… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

terça-feira, 16 de maio de 2017

SALMO 23


C. H. Spurgeon
 O Tesouro de David
 SALMO 23
Não há um titulo inspirado para este Salmo, e não se necessita de nenhum, porque não registra qualquer sucesso especial, e não se necessita doutra chave que aquela que todo Cristão pode achar no seu próprio peito. É a “Pastoral celestial” de David; uma ode magnífica, que nenhuma das irmãs da música pode superar. O clarim de guerra aqui cede lugar à flauta da paz, e quem esteve gemendo ultimamente os males do Pastor, de modo afinado pratica e canta os gozos do rebanho.

Esta é a pérola dos Salmos, cujo fulgor puro e suave deleita os olhos; uma pérola da qual o Hélicon [(mythol.) topónimo mitológico, Hélicon monte da Beócia consagrado às Musas e a Apolo] não tem de que se envergonhar, ainda que o Jordão a reclama. Pode afirmar-se deste canto (versos destinados a serem cantados) deleitoso que se a sua piedade e a sua poesia são iguais, a sua doçura e a sua espiritualidade são insuperáveis.

A posição deste Salmo é digna de que se note. Segue o Salmo 22, que é de modo peculiar o Salmo da cruz. Não há verdes prados nem águas tranquilas antes do Salmo 22. É só depois de termos lido “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” que chegamos a “O Senhor é o meu pastor”. Temos de conhecer por experiência o valor do sangue derramado, e ver a espada desembainhada contra o Pastor, antes de que possamos conhecer verdadeiramente a doçura dos cuidados do Pastor.

Tem-se dito que o que o rouxinol é entre os pássaros é esta ode entre os Salmos, porque tem soado docemente ao ouvido de muitos afligidos na noite do seu pranto e tem-lhes trazido a esperança duma manhã de gozo. Atrever-me-ei a compará-lo também a uma cotovia, que canta ao elevar-se, e se eleva cantando, até que se perde de vista, e depois ainda ouvimos os seus gorjeios. C. H. S.

Agostinho disse que viu num sonho o Salmo 119 que se elevava diante dele como uma árvore de vida no meio do paraíso de Deus. Este Salmo 23 pode ser comparado às flores mais formosas que crescem ao seu redor. O primeiro foi comparado ao Sol entre as estrelas; sem dúvida, esse é como a mais rica das constelações, incluindo as próprias Plêiades! John Stoughton, in “The Songs of Christ's Flock,” 1860.

Algumas almas piedosas sentem-se turbadas porque não podem usar em todos os tempos, ou inclusive com certa frequência, a linguagem deste Salmo, no seu sentido gozoso. Estas devem recordar que David, ainda que tenha vidos muitos anos mais, nunca escreveu mais do que um Salmo 23. William S. Plumer

Vers. 1. O Senhor é o meu pastor. É bom saber, de modo tão certo como sabia David, que pertencemos ao Senhor. Há uma nobre nota de confiança nesta frase. Não há um “se” nem um “mas”, nem tampouco um “espero”; mas sim diz: “O Senhor é o meu pastor.” Temos de cultivar o espírito de dependência confiada no nosso Pai Celestial.

A palavra mais doce de todas elas é o monossílabo “meu”. Não diz: “O Senhor é o pastor do mundo em geral, e guia a multidão do Seu rebanho”, mas: “O SENHOR é o meu pastor”; ainda que não seja o pastor de ninguém mais, é, contudo, o meu pastor; que cuida de mim, me vigia e me guarda. As palavras estão no tempo presente. Seja qual for a posição do crente, agora está sob o cuidado pastoral do SENHOR. C. H. S.

Satanás trata-te, pelo jeito, brandamente, para poder atrair-te ao pecado, mas no fim se comportará de modo amargo. Cristo, verdadeiramente, parece áspero, para te manter afastado do pecado, pondo sebes de espinheiros à beira do teu caminho. Mas Ele será realmente doce se entras no Seu rebanho, até mesmo apesar dos teus pecados. É possível que agora Satanás te sorria de modo prazenteiro enquanto estás em pecado; mas, tu sabes que será duro contigo, no final. Ele que canta como uma sereia, agora, vai devorar como um leão, no final. Ele atormentar-te-á e afligir-te-á e será amargo para contigo.

Vem, pois, a Jesus Cristo; deixa que Ele seja agora o pastor da tua alma. E sabe que Ele será doce ao procurar guardar-te do pecado antes de que o cometas. Oh, que este pensamento —que Jesus Cristo é doce no Seu relacionamento com todos os Seus membros, com o Seu rebanho, especialmente com os que pecam— persuada os corações de alguns pecadores para que entrem no Seu aprisco. John Durant, 1652.

Noto que algumas ovelhas do rebanho se mantêm perto do Pastor e O seguem aonde quer que Ele vá, sem a menor vacilação, enquanto que outras vão por sua própria conta, de um lado para o outro, ou se detêm atrás; e Ele com frequência volta-Se e as repreende com um grito áspero e agudo, ou atira-lhes uma ou duas pedras. Vi que um pastor deixou a uma delas coxa. Não é desta forma que se comporta o Bom Pastor.

E quando vêm o salteador e o ladrão (e vêm deveras) o Pastor fiel com frequência arrisca a sua vida em defesa do seu rebanho. Vi mais de um caso em que o pastor perdeu literalmente a vida num conflito. Um pobre pastor fiel, na última Primavera, entre Tiberias e Tabor, em vez de fugir, fez frente a três beduínos que foram roubá-lo e o esquartejaram e o deixaram morto entre as ovelhas que defendia.

Algumas ovelhas mantêm-se perto do pastor e são as suas prediletas. Cada uma delas tem um nome pelo qual responde alegremente, e o bondoso pastor distribui-lhes porções escolhidas que recolhe com este propósito. Há as contentes e satisfeitas. Não correm o perigo de perder-se ou de ver-se em dificuldades, seja por animais selvagens ou ladrões que se lancem sobre elas.

O grande corpo do rebanho, não obstante, ou seja, os que são meramente “mundanos”, tentam apenas conseguir os seus prazeres ou interesses egoístas. Correm de arbusto em arbusto, procurando variedade nos seus pastos, e só de vez em quando levantam a cabeça para ver onde está o pastor, ou onde está o rebanho em geral, para que não se desencaminhem por afastar-se muito, de modo que se arriscam a uma repreensão de seu cuidador por haver-se feito notar desta maneira.

Outras, também, estão inquietas e descontentes, e saltam nos campos vizinhos, encarrapitam-se nos arbustos e até nas árvores inclinadas, de onde caem e quebram uma pata. Estas dão ao pastor incessantes preocupações. W. M. Thomson, D.D., in “The Land and the Book.”

As palavras seguintes são uma espécie de inferência da primeira afirmação, são uma sentença positiva: nada me faltará. É possível que sofra noutras circunstâncias, mas quando o SENHOR é meu pastor, Ele pode suprir todas as minhas necessidades, e Ele certamente está disposto a fazê-lo, porque o Seu coração está cheio de amor, e portanto, nada me faltará. Não me faltarão coisas temporárias. Não alimenta Ele os corvos e faz com que cresçam os lírios? Como, pois, pode deixar os Seus filhos que pereçam de fome? Não me faltarão coisas espirituais; sei que a Sua graça será suficiente para mim. C. H. S.

Nada me falta”; pode também traduzir-se assim, mas na nossa versão acha-se em tempo futuro. J. R. Macduff, D.D., in “The Shepherd and his Flock,” 1866.

O homem piedoso não carece de nada. Porque ainda que com referência às coisas desnecessárias ele “não tem nada”, com referência às outras é como se as possuísse todas. Não carece de nada que seja necessário para glorificar a Deus (podendo fazê-lo do melhor modo possível por meio das suas aflições), ou para que Deus o glorifique a ele, e o faça feliz, tendo a Deus mesmo como a sua porção, e suprindo todas as suas necessidades, o qual é suficiente em abundância em todos os tempos, para todas as pessoas e em todas as condições. Zachary Bogan.

Como, pois, podemos carecer de algo? Quando estamos unidos a Ele, temos direito a usar de todas as Suas riquezas. A nossa riqueza é a Sua riqueza e a Sua glória. Com Ele nada nos pode ser negado. A vida eterna é nossa, com a promessa de que tudo nos será acrescentado; tudo de que necessitamos Ele sabe-o. Theodosia A. Howard, Viscountess Powerscourt (1830) in “Letters,” etc., edited by Robert Daly, D.D., 1861.

No capítulo dez do Evangelho de João acharemos as seis marcas da ovelha de Cristo: 1) Conhece o Seu pastor; 2) Conhece a Sua voz; 3) Ouve-O quando chama pelo Seu nome; 4) ama-O; 5) confia nEle; 6) segue-O. In “The Shepherd's King,” by the Authoress of “The Folded Lamb” {Mrs. Rogers.}, 1856.

Vers. 2. Deitar-me faz em pastos verdejantes; guia-me mansamente a águas tranquilas. A vida do Cristão tem dois elementos, o contemplativo e o ativo, e os dois são providos ricamente.

Primeiro, o contemplativo: Deitar-me faz em pastos verdejantes, ou noutra versão, em lugares de delicados pastos me fará descansar. Quais são estes pastos verdejantes senão as Escrituras da verdade, sempre suculentos, sempre frescos, nunca esgotados? Não há temor de morder o duro chão quando as folhas de erva são bastante largas para que o rebanho se atire no prado. Doces e suculentas são as doutrinas do Evangelho; aptas como comida para as almas, assim como a erva tenra e nutritiva é natural para as ovelhas.

A segunda parte duma vida cristã vigorosa consiste numa atividade de graça. Nós mão só pensamos, mas também obramos. Nem sempre estamos ocupados em alimentarmo-nos e descansar, mas estamos avançando para a perfeição; daí que lemos: guia-me mansamente a águas tranquilas, ou noutra versão, junto a águas de repouso me pastoreará. Quais são estas águas tranquilas senão as influências e graças do Seu bendito Espírito? O Seu Espírito ajuda-nos em várias actividades, com águas abundantes para nos lavarmos, para nos refrescarmos, para nos fertilizar e para nos alentar. C. H. S.

Descansar, pastorear. Maria sentada aos pés de Jesus, e a ocupada Marta, são emblemas da contemplação e da ação, e as duas residem na mesma casa, e o mesmo tem de ser no nosso coração. Nathanael Hardy.

Este curto e comovedor epitáfio vê-se com frequência nas catacumbas de Roma: “In Christo, in pace” (“Em Cristo, em paz”). Dá-te conta da presença constante do Pastor da paz. J. R. Macduff, D.D., in “The Shepherd and his Flock,” 1866.

Verdes pastos, ou noutra versão, delicados pastos. Aqui há muitos pastos, e cada pasto é viçoso e suculento, de modo que não é possível esgotar a erva, deixando o chão nu; aqui há muitas correntes, e as correntes são profundas e largas, de modo que não podem secar-se. As ovelhas têm vindo comendo nestes pastos desde que Cristo fundou a Sua igreja na Terra, e, contudo, ainda estão cheios de erva, como sempre. As ovelhas têm vindo bebendo nestas correntes desde Adão e, contudo, ainda estão cheias a transbordar até o dia de hoje, e continuarão a estar-o até que as ovelhas já não as tenham de as usar, por estarem no céu! Ralph Robinson, 1656.

Vers. 3. Refrigera a minha alma, ou noutra versão, confortará a minha alma. Quando a alma está afligida, Ele restaura-a; quando peca, santifica-a; quando é débil, corrobora-a. Ele fá-lo. Os Seus ministros não poderiam fazê-lo se Ele não o fizesse. A Sua Palavra não bastaria por si só. “Ele conforta a minha alma.” Há alguns em que a graça tenha sofrido uma descida? Sentimos que a nossa espiritualidade se acha no seu ponto mais baixo? Ele que pode transformar este baixo nível numa inundação, pode também restaurar a nossa alma. Pede-Lhe, pois, a Sua bênção: “Restaura-me, Pastor da minha alma!” C. H. S.

Ele restaura a alma à sua pureza original, que tinha passado a ser negra e hedionda pelo pecado; por que que bem haveria em verdes pastos com uma alma pestilenta? Ele a restaura ao estado natural nos afetos, que tinha sido deformada pela violência das paixões; porque, ai! Que bem haveria em “águas tranquilas” para espíritos turbulentos?

Ele a restaura realmente à vida, que tinha passado a ser morte; e quem pode “restaurar a minha alma” à vida a não ser Aquele que é o Bom Pastor e que dá a Sua vida pelas suas ovelhas?

Veredas da justiça, ou noutra versão, caminhos de justiça. Ai, Senhor!, estes “caminhos de justiça” têm sido tão pouco frequentados que os rastos neles apenas são visíveis; agora é difícil achar onde se encontram os caminhos de justiça, e ainda que se possam achar são tão estreitos e cheios de rodadas que é impossível evitar o cair ou o perder-se. Meditations and Disquisitions upon Seven Consolatorie Psalmes of David. By Sir RICHARD BAKER. 1640. {see “WORKS,” p. 10.}

Vers. 4. Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum. Este delicioso versículo foi cantado por muitos no seu leito de morte e ajudou-os a transformar o escuro vale em claro dia, na sua mente. Cada palavra do mesmo tem uma riqueza de significado.

Ainda que eu andasse”, no que vemos que o crente não aviva o seu passo quando chega a hora de morrer, mas que com calma vai andando com Deus. Andar indica o avanço firme e seguro da alma que conhece a rota, o seu fim, e decide seguir o caminho, sente-se segura, e portanto está perfeitamente sossegada e calma. O santo que morre não se apressa, não corre como se estivesse alarmado, não fica quieto como se se recusasse a seguir adiante; não está confuso nem envergonhado, e, portanto, segue no seu antigo passo.

Observa que não é andando no vale, mas sim pelo vale. Nós vamos ao longo do escuro túnel da morte e saímos para a luz da imortalidade. Não morremos, mas antes dormimos para despertar na glória. A morte não é a casa, mas o pórtico; não é o objectivo nem a meta, mas a passagem para a mesma. O passo da morte é chamado um vale. E então não é “o vale da morte”, mas “o vale da sombra de morte”, porque a morte na sua substância foi eliminada e dela só fica a sua sombra. Alguém disse que quando há uma sombra tem de haver luz em alguma parte, e a há. A morte acha-se junto ao caminho pelo qual temos de transitar, e a luz do céu brilhando sobre o caminhante projeta uma sombra no nosso andar; alegremo-nos porque há luz mais à frente.

Ninguém tem medo de uma sombra, porque uma sombra não pode deter um homem no seu caminho nem ainda um instante. A sombra de um cão não morde; a sombra de uma espada não mata; a sombra da morte não nos pode destruir, portanto, não há motivo para temer.

Não temeria mal algum. Não diz que não tenha de haver qualquer mal; tinha ido para além, inclusivamente desta garantia, e sabia que Jesus tinha eliminado todo o mal; se não “não temeria mal algum”; como se inclusivamente os seus temores, estas sombras do mal, tivessem desaparecido para sempre.

Os piores males da vida são os que não existem exceto na nossa imaginação. Se não tivéssemos mais que tribulações reais, estas não seriam mais do que uma décima parte das nossas presentes aflições. Sentimos mil mortes ao temer uma; mas o Salmista estava curado da enfermidade do temor. C. H. S.

Assim, esta morte corporal é uma porta para entrar na vida, e portanto não é de temer se o consideramos devidamente, posto que é confortável; não um dano ou ofensa, mas o remédio para o mesmo; não um inimigo, porém um amigo; não um cruel tirano, porém um guia considerado que nos leva, não à mortalidade, mas à imortalidade; não à aflição e à dor, porém ao gozo e ao prazer, e isto para durar para sempre. Homily against the Fear of Death, 1547.

Ainda que fosse chamado para contemplar uma visão como a de Ezequiel, um vale cheio de ossos de mortos; ainda que o rei dos terrores cavalgasse em grande pompa pelas ruas, cortando cabeças, e que caíssem aos milhares ao meu lado, e dez mil à minha direita, eu não temeria mal algum.

Ainda que a morte dirigisse as suas flechas fatais ao pequeno círculo dos meus amados e arrastasse parentes e amigos para longe de mim, para as trevas, eu não temerei mal algum. Se, ainda que eu mesmo sinta a flecha que se crava em mim e o veneno seja absorvido pelo meu espírito; ainda que como resultado me sentisse adoecer e elanguescer e tivesse os sintomas da dissolução iminente, ainda assim eu não temerei mal algum.

A minha natureza pode tremer, mas eu confio que Aquele que sabe que a carne é débil, terá compaixão e perdoará estas lutas. Por muito que tema as agonias da morte, não temerei mal algum na morte. O veneno do seu aguilhão foi tirado. A ponta de sua flecha é romba e não pode penetrar profundamente no corpo. A minha alma é invulnerável. Posso sorrir ante a lança que se agita a olhar imóvel os destroços causados pelo inexorável destruidor no meu tabernáculo, e desejar o momento feliz em que terei uma pausa para que o meu espírito, que deseja o céu, possa voar para o seu descanso. Samuel Lavington.

“Quero te falar sobre o céu” disse um pai que morria a um membro da sua família. “É possível que não tenhamos outra oportunidade para falarmos aqui. Desejo que nos possamos reunir ao redor do trono da glória como uma família, no céu!”

Constrangida pela ideia, a amada filha exclamou: “Sem dúvida, não crês que haja tanto perigo?” Com calma e quietude o pai replicou-lhe: “Perigo, querida? Não uses esta palavra. Não pode haver perigo para o Cristão, venha o que vier. Tudo está bem! Tudo está bem! Deus é amor! Tudo está bem! Bem para sempre!” The Lord our Shepherd: an Exposition of the Twenty-third Psalm. By the Rev, JOHN STEVENSON, perpetual Curate of Cury and Gunwalloe, Cornwall. 1845. 8vo.

Quando o coração de um homem carnal está preparado para morar dentro dele e se torna como uma pedra, com que alegria podem esperar os que têm a Deus como amigo! Qual dos valentes do mundo pode olhar cara a cara à morte e logo dirigir o seu olhar com alegria para a eternidade? Qual deles pode abraçar-se a um feixe de lenha e entrar corajoso nas chamas? Isto pode-o fazer um santo, e mais ainda; porque pode olhar para a justiça infinita de frente, com o coração corajoso; pode ouvir falar do Inferno com gozo e agradecimento; pode pensar no dia do julgamento com deleite e consolo.

Desafio o mundo a tirar um, dentre as suas alegres companhias, que possa fazer tudo isto. Vinde, jovens amalucados no vosso folguedo; trazei as vossas harpas e violas; acrescentai o que quiserdes para completar o concerto; servi vinhos ricos; juntai as cabeças e esforçai-vos por agregar o que contribua para o prazer! Bem, já o tendes feito? Agora recorda, pecador, que esta noite a tua alma tem de comparecer diante de Deus.

Bem, o que dizes agora, jovem? Falta-te o ânimo. Chama os teus alegres companheiros para que animem o teu coração. Estica a mão agora para alcançar uma taça, uma cortesã; não temas, não temas. Tem bom ânimo. Pode tremer um homem tão valoroso, que se ria e ameaçava ao Deus Todo-Poderoso? Antes tão jovial e brincalhão, mas, agora a sua boca está fechada. Que mudança!

E, onde estão os teus alegres companheiros, pergunto-te eu? Todos fugiram. Onde estão os teus prazeres? Todos te abandonaram. Por que tens de estar abatido? Vês-te privado de todo o consolo. O que se passa? O que se passa? Há uma pergunta que com todo o meu coração tenho de fazer a um homem que tem de comparecer ante Deus à manhã pela manhã. Bem, pois, parece que o teu coração desfalece. O que significavam todos aqueles gozos e prazeres? Onde é que isto veio parar?

Ali temos a um que agora tem o coração tão cheio de consolo e fortaleza que não pode contê-los, e os mesmos pensamentos sobre a eternidade que abatem a tua alma, levantam a sua. Queres saber a razão? Ele sabe que vai para o seu Amigo; e ainda mais, o seu Amigo acompanha-o pela ruela escura. Olha que bom e agradável é que Deus e a alma habitem juntos em unidade! (unity - unicidade;  homogeneidade; harmonia, concórdia, união, acordo, unificação). Isto é ter a Deus por amigo. “Bem-aventurada é a alma que assim se encontra; sim, bem-aventurada a alma cujo Deus é SENHOR.” Memoir of James Janeway.

Segundo um antigo provérbio, quando alguém havia realizado uma grande façanha, dizia-se dele que “tinha tirado da barba do leão”; quando um leão tem morrido, até os meninos pequenos podem fazê-lo.

Inclusive um menino, quando vê um urso, um leão ou um lobo morto na rua, pode arrancar-lhe pêlo, insultá-lo e fazer-lhe o que queira; pisá-lo e tudo o que nem por sombras se atreveria a intentar se ele estivesse vivo.

Uma coisa assim é a morte: uma fera raivosa, um leão rugiente, um lobo devorador; contudo, Cristo deu morte à morte, para que os filhos de Deus possam triunfar sobre ela, como os mártires dos tempos primitivos, que alegremente se ofereciam ao fogo, à espada, à violência das feras famintas; e pela fé que havia na vida de Cristo se burlavam da morte porque Ele a tinha submetido a Si mesmo (I Coríntios 15). Martin Day, 1660.

O Salmista confia inclusivamente ante o desconhecido. Aqui, sem dúvida, há confiança completa. Temos o desconhecido por cima do que podemos ver; um pequeno ruído na escuridão aterroriza-nos, quando até mesmo os graves perigos à luz do dia não assustam; o desconhecido, com o seu mistério, e a sua incerteza, com frequência enche o coração de ansiedade, se não de pressentimentos e angústia.

Aqui o Salmista faz frente à forma extrema do desconhecido, ao seu aspeto mais terrível para o homem, e diz que até no meio disto vai confiar. O que é o que pode haver tão distante do alcance da experiência e da especulação humanas, até da imaginação, como “o vale de sombra de morte”, com tudo o que faz referência ao mesmo?; mas o Salmista não faz reserva do seu caso; ele vai confiar ali onde não pode ver.

Com que frequência, estamos aterrorizados ante o desconhecido, como os discípulos o estavam “ao entrar na nuvem”! Com que frequência é a incerteza do futuro uma prova mais difícil para nossa fé que a pressão de algum mal presente! Muitos filhos queridos de Deus podem confiar nEle em todos os males conhecidos; mas, por quê estes temores e pressentimentos, este decaimento do coração, se podem confiar igualmente nEle para o desconhecido? Philip Bennet Power.

Tu estás comigo. Conheces a doçura, a segurança, a força do “Tu estás comigo? Quando vemos vir a hora solene da morte, quando a alma está disposta a deter-se e perguntar: O que será?, podemos voltar-nos no afeto da nossa alma para Deus e dizer: “Não há nada na morte que possa danificar-me se o Teu amor não me deixar”. Podes dizer: “Oh morte!, onde está o teu aguilhão?

Diz-se que quando uma abelha deixa o seu ferrão em alguém já não tem mais poder para danificar. A morte deixou o seu aguilhão na humanidade de Cristo e já não tem poder para danificar o filho de Deus. A vitória de Cristo sobre o sepulcro é a vitória do Seu povo. “Neste momento estou contigo” -sussurra Cristo, “o mesmo braço que se mostrou forte e fiel com durante o caminho pelo deserto, que nunca falhou em nenhuma vez em que tu te apoiaste nele na tua debilidade.” Theodosia A. Howard, Viscountess Powerscourt (1830) in “Letters,” etc., edited by Robert Daly, D.D., 1861.

A tua vara e o teu cajado me consolam. Muitas pessoas dizem receber muito consolo da esperança de que não terão de morrer. Certamente haverá alguns que estarão “vivos e terão permanecido” até a vinda do Senhor, mas há tanta vantagem neste escapar da morte, para fazer disso o objeto do desejo do Cristão?

Um sábio pode preferir, entre os dois, o morrer, porque os que não tenham de morrer, pois que “arrebatados com o Senhor no ar”, vão pelo contrário perder mais que ganhar. Vão perder a real comunhão com Cristo no sepulcro, como fruem os santos que aqui morrem, e é-nos dito de modo expresso que não haverá preferência com respeito aos que estejam adormecidos.

Sejamos da opinião do Paulo e digamos que “o morrer é ganho”, e pensemos que “o partir e estar com Cristo é muito melhor”. Este Salmo 23 não está gasto, e é tão doce ao ouvido do Cristão agora como o era no tempo de David; que digam o que quiserem os amantes da novidade. C. H. S.

Não muito antes de morrer bendisse a Deus pela segurança do Seu amor, e disse que agora podia morrer tão facilmente como fechar os olhos; e acrescentou: “Aqui estou desejando o silêncio do pó e gozar de Cristo na glória. Desejo estar nos braços de Jesus. Não vale a pena que chorem por mim” Logo, recordando o quão ocupado com ele, tinha estado o diabo, que estava extremamente agradecido a Deus pela Sua bondade ao repreendê-lo. Memoir of James Janeway.

Verso 4. Ainda que eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque tu estás comigo; a tua vara e o teu cajado me consolam. Quando a Sra. Hervey, a esposa de um missionário em Bombaim, estava morrendo, um amigo disse-lhe a ela, que ele esperava que o Salvador estaria com ela enquanto ela caminhasse pelo escuro vale da sombra da morte. “Se isto,” disse ela, “é o vale escuro, não há aqui pitada de escuridão; tudo é luz.” Ela teve, durante a maior parte da sua doença, visões brilhantes das perfeições de Deus. “A Sua sublime santidade,” disse ela, “pareceu-me ser o mais adorável de todos os Seus atributos.” Por algum tempo, ela disse que ela quis palavras para expressar as suas visões da glória e majestade de Cristo. “Parece,” disse ela, “que se toda aquela outra glória fosse aniquilada e nada ficasse, senão Ele só, seria suficiente; seria um universo de glória!”

Vers. 5. Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos. O homem bom tem inimigos. Não pode ser como o seu Senhor e não os ter. Se não tivéssemos inimigos poderíamos temer que não somos amigos de Deus, porque a amizade do mundo é inimizade contra Deus. Contudo, vejam o sossego do homem piedoso apesar de seus inimigos e à vista dos mesmos. Que consoladora é a sua calma valorosa! “Preparas uma mesa perante mim na presença dos meus inimigos.” Quando um soldado se acha na presença dos seus inimigos, apressa-se a comer algo rapidamente e dirige-se à batalha.

Mas observa: “ Preparas uma mesa”, da mesma forma como o servo põe a toalha e os adornos para um banquete, numa festividade de paz. Não há pressas, nem confusão, nem desordem. O inimigo está à porta, e, contudo, Deus prepara a mesa, e o Cristão senta-se como se tudo estivesse em perfeita paz. Oh a paz que o SENHOR dá ao Seu povo, até no meio das piores circunstâncias e tribulações! C. H. S.

Para que uma coisa possa impedir a outra de modo efectivo, não só tem de ser de tipo contrário, mas também superior: uma gota de água não pode apagar um incêndio, porque ainda que tenha uma natureza contrária, não tem suficiente poder. Pois bem, a malícia e os artifícios dos iníquos são coisas e débeis para a intenção divina de abençoar, que acompanha o Seu poderoso braço. Os homens maus não deixam de ser homens, e Deus é Deus; e sendo só homens, não podem fazer mais do que os homens fazem. The Shepherd of Israel; or, God's pastoral care over his people. Delivered in divers Sermons on the whole Twenty-third Psalme … By that Reverend and Faithful Minister of the Gospel, Mr. OBADIAH SEDGWICK, B.D. 1658. 4to.  Condensed from Obadiah Sedgwick.

Unges a minha cabeça com óleo. Um sacerdote sem azeite carece do qualificativo principal para o seu ofício, e o sacerdote Cristão carece da sua principal aptidão para o serviço se estiver desprovido da nova graça do alto.

O meu cálice transborda. Não era suficiente que tivesse uma taça cheia, mas que tivesse mais: uma taça que transbordava. O pobre pode dizer isto, assim como os que estão em situações prósperas. “O quê, tudo isto, e Jesus Cristo também?”, disse um pobre que vivia numa choça quando partiu um pão e encheu um copo de água fresca. Um homem pode ser muito rico, mas se estiver descontente, o seu cálice não pode transbordar; está rachado e esvazia-se. O contentamento é a pedra filosofal que transforma em ouro tudo em que toca; feliz o que a encontrou. O contentamento é mais que um reino, é outra palavra para a felicidade. C. H. S.

Este homem não tem só plenitude de abundância, mas superabundância. Os que têm esta felicidade devem transportar o seu cálice direito e procurar que transborde nos copos vazios do seus irmãos pobres. John Trapp

Para este fim faz o Senhor com que o teu cálice transborda, para que os lábios de outros possam provar o licor. As chuvas que caem sobre as montanhas mais altas têm de ir escorregando suavemente para os vales mais humildes. “Dai, e ser-vos-á dado” (Lc 6:38) é uma máxima pouco posta em prática. William Secker

Ou como diz na Vulgata: “E o meu cálice transbordante, que excelente é!” Deste cálice os mártires se saciaram quando, saindo para o seu martírio, nem mesmo reconheciam os seus parentes; nem a sua esposa que chorava, nem os seus filhos, nem os seus familiares; dando graças, diziam: “Beberei o cálice da minha salvação!” Agostinho

Vers. 6. E habitarei na casa do SENHOR por longos dias. É possível que um infiel se deixe cair na casa de Deus e diga uma oração, etc., mas o profeta (e assim deve ser com todos os homens piedosos) vive nela perpetuamente; a sua alma acha-se sempre ante o trono da graça, pedindo mais graça.

Um infiel ora tal como o galo canta; o galo canta e cessa, e canta de novo e cessa outra vez, e não pensa em cantar outra vez até que o está fazendo; assim um homem iníquo ora e cessa, ora e cessa de novo; a sua mente nunca está ocupada em pensar se as suas orações são escutadas ou não; crê que é uma boa prática para ele o orar e, portanto, que indiscutivelmente as suas orações são escutadas, ainda que na verdade Deus nunca escuta as suas orações, e as respeita como se dos mugidos de um boi se tratasse. William Fenner, B.D. (1600-1640), in “The Sacrifice of the Faithful.”

Tradução de Carlos António da Rocha

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