… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

quarta-feira, 3 de maio de 2017

SALMO 10

C. H. Spurgeon
 O Tesouro de David
 SALMO 10




Não há, na minha opinião, um Salmo só que descreva a mente, os costumes, as obras, as palavras, os sentimentos e o destino do ímpio com tanta propriedade, plenitude e luz como este Salmo. Assim que, se em algum aspecto não se tem dito o bastante ainda do ímpio, ou se falta ainda algo nos Salmos que se seguem, podemos achar aqui uma imagem e representação perfeita da iniquidade. Este Salmo, pois, é um tipo, forma e descrição deste homem, o qual, embora ele mesmo se veja, e até os outros o vejam, como o mais excelente dos homens, mais que o próprio Pedro, é detestável aos olhos de Deus; e isto é o que impulsionou Agostinho e aos cristãos que viveram depois dele a entender este Salmo como uma referência ao Anticristo. Martin Luther.



Vers. 1. Por que estás ao longe, SENHOR? A presença de Deus é o gozo do Seu povo, mas a suspeita da Sua ausência é tristeza sem medida. Portanto, recordemos que o Senhor está perto de nós. O ourives não está nunca longe da boca do forno quando tem o ouro no fogo, e o Filho de Deus está sempre andando no meio das chamas quando os Seus santos filhos são lançados nelas. C. H. S.



Por que te escondes nos tempos de angústia? Não é tribulação, porém, o nosso Pai esconde de nós a Sua face, o que realmente nos fere. Se necessitarmos de resposta à pergunta «Por que te escondes?» achá-la-emos no facto de que há uma necessidade não só para a prova, mas também para o pesadume do coração sob a prova (I S. Pedro 1:6); mas, como pode ser assim, se o Senhor deveria brilhar sobre nós quando nos está afligindo? Se o pai consola o seu filho quando o está corrigindo, do que serviria a disciplina? Um rosto sorridente e a vara não são companheiros apropriados. Deus desnuda as costas para que o golpe se sinta mais; porque é apenas a aflição sentida a que passa a ser aflição bendita. Se somos levados nos braços por Deus ao passarmos por cada corrente, onde estaria a prova, onde a experiência que a tribulação tem por objecto ensinar-nos?



Se o Senhor não Se escondesse, não seria tempo de tribulação, de modo algum. Assim, também, poderias inquirir por que o Sol não brilha de noite, quando é seguro que não haveria noite se o fizesse. C. H. S.



«O tempo da tribulação» deveria ser tempo de confiança; o ter fixo o coração em Deus, deveria impedir os temores do coração. Não temerá maus rumores; o seu coração está firme, confiando no SENHOR. (Sl 112:7 ACF) Como? "Confiando no Senhor. O seu coração está estabelecido, ele não deve ter medo.” De outra maneira, sem isso, seriamos como a chama de uma vela, como uma veleta; movidos por cada rajada de más notícias, as nossas esperanças afundar-se-iam ou flutuariam segundo as notícias que ouvíssemos. A Providência parece dormir a menos que a fé e a oração a despertem. Os discípulos tinham apenas uma fé pequenina no seu Mestre, ainda que com a sua pouca fé O tivessem acordado na tempestade, e Ele salvou-os. A falta de fé só impede a Deus que nos mostre o Seu poder ao tomar a nossa parte. Charnock Stephen.



Vers. 2. Com arrogância o mau persegue o pobre. A acusação divide-se em duas partes distintas: arrogância e tirania; uma é a raiz da outra. O orgulho é o ovo da perseguição. C. H. S.



O «orgulho» é um vício que se adere de modo tão firme aos corações dos homens, que se tivéssemos de tirar-nos as nossas faltas uma atrás de outra, sem dúvida acharíamos que ele é a última e a mais difícil de arrancar. Richard Hooke, 1554-1600.



Fica apanhado na trama que ele mesmo urdiu. A ideia é razoável, justa e natural. Inclusive quando os nossos inimigos são os juizes, é justo que os homens sejam tratados como eles desejam tratar os outros. Só sopesamos o outro nas nossas próprias balanças, e medimos o trigo com a nossa própria medida. Ninguém vai disputar a justiça de Deus quando Ele enforque a cada Haman na sua própria forca, e lance a cada um dos inimigos dos Seus Daniéis nos seus próprios fossos de leões. C. H. S.



Vers. 3. Porque o ímpio gloria-se do desejo da sua alma. A evidência é plena e concludente sobre a questão do orgulho, e nenhum juiz vacilaria em pronunciar veredicto contra o réu. A primeira testemunha atesta que é um jactancioso. Os pecadores jactanciosos são os homens mais desprezíveis, os piores, especialmente quando os seus imundos desejos demasiado imundos para poderem ser realizados - passam a ser objecto e tema das suas jactâncias.



Bendiz ao avarento, e renuncia ao SENHOR. Outro testemunho que deseja que seja escutado. Desta vez o descaramento do orgulhoso rebelde é ainda mais aparente; porque «o ambicioso bendiz a quem Jeová aborrece». Isto é insolência, que é orgulho disfarçado. Os únicos pecadores que são recebidos como respeitáveis são os ambiciosos. Se um homem fornica, ou é um bêbado, é expulso da igreja; mas, quem é que ouviu na igreja falar em disciplinar a este idólatra desgraçado: um ambicioso? Tremamos para que não sejamos achados partícipes deste atroz pecado do orgulho: «o ambicioso bendiz a quem Jeová aborrece.” C. H. S.



Cristo sabia o que dizia quando exclamou: «Nenhum homem pode servir a dois senhores.» Como o anjo e o diabo lutavam pela posse do corpo do Moisés (Judas 9), não para reparti-lo, mas cada um deles para possui-lo inteiro, do mesmo modo, se esforçam, ainda pelas nossas almas, para ver quem as vai possuir inteiras. Henry Smith



Vers. 4. Pela altivez do seu rosto o ímpio não busca a Deus. O rosto duro como o bronze e o coração quebrantado nunca vão juntos. Não estamos de todo seguros de que os atenienses fossem sábios quando ordenaram que os homens fossem sentenciados na escuridão para que a expressão dos seus rostos não pudesse ser sopesada pelos juizes; porque há muito mais que se pode aprender dos gestos da cara do que das palavras dos lábios. A sinceridade brilha no rosto, mas a baixeza de alguns aparece nos olhos. C. H. S.



São aos milhares os que morrerão e serão condenados, se não aceitarem o perdão sobre o facto único dos méritos e da obediência a Cristo. Quando vão estar satisfeitos os homens com o método de Deus para salvá-los pelo sangue do Pacto Eterno? Vais tu ser condenado para poderes ser o teu próprio salvador? És tão orgulhoso que não queres contemplar a Deus? Não vais merecer nem receber nada. O que direi? És pobre, mas orgulhoso; não tens mais do que miséria, mas estás falando de fazer uma compra. Aquele que está orgulhoso dos seus vestidos, e a sua linhagem não é tão desprezível aos olhos de Deus como o que está orgulhoso dos seus méritos, e por isso se nega a submeter-se aos métodos de Deus para a sua salvação por meio de Cristo, e, da Sua justiça, exclusivamente. Lewis Stuckley



O orgulho dos malvados é a razão principal pela qual não procuram o conhecimento de Deus. O orgulho consiste numa exaltada opinião de si mesmo sem apoio para isso. Portanto, o orgulhoso sente-se impaciente ante um rival, aborrece-se perante um superior, e não pode tolerar um amo. É evidente que não há nada mais penoso para o coração orgulhoso do que o pensamento de um ser como Deus. Uma pessoa orgulhosa só pode considerá-Lo com sentimentos de temor, aversão e aborrecimento. Tem de vê-Lo como seu inimigo natural, o Seu grande inimigo, a Quem tem de temer.



O orgulho afundou Satanás desde o Céu para o Inferno; desterrou os nossos primeiros pais do Paraíso; e, de modo similar, vai ser a ruína dos que o experimentem. Mantém-nos na ignorância de Deus; fecha-nos o Seu favor; impede-nos que nos assemelhemos a Ele. Vigia o orgulho! Vigia para que não caias nele imperceptivelmente, porque é possivelmente, de todos os pecados, o mais secreto, o mais subtil e o mais oculto. Edward Payson, D.D., 1783-1827.



Não há Deus em nenhum dos seus pensamentos. Entre os montões de palha não havia nem um grão de trigo. O único lugar onde não há Deus é nos pensamentos do malvado. Esta é uma acusação devastadora; porque ali onde não há o Deus do Céu, está reinando avassalador o senhor do Inferno; e se Deus não está nos nossos pensamentos, os nossos pensamentos levam-nos à perdição. C. H. S.



Alguns lêem: «Não há Deus em nenhum dos seus propósitos ardilosos e presunçosos»; outros: «Em nenhum dos seus pensamentos há Deus.Thomas Goodwin.



Preocupamo-nos com as minúcias, porém, Deus não se acha absolutamente nos nossos pensamentos; raramente é o único objecto deles. Dedicamos os nossos pensamentos duradouros às coisas transitivas, e os pensamentos fugazes, ao bem perdurável e eterno. Stephen Charnock



Vers. 5. Os teus juízos os estão muito longe da sua vista. Este homem olha para cima, mas não o bastante. Tendo-se olvidado de Deus, também tem olvidado os Seus julgamentos. Não é capaz de compreender as coisas de Deus; antes pelo contrário, podemos esperar que um porco olhe por um telescópio para as estrelas, antes que este homem estude a Palavra de Deus para entender a justiça do Senhor. C. H. S.


Vers. 6. Diz em seu coração: Não serei abalado, porque nunca me verei na adversidade. Oh impertinência sem sentido! O homem crê-se imutável e omnipotente, também, porque nunca se há-de ver na adversidade. C. H. S.



A segurança carnal abre as portas para que todas as irreverências entrem na alma. Pompeu, quando tendo assaltado em vão uma cidade e não a podendo tomar pela força, engendrou um estratagema, fingindo a proposição de um pacto, disse-lhes que abandonaria o sítio e faria a paz com eles com a condição de que deixassem entrar na cidade uns poucos soldados débeis, doentes e feridos para que os curassem. Eles deixaram entrar os soldados, e quando a cidade estava segura, os soldados deixaram entrar o exército de Pompeu. Uma segurança carnal estabelecida vai permitir a entrada de todo o exército dos desejos carnais na alma. Thomas Brooks



Vers. 7. A sua boca está cheia de imprecações, de enganos e de astúcia. Aqui não há pouco engano, senão que a sua boca está cheia dele. Uma serpente de três cabeças tinha escondido as suas presas e o seu veneno dentro do âmbito da sua boca negra. C. H. S.



Vers. 8. Põe-se de emboscada nas aldeias; nos lugares ocultos mata o inocente. Os seus olhos estão espreitando o desvalido. Apesar das jactâncias deste homem vil e miserável, parece que é tão covarde como cruel. Os seus actos são os do salteador de caminhos que se lança sobre o caminhante que jamais suspeita de nada em qualquer lugar desolado do caminho. C. H. S.

O bandido árabe espreita como um lobo entre os montões de areia, e às vezes salta subitamente sobre o caminhante solitário, rouba-o num instante, e logo desaparece entre as dunas, os altos e os baixos, onde é impossível perseguí-lo. W. M. Thompson, D.D., in "The Land and the Book," 1859.


A extirpação da verdadeira religião é o grande objecto dos inimigos da verdade e da justiça; e não há nada que os detenha na sua pesquisa por conseguir este objectivo. John Morison



Vers. 9 Arma ciladas no esconderijo, como o leão no seu covil; arma ciladas para roubar o pobre; rouba-o, prendendo-o na sua rede. A opressão faz dos príncipes, leões rugientes, e dos juizes, lobos rapaces. É um pecado ignóbil, contra a luz da natureza. Nenhuma criatura oprime os da sua própria espécie. Vê as aves de rapina, como as águias, os abutres, os milhanos, e verás que jamais atacam os da sua própria espécie. Vê as bestas da selva, como o leão, o tigre, o lobo e o urso, e acharás que são favoráveis aos de sua própria espécie; não obstante, o homem, contra o que é natural, faz presa de outros homens, como os peixes do mar, que tragam os que são menores em tamanho. Thomas Brooks.



Vers. 10. Encolhe-se, abaixa-se, para que os pobres caiam nas suas fortes garras. Verás a Sua Santidade, o Papa, com os peregrinos aos seus pés, se este estratagema for necessário para enganar a mente das multidões; ou vê-lo-ás sentado num trono de púrpura, se quiser assombrar e atemorizar os reis da Terra. John Morison



Vers. 11. “Diz em seu coração: Deus esqueceu-Se, cobriu o Seu rosto, e nunca isto verá.” Como no caso anterior, o mesmo acontece aqui; uma testemunha vai aparecer e testificar que esteve escutando pelo buraco da fechadura do coração. Este homem cruel consola-se a si mesmo com a ideia de que Deus é cego, ou pelo menos esquecido: uma fantasia enganosa, realmente. C. H. S.



Os velhos pecados esquecidos pelos homens ficam recordados de modo permanente por um Entendimento Infinito. O tempo não pode apagar aquilo que Ele tem vindo conhecendo desde a eternidade. Por que teriam de ser apagados muitos anos depois de terem sido realizados, se já eram conhecidos previamente antes de serem cometidos, ou antes que o criminoso pudesse praticá-los? Seria dizer o mesmo como se Deus não conhecesse de antemão o que ocorrerá até ao fim do mundo, ou, como se Ele fosse esquecer-Se de algo que foi efectuado no começo do mesmo. Stephen Charnock



O homem abstém-se de se arrepender porque Deus Se abstém de castigar. A abelha dá mel de modo natural, mas pica quando se zanga. Thomas Watson.



Como a justiça parece estar dormitando, o homem supõe que é cega; pelo facto de demorar o castigo, imagina que se nega a castigá-lo; porque nem sempre lhes reprova os pecados, supõem que os aprova. Porém, antes pelo contrário, saibam estes que a flecha silenciosa pode destruir até mesmo o canhão rugiente. Ainda que a paciência de Deus seja duradoura, não é permanente. William Secker.



Vers. 13. Por que despreza o ímpio a Deus? Nestes versículos condensa-se a descrição dos ímpios, e a impiedade do seu carácter é desenhado segundo a sua fonte, ou seja, as suas ideias ateias a respeito do governo do mundo.



No seu coração hão dito: Tu não o inquirirás. Se não houvesse Inferno para outros, teria que havê-lo para os que negam a justiça do mesmo. C. H. S.



Como! Crês que Deus não recorda os pecados a que nós não damos atenção? Porque, quando pecamos, continua apontando-os na conta, e o Juiz anota tudo no índice das lembranças, e o Seu pergaminho alcança o Céu. Henry Smith



Vers. 14. Tu o viste, porque atentas para o trabalho e enfado, para o retribuir com tuas mãos. A maldade ousada vai receber o seu castigo em deplorável castigo, e os que albergam desdém, herdarão aflição. C. H. S.



Vers. 16 O SENHOR é Rei eterno; da Sua terra perecerão os gentios. Esta confiança e fé hão-de aparecer ao mundo como estranhas e inexplicáveis. Se a história é verdadeira, é como o que os seus concidadãos devem ter pensado do homem do qual se disse que a potência da sua visão era tão extraordinária que podia distinguir bem a frota dos cartagineses entrando no porto de Cartago quando ele se achava em Lilyboeum, na Sicília. Um homem que visse a tal distância através do mar, podia deleitar-se na visão do que os demais não podiam ver!



Da mesma maneira, também a fé se acha agora no seu Lilyboeum, e vê a frota desfraldada entrando com toda a segurança no porto desejado, gozando a bênção que está ainda distante, como se já tivesse chegado. Andrew A. Bonar.



Vers. 17. O desejo dos humildes escutas, oh Jeová; Tu confortas o seu coração, e tens atento o Teu ouvido. Há uma classe de omnipotência na oração que é o prevalecer na omnipotência de Deus. Soltou cadeias de ferro (At 16:25, 26); abriu portas de ferro (At 12:5-10); abriu as janelas do céu (1Rs 18:41); esmiuçou os grilhões da morte (Jo 11:40-43).



Satanás tem três títulos nas Escrituras, que mostram a sua malignidade contra a igreja de Deus: dragão, para denotar a sua malícia; serpente, para denotar a sua astúcia; leão, para denotar a sua força. Mas à oração nenhum destes pode resistir e fazer frente. A máxima malícia de Haman afunda-se ante a oração de Ester; o conselho ardiloso de Aquitofel murcha ante a oração de David; o grande exército dos etíopes foge como um enxame de covardes ante a oração de Asa. Edward Reynolds, 1599-1676.


Tradução de Carlos António da Rocha

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