude. Quando era jovem, atraiu a atenção do Patriarca de Alexandria, (de 313–326), Alexandre e sendo recebido em casa dele e teve a melhor educação que aqueles tempos podiam fornecer. A educação de Atanásio foi essencialmente grega pelo era um “clássico”, e parece que nunca adquiriu qualquer conhecimento do hebraico. Atanásio demonstrava, naturalmente, a influência do seu patrono, Alexandre, e do pensador alexandrino, Orígenes. Na sua mocidade contava entre os seus conhecidos e tutores alguns cristãos que tinham sofrido nas grandes perseguições, e, sem dúvida, aí absorveu parte da intensidade da sua fé, do fervor gerado durante aqueles anos cruciais da sua formação. Não muito depois de completar vinte anos de idade, Atanásio lançou-se aos trabalhos escritos e produziu obras teológicas de importância duradoura. Uma delas foi “Contra Gentiles”, uma defesa do Cristianismo contra o paganismo; outra foi “De incarnatione”, uma tentativa de explicar a doutrina da redenção.



Durante este período de obras escritas, Atanásio estava ativo como secretário e confidente do seu bispo, que pessoalmente o tornou diácono. Foi neste cargo que esteve presente no primeiro concílio geral realizado em Niceia, em 325. Neste concílio, o partido anti-ariano, liderado pelo Bispo Alexandre, obteve uma vitória notável contra o subordinacionismo ariano. O concílio afirmou que o Filho de Deus era “de uma só substância (consubstancial) com o Pai”, o que significa que Ambos participam igualmente da natureza fundamental da Deidade. Quando hoje os cristãos, no Credo, afirmam que Jesus Cristo foi “gerado, não-criado, co-substancial ao Pai”, estão a citar, muito provavelmente, Atanásio. Depois de terminado o Concílio, Atanásio voltou com o seu bispo para Alexandria e aí continuou trabalhando com ele para estabelecer a fé que tinha sido definida em Niceia. Em 328, Alexandre morreu, e Atanásio foi o seu sucessor no bispado de Alexandria.



A gestão de Atanásio como Bispo de Alexandria foi marcada por cinco períodos de exílio. A sua defesa vigorosa da fórmula de Niceia tornou-o um alvo para os adeptos de Ário, que se reagruparam depois do concílio. Mesmo assim, durante os seus quarenta e seis anos como bispo de Alexandria, houve um número suficiente de anos de relativa paz no Império Romano e na Igreja, e Atanásio realizou muitas coisas como teólogo. Reconhece-se que ele era um clérigo e um pastor mais do que um teólogo sistemático ou especulativo. No entanto, isto não significa que o seu pensamento não seja coerente, mas que a sua obra desenvolveu-se em correspondência com as necessidades de cada momento, mais do que com base nas exigências de um sistema. As suas obras são pastorais, exegéticas, polémicas e até biográficas; não há nenhum tratado individual que procure apresentar a totalidade da sua teologia. Mesmo assim, para Atanásio, a veracidade ou a falsidade de uma doutrina deve ser julgada na base de até que ponto expressa dois princípios básicos da fé cristã: o monoteísmo e a doutrina da salvação. Estes são os pontos centrais para a sua reflexão teológica.



Em “Contra Gentiles”, obra já acima citada, Atanásio discute os meios através dos quais se pode conhecer a Deus. No seu ponto de vista são dois meios principais: a alma e a natureza. Deus pode ser conhecido através da alma humana, porque “embora o próprio Deus seja desconhecido, o caminho que leva até Ele não é longo, nem mesmo está fora de nós mesmos, mas acha-se dentro de nós, e temos a possibilidade de achá-lo sozinhos” (30.1); isto é, ao estudar, a alma pode inferir algo a respeito da natureza de Deus. A alma é invisível e imortal; logo, o Deus verdadeiro deve ser invisível e imortal. Não há dúvida de que o pecado impede a alma de chegar a uma visão perfeita de Deus, mas a alma foi feita à imagem de Deus, e o seu propósito era o de ser um espelho onde aquela imagem, que é a Palavra de Deus, brilhasse. Este é um tema platónico que se tornara parte da tradição alexandrina desde Orígenes.



Além disso, é possível conhecer a Deus através da Sua criação, que, “como se fosse composta de letras escritas, revela em voz alta, pela sua ordem e harmonia, o seu próprio Senhor e Criador” {in Contra Gentiles”, 34.4). Mas a ordem do Universo não somente demonstra que Deus existe, mas também que Ele é um só. Se houvesse mais de um Deus, a unidade de propósito que pode ser percebida em todo o cosmos seria impossível. Além disso, a ordem e a razão dentro da natureza demonstram que Deus a criou e que a governa pela Sua Palavra. Para Atanásio, a Palavra de Deus que governa o mundo é o Logos vivo de Deus, ou seja, o Verbo que é o próprio Deus. Este conceito de Deus indica que Atanásio, até mesmo antes de se envolver no conflito ariano, tinha desenvolvido uma compreensão do Verbo que era diferente, não somente da dos arianos, como também do ponto de vista sustentado por muitos teólogos anteriores. Antes de Atanásio, havia uma tendência de se estabelecer a distinção entre o Pai e o Verbo com base no contraste entre o Deus absoluto e uma deidade subordinada. Isto, insistia Atanásio, era incompatível com o monoteísmo cristão.



A outra coluna da teologia de Atanásio era a soteriologia. A salvação de que a humanidade necessita é a continuação da criação, porque, na realidade, é uma recriação da humanidade caída. No pecado, o homem abandonou a imagem de Deus; um elemento de desintegração foi introduzido dentro da criação mediante o pecado. Este pode ser expulso somente mediante um novo ato de criação. Como consequência, o âmago da doutrina da redenção ensinada por Atanásio é que somente o próprio Deus pode salvar a humanidade. Se a salvação de que necessitamos é realmente uma nova criação, somente o Criador pode produzi-la. Este facto significa que forçosamente o Salvador é Deus, porque somente Deus pode outorgar uma existência semelhante à dEle.



Os princípios do monoteísmo e a doutrina da redenção influenciaram Atanásio na sua formulação de argumentos contra os arianos. Ao passo que estes geralmente apelavam à análise lógica e a distinções subtis, Atanásio referia-se constantemente às duas grandes colunas da sua fé. Neste sentido, a importância de Atanásio não se acha tanto nos seus escritos propriamente ditos, mas nas coisas que ele defendia e conservava numa vida cheia de tensões e perturbações. Num momento crítico da história da Igreja, ele sustentou o caráter essencial do Cristianismo nas suas lutas contra os arianos e os imperadores romanos . Se não fosse ele, disse Harnack (in “History of Dogma - II”, “História dos Dogmas – II”), a Igreja Cristã provavelmente teria caído nas mãos dos arianos.

Notas:

Orígenes (Alexandria, Egito, c. 185 — Cesareia, ou, mais provavelmente, Tiro, 253 d.C.)

Subordinacionismo [s. m. heresia dos séculos II e III relativa à Santíssima Trindade, que considerava o Filho de Deus subordinado ao Pai. (Do lat. subordinatióne-, «subordinação» + -ismo)]

Ário [Ário ou Arius (n. 256 - f. 336 ) foi o fundador da doutrina cristã do arianismo. Foi um presbítero cristão de Alexandria]

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Fontes Utilizadas:
Vários “Sítios” e enciclopédias na Internet e ainda algumas obras em papel.
Respigado daqui e dali.

Carlos António da Rocha

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