… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

quinta-feira, 4 de maio de 2017

SALMO 11


C. H. Spurgeon
O Tesouro de David
SALMO 11
Charles Simeon dá um resumo excelente deste Salmo nas seguintes frases:—"Os Salmos são um repositório rico de conhecimento experimental. David, nos diferentes períodos da sua vida, foi colocado em quase todas as situações em que um crente, seja rico ou pobre, pode ser colocado; nestas composições divinas ele delineia todos os funcionamentos do coração. Ele introduz, também, os sentimentos e a conduta das várias pessoas que foram instigadores ou para as suas dificuldades ou para a sua alegria; e deste modo estabelece perante nós um compêndio de tudo o que se está passando nos corações de homens em todo o mundo. Quando ele escreveu este Salmo estava sob a perseguição de Saúl, que buscava a sua vida, e o caçava ‘como a uma perdiz nas montanhas.’ Os seus tímidos amigos estavam alarmados pela sua segurança, e recomendaram-lhe para que fugisse um pouco para a montanha onde ele tinha um esconderijo, e, portanto, para ocultar-se da ira de Saúl. Mas David, sendo forte na fé, rejeitou a ideia de recorrer a quaisquer expedientes covardes, e determinou confiadamente repousar a sua confiança em Deus."

Para nos ajudar a recordar este Salmo tão breve, mas tão doce, dar-lhe-emos o nome de «CÂNTICO DO AMIGO FIRME E FIEL». C. H. S.


Os amigos de David, ou os que diziam sê-lo, advertiram-no para que fugisse para a parte do país montanhoso em que tinha nascido, e que permanecesse ali escondido durante um tempo até que o rei se lhe mostrasse mais favorável. David naquela ocasião não aceitou o conselho, embora mais tarde parece havê-lo seguido. Este Salmo aplica-se ao estabelecimento da Igreja contra as calúnias do mundo e dos conselhos de acordo e de arranjos dados pelo homem, afirmando que a confiança tem de ser colocada em Deus, o Juiz de todos. W. Wilson, DD, in loc., 1860.



Notemos de que modo tão notável este Salmo corresponde à libertação de Loth quando ele se achava em Sodoma. Este versículo, com a exortação do anjo: «Escapa para montanhas, para que não sejas consumido», e a resposta de Loth: «Não posso escapar para as montanhas, não seja que me alcance o mal, e morra» (Génesis 19:17-19). E também: «Jeová tem no céu o seu trono, e sobre os maus fará chover calamidades; fogo, enxofre e vento abrasador será a porção do cálice deles»; com: «Então o Senhor fez chover sobre Sodoma e Gomorra enxofre e fogo do céu»; e também: «Os rectos contemplarão o seu rosto», com: «livrou ao justo Loth... porque este justo, que residia entre eles, afligia a cada dia a sua alma justa, vendo e ouvindo os factos iníquos deles» (II S. Pedro 2:7, 8). Cassidorus (A. D., 560) in John Mason Neal’s "Commentary on the Psalms, from Primitive and Mediaeval Writers," 1860.



Dos combatentes no lago Thrasymene dizia-se que estavam tão absortos no combate que nem uns nem outros se deram conta das convulsões da natureza que tinham lugar no terreno que pisavam. O mesmo ocorre, embora com uma causa mais nobre, aos soldados do Cordeiro. Crêem, e por isso não se apressam; mais que, podem apenas sentir as convulsões da terra, como os demais homens, devido ao seu anelo de seguir adiante para chegar ao advento do Senhor. Andrew A. Bonar.



Vers. 1-3. Estes versículos contêm um relato de uma tentação para desconfiar de Deus, a qual tinha causado grande desassossego em David numa ocasião que não se menciona. É possível que nos dias em que se achava na corte de Saúl o aconselhassem a que escapasse por uns momentos e que a sua fuga podia ser atribuída a um incumprimento do seu dever a respeito com o rei ou a uma prova de covardia pessoal. O seu caso era como o de Neemias, quando os seus inimigos, sob o pretexto da amizade, esperavam apanhá-lo uma vez em que fugisse para salvar a sua vida, mediante os conselhos que lhe davam. C. H. S.



Vers. 1. No SENHOR confio; como dizeis à minha alma: Fugi para a vossa montanha como pássaro? Quando Satanás não pode derrotar-nos por meio da presunção, com que astúcia procura a nossa ruína por meio da desconfiança! Lançará mão dos nossos amigos mais queridos para nos convencer de que não tenhamos confiança, e usará uma lógica tão plausível que, a menos que afirmemos de modo definitivo a nossa confiança imutável em Jeová, conseguirá que como um pássaro tímido fujamos para as montanhas sempre que se apresente perigo. C. H. S.



Podemos observar que David sentia prazer usando a metáfora com frequência, comparando-se a um ave, e a várias classes delas; primeiro a uma águia (Salmo 103:5): «A minha juventude é renovada como a de uma águia»; às vezes a um mocho (Salmo 102:6): «Sou como um mocho entre as ruínas»; às vezes a um pelicano, no mesmo versículo: «como um pelicano no deserto»; outras a um pardal (Salmo 102:7): «Como o pardal solitário sobre o telhado»; algumas vezes a uma perdiz: «Como quando alguém caça uma perdiz



Alguns dirão: «Como é possível que aves de pluma tão diferente possam agrupar-se e representar o carácter de David?» Responderemos que não há dois homens que possam diferir mais um do outro que o mesmo servo de Deus, em distintos momentos, pode diferir de si mesmo.



As suas palavras «como dizeis à minha alma, que escape para o monte qual ave?» Implicam uma certa emoção, pelo menos, desagrado perante o conselho. Argui-se que David não estava ofendido pelo conselho, mas sim pela maneira como lhe é proposto. Os seus inimigos fazem-no ironicamente, burlando-se, como se o ir voando ali, não tivesse propósito algum, e, que não era provável que achasse ali a segurança que procurava. Assim, quando os principais dos sacerdotes se burlavam de Jesus (Mateus 27:43), diziam: «Pôs a sua confiança em Deus; livre-o agora se o ama.» A confiança de Cristo em Deus nunca variou um ponto pelas mofas ou pelas repreensões que Lhe lançavam. Por outro lado, se as burlas dos homens fazem com que menosprezemos o bom conselho, nesta época com burlas nos separariam do nosso Deus, e de Cristo, e das Escrituras, e do Céu; o apóstolo Judas, vers. 18, já predisse que nos últimos tempos haveria escarnecedores, que andariam conforme as suas próprias concupiscências. Thomas Fuller



É uma ofensa tão grande o fazer um novo Deus como o negar o verdadeiro. «A quem tenho eu nos céus senão a ti?», entre os milhares de santos, entre Miguel ou Gabriel, Moisés ou Samuel. «E não há nada na Terra quem deseje em comparação Contigo.» John King, 1608.



Nas tentações da tribulação e de terror não é conveniente discutir a coisa com Satanás. Richard Gilpin



A sombra não refresca, a menos que se esteja nela. Do que serve ter sombra, nem que seja de uma penha alta, se nos sentarmos sob o Sol; o ter à disposição o braço do Omnipotente, se nos apartamos dEle e fazemos escapadas nas próprias fauces da tentação? As caídas dos santos tiveram lugar quando eles saíram da sua trincheira e da sua fortaleza; porque a sua força é como a dos coelhos, animais débeis em si mesmos, cuja fortaleza se acha na rocha do Todo-Poderoso, que é a Sua habitação. William Gurnall



Vers. 2. Pois eis que os ímpios armam o arco, põem as flechas na corda. O arco é esticado, e a flecha é colocada na corda: «Foge, foge, pássaro indefeso; a tua segurança está na fuga; foge, porque os teus inimigos vão enviar os seus dardos ao teu coração; apressa-te, porque depressa vão destruir-te!» David parece haver sentido a força do conselho, porque vinha da sua própria alma; mas, contudo, não quer ceder, senão que se atreve a encarar o perigo antes que exibir desconfiança no Senhor seu Deus. C. H. S.



Os principais dos sacerdotes e fariseus prepararam armadilhas para apanhar Jesus por meio da sua astúcia e matá-lO; esticaram o seu arco quando compraram a Judas Iscariotes para que traísse o Seu Mestre; colocaram as suas flechas na corda quando procuraram «falsos testemunhos contra Jesus para lhe dar morte» (Mateus 26:59). Michael Ayguan, 1416, in J. M. Neale’s Commentary.



Vers. 3. Se forem destruídos os fundamentos, que poderá fazer o justo? É possível que os fundamentos da religião sejam destruídos? Pode Deus estar sonolento, sim, letárgico, de modo que seja possível a sua ruína? Se Ele olha, e, contudo, não vê que estes fundamentos são destruídos, onde está a Sua omnisciência? Se o vê e não pode evitá-lo, onde se acha a Sua omnipotência? Se o vê, pode evitá-lo e não o faz, onde Se acham a Sua bondade e a Sua misericórdia?



Respondemos de modo negativo, que é impossível que os fundamentos da religião possam ser destruídos de modo total e final, seja em relação com a Igreja em geral ou em referência a cada um dos seus membros vivos e verdadeiros. Pela razão de que temos uma promessa explícita de Cristo: «As portas do inferno não prevalecerão contra ela» (Mateus 16:18). Thomas Fuller



Sim. É a única palavra de consolo no texto, já que mostra que tudo o que se diz não é positivo, senão uma hipótese. Bem, é bom conhecer o pior de tudo, para que possamos acautelar-nos em consequência; e, portanto, que, em hipótese, contemplemos este caso lamentável não como duvidoso, senão como um facto; não como temido, senão como sentido; senão como suspeito, mas sim como tendo ocorrido na realidade. Thomas Fuller



Primeiro, um triste caso suposto: Se os fundamentos são destruídos. Segundo, uma triste pergunta que propõe: O que poderá fazer o justo? Terceiro, uma triste resposta implicita, ou seja, que não pode fazer nada com o objectivo de restabelecer o fundamento destruído. Thomas Fuller



A sua resposta à pergunta «O que pode fazer o justo?» seria a contra pergunta «O que é o que não pode fazer?» Quando a oração põe Deus em movimento do nosso lado, e quando a fé assegura o cumprimento da promessa, que motivo pode haver para a fuga, por cruéis e poderosos que sejam os nossos inimigos? C. H. S.



O que pode fazer o justo? O «pode» do justo é um «pode» limitado, confinado à regra da Palavra de Deus. O justo não pode fazer nada que não seja legal fazer (II Coríntios 13:8). Porque não podemos fazer nada contra a verdade, senão pela verdade. O malvado pode fazer tudo; a sua consciência, que é tão larga que nem é consciência, permite-lhe fazer tudo, por ilegítimo que seja: matar, envenenar, o que seja, por todos os meios, em todo o tempo, em qualquer lugar, a todo aquele que se interpõe entre ele e a consecução dos seus desejos.



Não assim o justo; estes têm uma regra pela qual têm de obrar, que nem podem, nem devem, nem se atrevem a quebrantar. Portanto, se um justo tivesse a segurança de que o quebrantar um dos mandamentos de Deus pode restaurar a religião decaída e voltar as coisas ao seu estado prévio, as suas mãos, a sua cabeça e o seu coração estariam maniatados; não pode fazer nada, porque cairia sobre ele a condenação justa que diz: «Façamos males para que venham bens» (Romanos 3:8); Thomas Fuller



Os tempos de pecar em abundância foram sempre, para os santos, tempos para muita oração. Sim, isto é o que podem fazer: «jejuar e orar». Há ainda um Deus nos céus a quem acudir quando a libertação de um povo se acha além do que podem fazer as disposições e o poder humanos. William Gurnall



Vers. 4. O SENHOR está no seu santo templo. Os céus estão em cima das nossas cabeças em todas as regiões da Terra, e assim o Senhor acha-Se sempre perto de nós, em todo o estado e condição. Esta é uma razão muito poderosa para que não adoptemos as vis sugestões de desconfiança. Há Um que alega o Seu precioso sangue em nosso favor no templo de cima, e ali há Um no trono que não está nunca surdo à intercessão do Seu Filho. Por que, pois, havemos de temer? Que planos e intrigas pode imaginar o homem, que Jesus não possa descobrir?



O trono do SENHOR está nos céus. Se confiarmos neste Rei de reis, não basta? Não pode Ele libertar-nos sem a nossa covarde retirada? Sim, bendito seja o nosso Senhor e Deus, que O podemos saudar como Jehová-nissi; no Seu nome hasteamos as nossas bandeiras, e, em vez de fugir, gritamos uma vez mais o grito de guerra. C. H. S.



Os Seus olhos vêem. Deus não esquadrinha como o homem, inquirindo no que antes estava escondido dEle; o Seu esquadrinhar é simplesmente olhar; Ele vê o coração, Ele contempla os rins; a própria vista de Deus é esquadrinhadora. Richard Alleine, 1611-1681.



Em Apocalipse 1:14, em que se descreve Cristo, diz-se que os Seus olhos são como a chama de fogo; já sabemos que a propriedade do fogo é esquadrinhar e pôr à prova as coisas que a ele são submetidas, e o separar a escória do metal puro; assim, também, os olhos de Deus são como fogo, para provar e examinar as ações dos homens. É um Deus que pode ver através das folhas de figueira das nossas palavras com que professamos, e discernir a nudez dos nossos deveres por meio delas. Ezekiel Hopkins, D. D.



Aceita a Deus no teu conselho. O céu acha-se por cima do Inferno. Deus em todo o momento pode dizer-te que planos se estão incubando ali contra ti. William Gurnall



As Suas pálpebras esquadrinham os filhos dos homens, como um juiz submete à prova um réu com os seus os olhos e lê os caracteres de maldade impressos no seu rosto. No grande pavor descrito em Apocalipse 6:16, todos os que fogem pedem poder esconder-se do olhar dAquele que está sentado no trono. A maldade não pode resistir à observação de qualquer olho, e muito menos ao olho da justiça. É muito difícil não mostrar a culpa do coração no rosto, tão difícil como deixar de vê-la. Joseph Caryl



Vers. 5. O SENHOR prova o justo. Não os aborrece, só os prova. C. H. S.



Com a excepção dos nossos pecados, não há nada tão abundante neste mundo como as tribulações que resultam do pecado, que são como os mensageiros que, um após o outro, foram chegando a Job. Como não nos achamos no paraíso, senão no deserto, temos de esperar uma tribulação atrás de outra. Assim como a David chegou um urso depois de um leão, e um gigante depois do urso, e um rei depois do gigante, e os filisteus depois do rei, assim também, quando os crentes combaterem a pobreza, terão de lutar contra a difamação; quando lutaram contra a difamação, terão de fazê-lo contra a enfermidade; serão como um obreiro que nunca cessa no seu trabalho. Henry Smith.



Vers. 6. Sobre os maus fará chover calamidades. Não há calamidades que nos caiam em cima com tanta abundância como as de nossos próprios pecados; continuam caindo sobre as nossas cabeças, e encurvam-nos, de modo que não podemos erguer-nos; para o que não tem a consciência cauterizada, há pouco descanso por causa delas. Samuel Page, 1646.



Vento tempestuoso. Alguns expositores acreditam que o termo se refere a uma tempestade. Há uma alusão em hebraico aqui ao vento sufocante, ardente, que sopra através do deserto da Arábia, conhecido como o simún. «Uma tempestade ardente» a chama Lowth, enquanto que outro comentador lê «vento de ira»; quer numa ou quer na outra versão só vemos terrores.



Será a porção do cálice deles. Uma gota do Inferno é terrível, mas o que será uma taça cheia de tortura? Pensemos nisso: uma taça de miséria, sem uma gota de misericórdia. Oh povo de Deus, que néscio é temer os homens que serão prontamente feixes de palhas ardentes no fogo do Inferno! Pensa no teu fim, o teu fim terrível, e todo o teu temor se mudará em desprezo perante as suas ameaças e em compaixão pelo seu miserável estado. C. H. S.



Vers. 7. Porque o SENHOR é justo, e ama a justiça. Não só é a Sua ocupação defendê-la, mas também a Sua natureza é amá-la.



Os rectos contemplarão o seu rosto. (Ou segundo outras versões: O seu rosto contempla os rectos ou o seu rosto está voltado para os retos). Mamon, a carne, o diabo, todos eles sussurram ao nosso ouvido: «Foge como um pássaro para a tua montanha»; mas nós temos de avançar e desafiá-los. «Resisti ao diabo, e de vós fugirá.» Adiante! Que a vanguarda avance! À frente todas as potências e paixões da alma! Adiante! Adiante!; em nome de Deus, adiante!, porque «Jeová dos exércitos está connosco; o Deus de Jacob é o nosso refúgio». C. H. S.



Ele contempla-nos com olho sorridente, e portanto não pode olhar com favor ao injusto; assim que esta necessidade não está fundada somente na ordem de Deus de que sejamos renovados, senão na própria natureza da coisa, porque Deus, com relação à Sua santidade, não pode conversar com uma criatura impura. Deus terá de mudar a Sua natureza ou terá de mudar a natureza do pecador. Lobos e ovelhas, trevas e luz, não podem estar de acordo. Deus não pode amar um pecador como pecador, porque Ele aborrece a impureza tanto por necessidade da Sua natureza, como por decisão da Sua vontade. É tão impossível que Ele ame a impureza quanto cesse de ser Santo. Stephen Charnock





Tradução de Carlos António da Rocha

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