… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

sexta-feira, 12 de maio de 2017

SALMO 19

C. H. Spurgeon
 O Tesouro de David
 SALMO 19
O homem sábio lê o livro do mundo e o livro da Palavra como dois volumes da mesma obra e pensa a respeito deles: “Meu Pai escreveu os dois.” C. H. S.



Este Salmo forma um contraste perfeito com o Salmo 8, evidentemente composto de noite, e deveria ler-se em relação com ele, já que é provável que terá sido escrito aproximadamente ao mesmo tempo, e os dois são cânticos de louvor derivados dos fenómenos naturais, e portanto apropriados de modo peculiar à vida rural ou pastoril. John Mason Good



Assim como Aristóteles tinha duas espécies de escritos, uns chamados esotéricos, para os ouvintes comuns, e outros acromáticos, para os seus estudantes privados e conhecidos, do mesmo modo Deus tem duas espécies de livros, conforme Se dá a entender neste Salmo; ou seja, o livro das Suas criaturas, como um livro corrente para todos os homens do mundo (versículos 1-6), e o livro das Suas Escrituras, como um livro de estatutos para o Seu auditório doméstico: a igreja (versículos 7, 8).



Assim, os céus manifestam, isto é, fazem com que os homens declarem a glória de Deus por causa da sua estrutura, movimentos e influências admiráveis. A pregação dos céus é maravilhosa em três aspectos:

1) como pregação realizada em cada noite e em cada dia, sem interrupção (vers. 2);

2) como pregação em todas as linguagens (vers. 3);

3) como pregação em todas partes do mundo, e em cada paróquia de cada parte, e em cada lugar de cada paróquia (vers. 4). São pastores diligentes, que pregam sem cessar; são pastores entendidos, que pregam em todas as línguas; e pastores ecuménicos, ou católicos, que pregam em todas as cidades.



Este é o primeiro livro de leitura de Deus, como se disséssemos, para toda a espécie de pessoas. Os pagãos lêem este livro, mas os Cristãos estão familiarizados com a sua Bíblia. "The Works of JOHN BOYS," 1626, folio, pp. 791-798. An Exposition of Psalm XIX.



Vers. 1. Os céus manifestam a glória de Deus. O livro da natureza tem três folhas: o Céu, a Terra e o mar, dos quais o Céu é o primeiro e o mais glorioso, e com a sua ajuda podemos ver as belezas das outras duas. Aquele que começa a ler a criação estudando as estrelas começa o livro no lugar devido.



Os céus são plurais pela sua variedade, já que compreendem os céus aquíferos, com as suas nuvens em formas incontáveis; os céus aéreos, com as suas calmas e tempestades; os céus solares, com todas as glórias do dia, e os céus estrelados, com todas as maravilhas da noite; o que o Céu dos céus deve ser não entrou no coração do homem, mas ali todas as coisas manifestam a glória de Deus de modo principal. Não é meramente glória o que os céus manifestam, mas a glória de Deus.



O firmamento anuncia a obra das suas mãos. A expansão está cheia de obras que mostram a habilidade suprema das mãos criadoras do Senhor. Na expansão acima de nós Deus faz voar, por assim dizer, a Sua bandeira estrelada, para mostrar que o rei está em casa, e pendura o Seu escudo para que os ateus vejam como Ele despreza as suas repreensões. Aquele que olha para o firmamento e logo se faz chamar ateu, mostra-se como um néscio ou um mentiroso. C. H. S.



Os céus manifestam a sua sabedoria, o seu poder, a sua bondade; e assim não há uma criatura, por pequena que seja, que não admire o Criador neles. Como numa habitação em cujas paredes se penduram espelhos que representa o rosto para qualquer direção em que alguém se volte, assim também todo o Universo mostra a misericórdia e a magnificência de Deus; ainda que visível, contudo, descobre um Deus invisível e aos Seus atributos invisíveis. Anthony Burgess, 1656., 1656.



Durante a Revolução Francesa, Jean Bon Saint-André (1749 – 1813), o revolucionário vendeano (vandeense, vandeano, natural ou habitante da Vandeia; membro do partido realista vandeano em 1793-1795), disse a um lavrador: “vou fazer derrubar todas as cúpulas das igrejas, para que não tenham nenhum objecto que vos recorde das vossas antigas superstições.” “Mas” -replicou o lavrador-”não podes fazê-lo, deixam-nos as estrelas”. John Bate’s "Cyclopaedia of Moral and Religious Truths," 1865.



Vers. 1, 2. Poderiam apresentar-se os dois primeiros versículos de modo literal da seguinte maneira:



Os céus CONTAM a glória de Deus.

O firmamento ANUNCIA a obra das Suas mãos;

Um dia a outro dia COMUNICA a mensagem,

Uma noite à outra EXALA conhecimento. 
 Henry Craik, 1860.



Vers. 1-4. Ainda que todos os pregadores da Terra se calassem, e toda boca humana cessasse de publicar a glória de Deus, os céus em cima nunca cessariam de declarar e proclamar a Sua majestade e glória. Ainda que a natureza se mantivesse em silêncio quando o Sol na sua glória alcança o zénite no Céu de azul-celeste, ainda que o Universo guardasse o seu silêncio festivo quando as estrelas brilham de noite, contudo, diz o Salmista, elas falam; sim, num silêncio santo que é um falar, sempre que houver um ouvido que o escute. Augustus T. Tholuck.



Vers. 2. Um dia faz declaração a outro dia, e uma noite mostra sabedoria a outra noite. É como se um dia empreendesse o relato ali onde o deixou o outro, e cada noite prosseguisse a maravilhosa história que vem da noite anterior. C. H. S.



Um dia faz declaração a outro dia, é um dia que ensina o outro. John Boys



Vers. 3. Sem linguagem, sem fala, ouvem-se as suas vozes.Não é uma linguagem de palavras. Não direi que a voz de Deus não se ouve; fala, no próprio silêncio, tão alto como um trovão que retumba. John Gadsby



Vers. 4-6. Em toda a extensão da terra, e as suas palavras até ao fim do mundo. Neles pôs uma tenda para o sol, Que é qual noivo que sai do seu tálamo e se alegra, como um herói, a correr o seu caminho. A sua saída é desde uma extremidade dos céus e o seu curso até à outra extremidade deles; e nada se furta ao seu calor. O começo da dispensação do Evangelho tal como foi introduzida por Cristo é chamado o Sol de justiça levantando-se (Ml 4:2). Mas esta dispensação do Evangelho começa com a ressurreição de Cristo. Aqui o Salmista diz que Deus colocou um tabernáculo para o Sol nos céus; também que Deus, o Pai, preparou uma morada no Céu para Jesus Cristo; pôs um trono para Ele no Céu, para o qual Ele subiu depois de ressuscitar. Assim Cristo, quando ressuscitou do sepulcro, subiu para a altura do Céu, e muito mais acima que todos os céus, mas no final do dia do Evangelho vai descender de novo à Terra. Diz-se aqui que o Sol ao levantar-se “se alegra, como um herói, a correr o seu caminho”. Assim também Cristo, quando ressuscitou, levantou-Se como um homem de guerra, como o Senhor forte e poderoso, o Senhor poderoso na batalha. Jonathan Edwards, 1703-1758.



Vers. 5. Qual noivo que sai do seu tálamo; Cristo é o noivo, a natureza do homem a esposa, a conjunção e bem-aventurada união de ambos em uma pessoa no seu matrimónio. A melhor maneira de reconciliar duas famílias discordadas é fazer um matrimónio entre elas; assim, também, o Verbo Se fez carne e habitou entre nós no mundo para que pudesse desta maneira fazer a nossa paz, reconciliando Deus com o homem e o homem com Deus. O meu pecado é o Seu pecado, e a Sua justiça é a minha justiça. Aquele que não conheceu pecado, por mim foi feito pecado; e, em sentido inverso, apesar de não ter nada bom, sou feito justiça de Deus nEle. "The Works of JOHN BOYS," 1626, folio, pp. 791-798. An Exposition of Psalm XIX.



Vers. 6. E nada se furta ao seu calor. As vísceras da Terra estão cheias do produto antigo dos raios de Sol, e até as cavernas mais profundas do mundo hão sentido o seu poder. Ali onde se fecha o passo à luz, ainda há calor, e outras influências mais subtis penetram de todas formas.



O caminho da graça de Deus é sublime e largo e pleno da Sua glória; em todas as suas manifestações tem de ser admirado e estudado com diligência. Jesus, como o Sol, reside no meio da revelação, tendo o Seu tabernáculo entre os homens em todo o Seu resplendor; gozando-Se, como o Esposo da Sua igreja, para revelar-Se aos homens, e, como um campeão, conseguir renome para Si. Ele faz um circuito de misericórdia, abençoando os rincões mais remotos da Terra.



A Terra recebe o seu calor do Sol, e por meio da condução, uma parte do mesmo penetra a casca do nosso globo. Por convenção, outra porção é levada para a atmosfera e a aquece. Outra porção é radiada no espaço, segundo leis que não entendemos bem de todo ainda, mas que estão evidentemente relacionadas com a cor, a composição química, a estrutura mecânica das partes da superfície da Terra. Edwin Sidney, A.M., in "Conversations on the Bible and Science", 1866.



Não é só na cúpula das montanhas que se vê a luz de Cristo, como nos dias anteriores à Sua vinda e ressurreição plena, quando os Seus raios, ainda que invisíveis para o resto do mundo, rodearam de glória as cabeças dos profetas que O viram, porquanto que a quase totalidade da humanidade estava situado ainda por debaixo do horizonte. Agora, todavia, Ele tem subido e derrama a Sua luz por todo o vale, assim como sobre a montanha; nem há ninguém, pelo menos nestes países, que não capte alguns raios desta luz, excepto os que cavam e remexem os covis e se escondem nas cavernas do pecado.



Não só ilumina os entendimentos, mas também abranda e funde e aquenta o coração, de modo que este amará a verdade, e produzirá fruto, e amadurecerá o fruto que produziu; e isto tanto na planta mais humilde que se arrasta pelo chão como na árvore mais elevada.

Julias Charles Hare, M.A., 1841.



Vers. 7. A lei do Senhor é perfeita; por meio da qual não queremos dizer meramente a lei do Moisés, mas a doutrina de Deus, toda a extensão da Sagrada Escritura. Não há redundâncias nem omissões na Palavra de Deus e no plano da graça; por que, então, os homens procuram melhorá-la, se é perfeita? O Evangelho é perfeito em todas as suas partes, e perfeito como conjunto; é um crime acrescentar algo ao mesmo, uma traição alterá-lo, e um grave erro tirar algo dele.



Refrigera a alma. O grande meio da conversão de pecadores é a Palavra de Deus, e quanto mais perto nos mantivermos dela no nosso ministério, maiores garantias temos de triunfar na nossa empresa. É a Palavra de Deus, e não o comentário sobre a Palavra de Deus pelo homem, que tem poder sobre as almas.



Vers. 8. Os preceitos do Senhor são retos e alegram o coração. Nota o progresso; aquele que foi convertido, logo foi feito entendido, e agora é feito feliz; esta verdade faz reto o coração e logo dá gozo ao coração reto. C. H. S.



Que detestável é o descuido dos Cristãos que não se preocupam com a leitura da Santa Escritura e se entregam à leitura de outros livros! Quantas horas preciosas passam muitos, e não só nos dias da semana, mas também aos domingos, com novelas néscias, histórias fabulosas e poemas lascivos! E isto porque, senão que se alegram e deleitam com isso, quando o pleno gozo só se encontra nestes livros sagrados? Outros livros podem consolar-nos em casos de problemas externos, mas não contra os temores internos; podem alegrar a mente, mas não aquietar a consciência; podem animar e dar algumas faíscas de gozo, mas não podem aquecer a alma com o fogo permanente das consolações firmes.



Se Deus te dá alguma vez ouvido espiritual para julgar as coisas devidamente, vais reconhecer que não há campainhas como as de Aarão, nem harpa como a de David, nem trombeta como a de Isaías, nem flautas como as do apóstolo; e vais confessar com Petrus Damianus (Pedro Damião, 1007 — 1072) que os escritos dos oradores, dos filósofos e dos poetas pagãos, de que antes tanto gostava, agora são aborrecidos e monótonos em comparação com o consolo das Escrituras. Nathanael Hardy, D.D., 1618-1670.



Alumia os olhos. Tanto se o olho está nublado pela aflição como pelo pecado, a Escritura é um hábil oculista que deixa o olho claro e brilhante. Olha para o Sol, e faz-te fechar os olhos; olha para o que é mais brilhante que a luz do Sol, a luz da Revelação, e ilumina-te; a pureza da neve pode cegar o viajante alpino, mas a pureza da verdade de Deus tem o efeito contrário e cura a cegueira natural da alma. É bom observar de novo a gradação; o convertido torna-se um discípulo e logo uma alma que se regozija; assim se consegue um olho discernível, e como um homem espiritual discerne todas as coisas, ainda que ele mesmo não é discernido por ninguém.



Vers. 9. Permanece para sempre. Quando os governos das nações são comovidos por uma revolução e as antigas constituições são anuladas, é consolador saber que o trono de Deus fica inamovível e a Sua lei inalterada.



Vers. 10. Mais desejáveis são do que o ouro, sim, do que muito ouro fino. A metáfora consegue transmitir força pela maneira como é apresentada: ouro, ouro fino, muito ouro fino; é bom, melhor, o melhor, e portanto não é só desejável para a cobiça do avaro, mas muito mais que isto. Os homens falam de ouro sólido, mas o que há tão sólido como uma verdade sólida? Por amor ao ouro põe-se de lado o prazer, renuncia-se à comodidade e até se põe em perigo a vida; não estaremos dispostos a fazer outro tanto pelo amor à verdade? C. H. S.



E mais doces do que o mel e o licor dos favos. Nós não fazemos nenhuma diferença entre a delicadeza do mel no favo e o que está separado dele. De acordo com as informações do Dr. Halle, no que respeita à dieta dos mouros da Barbaria, aprendemos que eles estimam o mel como um muito saudável pequeno almoço, e que "o mel mais delicioso é o que está no favo com as abelhas jovens no mesmo, antes de saírem dos seus casulos, enquanto elas ainda se parecem brancas como leite". (Miscellanea Curiosa vol. iii. p. 382.) A distinção feita pelo salmista então é perfeitamente justa e conforme aos costumes e à prática, pelo menos dos mais modernos e, provavelmente, de igual modo dos antigos tempos. Samuel Burder, A.M., in "Oriental Customs," 1812.



Vers. 11. Também por eles é admoestado o teu servo. Certo judeu tinha concebido o plano de envenenar Lutero, mas foi frustado por um amigo fiel, que enviou a Lutero um retrato deste homem, advertindo-o contra ele. Deste modo, Lutero conheceu o suposto assassino e escapou das suas mãos. Do mesmo modo a Palavra de Deus, ó Cristãos, mostra o rosto dos desejos carnais que Satanás emprega para destruir os vossos consolos e envenenar a tua alma. G. S. Bowes, B.A., in "Illustrative Gatherings for Preachers and Teachers."



E em os guardar há grande recompensa. Há um pagamento, e é grande; ainda que nós não tiramos nada da dívida, conseguimos grandes benefícios da graça. C. H. S.



E em os guardar há grande recompensa. Nem só em guardá-los, mas, na manutenção dos mesmos, existe uma grande recompensa. A alegria, o descanso, o refrigério, o conforto, o conteúdo, os sorrisos, os rendimentos que gozam atualmente os santos, nos caminhos de Deus, são tão preciosos e gloriosos aos seus olhos, que não os trocam por dez mil mundos. Oh, se as gorjetas, as gratificações e os presentes são tão doces e gloriosos antes do dia do pagamento chegar, qual será aquela glória com que Cristo coroará os Seus santos com a sua coroa para lapidar o seu serviço em face de todas as dificuldades, quando ele disser ao Seu pai, "Eis-me aqui, com os filhos que me deu o SENHOR." (Is 8:18). Se há tantas coisas a serem feitas para se ter muito no deserto, o que será, então, feito no paraíso! Thomas Brooks.



Vers. 12. Quem pode entender os próprios erros? Aquele que se conhece melhor a si mesmo é o que conhece melhor a Palavra, mas inclusive este se assombrará em relação ao que não sabe, antes pelo contrário, no montão de felicitações, pelo que sabe. C. H. S.



Quem pode entender os próprios erros? Uma questão que é a sua própria resposta. A frase exige, antes, um ponto de exclamação, não um ponto de interrogação. Pela lei vem o conhecimento do pecado, e na presença da verdade divina, o salmista maravilha-se pela quantidade e odiosidade dos seus pecados. Ele conhece-se melhor a si próprio do que conhece a Palavra, mas mesmo esta será um labirinto maravilho para perguntar sobre o que ele não sabe, em vez de sobre o monte de felicitações, sobre o que ele sabe. Temos ouvido falar de uma comédia de erros, mas para um homem bom este é mais como uma tragédia. Muitos livros têm algumas linhas de errata no fim, mas a nossa errata pode muito bem ser tão grande como o volume se pudéssemos ter senso suficiente para vê-las. Agostinho escreveu nos seus remotos dias uma série de Retractations; a nossa poderia constituir uma biblioteca, se tivéssemos a graça suficiente de ser convencidos dos nossos erros e confessá-los. "Expurga-me tu dos que me são ocultos." Tu podes assinalar em mim as falhas totalmente escondidas de mim. Estou sem esperança de esperar ver todas as minhas manchas; por essa razão, ó Senhor, faz desaparecer, lavando no sangue expiatório, mesmo os pecados que a minha consciência não tem sido capaz de detetar. Pecados secretos, como os conspiradores, devem ser caçados, ou eles podem fazer danos letais, é bom estar muito em oração por eles. No Concilio de Latrão, da Igreja de Roma, foi aprovado um decreto em que todo o verdadeiro crente deve confessar os seus pecados, todos eles, uma vez por ano ao sacerdote, e se anexou esta declaração, que não há esperança de perdão, senão no cumprimento deste decreto. O que pode igualar o absurdo de um tal decreto como este? Será que eles supõem, que podem confessar os seus pecados tão facilmente como se podem contar os dedos? Por que, se pudéssemos receber perdão para todos os nossos pecados dizendo cada pecado que temos cometido numa hora, não existe um de nós que seja capaz de entrar Céu, uma vez que, além dos pecados que são conhecidos por nós e que nós possamos ser capazes de confessar, há uma vasta massa de pecados, que são tão verdadeiramente pecados como os pecados que nós lamentamos, mas que são secretos, e que não se vêm sob os nossos olhos. Se tivéssemos olhos como de Deus, nós deveríamos pensar de um modo muito diferente de como nós pensamos. As transgressões que nós vemos e confessamos, são como as pequenas amostras do agricultor que ele traz para o mercado, quando ele deixou o seu celeiro cheio em casa. Nós temos muito poucos pecados que podemos observar e detetar, em comparação com aqueles que estão escondidos, invisíveis de nós mesmos e dos nossos semelhantes.



Ninguém pode entender os seus erros quanto à sua profundidade e ao seu fundo. Neste ponto há duas coisas a considerar: 1) Uma concessão. 2) Uma confissão. As Escrituras afirmam que “Todos nós andámos desgarrados como ovelhas.” Cada homem por natureza é como uma árvore arrancada pela raiz, cujos frutos são comidos pelos vermes. O homem em si, na vida, é como um instrumento musical desafinado, que desafina em cada acorde. Ainda que os não entendamos, são muitos. Robert Abbot, 1646.



Se um homem não se arrepende, até que tem feito confissão de todos os seus pecados ao ouvido de um pai fantasma; se um homem não pode ter absolvição dos seus pecados até que os tem contado ao ouvido de um sacerdote, e posto que, diz David, ninguém pode entendê-los, e muito menos expressar todos seus pecados, ai!, não se sentirá um homem afastado do arrependimento por esta doutrina? John Bradford (Martyr), 1510-1555.



“O coração do homem é em extremo malvado, quem pode conhecê-lo?” Obadiah Sedgwick, 1660.



Não há aritmética que possa pôr número aos nossos pecados. Antes que cheguemos a contar até mil já cometemos dez mil mais. Thomas Adam



Expurga-me tu dos que me são ocultos. Os pecados secretos, como os conspiradores privados, devem ser procurados, ou podem causar danos irreparáveis; é bom orar muito a respeito deles. No Concilio de Latrão da Igreja de Roma foi aprovado um decreto pelo qual todo verdadeiro crente deve confessar os seus pecados, todos eles, pelo menos uma vez no ano; e acrescentaram ao decreto esta declaração: que não há esperança de perdão se não se cumprir este decreto. O que terá que possa comparar-se em absurdez a um decreto assim? Supõem que podem contar os seus pecados de modo tão fácil como contam os seus dedos? C. H. S.



Miserável homem que eu sou!” diz Paulo, “Quem me livrará?” Verdadeiramente, irmãos, o seu pecado não era pecado exterior, mas em casa; não exterior, mas dentro; não era o pecar de Paulo com os homens, mas o pecar de Paulo dentro de Paulo. Como Rebeca estava cansada, não devido a problemas exteriores, mas era dentro da sua própria casa que “as filhas de Het” lhe faziam vida penosa, do mesmo modo a irrupção privada e secreta da corrupção dentro de Paulo era a causa da sua turbação, que dava motivo ao seu desejo e exclamação: “Quem me livrá?” Obadiah Sedgwick, 1660.



A lei do Senhor é tão santa que é necessário orar pedindo perdão inclusivamente pelos pecados escondidos. (NOTA: Este foi um dos principais versículos referenciados pelos reformadores contra a confissão auricular dos Católicos Romanos.) T. C. Barth’s "Bible Manual." 1865.



Se aparecer num homem um pecado exterior há um ministro à mão, um amigo perto, ou outros reprovam-no, advertem-no e guiam-no; mas quando é ele mesmo o artífice dos seus desejos carnais, ele mesmo se priva de todo o remédio público e procura e arrisca-se a condenar a sua alma cobrindo os seus pecados secretos com supremo cuidado, com algum verniz plausível que possa produzir uma boa opinião nos demais a respeito dos seus caminhos. Obadiah Sedgwick, 1660.



Há um poema singular de Thomas Hood (1799–1845), chamado “Sonho de Eugene Aram”, um fragmento literário notável, que ilustra o ponto que tratamos. Aram assassinou um homem e lançou o seu cadáver ao rio, “de água quase parada, negro como a tinta, com enorme profundidade”. Na manhã seguinte, ele foi até a beira do rio onde havia cometido o crime:



E perscrutou o maldito redemoinho,

Com olho inquieto e receoso;

E viu o morto no fundo do leito,

Pois o fluxo da água secara.



Então ele tentou cobrir o corpo com um enorme montão de folhas, mas naquela noite um grande vento soprou naquela área, deixando o corpo completamente visível.



Então prostrei-me sobre o meu rosto,

E comecei a chorar cheio de desgosto.

Pois dava-me conta que a Terra

Se negava a guardar o meu segredo;

Nem na Terra ou nem no mar, nem que o escondesse

A dez mil léguas de profundidade.



Em acentos lamurientos profetiza o seu próprio descobrimento. Finalmente, ele enterrou a sua vítima numa caverna remota porém, anos mais tarde, o esqueleto foi descoberto; ele foi julgado pelo crime, e executado. O seu pecado tinha-o achado.



A hipocrisia é um jogo muito duro de jogar porque enfrenta a um enganador contra muitos observadores. Pecador secreto!, se te falta ter uma antecipação da condenação sobre a Terra; persiste nos teus pecados secretos; porque nenhum homem é mais desgraçado do que o que peca secretamente e continua tentando preservar a sua fama. O cervo açoitado por sabujos com as fauces espumantes, é muito mais feliz que o homem que é açoitado pelos seus pecados. Spurgeon’s Sermons (N.º 116), on "Secret Sins."



Que Satanás nos tente é como prender fogo a lenha seca, que logo arde; os nossos corações acendem-se com a primeira faísca que cai; como um copo que está a ponto de transbordar, à menor sacudidela, derrama-se. E por isso ocorre que muitas vezes as tentações pequenas e as ocasiões corriqueiras dão motivo a grandes corrupções; como um copo que está cheio de licor novo, facilmente produz espuma. Ezequiel Hopkins



A Escritura ordena frequentemente o dever de esquadrinhar, provar, examinar e estar em contacto com nossos corações. Anthony Burgess, 1656.



Vers. 12, 13. Quem pode entender os próprios erros? Expurga-me tu dos que me são ocultos. Também da soberba guarda o teu servo, para que se não assenhoreie de mim; então serei sincero e ficarei limpo de grande transgressão. Aquele que quer pecar, quando tem pecado dirá, não para fortalecer a sua alma contra Satanás, mas para adular-se a si mesmo no seu pecado, que não é mais que uma debilidade; mas, que eu saiba, pode ir para o Inferno pelas suas debilidades.



David não diz “limpa”, mas “preserva” o teu servo da insolência, ou seja, do pecado de presunção. Podemos, pois, manter-nos à distância. Obtém o perdão diariamente. A menos que sejas preservado deles, estes pecados vão ter domínio sobre ti. Segue, logo, “então serei irrepreensível”; de modo que o homem em quem o pecado ou pecados de presunção não têm domínio é um homem recto. Richard Capel



Vers. 13. Preserva o teu servo. É uma cruz para o homem mau ser restringido do pecado e é um gozo do bom homem o ser afastado do pecado. Um homem mau é afastado do pecado como um amigo de outro amigo, como um amante da sua amada, com afetos unidos e projetos de reunir-se outra vez; mas um bom homem é preservado do pecado como um homem do seu inimigo mortal, cuja presença aborrece e com desejos de que seja destruído. A desgraça do bom homem é que tem um coração que tem de ser mais dominado; o descontentamento e aflição do homem mau é que em todo tempo seja retido por uma corda e uma brida. Obadiah Sedgwick, 1660.



Não é a nossa graça, a nossa oração nem a nossa vigilância o que nos guarda, mas é o poder de Deus, a Sua dextra, que nos apoia. Anthony Burgess, 1656.



Deus guarda os Seus servos de pecar: 1) Por meio da graça preservadora; 2) Por meio da graça ajudadora; 3) Por meio da graça avivadora; 4) Por meio da graça diretiva, e 5) Por meio da graça activa. Condensed from Obadiah Sedgwick., 1660.



Dos pecados de presunção. “Também da soberba guarda o teu servo” (ARC, Pt) Os pecados de presunção são perigosos de um modo especial. É notável que ainda que fosse provida uma expiação para toda a classe de pecado, na lei judaica há uma só excepção: “Mas a alma que peca por presunção, não terá expiação; será cortada do meio de meu povo.” Os pecadores por presunção morrem sem perdão, têm de esperar receber uma dupla porção da ira de Deus e uma porção mais terrível do castigo eterno na fossa cavada para os maus. C. H. S.



Os rabinos distinguem todos os pecados em cometidos por ignorância e em cometidos por presunção. Benjamin Kennicott, D.D., 1718-1783.



Quando o pecado começa a passar de um ato a um deleite, do deleite a novos atos, da repetição de atos pecaminosos a uma indulgência no vício, a um hábito e costume e a uma segunda natureza, de modo que tudo o que toca é gravoso e fere o coração do homem; quando tem chegado ao lugar de Deus e requer ser amado com toda a força, faz retirar a graça e os demais vícios prestam-lhe homenagem, exige que tudo seja sacrificado ao mesmo e ser servido com a reputação, a fortuna, o corpo e a alma do homem, até a perda irreparável do seu tempo e da sua eternidade, quando chega a esta altura no seu domínio, então o pecado passa a ser “excessivamente pecaminoso”. Adam Littleton



David pede que Deus o preserve dos pecados de presunção, dos pecados conhecidos e evidentes, tais como os que procedem da eleição da vontade perversa contra a mente iluminada. Alexander Cruden



Que não se assenhoreie de mim. Todo o pecado, ainda que seja pequeno, pode acabar dominando o pecador e derrotá-lo com o tempo, mas o pecado de presunção causa uma grande alteração no estado da alma imediatamente, e num só ato avança de modo terrível, debilita o espírito e dá uma vantagem imensa à carne, inclusivamente até ao ponto de uma conquista completa. Robert Sanderson (Bishop of Lincoln), 1587-1662-3.


David ora primeiro: “Expurga-me tu dos que me são ocultos, referindo-se aos pecados, causados pela ignorância, e logo ora pelos de presunção, que, como mostra a oposição entre os outros, são pecados de conhecimento; porque diz: “que não se assenhoreie de mim; então serei irrepreensível e ficarei livre de grave delito”, isto é, este pecado imperdoável não deve ser esquecido nunca. Porque para cometer este pecado há duas coisas que são necessárias: luz na mente e malícia no coração; não só malícia, mas também luz. Thomas Goodwin



Felizes as almas que, sob um sentimento de paz, por meio do sangue de Jesus, oram diariamente para ser conservadas pela graça de Deus. Estas conhecem-se verdadeiramente, vêem o seu perigo de cair, não querem, não se atrevem a paliar ou a minorar a odiosa natureza e a deformidade de seu pecado. Não querem dar um nome mais suave ao pecado que o que ele merece, para não desprezar o valor infinito do precioso sangue que Jesus derramou para expiar a sua culpa. Ai!, o santo mais exaltado, o crente mais estabelecido, se se deixa a ele mesmo, logo vai cometer os pecados mais horríveis, os pecados de presunção, que acabarão dominando-o. William Mason, 1719-1791, in "A Spiritual Treasury for the Children of God."



Então serei sincero e ficarei limpo de grande transgressão. David treme ante a ideia de ter cometido o pecado imperdoável. O pecado secreto é uma passarela para o pecado de presunção, e este é o vestíbulo do “pecado que é para a morte”. O que tenta ao diabo a que o tente, está no caminho que o levará de mal a pior, e assim mais e mais. C. H. S.


Ocorre nos movimentos de uma alma tentada a pecar como nos movimentos de uma pedra que cai pela ladeira de uma colina: ao princípio é fácil de deter, mas uma vez tendo adquirido ímpeto, quem a vai deter? E, portanto, a maior sabedoria do mundo é observar os primeiros movimentos do coração, para frená-lo e detê-lo. G. H. Salter



Grande transgressão. Tem muito cuidado com todos os pecados; mas acima de tudo tem especial cuidado naqueles pecados que se aproximam do pecado contra o Espírito Santo; e estes são: hipocrisia, fazer só uma profissão externa da religião, e deste modo fingir e burlar-se de Deus; pecar voluntariamente contra a convicção da consciência, e contra uma grande luz e conhecimento, pecar por presunção. Estes pecados, ainda que nenhum deles é um pecado directo contra o Espírito Santo, entretanto aproximam-se do mesmo. Robert Russel, 1705.



Vers. 14. Sejam agradáveis as palavras da minha boca e a meditação do meu coração perante a tua face, Senhor, Rocha minha e Libertador meu! As palavras da boca são uma brincadeira se o coração não as meditar. C. H. S.



Mas, Senhor, o que são as minhas palavras?, o que são os meus pensamentos? Uns e outros são maus; o meu coração, uma fonte de corrupção, e a minha língua, uma corrente poluída; e vou apresentar um sacrifício assim a Deus? O animal coxo, ou cego, por mais que noutros aspectos fossem limpos, eram sacrifícios abomináveis a Deus; quanto mais se nós oferecermos animais que são imundos? E, contudo, Senhor, o meu sacrifício não é melhor: palavras vacilantes, pensamentos errantes; nem uns nem outros são apresentáveis perante Ti; quanto menos os pensamentos maus, as palavras ociosas! Contudo, isto é o melhor que tenho. Há remédio? Se é que existe, está em Ti, oh Senhor, é em Ti que devo buscá-lo e por isso o estou procurando em Ti. Tu só, oh Senhor, podes santificar a minha língua; santifica o meu coração para que a minha língua possa dizer, e o meu coração pensar, o que é aceitável diante de Ti, sim, o que possa causar-Te deleite. Arthur Lake (Bishop), in "Divine Meditations," 1629.

Tradução de Carlos António da Rocha

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