… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

terça-feira, 2 de maio de 2017

SALMO 9


C. H. Spurgeon
 O Tesouro de David
 SALMO 9
Vers. 1. Eu te louvarei, SENHOR, com todo o meu coração. Às vezes, é necessária toda a nossa decisão para fazer frente aos dentes dos Seus inimigos, afirmando que, por mais que outros se calem, nós bendiremos o Seu nome; aqui, todavia, o desmoronamento do inimigo vê-se como total e o cântico flui com a sagrada plenitude do deleite. O nosso dever é louvar o Senhor; exerçamos este privilégio.



Com todo o meu coração. A metade do coração não é o coração. C. H. S.



As meias tintas, o desânimo e o desprezo da graça divina largam-se da mão. E. W. Hengstenberg.



Vers. 1. Contarei todas as tuas maravilhas. A gratidão por um acto de misericórdia refresca a memória de milhares deles. Um elo de prata na cadeia arrasta uma longa série de lembranças ternas. Aqui há uma obra eterna para nós, porque não pode haver fim à manifestação de todos os Seus actos de amor. C. H. S.



Quando recebemos algum bem especial do Senhor, é bom, segundo a oportunidade que tenhamos, que contemos a outros. Quando a mulher que tinha perdido uma das suas dez moedas de prata a achou, reuniu as suas vizinhas e amigas e disse-lhes: «Regozijai-vos comigo, porque achei a moeda que tinha perdido.» Quem conhece tantas das obras maravilhosas de Deus como o Seu próprio povo? Se eles se calarem, como podemos esperar que o mundo veja o que Ele tem feito? Não nos envergonhemos de glorificar a Deus contando o que conhecemos e sabemos o que Ele tem feito; procuremos a oportunidade de pôr claramente estes factos em evidência; deleitemo-nos em achar a oportunidade de contar, da nossa própria experiência, o que há-de redundar em Seu louvor; e aos que honram a Deus, Deus, por Sua vez, honrá-los-á; se estamos dispostos a contar os Seus feitos, Ele dar-nos-á em abundância do que falar. P. B. Power, in 'I Wills' of the Psalms.



Vers. 2. Em ti me alegrarei e saltarei de prazer. Deus ama ao que dá com alegria, quer seja o ouro da sua bolsa ou o ouro da sua boca que ele apresente no Seu altar.



Cantarei louvores ao teu nome, ó Altíssimo. Os cânticos são a expressão adequada do agradecimento interior, e faríamos bem em procurar honrar o nosso Senhor com muitos mais cânticos. Mr. B. P. Power disse, e muito bem: «Os marinheiros dão um grito de alegria quando levantam a âncora; o lavrador assobia pela manhã quando segue a sua junta de bois; a leiteira canta uma canção rústica quando se dispõe a começar a sua tarefa; quando os soldados deixam os seus amigos para trás, não avançam ao cântico da "Marcha fúnebre de Saúl", mas ao som das notas vivas de uma marcha animando o ar. Um espírito de louvor fará para nós tudo o que as suas canções e música fazem para eles; e se nos decidimos a louvar ao Senhor, ultrapassaremos muitas dificuldades que com o espírito abatido não seriamos capazes de superar, e nós como poderíamos dobrar o trabalho que pode ser feito, se o coração for lânguido no seu abatimento com frouxidão, afligidos e esmagados na alma. Assim como o espírito mau em Saúl cedeu nos tempos de antanho à influência da harpa do filho de Jessé, assim também o espírito de melancolia fugirá de nós se entoarmos hinos de louvor.» C. H. S.



Vers. 4. Pois tu tens sustentado o meu direito e a minha causa. Se procuramos sustentar e honrar o nosso Senhor podemos sofrer reprovações e calúnias, mas é um grande consolo recordar que Aquele que está sentado no trono julga os nossos corações e não nos deixará à mercê da ignorância do juízo do homem falível. C. H. S.



Vers. 8. Ele mesmo julgará o mundo com justiça; exercerá juízo sobre povos com rectidão. Oh, como deve refrear as nossas ações a ideia de aparecer perante o tribunal do grande Rei quando estivermos tentados a pecar, e como deve confortar-nos quando formos caluniados e oprimidos! C. H. S.



A consciência culpada não consegue viver este dia. A ovelha imbecil, quando ela é tomada, não balirá, mas tu podes carregá-la e fazer o que quiseres com ela, e ela estará sujeita, mas os porcos, se eles fossem algum dia tomados, eles irão roncar e gritar. Então, de todas as coisas a consciência culpada não pode tolerar a ouvir acerca deste dia, pois sabe que, quando ouve falar dele, ela ouve a sua própria condenação. Eu creio que se houvesse uma recolha geral de dinheiro feita por todo o mundo para que não pudesse haver nenhum dia de julgamento, então Deus seria tão rico que o mundo seria um mendicante e um deserto árido. Então, o juiz avarento traria os seus subornos, em seguida, o advogado astuto iria buscar as suas malas, o usurário daria o seu lucro, e um dobro dele. Mas todo o dinheiro do mundo não iria servir para o nosso pecado, porém o juiz deve responder pelos seus subornos, aquele que tem dinheiro deve responder como é que ele o obteve, e a justa condenação deve vir sobre cada uma das almas deles, então o pecador deveria estar sempre morrendo e nunca morto, como a salamandra, que está sempre no fogo e nunca é consumida. Henry Smith



Vers. 9. O SENHOR será também um alto refúgio para o oprimido; um alto refúgio em tempos de angústia. Diz-se dos egípcios que, vivendo em regiões pantanosas, e incomodados pelos mosquitos, costumavam dormir em torres altas; estes insectos não podiam subir tão acima, por isso se viam livres das suas picadas; assim deve ser como quando nos combatam os cuidados e o temor, temos de ir a Deus em busca de refúgio e descanso, confiados na Sua ajuda. John Trapp



Vers. 10. Em ti confiarão os que conhecem o teu nome; porque tu, SENHOR, nunca desamparaste os que te buscam. A fé é uma graça inteligente; ainda que possa haver conhecimento sem fé, não pode haver fé sem conhecimento. Dizem que a ignorância é a mãe da devoção; mas, com toda a segurança, quando se põe o Sol sobre o entendimento, tem de ser a noite nos afectos. Tão necessário é o conhecimento para a existência da fé, que as Escrituras às vezes chamam à fé pelo nome de conhecimento. Isaías 53:11: «Com o seu conhecimento, o meu servo, o justo, justificará a muitos.» O conhecimento é posto aqui em lugar da fé. Thomas Watson.



Não podem fazer outra coisa aqueles que através da salvação conhecem os doces atributos de Deus e os Seus nobres actos em favor do Seu povo. Nunca confiamos num homem até que o conhecemos bem, e aos homens maus é melhor que os conheçamos, que confiemos neles. Não é assim com respeito ao Senhor; porque ali onde o Seu nome é unguento derramado, as virgens amam-No, regozijam-se nEle e nEle repousam. John Trapp



Vers. 12. Pois quando inquire do derramamento de sangue, lembra-se deles: não se esquece do clamor dos aflitos. Oh perseguidores, vem o tempo em que Deus fará uma investigação estrita do sangue de Hooper, Bradford, Latimer, Taylor, Ridley, etc. Vem o tempo em que Deus vai inquirir quem fechou a boca de muitos dos Seus ministros, e quem os encarcerou, e quem confinou e desterrou outros que foram tochas ardentes e brilhantes, e que estavam dispostos a consumir-se para que os pecadores pudessem ser salvos e Cristo glorificado. Vem o tempo em que o Senhor fará uma estrita averiguação de todas as ações e práticas dos tribunais, conselhos, comités eclesiásticos, e tratará os perseguidores como eles trataram o Seu povo. Thomas Brooks.



Há a vox sanguinis, ‘a voz do sangue’; e «Aquele que fez o ouvido, não ouvirá?» Ele cobriu o mundo antigo com água. A terra estava cheia de crueldade; a vox sanguinis era a que clamava, e os céus ouviram a terra, e as janelas dos céus abriram-se e deixaram cair o Seu juízo e a Sua vingança sobre ela. Edward Marbury, 1649.



Não se esqueceu do clamor do humilde. A oração é um porto para o náufrago, uma âncora para os que se estão afundando nas ondas, um cajado para os membros daquele que cambaleia, uma mina de jóias para o pobre, um médico para as enfermidades e um guardião da saúde. A oração assegura-nos ao mesmo tempo a continuidade das nossas bênçãos e dissipa as nuvens das nossas calamidades. Oh bem-aventurada oração! Tu és o conquistador denodado dos males humanos, o fundamento firme da felicidade humana, a fonte de gozo perdurável, a mãe da filosofia. O homem que pode orar verdadeiramente, ainda que languidesça na indigência mais extrema, é mais rico do que todos os que o rodeiam, enquanto que o desgraçado que nunca dobrou o seu joelho, ainda que se sinta orgulhoso como o monarca de todas as nações, é o mais indigente dos homens. João Crisóstomo



Vers. 13. Tem misericórdia de mim, SENHOR. Assim como Lutero costumava chamar a alguns dos versículos pequenas Bíblias, também nós podemos chamar a esta oração um pequeno livro de oração, porque tem em si a alma e tutano da oração. C. H. S.



Vers. 14. Para que eu proclame todos os teus louvores. Não temos de olvidar o objecto de David ao desejar misericórdia; é a glória de Deus. Os santos não são tão egoístas para procurar só para si mesmos; desejam o diamante da misericórdia para que os demais possam ver como reluz e admirem Aquele que dá gemas muito preciosas aos Seus amados. C. H. S.



Vers. 15-17. Vai resultar num agravamento do tormento dos condenados o que fará com que as suas torturas sejam tão grandes e tão fortes como a sua compreensão e os seus afectos, o que fará com que aquelas paixões violentas sejam ainda activas. Se a sua perda não fosse tão grande e o seu sentimento acerca disso não fosse tão apaixonado, se pudessem perder o uso da sua memória, estas paixões morreriam, e esta perda, sendo esquecida, turvá-los-ia menos. Mas como não podem pôr de lado nem a sua vida nem o seu ser, já que eles considerariam a sua aniquilação uma misericórdia singular, tampouco podem pôr de um lado nenhuma parte do seu ser.



O entendimento, a consciência, os afetos, a memória, todos eles têm de viver para atormentá-los, enquanto que deveriam ter contribuído para a felicidade deles. E assim como com estas faculdades poderiam ter-se alimentado no amor de Deus e tirar perpetuamente os gozos da Sua presença, assim também por elas mesmas agora recebem a ira de Deus e tiram continuamente os dores da sua ausência.



Agora não dedicam tempo nem lugar nas suas memórias para considerar as coisas da outra vida. Ah, então terão tempo suficiente; achar-se-ão onde não terão nada mais para considerar: as suas lembranças não terão outra utilidade do que danificá-los; achar-se-ão gravados sobre as tábuas dos seus corações. Richard Baxter



Vers. 16. Na obra das suas mãos foi enredado o mau. A paga que o pecador procura com o seu pecado é vida, prazer e vantagens; mas a paga que lhe resulta do mesmo é tortura, morte e destruição. Aquele que queira entender a falsidade e o engano do pecado deve comparar as promessas e a paga também. Robert South, D.D., 1633-1716.



Não só lemos na Palavra de Deus, mas também toda a história e toda a experiência dão perseverança da mesma justiça reta de Deus ao enredar o malvado na obra das suas próprias mãos. Quiçá o exemplo mais notável que temos, ao lado do de Amam na sua própria forca, é o que se relaciona com os horrores da Revolução Francesa, no qual se nos diz que «ao cabo de nove meses da morte da rainha Maria Antonieta na guilhotina, cada um dos implicados no seu trágico fim - acusadores, juizes, o jurado, os fiscais, as testemunhas, todos aqueles cujo destino é conhecido, sem excepção alguma -, pereceram no mesmo instrumento que a sua vítima inocente». «Na rede que preparam para ela ficaram presos os seus próprios pés, na cova que cavaram para ela caíram eles mesmos.» Barton Bouchier, 1855.



Vers. 17. Os ímpios serão lançados no inferno. Os ímpios ao morrer têm de sofrer o furor e a indignação de Deus. Tenho lido de uma pedra íman que se acha na Etiópia que tem dois lados, um deles atrai o ferro a si, enquanto que o outro o afasta; do mesmo modo, Deus tem duas mãos, a de misericórdia e a de justiça; com uma atrai os piedosos ao Céu, com a outra vai lançar o pecador no Inferno; e, oh, que lugar tão terrível é este! É chamado o lago ardente (Apocalipse 20:15); um lago, para denotar os abundantes tormentos do Inferno; um lago ardente, para mostrar o ardor deles: fogo infernal é o elemento mais atormentador. Thomas Watson.



E todas as nações que se esquecem de Deus. Há nações inteiras que o fazem; os que se esquecem de Deus são mais numerosos do que os profanos ou os libertinos, e, segundo a mesma expressão gráfica do hebraico, o lugar mais fundo do Inferno será aquele no qual serão atirados todos de cabeça. O esquecer-se parece um pecado pequeno, mas conduz à ira eterna sobre o homem que vive e morre nele. C. H. S.



O recordar a Deus é o manancial da virtude; o esquecê-Lo, a fonte do vício. George Horne, D.D.



Vers. 18. A esperança do pobre não perecerá para sempre. Um pagão poderia dizer quando um pássaro, aterrorizado por um milhano, se esconde no seu peito: «Não vou atraiçoar-te ao teu inimigo, visto que buscaste asilo em mim.» Quanto menos poderia Deus entregar uma alma ao Seu inimigo que se refugiou no Seu nome, dizendo: «Senhor, não tenho confiança em mim mesmo nem em ninguém mais; nas Tuas mãos entrego a minha causa, e confio em Ti.» Esta dependência de uma alma indubitavelmente vai despertar o poder Todo-Poderoso de Deus para a defesa dela. Ele tem jurado com o maior juramento que pode sair dos Seus lábios, isto é, por Si mesmo, que aqueles que procuram refúgio nEle receberão grande consolação (Hebreus 6:17). William Gurnall.



Vers. 19. Levanta-te, SENHOR; não prevaleça o homem; sejam julgados os gentios diante da tua face. O que significa isto? Temos de considerar que o Salmista está orando para a destruição de seus inimigos, pronunciando uma maldição sobre eles? Não; estas não são as palavras de alguém que deseja que ocorra algo mau aos seus inimigos; são as palavras de um profeta, de alguém que está predizendo, em linguagem escritural, o mal que lhes vai acontecer por causa de seus pecados. Agostinho de Hipona.



Vers. 20. Aprendam as nações que não são senão homens. Alguém poderia imaginar que os homens não podem chegar a ser tão vãos que neguem que são realmente homens, mas parece que esta é uma lição que o divino Mestre pode ensinar a alguns espíritos orgulhosos. O que leva uma coroa não deixa de ser homem; os eminentes títulos universitários não fazem com que aqueles que os possuam sejam outra coisa “senão homens”; a valentia e as conquistas não elevam para cima do simples nível de “senão homens”; e toda a riqueza de Creso, a sabedoria de Solomão, o poder de Alexandre, a eloquência de Demóstenes, se os juntarmos todos, não vai o seu possuidor deixar de ser, depois de tudo, senão homem.



Recordemos sempre isto, para que não seja necessário que, como os que o versículo menciona, se tenha de infundir-nos temor. C. H. S.



O original é enosh; e, portanto, é uma oração para que a possam conhecer aqueles mesmos que não são senão homens desgraçados, frágeis, mortais. A palavra está no singular, mas é usada colectivamente. João Calvino.


Tradução de Carlos António da Rocha

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