… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

sexta-feira, 5 de maio de 2017

SALMO 12




C. H. Spurgeon

O Tesouro de David

SALMO 12
Este Salmo está encabeçado com o título “Salmo de David para o cantor-mor, sobre Sheminith”, título que é idêntico ao do Salmo seis, excepto que aqui se omite “em Neginoth”. O tema será mais claro se lhe chamamos “Bons pensamentos nos tempos maus”. Supõe-se que foi escrito quando Saul perseguia David e aos que favoreciam a causa dele.



Vers. 1. Salva-nos, Senhor. O Salmista vê o perigo extremo da sua posição, porque para um homem é melhor estar entre leões do que entre mentirosos; sente a sua própria incapacidade para tratar com estes filhos de Belial, porque “o que os toque deve estar rodeado de ferro”. Portanto, volta-se para o seu Ajudador, em tudo suficiente: o Senhor. A Sua ajuda nunca é negada aos Seus servos, e a Sua ajuda é bastante para todas as necessidades.



Assim como os navios pequenos podem navegar em portos em que outros maiores, por calarem mais profundamente, não podem entrar, assim também as nossas breves exclamações e curtas petições podem navegar para o Céu, quando a nossa alma é privada pelo vento, ou por outros assuntos, de exercícios de devoção mais prolongados, e quando a corrente da graça parece estar muito baixa para que nela flutue uma súplica mais elaborada. C. H. S.



Já era tempo de pedir ajuda ao Céu, quando Saul havia dito: “Virai-vos, e matai os sacerdotes do Senhor” (1Sm 22:17), supõe-se que é nesta a ocasião em que foi escrito este Salmo, e por isso cometeu o pecado contra o Espírito Santo, na opinião de alguns teólogos solenes. John Trapp



Porque faltam os homens benignos. A morte, a partida ou o declínio dos homens piedosos deveria ser uma poderosa buzinadela que nos chame mais à oração.



Porque são poucos os fiéis entre os filhos dos homens. Quando se vê a piedade, inevitavelmente, se vê em seguida a lealdade; sem o temor de Deus, os homens não amam a verdade. David, no meio da desordem geral, não armou conluios e sedições, mas apresentou petições solenes; nem se juntou à multidão para obrar mal, mas lançou mão das armas da oração para resistir aos ataques daqueles contra a virtude. C. H. S.



Encontra-te o teu amigo ou vizinho, fiel, com respeito a ele? Do que dá testemunho o nosso viver diário? Não é às custas da verdade, com frequência, o que dizemos com vontade de sermos agradáveis? Charles Bridges, 1850.



Vers. 2. Cada um fala com falsidade ao seu próximo. Os cumprimentos e bajulações são odiosas para as pessoas sinceras; estas sabem que se as aceitam devem devolvê-las, e desprezam uma e outra coisa.



Falam com lábios lisonjeiros e coração dobrado. Aquele que incha o coração de outro não tem nada mais que vento no seu próprio. C. H. S.



Não há uma coisa mais apropriada para fazer dela uma capa que a religião; não há nada tão na moda, nada tão proveitoso; é uma libré com a qual o prudente pode servir a dois senhores, a Deus e ao mundo, e ganhar no serviço de ambos. Eu sirvo aos dois, e com isso a mim mesmo, prevaricando aos dois. Perante o homem, não há ninguém que sirva ao seu Deus com uma devoção mais severa; pelo que, entre os melhores dos homens, procuro e alcanço os meus objectivos, e me sirvo a mim mesmo. Em privado, sirvo ao mundo; não com uma devoção tão estrita, mas com mais deleite; quando cumpro os desejos dos seus servos, procuro os meus próprios objetivos e me sirvo a mim mesmo.



A casa da oração, quem a frequenta mais que eu? Em todos os deveres cristãos, quem se acha mais à vista do que eu? Jejuo com os que jejuam e como com os que comem. Ponho luto com os que o observam. Não há mão mais aberta à causa que a minha, e nas nossas famílias não há ninguém que ore mais tempo e mais alto. Assim, quando a opinião de uma vida santa tem proclamado a bondade da minha consciência, a minha tenda é frequentada pelos paroquianos, a minha mercadoria tem bom preço, as minhas palavras merecem crédito, as minhas ações não carecem de louvor.



Sou avaro, mas interpreta-se que sou providente; sou ruim e mesquinho, isto é, temperado; melancólico, interpretam-me como piedoso; se amo o folguedo, entende-se que é gozo espiritual; se sou rico, são as bênçãos de uma vida piedosa; se sou pobre, supõe-se que é o fruto de uma consciência estreita na convivência; se se falar bem de mim, mereço-o pela minha santa conduta; se mal, é malícia de invejosos.



Assim navego com todos os ventos, e consigo os meus fins em todas condições. Esta capa no Verão mantém-me fresco, quente no Inverno, e esconde o costado de todos os meus secretos desejos carnais. Debaixo desta capa ando em público no meio do aplauso geral, e em privado peco sem temer a ofensa; atuo astutamente sem que se me descubra. Procuro céu e terra para fazer um partidário; e uma vez sigo-o eu a ele, outra vez me segue ele a mim. No jejum proclamo Genebra; numa festa, Roma.



Se sou pobre, faço ver que tenho abundância, para salvaguardar o meu crédito; se sou rico, dissimulo-o, e apresento pobreza para que não me lancem cargas. As opiniões mais cismáticas são as que acho mais proveitosas, pois delas aprendo a divulgar e a manter novas doutrinas; elas sustentam-me com a ceia três dias por semana. Faço uso de alguma mentira, às vezes, como um novo estratagema para defender o evangelho; e execro a opressão com os juízos de Deus executados sobre os maus. A caridade tenho-a por um dever extraordinário; portanto, não a executo de ordinário. O que reprovo na frente do público, para meu próprio proveito, faço-o secretamente em casa, para meu próprio prazer. Mas, alto, vejo um escrito no meu coração que faz desfalecer a minha alma. As palavras do mesmo são: “Ai de vós, hipócritas!” (Mt 23:13). Francis Quarles (1592-1644) "Hypocrite's Soliloquy."



O mundo diz, verdadeiramente, que a sociedade não poderia existir se houvesse uma veracidade e uma sinceridade perfeitas entre homem e homem; mas, que quadro apresenta o edifício social, quando as suas paredes parecem ter por argamassa só bajulações e a falsidade! Barton Bouchier



O filósofo Bion, quando se lhe perguntou que animal considerava como o mais daninho, respondeu: “De todas as criaturas selvagens, o tirano; das domesticadas, o adulador.” The Book of Symbols, 1844.



Falam com lábios lisonjeiros, e com coração dobrado. O original diz: “um coração e um coração”; um para a igreja, outro para o resto; um para os domingos, outro para os dias da semana; um para o rei, outro para o papa. Um homem sem coração é uma maravilha, mas um homem com dois corações é um monstro. Diz-se de Judas “Havia muitos corações num homem”; e lemos dos cantos: “E era um o coração e a alma da multidão dos que criam” (At 4:32). Dabo illis cor unum; uma bênção especial! Thomas Adams



Quando um homem cessa de ser fiel ao seu Deus, aquele que espera que ele seja fiel aos outros ficará decepcionado. George Horne



Vers. 3. O Senhor cortará todos os lábios lisonjeiros e a língua que fala soberbamente. É estranho que o jugo fácil do Senhor seja tão duro para os ombros do orgulhoso, enquanto que as cadeias de Satanás que os atam lhes pareçam de ouro.



Imagina-se geralmente que os aduladores são parasitas desprezíveis, que se arrastam e lambem, e que não podem ser orgulhosos; mas o sábio dir-te-á que se bem que todo o orgulho seja verdadeiramente mesquinho, há muito orgulho na mesquinhez extrema. O cavalo do César está mais orgulhoso de levar César do que este de cavalgar nele. Nada é tão detestável e tão dominador como as criaturas ruins que trepam nos cargos de importância e que rastejam em funções pelo servilismo aos grandes; são tempos maus, verdadeiramente, aqueles em que estes seres obnóxios são numerosos e poderosos. C. H. S.



Vers. 4. Com a nossa língua prevaleceremos. Desde o tempo de Tertuliano até ao de Juliano, o Apóstata, toda a espécie de oratória, de conhecimentos e de engenho foram usados prodigamente contra a Igreja de Deus. Michael Ayguan, in J. M. Neale's Commentary.



Os beiços são nossos: quem é o Senhor sobre nós? Se temos de ver com Deus, temos de deixar de dizer que somos nossos e temos de considerar Deus como nosso amo. John Howe



Vers. 5. Por causa da opressão dos pobres. A pobreza, a necessidade e a miséria devem ser motivos para a compaixão; mas os opressores fazem delas as pedras de amolar da sua crueldade e severidade, e portanto o Senhor defende a causa dos Seus pobres e oprimidos, contra os seus opressores, sem honorários e sem temor; sim, Ele defenderá a causa dos Seus com pestilência, sangue e fogo. Thomas Brooks



Vers. 6. As palavras do Senhor são palavras puras, como prata refinada em forno de barro, purificada sete vezes. As palavras do homem são sim e não, mas as promessas do Senhor são sim e ámen. No original há uma alusão ao processo purificador mais estrito conhecido pelos antigos, por meio do qual a prata passava ao grau de pureza máximo desejado; a escória era consumida totalmente, e só ficava o metal precioso e reluzente; assim, limpo e livre de toda a liga (de metais) de erro ou infidelidade é o livro das Palavras do Senhor. A Bíblia passou por meio do forno da perseguição, do criticismo literário, da dúvida filosófica, dos descobrimentos científicos, e não perdeu nada senão as interpretações humanas que se aderem a ela como liga (de metais) ao precioso mineral. C. H. S.



Os que purificavam a prata, para consegui-lo introduziam-na no fogo uma e outra vez, até que ficava totalmente provada. A doutrina da graça gratuita de Deus foi posta à prova uma e outra vez e mil vezes. Pelágico começa e mescla com ela a sua escória: diz que a graça não é nada mais que a natureza do homem. Bem, a sua doutrina foi purificada, e uma grande parte da escória foi eliminada.



Logo vêm os semipelagianos, que dizem que a natureza não pode fazer nada sem a graça, mas faz com que a natureza concorra com a graça, e tenha a sua influência, talvez mesmo igual à graça; e esta escória também foi queimada. Os papistas empreendem a mesma questão, e não serão nem pelagianos nem semipelagianos, mas seguem mesclando ainda escória.



Vêm os arminianos e refinam o papismo sobre este ponto uma vez mais; contudo, ainda continuam mesclando escória. Deus faz com que a Sua verdade seja provada sete vezes no fogo, até que pode apresentar-se pura, como deve ser. E digo isto porque esta verdade é muito preciosa. Thomas Goodwin



A Escritura é o sol; a igreja é o relógio. O sol sabemos que é seguro, e regular de modo constante nos seus movimentos; o relógio pode adiantar-se ou atrasar-se. Por isso, temos de condenar como louco aquele que professa confiar mais no relógio do que no sol, e também não podemos deixar de lamentar a credulidade dos que preferem confiar na igreja a confiar na Escritura. Bispo Hall



Lorsque Voltaire lit un livre, il le fait, puis il ècrit contre ce qu'il a fait - "Quando Voltaire lê um livro, ele faz o que ele quer, e, em seguida, escreve contra o que ele fez", diz Montesquieu de Voltaire. Mas se olharmos para ela (A Bíblia) honestamente como ela é, vamos descobrir o Seu Autor tal como Ele é, sem defeito e sem mancha. Gardiner Spring



Toda a Palavra de Deus é pura; escudo é para os que confiam nEle.” (Pv 30:5) Assim como o ouro não sofre perda quando é submetido ao fogo, tampouco as promessas sofrem perda quando são postas à prova, mas continuam válidas até nas nossas maiores tribulações. Thomas Manton.



Vers. 8. Os ímpios circulam por toda a parte, quando os mais vis dos filhos dos homens são exaltados. Assim como o sol quente traz moscas nocivas, o próprio pecador posto em honra estimula o vício por toda parte. C. H. S.



Tradução de Carlos António da Rocha

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Esta tradução é de livre utilização, desde que a sua ortografia seja respeitada na íntegra porque já está traduzida no Português do Novo Acordo Ortográfico e que não seja nunca publicada nem utilizada para fins comerciais; seja utilizada exclusivamente para uso e desfruto pessoal.

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