… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

terça-feira, 9 de maio de 2017

SALMO 16

C. H. Spurgeon
 O Tesouro de David
 SALMO 16
Titulo: Mictam de David. Isto é entendido geralmente como significando o Salmo de ouro. Ainsworth chama-lhe “Jóia de David ou cântico notável”, o Salmo do segredo precioso.



Não nos vemos limitados a intérpretes humanos para achar a chave deste mistério de ouro, porque falando pelo Espírito Santo, Pedro diz-nos: “Porque dele disse David” (At 2:25). O apóstolo Paulo, guiado pela mesma inspiração infalível, cita este Salmo e testifica que David escreveu do Homem através do qual nos é pregado o perdão dos pecados (At 13:35-38). O plano dos comentadores tem sido, geralmente, o de aplicar o Salmo a David, aos santos e ao Senhor Jesus, mas atrevemo-nos a crer que nele “Cristo é tudo”, posto que nos nono e décimo versículos podemos ver “a Jesus sozinho”, como os apóstolos no monte. C. H. S.



Vers. 1. Guarda-me, preserva-me, como um corpo de guardas que rodeiam o seu monarca, ou como os pastores protegem os seus rebanhos. Um dos grandes nomes de Deus é o de “Guarda dos homens” (Jb 7:20), e este ofício da graça do Pai é exercido para connosco pelo nosso Mediador e Representante. Tinha sido prometido ao Senhor Jesus nestas palavras expressas que Ele seria preservado (Isaías 49:7, 8). C. H. S.



Vers. 2. A minha alma disse ao SENHOR: Tu és o meu Senhor. No mais íntimo do Seu coração, o próprio Senhor Jesus inclinou-Se para render o serviço ao Seu Pai celestial, e perante o trono de Jeová a Sua alma ofereceu lealdade ao Senhor a nosso favor. C. H. S.



Não tenho outro bem além de ti. Uma antiga versão diz: A minha bondade não chega à tua presença. Ainda que a obra da vida e a agonia da morte do Filho reflectiram resplendor sobre cada um dos atributos de Deus, contudo, o Deus infinitamente bem-aventurado não tinha necessidade da obediência e morte de Seu Filho; foi por nossa causa que a obra de redenção foi empreendida, e não por falta ou necessidade no Altíssimo. Com que modéstia estima Ele aqui a Sua própria bondade!



Creio que as palavras deveriam entender-se em relação ao que o Messias fazia pelos homens. A minha bondade, tobhathi (Heb.), “o meu bem”, não acrescenta nada à Sua Divindade; Tu não provês este sacrifício assombroso para dele originar excelência; mas esta bondade estende-se aos santos –a todos os espíritos dos justos feitos perfeitos, cujos corpos estão ainda na Terra–; e aos excelentes, addirey (Heb.), “os nobres ou super eminentes”, os que pela fé e paciência herdam as promessas. Adam Clarke



Oh!, o que posso eu entregar-Te a Ti, meu Deus, por todos os Teus benefícios para comigo? Como Te pagarei? Ai!, não posso fazer bem algum porque a minha bondade imperfeita não Te pode comprazer, pois és perfeito e bom essencialmente; o bem que faça não posso acrescentá-lo ao Teu bem; a minha maldade não pode prejudicar-Te. Eu recebo todo o bem de Ti, mas não posso devolver-Te nenhum; por isso reconheço-Te como muito rico, e eu como muito pobre; Tu estás muito longe de ter necessidade de mim. A Godly Exposition of the Sixteenth Psalm: in Richard Greenham’s “Works:” pp. 316-331. Folio: 1612.



Vers. 2, 3. A minha alma disse ao Senhor: Tu és o meu Senhor; não tenho outro bem além de ti. Digo aos santos que estão na terra, e aos ilustres em quem está todo o meu prazer. A minha bondade estende-se não a Ti, mas aos santos que estão na terra. Alguns filhos não herdam nada dos seus pais terrestres, como o filho do Cícero, que não se parecia em nada a seu pai, excepto no nome; mas os filhos de Deus participam todos da natureza do seu Pai celestial. William Gurnall



Vers. 3. Digo aos santos que estão na terra, e aos ilustres em quem está todo o meu prazer. Estes santificados, ainda que estejam ainda sobre a Terra, participam dos resultados da obra mediadora, e por Sua bondade são feitos o que são. O povo peculiar, zeloso para as boas obras, e santificado para o serviço sagrado, está revestido da justiça do Salvador e foi lavado no Seu sangue, e por isso recebe da bondade entesourada dEle; estas são as pessoas que beneficiam da obra do Homem Jesus Cristo; mas esta obra não acrescenta nada à natureza, atributos ou felicidade de Deus, que é bem-aventurado para todo o sempre.



Os crentes pobres são recetores de Deus e têm a garantia da coroa para receber o produto da nossa oferenda no nome do Rei. Os santos que partiram, nós não os podemos abençoar; até mesmo a oração em favor deles não tem valor algum; mas, enquanto estão aqui, temos de provar de modo prático o nosso amor por eles, como fez o nosso Mestre, porque eles são os bons e os óptimos da Terra. C. H. S.



Sabemos que o Novo Testamento brilha mais que o Antigo, tal como o Sol brilha mais que a Lua. Se, pois, vivemos numa dispensação mais gloriosa, devemos observar uma conduta mais gloriosa... mais excelente. Se o Sol não desse mais luz do que uma das estrelas, não poderíamos crer que fosse o regente do dia; se não transmitisse mais luz que um vaga-lume, porias em dúvida que fosse a fonte do calor elementar. Se Deus não fizesse mais que a criatura, onde se acharia a sua Divindade? Se o homem não fizesse mais que o bruto, onde se acharia a sua condição humana? Se um santo não fosse superior ao pecador, onde se acharia a sua santidade? William Secker



Ingo, um antigo rei dos dravos, numa festa oficial relegou os seus nobres, que naquele tempo eram pagãos, para que se sentassem numa sala inferior, e mandou que certos pobres cristãos fossem trazidos ao salão nobre, para que se sentassem à sua mesa, comessem e bebessem e se alegrassem com ele, por isso muitos se assombraram, e ele disse que considerava os cristãos, ainda que pobres, como o maior ornamento da sua mesa, e uma companhia mais digna que a dos maiores nobres não convertidos à fé cristã; porque estes é possível que fossem lançados ao Inferno, enquanto que os pobres cristãos seriam o seu consolo e seus companheiros, príncipes no Céu. Ainda que vejamos as estrelas algumas vezes refletidas num atoleiro, no fundo de um poço ou numa charca hedionda, contudo, as estrelas estão situadas no Céu. Igualmente, ainda que vejamos a um homem piedoso em condição pobre, miserável, baixa, desprezada, considerando as coisas deste mundo, entretanto está fixo no Céu, na região do Céu. “O qual nos abençoou” –diz o apóstolo– “com todas as bênçãos espirituais, nos lugares celestiais, em Cristo.Charles Bradbury’s “Cabinet of Jewels,” 1785.



Vers. 4. As dores se multiplicarão àqueles que fazem oferendas a outro deus. Os crentes de mera profissão com frequência são lentos em servir ao verdadeiro Senhor, mas os pecadores servem diligentes a outros deuses. Correm como loucos, enquanto que nós nos arrastamos como caracóis. Que o seu zelo seja uma censura para a nossa tardança. Contudo, quanto mais correm, pior, porque as suas aflições serão multiplicadas pela sua diligência em multiplicar os seus pecados. Matthew Henry disse: “Aquele que multiplica os deuses multiplica as suas próprias aflições; porque o que crê que um Deus é muito pouco, achará que dois são muitos, e, contudo, centos deles não lhe bastarão.”



As crueldades e dificuldades que sofrem os homens por causa dos falsos deuses são assombrosas; os nossos missionários informam-nos com abundância sobre este ponto; mas, quiçá, a nossa própria experiência é igualmente vívida no que nos diz respeito; porque, quando temos dado o nosso coração aos ídolos, mais tarde ou mais cedo, havemos de ter de sofrer por isso.



Moisés esmiuçou o bezerro de ouro, e moeu-o em pó e o lançou na água da qual bebia Israel, e da mesma maneira os nossos ídolos queridos passarão a ser porções amargas para nós, a menos que os abandonemos.



Não há comunhão possível entre o pecado e o Salvador. Ele veio para destruir as obras do diabo, não para se aliar com elas ou para as favorecer. Daí que recusasse o testemunho dos espíritos impuros quanto à Sua divindade, porque não queria ter contacto algum com as trevas. Deveríamos ter extremo cuidado em não nos relacionar no menor grau com a falsidade na religião.



Eu não oferecerei as suas libações de sangue. O velho provérbio diz: “Não é seguro comer na mesa do diabo, por larga que seja a colher.”

O mero mencionar as palavras sáfias é algo que temos de evitar: nem tomarei os seus nomes nos meus lábios. Se permitirmos que o veneno fique em contacto com os lábios, é possível que antes de pouco penetre no interior, e é bom manter fora da boca o que não queremos que entre no coração. Se a igreja quer gozar da sua união com Cristo, deve romper todos os laços de impiedade e manter-se pura de todas as contaminações do culto da vontade carnal, que agora polui o serviço de Deus. C. H. S.



Um pecado que se esconde sob a língua torna-se brando e móvel, e a garganta é tão curta e o seu passo tão escorregadio que insensivelmente pode deslizar-se da boca ao estômago; e a desenvoltura na consideração rapidamente se transforma em impureza prática. Thomas Fuller



Vers. 5. O Senhor é a porção da minha herança e do meu cálix. Com que confiança e gozo Se volta Jesus para Jeová, o qual possui a Sua alma e em quem Se deleita! Contente sem medida com a Sua porção no Senhor Seu Deus, não tem o menor desejo de ir em busca de outros deuses.



Vers. 6. As linhas caem-me em lugares deliciosos: sim, coube-me uma formosa herança. Jesus achou que o caminho da obediência guia a lugares deleitosos. Apesar de todas as aflições que marcam o Seu rosto, exclama: “Eis aqui vim; no rolo do livro está escrito de mim, e me deleito em fazer a tua vontade, meu Deus; sim, a tua lei está no meu coração. Pode parecer estranho, mas ainda que nenhum outro homem chegou a conhecer a aflição tão a fundo, cremos que nenhum outro homem experimentou jamais tanto gozo e deleite no serviço, porque nenhum serve tão fielmente e com tais resultados à vista da Sua recompensa.



Todos os santos podem usar a linguagem deste versículo, e quanto mais completamente possam entrar no seu espírito de contentamento, de agradecimento e de gozo, melhor para eles e mais glória para o seu Deus. Os espíritos descontentes não são como Jesus, mas muito dissimilares a Ele como o rouco corvo, da pomba arrulhadora. Os mártires eram felizes nos seus calabouços.



Mr. Greenham ousou dizer: “Nunca hão sentido o amor de Deus ou provado o perdão dos seus pecados os que estão descontentes.” Alguns teólogos crêem que o descontentamento foi o primeiro dos pecados, a rocha que deitou a perder a nossa raça no paraíso; certamente, não há paraíso onde este espírito mau tem poder. A sua baba envenenará todas as flores do jardim. C. H. S.



As ervas amargas podem tragar-se bem quando o homem dispõe destas “viandas deliciosas que o mundo não conhece”. O sentimento do amor do nosso Pai é como o mel no final da vara; faz tonar a pedra em pão, a água em vinho e o vale de tribulação numa porta de esperança; faz que os maiores males pareçam que não o são ou que são melhores do que são a verdade; porque faz com que os nossos desertos se tornem jardins do Senhor, e quando estamos sobre a cruz, por Cristo, é como se estivéssemos no paraíso com Cristo. Timothy Cruso



Vers. 7. Até os meus rins me ensinam de noite. Os grandes generais pelejam as suas batalhas na sua mente muito antes de que soe a corneta, e o mesmo fez de joelhos o nosso Senhor para ganhar a nossa batalha antes de ganhá-la na Cruz. Aquele que aprende de Deus procura a semente, logo achará a sabedoria dentro de si, que cresce no horto da sua alma: “Os teus ouvidos ouvirão uma voz por trás de ti que dirá: Este é o caminho, anda por ele, e dir-te-ei quando tens de voltar para a direita ou para a esquerda.” A noite é a hora em que o pecador escolhe para os seus pecados; e é a hora quieta quando os crentes escutam as vozes sossegadas do Céu e da vida celestial dentro deles.



Vers. 8-11. Tenho posto o Senhor continuamente diante de mim: por isso, que ele está à minha mão direita, nunca vacilarei. Portanto, está alegre o meu coração e se regozija a minha glória: também a minha carne repousará segura. Pois não deixarás a minha alma no inferno, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção. Far-me-ás ver a vereda da vida; na tua presença há abundância de alegrias; à tua mão direita há delícias perpetuamente. O temor da morte durante um tempo projetou a sua sombra escura sobre a alma do Redentor, mas apareceu-Lhe um anjo confortando-O; então a esperança brilhou plenamente sobre a alma do Senhor e, como nos dizem estes versículos, contemplou o futuro com a santa confiança porque tinha estado com os olhos fixos em Jeová e gozado a Sua presença perpétua. Sentiu que, sustentado assim, nunca podia ser afastado do grande plano da Sua vida; nem O foi, porque não Se deteve nunca a Sua mão até que pôde dizer: “Está consumado.” Que misericórdia tão infinita foi a Sua para connosco!



O reconhecer a presença do Senhor é o dever de todo crente: “Tenho posto o SENHOR continuamente diante de mim.” E o confiar no Senhor como o nosso campeão e guarda é o privilégio de todo o santo: “Por isso que ele está à minha dextra, nunca vacilarei.” C. H. S.



Vers. 8. Tenho posto o Senhor continuamente diante de mim: por isso, que ele está à minha mão direita, nunca vacilarei. Um cristão fiel, tanto abunda na riqueza, ou igualmente, como se o tortura a pobreza, tanto se a sua posição no mundo é elevada como se é humilde, deve ter continuamente a sua fé e esperança edificadas e apoiadas com firmeza, em Cristo, e ter o seu coração e a sua mente fixos e estabelecidos nEle, e seguir pelas boas e pelas más, pelo fogo e pela água, em guerra e paz, em fome e em frio, entre amigos e inimigos, através de mil perigos e riscos, ante as investidas da inveja, da malícia, do ódio, das calúnias, das ameaças, dos insultos, do desprezo do mundo, da carne e do diabo, e até na própria morte, por cruel, amarga e tirânica que seja, sem perder nunca de vista a Cristo, sem ceder a fé, a esperança e a confiança nEle. Robert Cawdray



A nuvem carregada logo deixa cair chuva; o morteiro carregado logo se dispara quando lhe aplica o fogo. Uma alma que medita está em potência próxima à oração. William Gurnall



Henoch andou tanto com Deus que andava como Deus; não “andais segundo os homens”, algo que o apóstolo reprova (1Co 3:3). Andava tão pouco como o mundo, que permaneceu pouco no mundo. Joseph Caryl



Vers. 9. Portanto, está alegre o meu coração e se regozija a minha glória. O seu gozo interior era incontido. Nós damos testemunho do nosso prazer nas coisas comuns, até mesmo pela gratificação dos nossos sentidos; quando o nosso ouvido distingue uma melodia suave, quando o nosso olho contempla objetos formosos, quando o nosso olfato se recreia em aromas agradáveis, quando o nosso sentido do gosto se deleita em provisões deliciosas; e em muito mais se deleitará a nossa alma quando as suas faculdades, que são de uma constituição mais delicada, encontrem coisas que são em todos os aspetos agradáveis e prazenteiras para ela; e em Deus encontrá-las-ão; com a Sua luz o nosso entendimento será renovado, e a nossa vontade com a Sua bondade e o Seu amor. Timothy Rogers



Vers. 10. Pois não deixarás a minha alma no inferno. Cristo, na Sua alma, desceu ao Inferno quando, como nossa garantia, Se submeteu a sofrer as penas infernais (ou o seu equivalente) que nós merecíamos sofrer, por causa dos nossos pecados, para sempre. Assim Cristo desceu ao Inferno quando estava vivo, não quando estava morto. Assim a Sua alma esteve no Inferno quando no jardim suou gotas de sangue, e na Cruz quando exclamou tão aflito: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Mt 27:46). Nicholas Byfield’s “Exposition of the Creed,” 1676.



Nem permitirás que o teu Santo veja corrupção. Na prisão externa da graça o Seu corpo pôde entrar, mas na prisão interna da corrupção Ele não podia entrar. Isto é um nobre alento para todos os santos; todos eles têm de morrer, mas levantar-se-ão, e ainda que no seu caso eles verão a corrupção, contudo, ressuscitarão para a vida eterna. A ressurreição de Cristo é a causa, as arras, a garantia e o emblema da ressurreição de todos os Seus. C. H. S



Vers. 11. Far-me-ás ver a vereda da vida. Neste versículo podem-se observar quatro coisas: 1) Um Guia – Tu; 2) Um viajante – eu; 3) Um caminho – a vereda; 4) o fim – a vida descrita depois. Porque o que se segue não é outra coisa que a descrição desta vida.



O Guia achamo-Lo mencionado no primeiro versículo: Jeová. Aqui podemos começar, como devemos em todos os exercícios santos, com adoração. O viajante. Tendo achado o Guia, não buscaremos já a um que dEle careça; porque se ér assim, aqui há um homem fora da sua vereda. Assim como há um só Guia, assim também fala na pessoa de um só viajante. É para mostrar a sua confiança.



Mas vejamos agora o que Ele nos mostrará: “a vereda”. Temos de saber que assim como os homens têm muitos caminhos fora da vereda no mundo, mas todos eles terminam na destruição, assim como Deus tem muitas veredas no caminho geral da Sua Palavra, e todos elas terminam na salvação. “Devotions Augustinianae Flamma; or, Certayne Devout, Godly, and Learned Meditations. Written by the excellently accomplisht gentleman, WILLIAM AUSTIN, of Lincolnes Inne, Esquire. 1637,” contains “Notes on the Sixteenth Psalme; more particularly on the last verse.” Small folio.



Na tua presença abundância de alegrias; à tua mão direita delícias perpetuamente. A nota de Trapp sobre o versículo celestial que termina o Salmo é bastante deleitoso, que pode servir para uma meditação e prover-nos de uma antecipação da nossa herança. Ele escreve: “Aqui diz-se quanto se pode dizer, mas as palavras são demasiado débeis para expressá-lo. Como qualidade há os prazeres e gozo do Céu; como quantidade há plenitude, uma corrente na qual se pode beber sem cessar ou até à saciedade; como perseverança está à destra de Deus, o qual é o mais forte que todos, e ninguém nos pode arrebatar da Sua mão; é uma felicidade constante, sem interrupção; e como perpetuidade, é para sempre. Os gozos do Céu são sem medida, mescla ou término.” C. H. S.



Todos os que estamos aqui presentes agora somos meros estranhos no meio do perigo, estamo-nos perdendo a nós mesmos e perdendo as nossas vidas na terra dos mortos. Mas em breve acharemos as nossas vidas, e nós mesmos, outra vez no Céu com o Senhor da vida, e seremos achados nEle na terra dos vivos. Se quando morrermos, morremos no Senhor da vida, as nossas almas com toda a segurança serão unidas ao feixe da vida, de modo que, quando vivermos outra vez, possamos estar seguros de as acharmos na vida do Senhor.



Uma onça, uma libra, uma tonelada de preocupação; agora temos só uma gota de gozo para um oceano de penas, um momento de sossego para um século de dor; mas então teremos um bem-estar interminável sem dor, a verdadeira felicidade sem preocupação, a maior medida de felicidade sem a menor miséria, a medida mais plena de gozo que possa haver, sem mescla alguma de aflição. Aqui, pois (como nos adverte São Gregório, o teólogo), temos de soltar as nossas pesadas cargas de sofrimentos, e adoçar as nossas taças amargas de penas na meditação contínua e na expectativa constante da plenitude do gozo da presença de Deus, e do prazer à Sua dextra, para sempre.



Na tua presença há – não haverá, nem tampouco pode ser que haja, mas sim –; há plenitude de gozo sem fim nem interrupção, há sempre e tem havido e tem de haver. Porque, o que é o que o homem aqui no presente deseja mais do que o gozo? E que medida de gozo pode desejar homem algum mais do que a plenitude do gozo? “A consumação da felicidade”, por Edward Willan. “In thy presence is fulness of joy.”The Consummation of Felicity,” by Edward Willan, 1654.



No Céu estão livres de necessidades; não lhes falta nada, a menos que seja o próprio a faltar-lhes. Podem achar a falta de mal, mas nunca sentem o mal da carência. O mal não é senão a carência de bem, e a carência de mal não é senão a ausência de carência. Aqui alguns comem sem fome, enquanto que outros têm fome sem comida, e alguns bebem em excesso sem ter sede, enquanto que outros, sedentos, não têm nada que beber. Mas na presença gloriosa de Deus ninguém será mimado em excesso nem ninguém definhará desejando algo. Edward Willan



Nesta vida o nosso gozo está misturado com aflição, como os espinhos com a rosa. Jacob teve gozo quando os seus filhos regressaram do Egito com os sacos cheios de trigo, mas muita aflição quando se deu conta da prata na boca dos sacos. David teve muito gozo fazer ao subir a arca de Deus, mas ao mesmo tempo muita pena quando Uzá cometeu a sua infracção. Esta é a grande sabedoria do Senhor, temperar e moderar o nosso gozo.



Como o homem de constituição débil tem de beber o vinho diluído com água por temor de sofrer do estômago, assim também nesta vida (devido à nossa debilidade) temos o nosso gozo misturado com aflição, para que não nos tornemos altivos e insolentes. Aqui o nosso gozo está misturado com o temor (Sl 2:11). “Alegrai-vos com tremor”. As mulheres partiram do sepulcro do nosso Senhor “com temor e grande gozo” (Mt 28:8).



Como o nosso gozo aqui está misturado com temores, também ocorre o mesmo com as nossas aflições. Os crentes sãos olham a Cristo crucificado e regozijam-se no Seu incomparável amor, de que uma pessoa assim tenha morrido de uma morte semelhante pelos que eram inimigos de Deus por causa das suas inclinações pecaminosas e das suas más obras; olham-se a si mesmos nos seus próprios pecados que feriram e crucificaram ao Senhor da glória, e isto parte-lhes o coração. William Colvill, “Correntes refrescantes” William Colvill’s “Refreshing Streams,” 1655.



Nota que como qualidade há prazeres; como quantidade, plenitude; como dignidade, há a dextra de Deus; como eternidade, para sempre. E milhões de anos multiplicados por milhões, não fazem nem um minuto desta eternidade de gozo que os santos terão no Céu. No Céu não haverá pecado que possa estragar o nosso gozo, nem o diabo para no-lo tirar; nem homem algum para no-lo usurpar. “O vosso gozo ninguém vo-lo pode tirar.” (Jo 16:22). Os gozos do Céu nunca declinam, nunca murcham, nunca morrem, nem nada pode interrompê-los nem diminui-los. O gozo dos santos no Céu é um gozo constante, eterno, na raiz e na causa, e na matéria dele mesmo, e nos seus objectos. “O vosso gozo permanece para sempre se o vosso objecto permanece para sempre”. Assim é Cristo (Hebreus 13:8). Thomas Brooks


Tradução de Carlos António da Rocha

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