… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

sexta-feira, 31 de março de 2017

SALMO 18


C. H. Spurgeon
 O Tesouro de David
 SALMO 18

TÍTULO. Para o Chefe Músico um Salmo de David, o servo do SENHOR, que falou ao SENHOR com as palavras deste canto no dia que o SENHOR o livrou da mão de todos os seus inimigos, e da mão do Saul. “Nós temos outra forma deste Salmo, com importantes variações (2Sm 22), e isto sugere a ideia de que foi cantado por David em diferentes momentos quando revisou a sua notável história, e observou a graciosa mão de Deus em tudo isto. Como o hino de Addison principia, “Quando toda a tua misericórdia, Oh meu Deus”, este Salmo é o canto de um coração agradecido estando completamente dominado com uma retrospetiva das múltiplas e maravilhosas misericórdias de Deus. Nós chamá-lo-emos “Um agradecido olhar retrospectivo”. O título merece atenção. David, se bem que, neste momento fosse rei, chama-se a si mesmo, “o servo do SENHOR,” mas não faz nenhuma menção da sua realeza, daí que deduzamos que contava uma maior honra de ser o servo do SENHOR que ser rei de Judá. Ele julgou sabiamente. Estando em posse do génio poético, ele serviu o SENHOR compondo este salmo para o uso da casa do SENHOR, e ele não é um trabalho baixo para dirigir ou para melhorar essa deliciosa parte do culto divino, o canto dos louvores do SENHOR. Que uma maior capacidade musical e poética fosse consagrada, e que o nosso chefe dos músicos estivesse predisposto a ter confiança com salmos devotos e espirituais. É preciso assinalar que as palavras deste cântico não foram compostas com o fim de satisfazer o gosto dos homens, mas que se estava falando com Jeová. Era bem melhor que nós tivéssemos um olhar singular para com a honra do SENHOR no nosso canto, e em todos os outros exercícios sagrados. Este louvor vale pouco se não se dirige somente e de todo o coração ao SENHOR. David bem poderia ser, neste caso, sincero no seu agradecimento, já que devia tudo ao seu Deus, e no dia da sua libertação não havia ninguém a quem agradecer senão a Deus, Cuja mão direita o tinha preservado. Nós também consideramos que devemos a Deus e só a Deus a maior dívida de honra e de ação de graças.



Se tivermos em mente que o segundo e o quadragésimo nono versos são citados no Novo Testamento (Hbr 2:13, Rm 15:9) como as palavras do SENHOR Jesus, será evidente que um maior do que David está aqui. Leitor, não necessitas da nossa ajuda neste sentido, se tu conheces Jesus encontra-Lo facilmente nas Suas dores, libertação, e e, todos os triunfos através deste maravilhoso salmo. C. H. S.



Todo o Salmo. O argumento geral dos Salmos pode ser assim: trata-se de uma magnífica ode eucarística. Inicia-se com uma celebração das gloriosas perfeições da Divindade, cuja ajuda o orador tem experimentado tão frequentemente. Ele descreve, ou melhor, delineia, o seu perigo, o poder dos Seus inimigos, a sua repentina libertação deles, e a indignação e a potência do Seu libertador divino manifesta-Se na sua derrocada. Pinta isto em cores tão vivas, que, até parece que ao o lermos vemos o relâmpago, escutamos os trovões e sentimos o terramoto. Ele, depois, descreve as suas vitórias, pelo que parecemos ser testemunhas oculares delas, e nelas participarmos. Ele prediz um grande império estendido, e conclui com uma nobre expressão de agradecida adoração a Jeová, o Autor de todos os seus triunfos e libertações. O estilo é muito retórico e poético, sublime e cheio de figuras de retórica. É a linguagem natural de uma pessoa da mais alta dotação mental, em virtude de uma inspiração divina, profundamente afetado por notáveis benefícios divinos, e que se enche com os mais nobres conceitos da divina natureza e dispensações. John Brown, DD, 1853.



Todo o Salmo. Kitto, em “A Bíblia ilustrada,” tem a seguinte nota a 2 Samuel 22: - “Este é o mesmo que o Salmo décimo oitavo.... Os Rabinos contam até setenta e quatro diferenças entre os dois exemplares, a maioria delas muito minúsculas. Elas provavelmente surgiram do facto de que o poema foi, como se conjetura, composto por David na sua juventude, e revisado nos seus últimos dias, quando ele o enviou ao chefe dos músico. O presente é, certamente, cópia da primitiva”. Kitto (Humphrey Davey Findley Kitto (6 de fevereiro de 1897 – 21 de janeiro de 1982, Também conhecido por: H Kitto, H. D. Kitto, H. D. Kitto, Kitto H D F, H. D. K. Kitto, H. D. F. Kitto, Humphrey D. Kitto, Humphrey D. F. Kitto, Prof. Dr. H. D. F. Kitto, Humphrey Davy Findley Kitto, Humphrey David Findley Kitto), in “The Pictorial Bible”.



Todo o Salmo. O décimo oitavo Salmo é chamado por Michaelis mais artificial, e menos verdadeiramente terrível, do que as odes de Moisés. Na estrutura pode ser assim, mas certamente não no espírito. Parece a muitos, além de nós, um dos mais formosos raptos líricos das Escrituras. É como se o poeta tivesse mergulhado a sua pluma n’ “o brilho dessa luz que existia antes do seu olho”, por isso ele descreve a descida de Deus. Talvez se possa objectar que o nodus é apenas digno de vindex — livrar David dos seus inimigos, porém poderias imaginar jamais que a Deidade descesse? Mas, o opositor não conhece o carácter da mente do antigo Hebreu. Deus, na sua opinião, não tem de descer do céu; era quase uma nuvem que a mão de um homem pode ocultar— um grito, um olhar pode trazê-lo abaixo. E por que não deveria David gostar de O vestir, como Ele veio, numa panóplia própria da Sua dignidade, nas nuvens decoradas com brasas de fogo? Se ia descer, por que não no Seu estado? A prova da grandeza deste Salmo está no facto de que aguentou o teste de quase todas as traduções, feitos de rima irregular, e vieram a ser divinos.



Talvez o grande encanto do salmo décimo oitavo, além da poesia da descida, é a deliciosa e subtil alternância do Eu e do Tu. Falámos de paralelismo, como a chave para o mecanismo da canção hebraica. Descobrimos isto como existindo entre David e Deus —o libertado e o libertador— lindamente exercido em todo o conjunto deste Salmo. “Eu te amarei, ó SENHOR, fortaleza minha.” “Invocarei o nome do SENHOR, que é digno de louvor”. George Gilfillan, in “The Bards of the Bible,” 1852.



Aquele que queira ser sábio, leia os Provérbios; aquele que queira ser santo, leia os Salmos. O santo David, estando perto da margem, observa, aqui, os antigos perigos e libertações, experimentados com um coração agradecido, e escreve este Salmo para bendizer ao SENHOR; isto como se cada um de nós, uma vez envelhecidos, examinasse a vida e observasse as bondades maravilhosas e a providência de Deus para consigo, e então se sentasse e escrevesse um humilde recordatório das misericórdias mais notáveis recebidas, para consolo próprio e para a posteridade; uma excelente ideia.



Depois que David cumulou Deus de todos os nomes encantadores que se possa imaginar (vers. 2), como um santo verdadeiro acredita que nunca pode falar bastante bem de Deus, ou muito mal de si mesmo, e então começa a sua narração. 1. Dos seus perigos (vers. 4). 2. Do seu retiro, e isto era a oração sincera a Deus (vers. 6). A mãe está atarefada enquanto a criança choraminga, mas quando ela chora mais alto —o grito exacerba cada nervo e cada veia, então a mãe deixa o que está fazendo e atende ao seu desejo. Enquanto que as nossas orações são só suspiros, o nosso Deus pode continuar esperando; mas quando caímos, então: “Agora me levantarei, diz o SENHOR.” 3. Do seu resgate (vers. 7-20). 4. Da razão destes entendimentos misericordiosos de Deus para com ele (vers. 20, etc.). Richard Steele's “Plain Discourse upon Uprightness,” 1670.



Vers. 1. Eu te amarei do coração, ó SENHOR. Amar-te-ei de todo o coração, com as minhas entranhas. O nosso Deus trino merece o amor mais fervoroso dos nossos corações. C. H. S.



Vers. 1, 2. EU te amarei do coração, ó Senhor, fortaleza minha. O Senhor é o meu rochedo, e o meu lugar forte, e o meu libertador; o meu Deus, a minha fortaleza, em quem confio; o meu escudo, a força da minha salvação, e o meu alto refúgio. Deus tem-Se entregado, por assim dizê-lo, aos Seus crentes. É o próprio Deus que é a salvação e a porção do Seu povo. A fé apoia-se principalmente em Deus mesmo; Ele será a minha salvação, se O tiver, e isto já é salvação suficiente; Ele é a minha vida, o meu consolo, as minhas riquezas, a minha honra, o meu tudo.



David comprazia-se mais em que Deus fosse a sua fortaleza do que Ele lhe desse a ele fortaleça; em que Deus fosse o seu libertador que em ser libertado; em que Deus fosse o seu escudo, a sua buzina, a sua torre alta, que em receber o efeito de todos eles. O que agradava seriamente a David e agrada a todos os santos é que Deus seja a salvação deles, seja temporária ou eterna, mais do que do fato de que Ele de que Ele os salve: os santos olham mais para Deus do que para o que é de Deus. Joseph Caryl



Vers. 2. O SENHOR é o meu rochedo, e o meu lugar forte. Habitando nos penhascos e fortalezas montanhosas naturais da Judeia, David tinha escapado da malícia de Saul, e aqui compara o seu Deus com estes esconderijos e refúgios.



A minha fortaleza. Esta palavra é realmente “minha rocha”, no sentido de força e de fixidez; a minha confiança e apoio seguro, imutável, eterno. Assim a palavra “rocha” ocorre duas vezes, mas não é tautologia, porque a primeira vez é um rochedo para resguardar-me, e aqui uma rocha para firmeza e imutabilidade.



O meu escudo, que desvia os golpes do inimigo, que me protege das flechas ou da espada.



Aqui há muitas palavras, mas nenhuma de mais; podê-las-íamos examinar uma a uma se dispuséramos de tempo, mas resumindo-as num conjunto, podemos chegar à conclusão de Calvino, de que aqui David arma o fiel da cabeça aos pés.



Vers. 4. Torrentes de impiedade me assombraram. Na noite do lamentável acidente que teve lugar no “Surrey Music Hall”, as ondas do Belial ficaram soltas e os comentários subsequentes de grande parte da Imprensa foram em extremo maliciosos e mal intencionados; a nossa alma temia ao ver que estávamos rodeados de ondas de morte e de blasfémias cruéis. Mas que misericórdia houve em tudo isso, e que doce mel de bondade foi extraída por nosso SENHOR deste leão de aflição! C. H. S.



Não há metáfora que usem com mais frequência os sagrados poetas que a que representa as espantosas e inesperadas calamidades que resultam das águas avassaladoras. A imagem parece ter sido especialmente familiar entre os hebreus, posto que se derivava do hábito peculiar da natureza do seu próprio país. Tinham continuamente diante dos olhos o rio Jordão, que em cada ano transborda as suas ribeiras. Robert Lowth (Bishop), 1710-1787.



Vers. 5. Cordas do inferno me cingiram. Um cordão de demónios acossava o homem de Deus encurralado; parecia que toda a via de escape estava fechada. Satã sabe como bloquear as nossas costas com os navios de guerra da aflição, mas, bendito seja o SENHOR, o porto da oração está ainda aberto, e a graça pode atravessar o bloqueio, levando mensagens da terra ao céu e bênçãos no seu retorno do céu à terra.



Segundo as quatro metáforas que emprega, estava amarrado como um malfeitor para ser executado; aflito como um marinheiro náufrago; rodeado e batido como um cervo caçado; e capturado numa rede como um pássaro tremente. Quanto terror e aflição podem cair sobre uma cabeça pobre e indefesa! C. H. S.



Laços de morte me surpreenderam. Estes laços, ou armadilhas, estavam estendidos diante de mim.



Vers. 6. Na angústia. Se escutas a harpa de David, vais ouvir muitos cânticos tristes, lamentos, assim como árias e canções alegres; e a pluma do Espírito Santo trabalhou mais em descrever as aflições de Job do que as alegrias de Salomão. Vemos nos bordados e tapeçarias, que é mais agradável ter um motivo alegre sobre um fundo triste e solene do que quando a coisa é ao contrário; julga, pois, dos prazeres do coração pelos prazeres do olho. Certamente, a virtude é como os aromas preciosos, são mais fragrantes quando são espremidos; porque a prosperidade manifesta o vício, mas a adversidade manifesta melhor a virtude. Francis Bacon, Baron of Verulam, etc., 1561-1626.



Vers. 6, 7. Na angústia, invoquei ao Senhor, e clamei ao meu Deus: desde o seu templo ouviu a minha voz, aos seus ouvidos chegou o meu clamor perante a sua face. Então a terra se abalou e tremeu; e os fundamentos dos montes também se moveram e se abalaram, porquanto se indignou. A oração de um único santo é, às vezes, seguida com efeitos maravilhosos; “Na angústia, invoquei ao SENHOR, e clamei ao meu Deus: desde o seu templo ouviu a minha voz, aos seus ouvidos chegou o meu clamor perante a sua face. Então a terra se abalou e tremeu; e os fundamentos dos montes também se moveram e se abalaram, porquanto se indignou: ”O que podem então fazer uma “thundering legion [1] “de tais almas orantes?



Diziam de Lutero, iste vir potuit cum Deo quicquid voluit, isto é, “Aquele homem podia ter de Deus o que ele queria”; os seus inimigos sentiram o peso das suas orações; e disso a igreja de Deus recolheu os benefícios. A Rainha dos escoceses confessou que ela estava com mais medo das orações do Sr. Knox, do que de um exército de dez mil homens. Estes eram lutadores poderosos com Deus, contudo eram desprezados e vilipendiados entre seus inimigos. Há-de vir uma ocasião quando Deus ouvirá as orações da Sua gente, pessoas que continuamente estão chorando nos Seus ouvidos, “Até quando, SENHOR, até quando?” John Flavel.



Vers. 7. A terra se abalou e tremeu. Observa a coisa mais sólida e inamovível e nota a força da súplica. A oração tem sacudido casas, aberto portas de cárceres e feito tremer os corações mais aguerridos. A oração faz soar o sino de chamada, e o amo da casa levanta-se para prestar ajuda, sacudindo todas as coisas sob as suas pegadas.



Vers. 8. Do seu nariz subiu fumo. Um violento método oriental para expressar grande furor. Como o fôlego dos narizes é aquecido pela emoção forte, a figura retrata o Libertador Todo-Poderoso projetando fumo no calor do Seu furor e no ímpeto do Seu zelo.



E da sua boca saiu fogo que consumia. Este fogo não era temporário, mas era permanente. C. H. S.



Vers. 8-19. Como o homem faz mais caso do céu quando sente as suas iras que quando sente as suas bênçãos, e considera mais a Deus quando desce à terra na tormenta que quando o faz no arco-íris, David descreve a bem-aventurada condescendência de Deus com a figura de uma tempestade. Augustus F. Tholuck, D.D., Ph.D.—1856.



Vers. 10. E montou num querubim, e voou; sim, voou sobre as asas do vento. Quando Deus vem castigar os Seus inimigos e a resgatar o Seu povo, não há nada que mais tenha surpreendido os Seus amigos ou inimigos que a admirável rapidez com que Se move e actua: voou sobre as asas do vento. William S. Plumer



Vers. 11. Fez das trevas o seu lugar oculto; o pavilhão que o cercava era a escuridão das águas e as nuvens dos céus. As nuvens dos céus. Bem-aventuradas as trevas que velam a Deus; ainda que não O podemos ver, é muito doce saber que está operando em segredo para o meu bem eterno. Até mesmo os néscios podem acreditar que Deus Se acha ali quando está sol ou calma, mas a fé é sábia, e discerne-O nas trevas e na tormenta ameaçadora.



Vers. 13. E o SENHOR trovejou nos céus, o Altíssimo levantou a sua voz. Como poderão os homens resistir à Sua voz no último dia, quando tenha lugar a proclamação da sua condenação, se hoje estão atemorizados e tremendo ao ouvi-la de longe, quando murmura? Em todo este terror David achou tema para um cântico, e desta maneira cada crente acha inclusive nos terrores de Deus um tema para um cântico santo.



E havia saraiva e brasas de fogo. Horne faz notar que “cada tempestade dever-nos-ia recordar a exibição de poder e vingança que no final do mundo acompanhará a ressurreição geral”.



Vers. 18. Surpreenderam-me no dia da minha calamidade; mas o SENHOR foi o meu amparo. Que bênção este “mas”, que corta o nó górdio e mata a hidra de cem cabeças! Não há temor de não sermos libertados quando dependemos do SENHOR. C. H. S.



Quando Henrique VIII falou e escreveu acerbamente contra Lutero, este disse: “Digam aos Henriques, aos bispos, aos turcos e ao mesmíssimo diabo, que façam o que queiram, que nós somos os filhos do reino, adoradores do Deus verdadeiro, a quem eles, e outros como eles, cuspiram e crucificaram.” Charles Bradbury's “Cabinet of Jewels,” 1785.



Vers. 19. Trouxe-me para um lugar espaçoso. O SENHOR não deixa a Sua obra pela metade, porque tendo derrotado o inimigo liberta o cativo e dá-lhe liberdade.



Livrou-me, porque tinha prazer em mim. Por que tem de deleitar-Se o SENHOR em nós, é uma pergunta a que não podemos responder. Crente, senta-te e absorve interiormente esta cláusula instrutiva que tens diante de ti, e aprende a ver o amor sem razão de Deus como a causa de todas as bondades de que participamos. C. H. S.



Vers. 20. Recompensou-me o SENHOR conforme a minha justiça. Vendo este Salmo como profético do Messias, estas pretensões tão notáveis à justiça podem facilmente entender-se, porque os seus vestidos eram brancos como a neve; mas considerando-as como a linguagem de David, deixaram perplexos a muitos. As tribulações iniciais de David tiveram lugar por causa da malícia do invejoso Saul, o qual, sem dúvida, o perseguia, mas atribuía pretextos e acusações, que lançava sobre o caráter do “homem segundo o próprio coração de Deus”. David declara que estas acusações são completamente falsas, e afirma que possui uma justiça dada pela graça, que o SENHOR lhe concedeu na Sua graça, e com isso desafia a todos os seus caluniadores. Ante Deus, “o homem, segundo o próprio coração de Deus”, era um humilde pecador, mas perante os seus caluniadores podia falar da limpeza das suas mãos e da justiça da sua vida sem se ruborizar. Não está em oposição à doutrina da salvação pela graça, nem é uma evidência de espírito farisaico, que um homem sob a graça, tendo sido caluniado, sustente resolutamente a sua integridade e defenda com vigor o seu caráter.



Vers. 21. Porque guardei os caminhos do Senhor, e não me apartei impiamente do meu Deus. Há aqui um “hei”, e um “não hei” e os dois vêm a unir-se numa vida verdadeiramente santificada; a graça que constrange e restringe deve ter a sua parte nisso. C. H. S. (“For I have kept the ways of the LORD, And have not wickedly departed from my God.” (KJV, King James Version, British 1769 Edition) (Porque guardei os caminhos do Senhor, e não me apartei impiamente do meu Deus.” [ARC, isto é a versão Almeida Revista e Corrigida, editada em Portugal (Pt)]



Não me apartei impiamente do meu Deus. O homem de coração falso no mundo não olha só para Deus, mas a algo mais, juntamente com Deus; ainda que Herodes tivesse a João em consideração, considerava mais a Herodias; e o jovem do Evangelho vem a Cristo, mas está pensando nas suas propriedades; e Judas seguiu a Cristo, mas tem o olhar na bolsa; isto é, apartar-se impiamente do SENHOR. William Strong, 1650.



Vers. 23. Também fui sincero perante ele, e me guardei da minha iniquidade. O génio impulsivo de David poderia tê-lo levado a matar a Saul quando o teve no seu poder, mas a graça capacitou-o para manter as mãos limpas do sangue de seu inimigo. C. H. S.



Tal como na colmeia tem de haver uma rainha, assim também no coração tem de haver um pecado dominante; há um pecado que não só está mais perto do homem que o vestido que leva, mas que lhe é agradável aos olhos. O diabo pode dominar a um homem de modo tão firme por meio deste elo como por meio de toda uma cadeia de vícios. O caçador de pássaros tem o pássaro bem sujeito quando apenas lhe agarre uma das suas asas. Um cristão reto lança mão da faca sacrificadora da mortificação e atravessa com ela o seu pecado predileto. Thomas Watson



Vers. 24. Pelo que me retribuiu o Senhor conforme a minha justiça, conforme a pureza das minhas mãos, perante os seus olhos. Primeiro Deus dá-nos a santidade e logo nos recompensa por ela. Ao premiado concede-lhe a flor do concurso, pois o hortelão a cultivou; o menino ganha o prémio na escola, mas a honra real do seu saber acha-se no seu professor, ainda que em vez de recebê-lo é ele o que dá o prémio. C. H. S.



Vers. 24-27. Pelo que me retribuiu o Senhor conforme a minha justiça, conforme a pureza das minhas mãos, perante os seus olhos. Com o benigno te mostrarás benigno; e com o homem sincero te mostrarás sincero; Com o puro te mostrarás puro; e com o perverso te mostrarás indomável. Porque tu livrarás o povo aflito e abaterás os olhos altivos. Assim como o sol é muito agradável e saudável para os olhos sãos e sem enfermidades, ainda que para os mesmos olhos, quando estão débeis, doentes, doridos, é muito pernicioso e penoso, por mais que o sol seja sempre o mesmo em um e noutro caso, assim também o mesmo Deus, que Se mostrou benigno e generoso com os que são ternos e bons com os santos, é misericordioso para com os que mostram misericórdia. Mas, com respeito a estes mesmos homens, quando caem na maldade e o seu comportamento é cruel, o SENHOR mostra-Se cheio de ira e furor, e, contudo, é o mesmo Deus imutável de século em século. Robert Cawdray



Vers. 25. Com o benigno te mostrarás benigno. “Noé, porém, achou graça aos olhos do Senhor. Estas são as gerações de Noé: Noé era varão justo e reto em suas gerações: Noé andava com Deus. E gerou Noé três filhos: Sem, Cam e Jafeth.” Noé, Noé, Noé, eu gosto do som deste teu nome; e todos os vossos nomes são preciosos para Deus, por mais que sejam aborrecidos pelos homens, se o nome de Deus lhes é querido e doce.



Para um hipócrita há “muitos deuses e muitos senhores”, e ele tem de ter um coração para cada um deles; mas para o justo só há um, Deus o Pai, e um SENHOR Jesus Cristo, e um coração serve aos dois. Aquele que põe o seu coração sobre as criaturas, tem de dispor o seu coração sobre cada uma delas, e ao fazê-lo divide-o e destrói-o (Os 10:2). Os benefícios mundanos batem à porta, tem de ter um coração para eles; os prazeres carnais presentam-se, tem de ter um coração para eles; os atrativos pecaminosos apresentam-se, tem de ter um coração para eles. O justo tem feito a sua eleição, que é Deus, e com isso se basta. Richard Steele's “Plain Discourse upon Uprightness,” 1670.



Vers. 28. Porque tu acenderás a minha candeia. As candeias acesas por Deus o diabo não as pode apagar.



Vers. 29. Porque contigo entrei pelo meio de um esquadrão, com o meu Deus saltei uma muralha. Estas façanhas já foram realizadas, pois já passámos de uma vez hostes de dificuldades, e escalámos coisas impossíveis de um salto. Os guerreiros de Deus podem esperar que terão de passar por toda a forma de luta, e mediante o poder da fé têm de decidir comportar-se como homens de verdade.



Vers. 31. Porque quem é Deus senão o SENHOR? O Deus de David cria, sustenta, prevê e rege. Há outros que possam fazê-lo? Quem a não ser Ele é perfeito em cada atributo e glorioso em cada acto? C. H. S.



Aqui ocorre pela primeira vez nos Salmos o nome Eloah, traduzido como Deus. Ocorre mais de cinquenta vezes nas Escrituras, se mas só quatro vezes nos Salmos. É o singular de Elohim. Muitos têm suposto que este nome refere-se especialmente a Deus como objecto de adoração religiosa. Esta ideia pode muito bem ser proeminente neste lugar. William S. Plumer



Vers. 33. Faz os meus pés como os das cervas, e põe-me nas minhas alturas. Perseguindo os Seus inimigos o guerreiro tinha sido rápido nos seus pés como uma cerva jovem, mas, em vez de gozar-se na ligeireza dos pés de um homem, atribui a virtude à rapidez do próprio SENHOR.



Vers. 34. Adestra as minhas mãos para o combate, de sorte que os meus braços quebraram um arco de cobre. Estes arcos eram muito difíceis de dobrar com a força dos braços; o arqueiro requeria a ajuda do pé; era uma grande façanha, pois, o ter força para dobrar um arco.



Jesus não só destrói as sugestões de Satanás, mas também esmiuça os argumentos do mesmo por meio do uso das Santas Escrituras contra ele; pelos mesmos meios podeis conseguir o triunfo, rompendo o arco e partindo a lança com o golpe da verdade revelada. Provavelmente David tinha uma natureza muito vigorosa e forçuda; mas ainda é mais provável que, como Sansão, fosse revestido, às vezes, de uma força descomunal; em todo caso, ele atribui a honra de suas façanhas inteiramente ao seu Deus. Não tentemos roubar ao SENHOR o que Ele merece, a não ser que Lhe demos fielmente a glória devida ao Seu nome.



Vers. 35. Também me deste o escudo da tua salvação; a tua mão direita me susteve, e a tua mansidão me engrandeceu. Acima de tudo temos de tomar o escudo da fé, porque nada mais pode apagar os dardos acesos de Satanás.



A tua benignidade me engrandeceu. Outros traduzem “A tua condescendência”. Na minha Almeida (ARC, Almeida Revista e Corrigida, Portugal, e que é sempre a versão padrão)a tua mansidão me engrandeceu.” Num sentido Deus diminui-Se ao aproximar-Se de nós, como Se exercesse humildade. É Deus, fazendo-Se pequeno, que é a causa de que nós sejamos engrandecidos. Somos tão pequenos, que se Deus Se manifestasse na Sua grandeza sem condescendência, seríamos esmagados sem remissão; mas Deus, que Se inclina para olhar para os céus e para os s anjos, olha para os humildes e contritos e engrandece-os.



Vers. 36. Alargaste os meus passos debaixo de mim. É uma grande misericórdia sermos levados à liberdade e ao alargamento cristãos, mas é ainda um favor maior sermos capacitados a andar dignamente nesta liberdade, sem que os nossos pés escorreguem. C. H. S.



Vers. 37, 38. Persegui os meus inimigos, e os alcancei: não voltei senão depois de os ter consumido. Atravessei-os, de sorte que não se puderam levantar: caíram debaixo dos meus pés.



Ó, vi o dia

Em que com uma só palavra

Deus me ajudou a dizer:

“Minha confiança está no SENHOR”

Minha alma tem calado a milhares de inimigos,

Sem temer a quantos se possam opor-me.  
William Cowper, 1731-1800.



Vers. 39, 40. Pois me cingiste de força para a peleja: fizeste abater debaixo de mim aqueles que contra mim se levantaram. Deste-me, também, o pescoço dos meus inimigos, para que eu pudesse destruir os que me aborrecem. É impossível excedermo-nos no cumprimento do dever de atribuir todas as nossas vitórias ao Deus da nossa salvação.



Vers. 41. Clamaram, mas não houve quem os livrasse; até ao SENHOR, mas ele não lhes respondeu. A oração é uma arma tão notável que inclusive os malvados se podem atrever-se a usá-la, em momentos de desespero. Os maus apelaram a Deus contra os Seus próprios servos, mas é em vão. Há orações a Deus que não são melhores do que blasfémias, que não produzem resposta agradável, mas que ainda provocam o SENHOR a uma ira maior. C. H. S.



Conta-se de Antíoco [Antíoco IV Epifânio (do gr: Άντίοχος Έπιφανής, “que se manifesta com esplendor”) (c. 215 - 162 a.C.) foi um rei da Dinastia Selêucida que governou a Síria entre 175 e 164 a.C.] que jurou na sua última enfermidade que “se faria ele mesmo um judeu, e que iria por todo mundo habitado e declararia o poder de Deus”. Mas, segue o historiador: “Apesar de tudo isto, as suas dores não cessaram, porque o justo juízo de Deus tinha caído sobre ele.” John Lorinus (1569-1634), and Remigus (900), quoted by J. M. Neale.



Vers. 42. Então os esmiucei como o pó diante do vento; deitei-os fora como a lama das ruas.



O Inferno e os meus pecados resistem no meu caminho,

Mas um e outros são inimigos vencidos.

Jesus cravou-os na Sua cruz, e logo

Ressuscitou e entoa o hino triunfal. C. H. S.



“Deitei-os fora”, pois, como se fossem a lama das ruas, é uma imagem muito forte de desprezo. John Kitto



Vers. 43. Livraste-me das contendas do povo, e me fizeste cabeça dos gentios; um povo que não conheci me servirá. Sem dúvida há muito mais de Jesus aqui, do que de David.



Vers. 44. Em ouvindo a minha voz, me obedecerão; os estranhos se submeterão a mim. “O amor à primeira vista” não é estranho quando Jesus é o que corteja. Jesus pode escrever a mensagem de César sem que seja jactância; o Seu evangelho, em alguns casos, logo que é ouvido, é crido. Que estímulo para espargir a doutrina da cruz!



Vers. 45. Os estranhos descairão, e terão medo nos seus esconderijos. Os que são estranhos para Jesus são estranhos a toda felicidade duradoura; os que se apartam tremendo são os que recusam beber do rio da vida. C. H. S.



Eles temerão por causa dos seus lugares de clausura. Um erudito judeu interpreta isto da seguinte maneira: “Eles temerão as prisões nas quais eu os encerrarei e tê-los-ei confinados.” The Sufferings and Glories of the Messiah: an Exposition of Psalm XVIII., and Isaiah 52:13; 53:12. By JOHN BROWN, D.D., 1853.



Vers. 46. O SENHOR vive. Nós não servimos a nenhum Deus inanimado, imaginário ou moribundo, a não ser ao único que tem imortalidade. Como leais súbditos deste rei exclamamos: “O SENHOR vive. Vive o Rei de reis”. C. H. S.



Não vês os jovens herdeiros dos grandes latifundiários que gastam dinheiro em abundância, pois não têm nenhuma escassez? Por que tu, pois, sendo filho do Deus do Céu, tens de andar vestido de farrapos como se não valesses um chavo?



Uma mulher verdadeiramente piedosa, tendo enterrado o seu filho, e sentada sozinha no meio da tristeza, conseguiu aliviar o seu coração com a expressão “Deus vive”; e depois de haver-se despedido de outro filho, ainda insistiu: “Os consolos morrem, mas Deus vive”. Por fim morreu o seu querido marido, e sentou-se abatida e afligida pela dor. Ainda tinha um menino pequeno, o qual, tendo observado o que ela havia dito antes, para a consolar aproximou-se dela e disse-lhe: “Deus morreu, mãe? Deus morreu?” Isto chegou-lhe ao coração, e com a bênção de Deus recuperou a antiga confiança no seu Deus, que é um Deus vivo. Assim, oh Cristãos, é necessário que saiais do vosso desânimo e animais os vossos espíritos como fez David. Oliver Heywood's “Sure Mercies of David,” 1672.



Exaltado seja o Deus da minha salvação. Deveríamos proclamar a história do pacto e da cruz, da eleição do Pai, da redenção do Filho e da regeneração do Espírito.



Vers. 47. É Deus que me vinga inteiramente, e sujeita os povos debaixo de mim. Que pereçam os pecadores é em si uma consideração penosa, mas o que a lei do SENHOR seja vingada sobre os que a quebrantam é para a mente piedosa um tema de agradecimento. C. H. S.



É Deus. “SENHOR, isto não é nada mais que a mão de Deus; e a Ele só pertence a glória, que ninguém tem de compartilhar com Ele. O general serviu a todos com toda a fidelidade e honra; e o melhor elogio que posso fazer dele é que me atrevo a dizer que ele atribui tudo a Deus, e que ele, preferia antes perecer se isso mesmo lhe fosse atribuído.” Written to the Speaker of the House of Commons, after the battle of Naseby, June 14, 1645, by OLIVER CROMWELL.



Vers. 49. Pelo que, ó Senhor, te louvarei entre as nações, e cantarei louvores ao teu nome. Ao lutar com outros, David venceu-os; mas ao cantar e ao deleitar-se, venceu-se a si mesmo. Thomas Playfere.




[1] A Legião Tonante (Legio fulminata, ou fulminea, não fulminatrix). A história da Thundering Legion is in Tonante Legião está em substância como se segue: Quando o Imperador Marcus Aurelius conduziu uma expedição contra Quadi em 174, o seu exército, esgotado pela sede, estava a ponto de cair como uma presa fácil para o inimigo. Foi então que os soldados da Décima Segunda Legião, que era composta de cristãos, orou ao seu Deus por ajuda. Imediatamente uma forte tempestade surgiu, trazendo o desejado para o alívio dos Romanos, mas aterrorizou e pôs em debandada os bárbaros. Com isto o imperador publicou um decreto proibindo a perseguição dos Cristãos e para a Décima Segunda Legião ele deu-lhe o apelido de fulminata, ou fulminea, isto é, "trovejando".


Mota e Tradução de Carlos António da Rocha

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