… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

domingo, 7 de maio de 2017

SALMO 14

C. H. Spurgeon
 O Tesouro de David
 SALMO 14


Como este Salmo não tem nenhum título específico, sugerimos, como um apoio para a memória, que se lhe chame “Com referência ao ateísmo prático”. C. H. S.

Há uma marca peculiar posta sobre este Salmo, no facto de que se acha duas vezes no livro dos Salmos. O Salmo catorze e o Salmo cinquenta e três são iguais, com a alteração de uma ou duas expressões, no máximo. John Owen

Vers. 1. O néscio. O ateu é o néscio de modo preeminente e um néscio de modo universal, em todos os aspetos. Não negaria a Deus se não fosse um néscio por natureza, e tendo negado a Deus, não é de estranhar que se converta num néscio na prática. O pecado é sempre uma loucura; mas é o cúmulo do pecado, e a suma loucura imaginável, o atacar a própria existência do Altíssimo. Um néscio fá-lo centenas de vezes, e como um blasfemo loquaz esparze as suas horríveis doutrinas assim como um leproso esparze a praga.

Ainsworth, nas suas "Annotations", diz-nos que a palavra usada aqui é “Nabal, que tem o significado de desmaiar, morrer, decair, como a folha ou a flor murcha; é um título que se dá ao néscio no sentido de que perdeu o sumo e a seiva da sabedoria, a razão, a sinceridade e a piedade. Trapp acerta quando chama a “um indivíduo sem seiva, o esqueleto de um homem, um sepulcro ambulante de si mesmo, em quem toda a religião e a reta razão se tem murchado, secado e decaído”. Alguns traduzem-no como “apóstata”, e outros como “desgraçado”. Com que sinceridade deveríamos evitar a aparição da dúvida quanto à presença, à atividade, ao poder e ao amor de Deus, porque esta desconfiança é da natureza da loucura, e quem há entre nós que queira ser equiparado ao néscio do versículo? Contudo, não esqueçamos que todos os homens que não foram regenerados são mais ou menos este tipo de néscios. C. H. S.



O néscio”, um termo da Escritura que significa um malvado, é usado também pelos filósofos pagãos para significar uma pessoa viciosa, má. Significa também a extinção da vida no homem, nos animais e nas plantas; assim se usa a palavra em Is 40:7 “caem as flores”, Seca-se a erva, e caem as flores, soprando nelas o hálito do Senhor. Na verdade o povo é erva; e em Is 28:1, Ai da coroa de soberba dos bêbedos de Efraim, cujo glorioso ornamento é como a flor que cai, que está sobre a cabeça do fértil vale dos vencidos do vinho, uma flor que perdeu toda a seiva que a faz preciosa e útil. Assim, um néscio é o que perdeu a sua sabedoria e as suas noções rectas de Deus e das coisas divinas que foram comunicadas ao homem na ocasião da criação; um morto em pecado, se bem que seja alguém que não está tão desprovido de faculdades racionais como da graça destas faculdades; alguém que possui razão, mas que abusa da sua razão. Stephen Charnock



Disse o néscio em seu coração: Não há Deus. Que terrível é a corrupção que faz com que toda a raça adopte como desejo do seu coração este “Não há Deus! C. H. S.

Os demónios crêem e reconhecem quatro artigos de nossa fé (Mt 8:29) E eis que clamaram, dizendo: Que temos nós contigo, Jesus, Filho de Deus? Vieste aqui atormentar-nos, antes do tempo?: 1) Reconhecem a Deus; 2) reconhecem a Cristo; 3) O dia do juízo; 4) Que serão atormentados ali; de modo que o que não acredita que há Deus é mais vil que o diabo. O negar que haja Deus é uma classe de ateísmo que não se acha no inferno.



Na terra há muitos ateus.

No inferno, nenhum.
Thomas Brooks (1608–1680)



Seria preferível que um homem acreditasse que ele mesmo não existe, e que ele não é um ser, a que não creia que há Deus; porque ele pode deixar de ser, e houve um tempo em que não era, e será cambiado do que é, e em muitos períodos da sua vida não sabe o que é; e isto ocorre cada noite enquanto dorme; mas nenhuma destas coisas podem ocorrer a Deus; e se este homem não o sabe, é um néscio.



Na aflição, o ateu tem de ser a mais desgraçada e solitária de todas as criaturas. Há uns trinta anos estava eu num navio com uma destas criaturas venenosas, quando se levantou uma terrível borrasca. Ele foi o que se assustou mais. Com o navio dando tombos, caiu de joelhos perante o capelão e confessou que tinha sido um ateu ruim e que tinha negado ao Ser supremo desde que tinha o uso de razão.



O bom homem ficou aniquilado, e correu logo a voz de que no navio havia um ateu, na coberta superior. Vários dos marinheiros comuns, que nunca antes tinham ouvido a palavra, pensaram que se tratava de algum peixe estranho; mas ficaram ainda mais surpreendidos quando viram que era um homem e ouviram da sua própria boca “que nunca tinha acreditado até aquele dia que houvesse Deus”.



Enquanto se achava prostrado nas agonias da confissão, um dos simples marinheiros sussurrou ao contramestre “se não fariam bem lançado-o pela amurada”. Mas já estávamos à vista do porto, quando de repente o vento amainou e o penitente, relapso, pediu a todos os que tinham estado presentes que eram cavalheiros, que não dissessem nada a ninguém do que se tinha passado.



Ao cabo de um par de dias de ter desembarcado, um dos da companha começou a gozá-lo pela sua devoção quando estava a bordo, se bem que ele o negasse com tanto insistência que se fazia evidente que um dos dois estava mentindo. A coisa terminou num duelo. O ateu foi ferido e começou a emanar sangue em abundância, com o que voltou a ser um bom cristão como quando estava no mar, até que se tornou evidente que a ferida não era mortal. Actualmente, é inclusive famoso, e escreve folhetos contra as opiniões dos que aceitam a existência das fadas. Joseph Addison (1671 - 1719), in "The Tattler".



“A coruja do ateísmo,

Voando com sigilosas asas pela Lua,

Deixa cair as suas mortiças pálpebras,

Fecha-as bem, e ulula:

Onde se acha este glorioso sol de que vos jactais?”

 Samuel Taylor Coleridge, 1772-1834.



Assim, o versículo apresenta-nos estes três pontos: Quem é ele?: Um néscio. O que diz?: Não há Deus. Agora acrescenta: No seu coração. Não é o néscio natural, mas um ser moral, este néscio do qual fala David, a pessoa malvada, carente de graça, pois este é o sentido do termo original. O que tem feito este néscio? Sem dúvida nada; só há dito. O que é o que há dito? Nada tampouco; só tem pensado; porque dizer no coração é só pensar. Richard Clerke, D.D.,—1634 (um dos tradutores da Bíblia inglesa).



Não há ninguém que faça o bem, noutra versão, Não há quem faça o bem. Excepto ali onde reina a graça, não há quem faça o bem; não há bem algum; a humanidade, caída e degradada, é um deserto sem um oásis, uma noite sem uma estrela, um esterqueiro sem uma jóia, um inferno sem fundo. C. H. S.



Vers. 3. E juntamente se fizeram imundos. A única razão pela qual não vemos mais claramente esta corrupção é porque estamos acostumados a ela, tal como o que trabalha diariamente num ambiente pestilento deixa de notar o fedor no meio do qual se encontra. C. H. S.



Já nada resta, nada, para os dias futuros,

Que se possa acrescentar à lista de crimes;

Os filhos, resignados, devem sentir desejos

Que não podem ser piores que os de seus pais.

O vício alcançou o seu zénite.

 Juvenal. Sátira 1



O versíclo di-lo positivamente. Repete-o negativamente: não quem faça o bem, não sequer um. O Espírito Santo não está contente dizendo todos e juntamente, mas acrescenta estas negativas: “não”, “não quem”, “não sequer um”.



Vers. 4. Que comem o meu povo, como se comessem pão. Como as carpas numa lagoa comem os peixes mais pequenos, e as águias fazem presa de outros pássaros, e os lobos esquartejam as ovelhas do prado, exatamente assim, os pecadores, de modo natural, e seguindo o seu curso, perseguem, caluniam e se mofam dos seguidores do Senhor Jesus. C. H. S.



Os malvados correm o risco de condenar as suas próprias almas contanto que possam usar a adaga sobre os que são a menina dos olhos de Deus. Lewis Stuckley.



Quando achares uma serpente sem presas ou um leopardo sem manchas, podes esperar achar um mundo malvado sem ódio aos santos. Se o mundo aborreceu a Cristo, não é de estranhar que nos aborreça a nós. “Se o mundo vos aborrece, sabei que, primeiro do que a vós, Me aborreceu a Mim” (Jo 15:18). Por que há-de alguém aborrecer a Cristo? Esta pomba bem-aventurada carecia de fel; esta rosa de Saron exalava suave perfume; mas isto mostra a baixeza do mundo, que é um mundo que odeia a Cristo e destroça os santos. Thomas Watson



Vers. 6. Vós envergonhais o conselho dos pobres, porquanto o Senhor é o seu refúgio. Isto ilustra docemente o cuidado que Deus tem dos Seus pobres, não meramente dos pobres de espírito, mas literalmente, os pobres e humildes, os oprimidos e os ultrajados É este caráter de Deus que se acha delineado de modo conspícuo na Sua Palavra. Podemos ir aos Veda dos hindus, ao Corão dos maometanos, considerar a legislação dos gregos, o código dos romanos, e até ao Talmude dos judeus, o mais amargo de todos; mas em nenhuma linha ou em nenhuma página acharemos rasto de ternura, de compaixão, de simpatia pelas injustiças, pelas opressões, pelas aflições e pelas tribulações dos pobres, por parte de Deus, como se mostra de maneira constante em quase cada página da Bíblia cristã. Barton Bouchier.



O sábio confia na sua sabedoria, o forte na sua fortaleza, o rico nas suas riquezas; mas, para eles, o confiar em Deus é a maior necedade do mundo. John Owen



Vers. 7. Oh, se de Sião tivera já vindo a redenção de Israel! Quando o SENHOR fizer voltar os cativos do seu povo, se regozijará Jacob se alegrará Israel. É natural esta conclusão para a prece, porque o que poderia convencer de modo mais efetivo os ateus, derrubar os perseguidores, deter o pecado, assegurar a piedade senão a aparição manifesta da grande salvação de Israel? A vinda do Messias foi o desejo dos fiéis em todas as idades, e embora Ele já tenha vindo como oferenda pelo pecado para expiar a nossa iniquidade, esperamos que venha pela segunda vez, sem oferenda para o pecado, para salvação. C. H. S.


A aflição é como se disséssemos o molho da oração, como a fome o é para o pecado. Verdadeiramente a oração é, em geral, insossa para o que não está aflito, e muitos deles não oram verdadeiramente, mas antes falsificam a oração numa oração de rotina, ou rezam por costume. Wolfgang Musculus, 1497-1563.


A catividade é a de nossas almas a lei da concupiscência, dos nossos corpos a lei da morte; a catividade dos nossos sentidos ao temor; catividade, a conclusão da qual está expressa com tanta formosura por um dos nossos maiores poetas, ou seja, Giles Fletcher (1588-1623), in his "Christ’s Triumph over Death." (no seu “Triunfo de Cristo sobre a morte”):




Agora não penduras pena alguma na sua fronte;
Nem palidez de enfermidade há no seu rosto;
A idade não põe fios de prata no seu cabelo;
Nem nudez, nem pobreza danificam o corpo;
Nem o temor da morte anula o gozo da vida;

Não há pesadelos vãos que causem desgosto;

Não há perda, nem dor, nem mudança, nem espera

Que altere agora o suave deslizar-se das suas horas.


 John Mason Neale, in loc.


Tradução de Carlos António da Rocha

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Esta tradução é de livre utilização, desde que a sua ortografia seja respeitada na íntegra porque já está traduzida no Português do Novo Acordo Ortográfico e que não seja nunca publicada nem utilizada para fins comerciais; seja utilizada exclusivamente para uso e desfruto pessoal.

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