… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

terça-feira, 4 de abril de 2017

SALMO 22


C. H. Spurgeon
 O Tesouro de David
 SALMO 22
TITULO: Aijeleth-hash-Shaar. O título do Salmo 22 é “Aijeleth-hash-Shaar”: o cervo matutino. Todo o Salmo se refere a Cristo, e contém muitas coisas que não podem ser aplicadas a outro: repartir os vestidos, lançar as sortes sobre eles, etc.



É descrito como um cervo formoso, terno, manso, assustado pelos caçadores na alba do dia. Herodes começou caçando-O logo que Ele apareceu. A pobreza, o aborrecimento dos homens e a tentação de Satanás acrescentaram-se à perseguição. Sempre houve algum “cão” ou “touro” ou “unicórnio” disposto a atacá-Lo. Depois do Seu primeiro sermão, os caçadores juntaram-se ao Seu redor, mas Ele foi mais ligeiro e escapou-Se-lhes.



Cristo achou o Calvário, que era uma colina penhascosa, rasgada e terrível, “uma montanha de divisão”. Daí foi acossado pelos caçadores para o bordo dos espantosos precipícios da iminente destruição, quanto O rodeavam e O açulavam as bestas de rapina e os monstros da selva infernal. O “unicórnio” e “fortes touros de Bazan” feriram-nO com os seus chifres; o grande “leão” rugiu, e o “cão” filou sobre Ele os seus dentes.



Mas Ele livrou-Se deles. A seu tempo inclinou a cabeça e entregou o Seu espírito. Foi enterrado numa sepulcro e os Seus atacantes consideraram que a vitória deles era completa. Não tinham considerado que era o “cervo matutino”. Sem dúvida alguma, no Seu devido tempo Ele escapou-Se da rede do caçador e pôs as plantas dos Seus pés sobre os montes de Israel, vivo, para jamais morrer.



Agora, está com Maria Madalena no Jardim, dando evidências da Sua própria ressurreição; num momento acha-Se no caminho de Emaús, animando aos discípulos, desconcertados e tímidos. Não Lhe custa nada ir desde ali até à Galileia, para os Seus amigos, e de novo ao monte das Oliveiras, “aos Montes das especiarias”, levando Consigo a alba matutina, vestida de vida e de formosura para sempre. Christmas Evans, 1766-1838.



TEMA: Este é, muito mais que todos os outros salmos, “o Salmo da Cruz”. É possível que o nosso Senhor o repetisse realmente, palavra por palavra, quando estava pendurado na Cruz; seria muito ousado afirmar que isto teve lugar, mas até o leitor casual não pode pelo menos interrogar-se se isto não foi assim. Começa com “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”, e termina, segundo alguns, no original, com “Consumado é”. Para encontrarmos expressões de gemidos que se elevam das profundidades inexprimíveis do sofrimento, podemos dizer que não há nenhum Salmo como este.



É a fotografia das horas mais tristes da vida do nosso Senhor, o testemunho das Suas palavras ao morrer, o vaso que recolhe as Suas últimas lágrimas, a lembrança dos Seus gozos ao expirar. David e as suas aflições podem achar-se aqui, num sentido muito modificado, mas, assim como a estrela desaparece ante a luz do Sol, aquele que vê a Jesus, provavelmente nem tão pouco pensará em buscar a David.



Ante nós temos uma descrição das trevas e da glória da Cruz, dos sofrimentos de Cristo e da glória que se seguiu depois deles. Oh, se tivéssemos graça para poder aproximamos e contemplar esta grande visão! Leríamos com reverência, descalçávamo-nos como Moisés ante a sarça ardente, porque se há um lugar santo, em algum ponto da Escritura, é neste Salmo. C. H. S.



Vers. 1. Deus meu, Deus meu. Lancemos um olhar com santo assombro e notemos os brilhos de luz entre as horríveis trevas deste meio-dia, meia-noite. Primeiro, a fé de nosso Senhor requer a nossa reverente imitação; Ele prossegue agarrado ao Seu Deus com ambas as mãos e grita duas vezes: Deus meu, Deus meu! O espírito de adoção era forte dentro do Filho do Homem que sofria, e não tinha dúvidas do Seu interesse no Seu Deus. Oh, se nós pudéssemos imitá-Lo neste aderir a um Deus que nos aflige! E o que sofre não desconfia do poder de Deus para o sustentar, porque o título que usa -”EL”-, significa força e é o nome do Deus omnipotente.



Por que te alongas das palavras do meu bramido, e não me auxilias?, ou noutra versão, Por que me tens desamparado? Temos de pôr ênfase em cada uma das palavras desta frase, que é a mais triste de todas as expressões. (Spurgeon usa a versão King James que diz “Why hast thou forsaken me?”)



Por que? Qual é a grande causa deste estranho ato, que Deus abandone o Seu próprio Filho num momento de aflição tão intensa? Não há causa nEle; por que, pois, O desamparou?



Tens. É algo que teve lugar, e o Salvador está sentindo o seu efeito quando faz a pergunta; sem dúvida é verdadeira, por mais que seja tão misteriosa! Não era uma “ameaça” de ser desamparado o que O faz clamar à grande Segurança; Ele está sofrendo este desamparo com toda a certeza.



Tu. Posso entender por que Judas, o traidor e o tímido Pedro não se encontravam ali, mas que Tu, meu Deus, meu fiel Amigo, Me tenhas abandonado! Isto é o pior de tudo, sim, pior que todo o resto juntamente. O próprio Inferno mesmo tem como a sua pior chama a separação da alma de Deus.



Desamparado. Se Tu me tivesses afligido poderia sofrê-lo, porque a Tua face resplandeceria; mas o abandonares-me totalmente, ah!, por quê?



A mim. Teu Filho inocente, obediente, sofredor, por quê abandonares-me quando estou perecendo? A própria ideia de alguém submetido à penitência, e a visão de Jesus na Cruz, vista pela fé, podem explicar-nos melhor esta pergunta. Jesus é desamparado porque os nossos pecados se hão interposto entre nós e o nosso Deus. C. H. S.

Por quê? Não o porquê da impaciência ou do desespero, não o perguntar pecaminoso de alguém cujo coração se rebela contra a Sua disciplina, mas antes o de um filho perdido que não entende por que Seu Pai O deixou, e que anela ver o rosto de Seu pai de novo. J. J. Stewart Perowne.



Oh!, como se fundem de amor os nossos próprios corações quando recordamos, como nos afligimos nós por nossos pecados contra Ele; quanto maiores, eram as Suas agonias por nós! Temos sofrido fel e absinto, mas Ele bebeu de uma taça mais amarga. A ira de Deus secou os nossos espíritos, mas Ele foi abrasado com ira flamejante.



Esteve submetido a uma dor violenta no horto e na Cruz; a pena que sentiu foi inexprimível ao ser abandonado por Seu Pai, deixado pelos Seus discípulos, ultrajado e reprovado pelos Seus inimigos, e feito maldição por nós. Este Sol encontrava-Se sob um eclipse, este Senhor vivo estava morrendo, e a Sua morte ocorreu sob o cenho de um Deus irado. Timothy Rogers



Vers. 2. Deus meu, eu clamo de dia, e tu não me ouves. Que pareça que as nossas orações não são respondidas não é uma tribulação nova. Jesus sentiu o mesmo diante de nós, e pode ser observado que apesar disso permaneceu firme na Sua confiança em Deus, e clamou: Deus meu! Por outro lado, a Sua fé não O fez menos insistente, porque no meio do horror daquele dia espantoso não cessou no Seu clamor, tal como no Getesêmane tinha sofrido agonias durante a noite.



O nosso Senhor prosseguiu orando, ainda que não Lhe chegasse nenhuma resposta, e nisto dá-nos um exemplo, para a obediência, com as Suas próprias palavras de que os homens têm “o dever de orar sempre, e nunca desfalecer.” Nem a luz do dia é muito deslumbrante, nem a noite é muito escura, para eles deixarmos de orar; nem qualquer demora ou negativa aparente, por dolorosa que seja, nos deveria tentar a abster-nos donosso insistente rogo. C. H. S.



Vers. 2, 3. Deus meu, eu clamo de dia, e tu não me ouves; de noite, e não tenho sossego. Porém tu és Santo, o que habitas entre os louvores de Israel. Aqueles que têm água canalizada, que é levada às suas casas, se a água não lhes chegar às torneiras, chegam à conclusão de que os canos se obturaram ou romperam, mas não a fonte. Se a oração não dá resultado, temos de estar seguros de que a falta não está em Deus, mas em nós; se nós estivéssemos amadurecidos para a misericórdia, Ele estaria disposto a no-la fazer chegar, e Ele até está esperando com este propósito. John Trapp.



Vers. 3. Porém Tu és santo, tu que habitas entre os louvores de Israel. Se não podermos ver nenhum motivo para a dilação na resposta à oração, temos de deixar o enigma por resolver, mas não temos de fugir do rosto de Deus a fim de inventarmos outra resposta. O argumento é: Tu és santo; Oh!, por que desamparas o Teu santo nesta hora de suprema angústia? Não podemos pôr em dúvida a santidade de Deus, mas que temos de a considerar e de a usar como uma base nas nossas petições. C. H. S.



Aqui temos o triunfo da fé: o Salvador manteve-Se como uma rocha no largo oceano da tentação. Por mais que as ondas se levantassem, do mesmo modo Se levantou a Sua fé, como uma rocha de coral, que cresce e se faz forte, até que passou a ser uma ilha de salvação para as nossas almas em naufrágio. É como se tivesse dito: “Não importa O que tenho de sofrer. As tempestades podem rugir sobre Mim, os homens podem desprezar-Me, os demónios tentar-Me, as circunstâncias enrolar-Me, e Deus desamparar-Me; contudo, Deus é santo, não há injustiça nEle.” Christ on the Cross: An Exposition of the Twenty-second Psalm. By the Rev. JOHN STEVENSON, Perpetual Curate of Curry and Gunwalloe, Cornwall. 1842.



Parece estranho que o coração nas trevas e na dor ache consolo neste atributo de Deus? Não, porque a santidade de Deus não é mais que outro aspeto da Sua fidelidade e da Sua misericórdia. E neste nome notável, “O Santo de Israel”, que nos é ensinado que Ele, que é o santo Deus é também o Deus que tem feito pacto com os Seus escolhidos. J. J. Stewart Perowne



Ainda que as tentações fossem mais negras, a fé não fará o menor caso de uma má palavra dita contra Deus, mas que sempre justificará a Deus. David Dickson



Vers. 4. Em ti confiaram nossos pais; confiaram, e tu os livraste. Esta é a regra da vida para toda a família escolhida. É mencionada três vezes, confiaram, confiaram e confiaram, e nunca deixaram de confiar, porque era o seu modo de vida; e as coisas lhes correram bem também, porque Tu os livraste.



A experiência de outros santos pode ser uma grande consolação para nós quando estamos nas águas profundas; sim, a fé pode estar segura de que vamos receber libertação; mas quando sentimos que nos afundamos, é um consolo muito pobre ver que outros estão nadando.



O uso do pronome plural nossos mostra-nos quão unido que Se achava Jesus com o Seu povo, até mesmo, na Cruz. Dizemos: “Pai nosso que estás nos céus”, e Ele chama “nossos pais” àqueles pelos quais chegamos ao mundo, ainda que Ele não tinha pai na carne.



Vers. 6. Mas eu sou verme, e não homem. Este versículo é um milagre da linguagem. Como podia o Senhor da glória chegar a uma submissão tão grande, para não só ser inferior aos anjos, mas, também inferior aos homens? Que contraste entre “EU SOU” e “eu sou um verme”!; contudo, esta dupla natureza foi achada na Pessoa de nosso Senhor Jesus quando sangrava no madeiro.



Ele sentiu-Se comparável a um verme, inerme, impotente, pisado por todos, passivo, quando era esmagado e desprezado pelos que o pisavam. Selecciona a mais humilde das criaturas, que é toda carne, e que quando é esmagada, é uma massa que se retorce, privada de todo o poder, excepto de força para sofrer.



Esta era a Sua verdadeira semelhança a um verme, quando o Seu corpo e a Sua alma haveriam de passar a ser uma massa de miséria - a mesma essência da agonia - nas dores agónicas da crucificação. O homem, por natureza, não é mais que um verme; mas nosso Senhor pôs-Se por debaixo dos homens, por causa do desprezo que Se amontoou sobre Ele e da debilidade que sentiu, e portanto acrescenta: e não homem. C. H. S.



Ele que veio para realizar a grande obra da nossa redenção, cobriu e escondeu a Sua divindade dentro do verme da Sua natureza humana. A grande serpente da água, o Leviatã, o diabo, pensando engolir o verme de Sua humanidade, ficou preso no anzol da Sua divindade. Este anzol ficou cravado nas suas fauces, e rasgou-as. Pensando destruir Cristo, destruiu o seu próprio reinado e perdeu o seu próprio poder, para sempre. Lancelot Andrewes



Assim, pisado, maltratado, esbofeteado e cuspido, mofado e atormentado, parece ser mais um verme que um homem. Foi tão grande o desprezo que sofreu o Senhor da Majestade, que a Sua confusão pode ser a nossa glória; o Seu castigo, a nossa bem-aventurança celestial! Sem cessar temos de imprimir este espectáculo na nossa alma! Dionysius, citado por Isaac Williams.



Vers. 7. Todos os que me vêem zombam de mim, estendem os lábios e meneiam a cabeça. Os sacerdotes e o povo, os judeus e os gentios, os soldados e os civis, todos se uniram na sua mofa geral, e isto no momento em que Ele Se achava prostrado na debilidade e a ponto de morrer. Do que temos de nos maravilhar mais, da crueldade do homem ou do amor do Salvador sangrento? Como podemos queixar-nos alguma vez de sermos ridicularizados, depois disto?



Os homens fazem caretas Àquele diante de Quem os anjos cobrem o seu rosto e adoram. As formas mais baixas de desdém foram-Lhe aplicadas maliciosamente. C. H. S.



Imaginemos a espantosa cena. Contemplemos esta matizada multidão de ricos e pobres, de judeus e gentios! Alguns reunem-se em grupos e olham. Alguns reclinam-se sobre o chão para olhar com calma. Outros movem-se ao redor com evidente satisfação ante o sucesso. Há um olhar de satisfação em todos os rostos. Nenhum está silencioso. A rapidez do seu bate-papo parece-lhes lenta. O tema é muito importante. Todos falam ao mesmo tempo



Os rudes soldados também estão ocupados à sua maneira. A obra de sangue terminou. Agora é a hora dos refrescos. E alguns, satisfeitos, aproximam-se da Cruz e oferecem ao Salvador um pouco de vinagre e água, e dizem-Lhe que beba, mas retiram-lho (Lc 23:36). Sabem que há-de de sofrer uma sede intensa, e que com isso agravam a brincadeira do refrigério.



Cruéis romanos!, regicidas judeus! Não basta com a morte? É necessário acrescentar a brincadeira e o escárnio? Neste triste dia Cristo congregou-os. Uma unidade horrível, constituída por gozadores e assassinos do Senhor da glória! Christ on the Cross: An Exposition of the Twenty-second Psalm. By the Rev. JOHN STEVENSON, Perpetual Curate of Curry and Gunwalloe, Cornwall. 1842.



Vers. 8. Confiou no SENHOR, que o livre; livre-o, pois nele tem prazer. Aqui há a repreensão dirigida cruelmente à fé em Deus daquele que sofre, que é o ponto mais terno da alma de um homem bom, a própria menina do seu olho. Eles devem ter aprendido esta arte diabólica do próprio Satanás, ao mostrar assim este estranho aproveitamento.



Vers. 9. Mas tu és o que me tiraste do ventre. O estado humilde de José e de Maria, longe dos seus amigos e do lar; levou-os a ver a mão de Deus no parto feliz da mãe e no nascimento do Menino; este Filho está agora lutando a grande batalha da Sua vida, usando a misericórdia da Sua natividade como um argumento ante Deus. A fé acha armas por toda a parte; o que quer crer, nunca carecerá de razões para fazê-lo. C. H. S.



Fizeste-me confiar, estando aos seios de minha mãe. Era nosso Senhor desde logo um crente? Foi Ele um destes meninos de cujas bocas é ordenada força? Assim o parece; e se assim é, que base para a nossa ajuda! A piedade primitiva dá um consolo peculiar depois das provas, porque sem dúvida Aquele que nos amou quando éramos meninos é muito fiel para nos guardar nos nossos anos de velhice. C. H. S.



Vers. 10. Sobre ti fui lançado desde a madre; tu és o meu Deus desde o ventre de minha mãe. O nosso nascimento é o momento mais débil e perigoso da existência; se então estávamos seguros na ternura do Omnipotente, sem dúvida não temos motivo agora para suspeitar de que a bondade divina nos vai faltar. Aquele que era o nosso Deus quando deixámos a nossa mãe, estará connosco até que voltemos para a mãe terra, e nos guardará de perecer no Inferno.



Vers. 12. Muitos touros me cercaram; fortes touros de Bazan me rodearam. Os poderosos na multidão são marcados aqui, notados pelo olho cheio de lágrimas da Sua vítima. Os sacerdotes, os anciãos, os fariseus, os escribas, os capitães, rugiam ao redor da Cruz como animais selvagens, alimentados nos pastos solitários de Bazan, cheios de força e vigor; todos pisoteiam, espumando das suas bocas, contra o Inocente, e desejam feri-Lo de morte com as suas crueldades. Temos de conceber o Senhor Jesus como um homem inerme, nu, lançado para o meio de uma manada de touros selvagens furiosos. C. H. S.



Vers. 12, 13. Muitos touros me cercaram; fortes touros de Bazan me rodearam. Abriram contra mim suas bocas, como um leão que despedaça e que ruge. Bazan é um território fértil (Nm 32:4), e o gado que pasta nestes prados é gordo e forte (Dt 32:15). Como eles, os judeus naquela terra “engordando-se” deu coices”, ou noutra versão,engordaram e escoicearam”, tornando-se orgulhosos e rebeldes; esquecendo-se de (ou deixando a) Deus “que o fez, e desprezou a Rocha da sua salvação”. George Horne



Vers. 14. Como água me derramei; isto é, nas ideias dos Meus inimigos, estou completamente destruído. “Porque certamente morreremos, e seremos como águas derramadas na terra, que não se ajuntam mais” (2Sm 14:14). “Que maravilha”, diz S. Bernardo, “que o nome do Esposo seja como unguento emanado, quando Ele mesmo, pela grandeza do seu amor, foi derramado como água!” J. M. Neale’s Commentary



Todos meus ossos se desconjuntaram. O potro funcionava como um aparelho de tortura horrível. E a Cruz era um potro no qual Ele foi distendido, diz o Salmo, até que os Seus ossos foram desconjuntados. Mas ainda, o ter Ele estado pendurando durante três longas horas, com os braços estendidos, há-de ter sido uma dor incrível.



As mãos e os pés estavam cravados (uma parte do corpo extremamente sensível, por causa dos tendões que há nelas), pelo que a Sua dor tinha de ser impossível de medir. Lancelot Andrewes



O meu coração é como cera, derreteu-se no meio das minhas entranhas. O Dr. Gill observa: “Se o coração de Cristo, o Leão da tribo de Judá, Se fundia, que coração pode resistir ou que mãos podem suportar, quando Deus trate com elas, na Sua ira?”



Vers. 16. Pois me rodearam cães. Os caçadores com frequência rodeiam a sua presa num círculo e gradualmente vão-no estreitando, aproximando-se dela cães e homens. Este é o quadro que temos diante de nós. No centro acha-se, não um cervo adulto ofegante, mas um homem sangrento, desfalecente, e ao seu redor os enraivecidos e impiedosos patifes estão executando a Sua sentença. Aqui temos o “cervo da manhã”, de quem o Salmo canta tão lamentosamente, caçado pelos sabujos, todos sedentos de O devorar.



O ajuntamento de malfeitores me cercou. Deste modo o povo judeu foi excomungado, e o que se chamava a si mesmo uma assembleia de justos, fica marcado na sua fronte como uma assembleia de malvados. Esta não é a única ocasião em que as Igrejas que professam ser de Deus se tornaram sinagogas de Satanás e perseguiram o Santo e o Justo. C. H. S.



Traspassaram-me as mãos e os pés. Para o Filho de Deus foi terrível o ser atado; mais o ser açoitado; mais ainda que Lhe dessem a morte; mas o que diremos do ser crucificado? Esta é a morte mais vil e ignominiosa; foi uma morte cruel e maldita, que Ele não Se negou a aceitar; e aqui temos um claro testemunho em favor da Sua Cruz. John Trapp



A separação das fibras das mãos e dos pés, a laceração dos nervos, o estalar de tantos vasos sanguíneos, deve ter produzido uma agonia intensa. Os nervos das mãos e dos pés estão unidos, mediante o braço e a perna, com os nervos de todo o corpo; a laceração há-de ter sido sentida por todo o corpo. Pensemos na dor que nos produz a picada de uma agulha num nervo remoto. Um espasmo raramente não é por isso produzido nos músculos da cara, que unem as mandíbulas inseparavelmente.



Quando, portanto, as mãos e os pés do nosso Senhor foram perfurados com pregos, teve de haver sentido dores muito agudas em todo o Seu corpo. Apoiado só em Seus membros, lacerado e suspenso pelas mãos perfuradas, nosso Senhor esteve sofrendo quase seis horas de tortura. John Stevenson



Vers. 17. Poderia contar todos os meus ossos. Ah, se nos preocupássemos menos com o desfrute e solaz do nosso corpo e mais dos negócios de nosso Pai! Seria melhor que contássemos os ossos de um corpo extenuado, que ser causa de que as nossas almas sejam pobres.



Eles vêem e me contemplam. Ruborizemos pela natureza humana, e sintamos simpatia ante a vergonha do nosso Redentor. O primeiro Adão tornou-nos a todos nus, e portanto o segundo Adão despiu-Se para poder vestir as nossas almas nuas. C. H. S.



Oh, quão diferente é o olhar do pecador despertado dirigido para o Calvário quando a fé faz elevar o olho para o Agonizante que sangra pelo culpado! E que gratidão deveriam sentir os homens que perecem pelo facto de que dAquele que pende do madeiro maldito procedem as palavras do convite: “Olhai para Mim, e sereis salvos, vós, todos os termos da terra; porque Eu sou Deus, e não há outro.” (Is 45:22) John Morison



Vers. 18. Repartem entre si as minhas vestes, e lançam sortes sobre a minha roupa. Deve-se notar-se que o hábito do jogo é de todos que o homem possui o mais inveterado, porque os homens podiam praticá-lo até ao pé da Cruz, manchados pelo sangue do Crucificado. Não há Cristão que possa resistir ao ruído do jogo de dados quando pensa nisto. C. H. S.



Por trivial que possa parecer este aco de lançar sortes sobre a túnica do Senhor, é muito significativo. Tem uma dupla lição. Ensina-nos o valor que se dava a uma túnica sem costura; o pouco valor em que se considerava Aquele a quem ela pertencia. Parece dizer: o vestido é mais valioso que o Seu dono. Como se disse das trinta peças de prata: “Um bom preço em que o avaliaram”; assim podemos ver, pelo facto das sortes, em quão pouco valor tinham a Cristo. John Stevenson



Vers. 21. Salva-me da boca do leão. Satanás é chamado leão, e é apropriado; porque ele tem todas as características do leão: é atrevido, forte, furioso, terrível como um leão rugiente. Sim, mas há mais: o leão carece de subtileza e suspicácia; aqui o demónio está mais à frente do que o leão. O leão desdenha atacar ao prostrado; o diabo aproveita-se disso.



O leão, quando está farto, não caça; o diabo está farto e devora. Tudo busca; que o simples não diga: “Não se fixará em mim”; nem o ardiloso: “Não me poderá caçar”; nem o nobre: “Não se atreverá comigo”; nem o rico: “Não quererá haver-se comigo”; porque ele procura e devora a todos. Ele é o nosso adversário comum; portanto, deixemos de ter lutas entre nós e lutemos contra ele. Thomas Adams

Vers. 22-31. Então declararei o teu nome aos meus irmãos: louvar-te-ei no meio da congregação. Vós, que temeis ao Senhor, louvai-o; todos vós, descendência de Jacob, glorificai-o; e temei-o todos vós, descendência de Israel. Porque não desprezou nem abominou a aflição do aflito, nem escondeu dele o seu rosto; antes, quando ele clamou, o ouviu. O meu louvor virá de ti na grande congregação: pagarei os meus votos perante os que o temem. Os mansos comerão e se fartarão; louvarão ao Senhor os que o buscam: o vosso coração viverá eternamente. Todos os limites da terra se lembrarão, e se converterão ao Senhor: e todas as gerações das nações adorarão perante a tua face. Porque o reino é do Senhor, e ele domina entre as nações. Todos os grandes da terra comerão e adorarão, e todos os que descem ao pó se prostrarão perante ele: como, também, os que não podem reter a sua vida. Uma semente o servirá: falará do Senhor, de geração em geração. Chegarão e anunciarão a sua justiça ao povo que nascer, porquanto ele o fez. A transição é muito marcada; uma horrível tempestade deu lugar à bonança. A escuridão do Calvário finalmente passou da fisionomia da natureza e da alma do Redentor e, contemplando a luz do Seu triunfo e dos seus resultados futuros, o Salvador sorri.



Vers. 22. Então declararei o teu nome aos meus irmãos. Entre as primeiras palavras depois da Sua ressurreição estão estas: “Ide a meus irmãos”. No versículo que temos diante de nós, Jesus antegoza a felicidade ao comunicar-Se com o Seu povo; propõe-Se ser o Seu professor e ministro, e prende-lhes as mentes para o tema de Seu discurso. Podemos aprender desta resolução do nosso Senhor que um dos métodos mais excelentes de mostrar o nosso agradecimento pelas nossas libertações é contar aos nossos irmãos o que o Senhor tem feito por nós. Mencionamos as nossas aflições com muita frequência; por que somos tão lentos em declarar as nossas libertações? C. H. S.



Meus irmãos. Isto dá-nos a evidência da condescendência do Filho de Deus, e também da grande exaltação dos filhos dos homens; que o Filho de Deus seja irmão dos filhos dos homens é uma grande humilhação, e que os filhos dos homens sejam feitos irmãos do Filho de Deus é um alto grau de exaltação; porque os irmãos de Cristo são neste sentido filhos de Deus, herdeiros da salvação, ou seja reis, não ligados às coisas da terra, mas celestiais; não temporários, mas reis eternos... Este respeito de Cristo pelos Seus irmãos é um grande alento e consolo para os que são desprezados e escarnecidos pelos homens deste mundo por causa da sua fé em Cristo. William Gouge, D.D. (1575-1653), in “A Commentary on the whole Epistle to the Hebrews.” [Reprinted in Nichol’s Series of Commentaries.]



Vers. 24. Porque não desprezou nem abominou a aflição do aflito. É certo que a justiça exigia que Cristo levasse a carga que, como substituto, Se ofereceu para levar, mas Jeová sempre O amou e em amor pôs esta carga sobre Ele com o objetivo da Sua glória ulterior e do cumprimento do desejo mais querido do Seu coração.



Mas quando clamou, Ele escutou-O.

Ninguém que se aproxima do Seu trono

Vai encontrar Deus infiel ou cruel.



Vers. 25. O meu louvor virá de ti na grande congregação. Estas palavras indicam claramente que o verdadeiro louvor é de origem celestial. As harmonias mais delicadas na música não são nada a menos que sejam sinceramente consagradas a Deus por corações santificados pelo Espírito.



Vers. 26. Os mansos comerão e se fartarão. Notai como o moribundo Amante das nossas almas Se compraz com o resultado da Sua morte! Os pobres em espírito acham um banquete em Jesus; alimentam-se dEle para a satisfação dos seus corações; estiveram famintos até que Ele Se deu a si mesmo por eles; mas agora estão saciados com os manjares deliciosos. C. H. S.



Louvarão ao SENHOR os que o buscam: o vosso coração viverá eternamente. Agora gostaria de saber quem é o homem que teria podido ditar tais leis que unisse os corações dos homens ou que preparasse recompensas que chegassem às almas e consciências dos homens.



Verdadeiramente, se algum mortal promulgasse alguma lei ordenando que os seus súbditos o amassem com todo o seu coração e com toda a sua alma, e não se atrevessem, sob o perigo da sua grande indignação, a ter o mais pequeno pensamento traiçoeiro para com a sua pessoa real, e que se assim fosse, que o confessassem imediatamente, ou pelo contrário teriam de pagar cara a sua ousadia, seria considerado pela sua loucura e pelo orgulho de que está mal da cabeça, como Xerxes, por lançar cadeias no Helesponto para encadear as águas à sua obediência; ou como Calígula, que ameaçou o ar se este se atreveria a deixar cair chuva durante as suas diversões, Ele pois que nem se atrevia a olhar para o ar quando trovejava.



Certamente um manicómio seria mais apto para essa pessoa do que um trono, visto que perdera a sua razão, já que não é possível pensar que os pensamentos e corações dos homens pudessem achar-se sob a sua jurisdição. William Gurnall



Vers. 27. Todos os limites da terra se lembrarão, e se converterão ao Senhor: e todas as gerações das nações adorarão perante a tua face. Esta passagem é uma previsão da conversão dos gentios. Ela fornece-nos duas ideias interessantes, a natureza da verdadeira conversão, e a sua extensão sob o reinado do Messias. A natureza da verdadeira conversão: “Recordar”, “voltar-se para o Senhor”, e “adorar diante dEle”. Este é um processo claro e simples. Quiçá o primeiro exercício religioso para a mente, de que somos conscientes, é a reflexão. Um estado de não ser regenerado é um estado de esquecimento. Deus é esquecido. Os pecadores perderam todo o sentido justo da Sua glória, autoridade, misericórdia e julgamento; vivem como se não houvesse Deus, ou como se pensassem que não O há.



Mas se somos conduzidos à verdadeira conversão, somos levados a recordar todas estas coisas. Esta mudança divina é expressa devidamente pelo caso do prodígio, o qual se diz que voltou a si, ou seja, à sua mente sã.



Mas, além disso, a verdadeira conversão não consiste só em recordar, mas em voltar-se para o Senhor. Esta parte da passagem expressa o renunciar aos nossos ídolos do coração, sejam quais forem, e uma submissão ao caminho do evangelho para a salvação por Cristo, somente. Ainda mais, a verdadeira conversão a Cristo vai acompanhada de adoração a Ele. Condensed from Andrew Fuller.



Todos os limites da terra se lembrarão. Esta é uma expressão notável. Implica que o homem se esqueceu de Deus. Representa a todas as gerações sucessivas do mundo como se fosse uma só, e logo mostra esta geração como se tivesse estado outrora no paraíso, recordando subitamente o Senhor a quem aí tinham conhecido, mas que durante muito tempo haviam esquecido... As nações convertidas, sabemos por este versículo, não só obterão a lembrança do seu passado, mas também serão cheias do conhecimento do seu presente dever. John Stevenson



Vers. 29. Os que não podem reter a sua vida, ou noutra versão, E nenhum poderá reter viva a sua alma. Esta é a solene contrapartida da mensagem do evangelho de “olha e viverás”. Não há salvação fora de Cristo. Temos de conservar a vida, e ter a vida de Cristo como um dom, ou pereceremos eternamente. Esta é uma doutrina evangélica muito sólida, e deveria ser proclamada em cada recanto da Terra, para que, como um grande martelo, possa esmiuçar toda a autoconfiança. C. H. S.

Tradução de Carlos António da Rocha

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Esta tradução é de livre utilização, desde que a sua ortografia seja respeitada na íntegra porque já está traduzida no Português do Novo Acordo Ortográfico e que não seja nunca publicada nem utilizada para fins comerciais; seja utilizada exclusivamente para uso e desfruto pessoal.

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