… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

quinta-feira, 18 de maio de 2017

SALMO 25


C. H. Spurgeon
 O Tesouro de David
 SALMO 25
TÍTULO: “Salmo de David”. David é retratado neste Salmo como uma miniatura fiel. A sua confiança santa, os seus muitos conflitos, a sua grande transgressão, o seu amargo arrependimento, a sua profunda aflição estão aqui; de modo que podemos ver o coração do “homem segundo o próprio coração de Deus”. É, evidentemente, uma composição dos últimos dias de David, pela menção dos pecados da sua juventude, e pelas penosas referências à astúcia e crueldade dos seus muitos inimigos, não seria uma teoria especulativa ele referir-se ao período em que Absalão capitaneou uma grande rebelião contra ele. Este foi chamado o segundo dos sete Salmos Penitenciais. A marca do verdadeiro santo é que as suas aflições lhe recordam os seus próprios pecados, e a sua pena pelo pecado leva-o para o seu Deus. C. H. S.

Nestes quatro Salmos, que se seguem um após o outro, podemos achar a alma de David apresentada em todas as diferentes posturas: prostrado, de pé, sentado e de joelhos. No Salmo 22 está deitado, prostrado sobre o seu rosto, gemendo no chão, inclusivamente entrando quase num grau de desespero; falando de si mesmo na história de Cristo no mistério: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?”

No Salmo 23 está de pé, e no pleno favor de Deus, apesar dos seus inimigos, levantado e triunfando sobre toda oposição: “O SENHOR é o meu pastor; nada me faltará.”

No Salmo 24 está sentado, como um doutor na sua cadeira ou um professor na sua cátedra, dando uma conferência sobre a divindade e descrevendo o carácter do homem “que sobe ao monte santo”, e de como há-de realizá-lo, e depois participa da Sua felicidade.

Neste Salmo 25 está de joelhos e levanta a sua voz a Deus, e sobre estes dois gonzos gira todo o Salmo; por um lado, roga a Deus de todo coração suplicando misericórdia; por outro, humildemente, lamenta a sua própria miséria. Thomas Fuller

Vers. 1. A ti, SENHOR, levanto a minha alma. Vede como a alma santa voa até ao seu Deus como uma pomba para o seu abrigo. Quando os ventos da tempestade estão soltos, os navios do Senhor amainam as velas e dirigem-se para o bem recordado porto de refúgio. Que misericórdia a do Senhor, ao condescender escutar o nosso clamor no tempo da tribulação, ainda que nós nos possamos ter quase esquecido dEle nas nossas horas de suposta prosperidade! Muitas vezes a alma não pode levantar-se; tem perdido as suas asas, e sente-se pesada, presa à terra; mais semelhante a uma toupeira que faz luras do que a uma águia que voa. Nessas temporadas nubladas não temos de renunciar à oração, mas, com a ajuda de Deus, temos de exercer todas as nossas potências para levantar os nossos corações. Que a fé seja a alavanca, e a graça o braço, e a massa morta mover-se-á.

Porém, que alívio sentimos, às vezes! Apesar deste procurar e deste esforço, havemos sido totalmente derrotados, até que a pedra magnetizada do amor celestial do nosso Salvador realize as suas atrações omnipotentes, e então os nossos corações têm subido para o nosso Amado como em chamas de fogo. C. H. S.

O elevar o coração pressupõe um abatimento prévio da alma. A alma do homem é oprimida pelo pecado e pelos cuidados deste mundo, que, como os chumbos à rede, fazem-na afundar, e não pode subir até que Deus envia orações espirituais, como corchos à rede, para pô-la a flutuar; as quais procedem da fé, como a chama do fogo, e que hão de livrar-nos dos cuidados seculares e de todas as coisas que nos oprimem, e que nos dão evidência de que os mundanos não podem orar, como a toupeira não pode voar. Mas os cristãos são como águias que se remontam até ao céu.

Vendo, pois, que o coração do homem, por natureza, está fixado à terra, e que por si mesmo não é capaz de elevar-se dela, como uma pedra que está fixa no chão, até que Deus a levanta com o Seu poder, com a Sua Palavra e com os Seus obreiros, a nossa petição principal tem de ser feita ao Senhor para que Se compraza em atrair-nos, e para que possamos correr até Ele; que queira exaltar-nos e elevar os nossos corações ao Céu, e não continuarmos a ser lançados no atoleiro desta terra. Archibald Symson, 1638.

Um homem piedoso ora da mesma forma como um pedreiro edifica. Pois bem, um pedreiro põe um fundamento, e como não pode terminar o seu trabalho num dia volta para trabalhar no dia seguinte e acha que o trabalho do primeiro dia está firme; e logo acrescenta um dia mais de trabalho; depois vem o terceiro dia, e encontra firme o trabalho dos dois primeiros dias; e trabalha um terceiro dia e faz as paredes, e assim sucessivamente até que todo o edifício está construído.

Do mesmo modo, a oração é a edificação da alma, até que alcança o céu; portanto, um coração piedoso ora e vai chegando mais e mais alto na oração, até que por fim as suas orações chegam a Deus. William Fenner, in “Hidden Manna,” 1626.

Uma oração sem a intenção do afeto é como um corpo sem alma, contudo, a sua devoção é algo externo, alguém disse: uma cabeça sem cérebro, e um corpo sem alma: “Este povo se aproxima de Mim, e com a sua boca e com os seus lábios Me honra, mas o seu coração se afasta para longe de Mim e o seu temor para Comigo consiste só em mandamentos de homens, em que foi instruído.” (Is 29:13) Um homem carnal pode levantar o seu coração em oração tanto quanto uma toupeira pode voar. David acha a tarefa difícil; pois o melhor dos corações é pesado, e empurra para baixo, assim como o peso de um relógio ou o chumbo de uma rede. Portanto, pondo de lado todo o peso e o pecado que nos assediam, orando a Deus, aproximemo-nos dEle, como o ferro ao íman. John Trapp

Vers. 2. Deus meu, em ti confio. A fé é o cabo que amarra o nosso bote à praia, e puxar por ele aproxima-nos de terra; a fé une-nos a Deus, e então puxa-nos a nós para Ele. Enquanto a âncora da fé se mantém firme não há temor até da pior tempestade; se ela falha, não nos resta esperança. Temos de procurar que a nossa fé seja sã e forte, pois de outro modo a oração não pode prevalecer perante Deus. Ai do guerreiro que retira o seu escudo; que defesa terá aquele que não acha defesa no seu Deus? C. H. S.

Vers. 3. Na verdade, não serão confundidos os que esperam em ti. O sofrimento alarga o coração, ao criar poder para simpatizar. Se orarmos sinceramente por nós mesmos, não continuaremos por muito tempo deixando no esquecimento os nossos companheiros de sofrimento. Não há alguém que tenha compaixão do pobre como os que foram pobres ou ainda o são; ninguém tem tanta ternura para com o enfermo como o que tem pouca saúde. Temos de estar agradecidos pelas penas ocasionais se nos preservarem da dureza crónica do coração, porque de todas as aflições, a do coração desanimado é a pior; é uma praga para o que a tem e um tormento para os que o rodeiam.

Confundidos serão os que transgridem sem causa. David não tinha provocado os seus inimigos; o ódio deles era imerecido. Os pecadores não têm razão plausível ou desculpa válida para transgredir; não beneficiam a ninguém, nem mesmo a eles mesmos, com os seus pecados; a lei contra a qual transgridem não é dura nem injusta; Deus não é um amo tirânico; a providência não é escravidão; os homens pecam porque querem pecar, não porque seja proveitoso ou razoável fazê-lo.

Daí que a vergonha seja a retribuição apropriada. Ruborizem-se com vergonha penitencial agora, pois de outro modo não poderão escapar ao desprezo perdurável e à vergonha amarga que é o destino dos néscios no mundo vindouro. C. H. S.

Que a vergonha recaia sobre aquele que a mereça, até sobre os que obram com deslealdade, sem serem provocados da minha parte. E assim foi; porque Aquitofel se enforcou; Absalão foi pendurado pela mão de Deus e Joab lhe deu a morte; aqueles que conspiraram com isso pereceram, em parte, pela espada, e em parte fugiram, envergonhados da sua empresa. Oh o poder da oração! O que há que os santos não consigam, se o pedirem? John Trapp

Vers. 4. Faze-me saber os teus caminhos, SENHOR; ensina-me as tuas veredas. Há os caminhos dos homens e os caminhos de Deus; as sendas do pecado e as sendas da justiça; há os teus caminhos e os meus caminhos; os teus são caminhos de verdade, os meus são caminhos de erro; os teus são bons ante os teus olhos, e os meus são bons ante os meus olhos; os teus levam ao céu, e os meus levam ao Inferno, portanto: “Faze-me saber os teus caminhos, SENHOR; ensina-me as tuas veredas”, para que, equivocadamente, não vá pelos meus caminhos em vez de ir pelos teus; sim, guia-me na verdade, e ensina-me, para que não me desvie dos teus caminhos e entre nos meus; “mostra-me as tuas veredas” mediante o ministério da tua Palavra; “ensina-me as tuas veredas” com a guia do teu Espírito; “guia-me na tua verdade” mediante a ajuda da Tua graça. Robert Mossom, 1657.

Vers. 4, 5, 9. Faz-me saber os teus caminhos, Senhor; ensina-me as tuas veredas. Guia-me na tua verdade, e ensina-me, pois tu és o Deus da minha salvação; por ti estou esperando todo o dia. Guiará os mansos retamente: e aos mansos ensinará o seu caminho. Faz o que saibas, e Deus ensinar-te-á o que hás-de fazer. Faz o que saibas que é o teu dever presente, e Deus dar-te-á a conhecer o teu dever futuro, quando ele passar a ser presente. Ocupa-te em evitar as omissões conhecidas, e Deus guardar-te-á das comissões temidas. Samuel Annesley, D.D. (1620-1696), in “Morning Exercises at Cripplegate.”

Vers. 5. Guia-me na tua verdade e ensina-me. David sabia muito, mas dava-se conta da sua ignorância e desejava seguir na escola do Senhor; quatro vezes nestes dois versículos solicita ser admitido na escola da graça. Seria bom que muitos que ensinam outros, em vez de seguirem os seus próprios métodos e de traçarem novos caminhos de pensamento para si mesmos, inquirissem sobre os antigos e bons caminhos da própria verdade de Deus, e solicitassem ao Espírito Santo que lhes desse entendimentos santificados e desejosos de aprender. C. H. S.

Aquele cuja alma é insaciável na oração, avança, aproxima-se de Deus, ganha algo e termina com o seu coração mais elevado. Assim como um menino que vê a sua mãe com uma maçã na mão e gostaria de possui-la, vai à sua mãe e pede-lha com dissimulação: agora, agarra-lhe um dedo, depois o deixa; de novo agarra-lhe o dedo, e aperta-o, e assim continua agarrando e chorando até que consegue o que deseja.

Assim o filho de Deus, vendo todas as graças que há nEle, aproxima-se do trono da graça pedindo-lhas, e com as suas orações sinceras e fiéis abre as mãos de Deus para com ele; Deus trata os Seus filhos como fazem os pais, e retém o desejado um pouco; não porque não esteja disposto a dá-lo, mas para fazer mais vivo o anelo; a fim de aproximar dEle aquele deseja. William Fenner

Pois tu és o Deus da minha salvação. Jeová Trino é o autor e o aperfeiçoador da salvação do Seu povo. Leitor, é Ele o Deus da tua salvação? Achas na eleição do Pai, na expiação do Filho e no avivamento do Espírito a base das tuas esperanças eternas? Se é assim, podes usar isto como argumento para obteres novas bênçãos; se o Senhor tem ordenado que sejas salvo, sem dúvida não vai recusa-te instrução nos Seus caminhos. É bem-aventurado que possamos dirigir-nos ao Senhor com a mesma confiança que David manifesta aqui; dá-nos grande poder na oração e consolo na prova. C. H. S.

Por ti estou esperando todo o dia. O esperar em Deus é: 1) Viver uma vida plena de desejo de agradar a Deus; esperar nEle como o mendigo espera no seu benfeitor, com desejo sincero de receber provisões, como o enfermo do tanque de Betesda observava quando seriam agitadas as águas, e esperava nos pórticos com desejo de que alguém o ajudasse a entrar nelas e a ser sarado. 2) É viver uma vida em Deus, como o amante espera a amada. O desejo é amor em movimento, como o pássaro a voar; o deleite é amor em repouso, como o pássaro no seu ninho; pois bem, ainda que o nosso desejo deve ser para com Deus de tal forma que ainda desejemos mais de Deus, sem embargo o nosso deleite tem de ser tal em Deus que jamais desejemos nada mais do que Deus. Condensado de Matthew Henry em “Communion with God”

Em ti tenho esperado. Esperado para ouvir a voz secreta do Teu Espírito, pondo paz na minha consciência; esperado para sentir o vigor renovador da Tua graça, avivando a minha obediência; esperado para ver o poder subjugador do Teu Espírito Santo, apagando o meu pecado rebelde; esperado para sentir a virtude alentadora dos Teus consolos celestiais, como refrigério para a minha alma que desanima; por todas estas bênçãos espero. Robert Mossom, 1657.

Vers. 6. Lembra-te, SENHOR, das tuas misericórdias e das tuas benignidades. Há uma ousadia santa que se atreve a tratar assim com o Altíssimo. Cultivemo-la. Mas, há também uma incredulidade não santa que sugere os nossos temores. Esforcemo-nos contra ela com toda a nossa força. Que jóias são estas duas expressões: “tuas misericórdias e tuas benignidades”! São como o mel da linguagem; a sua suavidade não tem palavra que a supere; mas, quanto aos favores da misericórdia que implicam, a língua falha em poder descrevê-los. C. H. S.

Oh, de que forma um abismo chama a outro abismo! A profundidade das minhas múltiplas misérias clama, em voz alta, à profundidade das suas múltiplas misericórdias!; até esta misericórdia pela qual Tu perdoas os meus pecados e ajudas as minhas debilidades; esta misericórdia pela qual me santificas pela Tua graça e me confortas com o Teu Espírito; esta misericórdia pela qual me livras do Inferno e me aceitas no Céu. “Recorda, oh SENHOR”, que as Tuas misericórdias e as Tuas benignidades foram “desde a antiguidade” para os Teus santos. Robert Mossom

Porque são desde a eternidade, ou noutra versão, que são perpétuas. David era um crente são na doutrina do amor eterno de Deus. As bondades do Senhor não são uma novidade. Quando Lhe rogamos que no-las conceda, podemos pôr ênfase no uso e no costume que vêm desde a antiguidade. Nos tribunais de justiça os homens fazem muito finca-pé sobre os precedentes, e nós podemos invocá-los no trono da graça. “A fé”disse Dickson “tem de fazer uso das experiências e repeti-las perante Deus, desde o registo de uma memória santificada, como um aviso que Ele não pode esquecer.” C. H. S.

O amor divino é uma fonte eterna, que nunca deixa de manar enquanto que haja uma vasilha vazia ou capaz de receber algo mais; e está à disposição de todos os que chegam: portanto, acudamos; e se não temos muitos copos para armazená-la, vamos pedir emprestados copos vazios, e não poucos; “paga as tuas dívidas com isso, e vive do resto” (2Rs 4:7) até à eternidade. Elisha Coles on “God's Sovereignty”, 1678.

Vers. 7. Não te lembres dos pecados da minha mocidade nem das minhas transgressões. O mundo não faz caso dos pecados dos jovens, mas não são tão pequenos, depois de tudo; os ossos dos festins dos nossos jovens na mesa de Satanás vão ficar-lhes dolorosamente engasgados no pescoço quando forem maiores. Aquele que presume da sua juventude está envenenando a sua idade madura e sua ancianidade. Quantas lágrimas vão molhar estas páginas quando alguns reflitam no seu passado! C. H. S.

Antes de chegar ao ponto principal, primeiro temos de tirar do texto o estorvo de uma doble objeção. A primeira é: Parece (podem dizer alguns) muito improvável que David tivesse tido pecados na sua juventude se considerarmos os princípios em que transcorreu o seu passado.

O primeiro era a pobreza. Lemos que seu pai Isaí era tido como ancião, não como um homem rico; e é provável que os seus sete filhos fossem a parte principal da sua riqueza. Segundo: penas. David, ainda que era jovem, não era mimado, mas trabalhava com firmeza; era enviado por seu pai a seguir as ovelhas com as crias, onde parece que aprendeu a inocência e a simplicidade das ovelhas que guardava. Terceiro: piedade (Sl 71:5): “Pois tu és a minha esperança, SENHOR Deus; tu és a minha confiança desde a minha mocidade.” E de novo no versículo 17 do mesmo Salmo: “Ensinaste-me, ó Deus, desde a minha mocidade.” David começou logo a ser bom, um santo ainda quando era jovem. E o que é mais, achava-se constantemente no forno da aflição (Sl 88:15): “Estou aflito e prestes a morrer, desde a minha mocidade; quando sofro os teus terrores, fico perturbado.”

Do que se trata é, pois: Como podia ser corrupta esta água que era purificada diariamente? Como podia oxidar um pedaço de aço que era brunido com regularidade? Como podia a alma de David na sua juventude estar suja pelo pecado, se era arranhada constantemente pelo sofrimento? Mas a resposta é fácil: porque, ainda que David, geralmente, era um homem segundo o coração de Deus (a melhor transcrição da melhor cópia), contudo, especialmente na sua juventude, teve as suas faltas e debilidades; sim, os seus pecados e as suas transgressões.

Se a juventude de David, que foi pobre, penosa e pia, e nela era culpado de pecados, o que diremos da daqueles cuja educação foi rica, despreocupada e pecaminosa? E afirmo que de resto está cheia de opróbrio, pena e que silencia a consciência de todos. Thomas Fuller

Nem das minhas transgressões. Outra palavra para os mesmos males. O penitente sincero não pode passar pelas confissões rapidamente; vê-se obrigado a lançar muitos gemidos, porque os muitos pecados o afligem com inumerável aflição.

Um sentimento penoso de algum pecado provoca no crente um arrependimento pela massa inteira das suas Iniquidades. Não há nada que satisfaça de todo uma consciência desperta, como seja o perdão mais pleno e claro. David não quer que os seus pecados sejam perdoados, mas esquecidos.

Mas, segundo a tua misericórdia, lembra-te de mim, por tua bondade, SENHOR. David e o ladrão moribundo exalam a mesma oração, e indubitavelmente estão apoiados na mesma alegação, ou seja, a graça gratuita e a bondade de Jeová, imerecida por nossa parte. Não nos atrevemos a pedir que nos meça a nossa porção nas balanças da justiça, mas sim pedimos que nos trate com a mão da misericórdia.

Vers. 8. Bom e reto é o SENHOR; pelo que ensinará o caminho aos pecadores. Não é menos verdadeiro e maravilhoso que, por meio da expiação, a justiça de Deus roga tão insistentemente, como a Sua graça para a salvação dos pecadores, para salvar aqueles pelos que Cristo morreu. Além disso, tal como um bom homem de modo natural se esforça para fazer aos outros como a ele mesmo, assim também o Senhor nosso Deus, na Sua compaixão, trará os pecadores para o caminho da santidade e os modelará à Sua própria imagem; assim, a bondade do nosso Deus nos leva a esperar que sejam reclamados os pecadores.

Não cheguemos, contudo, à conclusão de que a bondade de Deus salvará a todos os pecadores que continuam desencaminhando-se pelos seus próprios caminhos; mas podemos estar seguros de que Ele renovará o coração dos transgressores e os guiará para o caminho da santidade. Que os que desejem ser livrados do pecado se consolem nisto: Deus mesmo condescenderá a ser o professor dos pecadores. Que escola é esta em que Deus quer ensinar nela! O ensino de Deus é prática; Ele ensina aos pecadores não somente a doutrina, mas o caminho. C. H. S.

Como a eleição é o efeito da soberania de Deus, o nosso perdão é o fruto da Sua misericórdia, o nosso conhecimento uma corrente de sabedoria, a nossa força uma impressão do Seu poder; assim como a nossa pureza é um raio da Sua santidade. Stephen Charnock

Vers. 10. Todas as veredas do SENHOR. Quão frequentes, marcadas e numerosas são as veredas para cada família e para cada indivíduo! Aonde quer que vamos, vemos que a misericórdia e a verdade de Deus hão passado por ali, pelas profundas veredas que ficaram atrás. Adam Clarke

Vers. 11. Por amor do teu nome, SENHOR, perdoa a minha iniquidade, pois é grande. Aqui há um rogo bendito que jamais falha. Não por nossos próprios méritos, mas para glorificar a Tua misericórdia e para mostrar a glória dos Teus atributos divinos.

Perdoa a minha iniquidade, pois é grande. Está confessada; é aborrecida; está consumindo o meu coração de pena. Senhor, perdoa-a; pronuncia com os Teus lábios a absolvição. Pesa muitíssimo, e rogo-Te que a tires. O seu tamanho não é uma dificuldade para Ti, porque Tu és um Deus grande, mas a miséria que me oprime é o argumento que uso para pedir-Te um rápido perdão.

Senhor, o paciente está muito doente; sara-o, pois. O perdoar a um grande pecador vai-Te dar-te grande glória; portanto, por amor ao Teu nome, perdoa-me.

Observa de que forma este versículo ilustra a lógica da fé, que é lindamente contrária ao espírito legal; a fé não olha para os méritos na criatura, mas considera a bondade do Criador; e em vez de ficar esmagada pelos méritos negativos do pecado, olha para o precioso sangue e suplica com mais vigor devido à urgência do caso. C. H. S.

Entre as obras divinas não há nenhuma que estabeleça melhor a Sua glória do que a obra da remissão.

O pecado, ao ser cometido, é causa de muita desonra para Deus, e, contudo, ao perdoá-lo, Deus levanta para Si uma grande honra. Como Deus perdoa os pecados por amor ao Seu nome, estará disposto a perdoar tanto muitos pecados como poucos, grandes ou pequenos; na verdade, quanto maiores e em maior número são os pecados, maior é o perdão e, como resultado, maior a glória de Deus; e, portanto, David, sobre esta consideração do nome e a glória de Deus, faz da grandeza dasua iniquidade um motivo de perdão.

Na verdade, o incorrer em pecados graves para que Deus possa glorificar-Se mais ao perdoá-los é uma presunção aborrecível, mas o esperar que estes pecados graves em que incorremos serão perdoados por Deus se sentirmos verdadeiro arrependimento, por amor ao Seu nome, é uma expectativa bem fundada, e pode ser apoiada em nossos espíritos contra as maiores tentações de nos sentirmos abatidos. Nathanael Hardy.

David alega a grandeza do seu pecado, e não a pequenez do mesmo; reforça a sua oração com esta consideração: que os seus pecados são muito graves. Quando um mendigo pede pão, alegará o extremo da sua pobreza e da sua necessidade. Quando um homem aflito clama por misericórdia, o que pode haver mais apropriado do que alegar o ponto extremo de seu caso? E Deus permite este rogo porque Ele é movido à misericórdia para connosco, não por nada que haja em nós, mas pela miséria do nosso caso.

A honra de Cristo é salvar aos maiores pecadores que vão a Ele, como a honra de um médico é curar os casos mais desesperados de enfermidades e feridas. Portanto, não duvidemos que Cristo já está disposto a salvar aos maiores pecadores que vão a Ele; porque Ele está desejoso de glorificar-Se a Si mesmo e de exaltar o valor e a virtude do Seu próprio sangue. Vendo que Ele está assim disposto a redimir os pecadores, não Se negará a mostrar que pode redimir até ao máximo possível. Jonathan Edwards

Os pecadores que vão a Deus em busca de perdão consideram os seus pecados como muito grandes; porque em frente a um grande Deus –grande em poder, em justiça, em santidade– eu sou um verme, e além disso peco, e isto atrevidamente contra um Deus tão grande. Que um verme se levante frente a um Deus grandíssimo e infinito, faz com que cada pecado seja grande, e reclama a vingança máxima de um Deus tão grande!

Devido a que eles pecaram contra a grande paciência, desprezando a bondade e a longanimidade de Deus, o que se chama “entesourando a Sua ira” (Rm 2:4-5).

Os pecados parecem grandes porque dão lugar a grandes misericórdias. Oh, contra que misericórdias e bondades tão grandes pecam os pecadores, e fazem pecado destas misericórdias!

O que faz maior o pecado aos olhos dos pobres pecadores que clamam pedindo perdão é que pecaram contra uma grande luz –a luz da consciência–; isto aumenta o pecado em alto grau, especialmente para aqueles que estão sob a influência do evangelho; isto é, na verdade, o pecado de todos nesta nação.

Mesmo assim, não achamos que a juventude de David seja pecaminosa em grau notável; pois ele que não ocupou a sua juventude para obter conhecimento e em servir ao Senhor de modo pleno, isso foi a sua carga e a sua queixa diante do Senhor; quanto mais penosas e abomináveis as vossas almas têm de ser para aqueles cuja juventude transcorreu só na vaidade, as palavras vãs, o mentir, o jurar, o profanar o dia do Senhor com diversões e excessos de todas as espécies, quando o Senhor o põe sobre as vossas consciências. Anthony Palmer (—1678), in “The Gospel New Creature.”

“Oh!” disse Faraó, “tirai estas rãs asquerosas, este trovão horroroso!” Mas, o que diz David? “Senhor, tira a iniquidade de teu servo!” Aquele queria ver-se livre do castigo. E é muito verdadeiro que um Cristão, pelo contrário, está acostumado a perturbar-se mais com o pecado do que com as rãs e o trovão; vê mais imundície no pecado do que nas rãs e nos sapos, e mais horror no pecado do que no trovão e no relâmpago. Jeremiah Dyke's “Worthy Communicant,” 1645.

Faraó lamentava mais os golpes que recebia do que a dureza interna do seu coração. Esaú lamentava-se, não porque tinha vendido o direito de progenitura, que era o seu pecado, mas porque tinha perdido a bênção, o que era o seu castigo.

Isto é o mesmo que chorar por aplicar-se-lhe uma cebola; o olho derrama lágrimas porque dói. Um marinheiro lança um fardo durante uma tempestade, que deseja recolher no regresso, quando os ventos tenham amainado. Muitos queixam-se mais das aflições com as quais nasceram do que dos pecados com que nasceram; tremem mais perante a vingança do pecado do que perante o veneno do pecado; um deleita-se neles, o outro apavora-se com eles. William Secker

Vers. 12. Qual é o homem que teme ao SENHOR? O temor presente engendra segurança eterna; teme a Deus, que está sobre todas as coisas, e não terás que temer aos homens sob qualquer condição. Agostinho de Hipona

Ele o ensinará no caminho que deve escolher. Aqueles cujo coração é reto não errarão por falta de direção celestial. Quando Deus santifica o coração, ilumina a mente. Todos desejamos escolher o nosso próprio caminho; mas, que misericórdia quando o Senhor dirige esta escolha e faz com que a livre escolha seja a boa escolha! Se fizermos nossa a vontade de Deus, Deus permitir-nos-á ter a nossa vontade.

Deus não força a nossa vontade, mas tolera muito a nossa eleição; entretanto, Ele instrui a nossa vontade, e por isso escolhemos o que é agradável à Sua vista. A vontade deve estar submetida à lei; há uma maneira em que podemos escolher, mas somos tão ignorantes que precisamos de ser ensinados, e somos tão voluntariosos que só Deus nos pode ensinar de modo efetivo. C. H. S.

Vers. 13. A sua alma pousará no bem, e a sua descendência herdará a terra, ou noutra versão, Aquele que teme a Deus não tem de temer nada mais. Gozará de bem-estar. Ocupará a estância do contentamento. Alguém pode dormir tão bem num catre como na cama mais macia; não é a abundância, mas o contentamento, o que nos dá a verdadeira comodidade. C. H. S.

O temor santo de Deus vai destruir os temores pecaminosos dos homens, tal como a serpente de Moisés devorou as serpentes dos magos. Robert Mossom

Vers. 14. O segredo do SENHOR é para os que o temem. Alguns dizem que aqui “a amizade”; significa relação familiar, intimidade, confidências, e amizade seleta. Este é um grande segredo. As mentes carnais não podem nem imaginar o que significa, e até os crentes não o podem explicar por palavras, porque é necessário senti-lo para o conhecer.

A vida espiritual mais elevada é por necessidade uma senda que o olho da águia não conhece e que o cachorrinho do leão não pode seguir; nem a sabedoria nem a força natural podem forçar a porta desta câmara interior. Os santos têm a chave dos hieróglifos do céu; só eles podem decifrar os enigmas celestiais. São os iniciados na comunhão dos céus; ouviram as palavras que não é possível que as repitam aos seus companheiros. C. H. S.

Há um sentido vital em que “o homem natural não discerne as coisas do Espírito de Deus” e em que todas as realidades da experiência cristã ficam completamente fora das suas percepções. Falar-lhe da comunhão com Deus, do sentimento de perdão, da viva expectativa do céu, do testemunho do Espírito Santo, das lutas da vida espiritual, seria como discorrer com um cego sobre cores ou com um surdo sobre harmonia musical. John Morison

Ah!, mas dizes tu: Não conhecem o evangelho muitos homens carnais e falam das coisas do mesmo com a força do entendimento, etc.? Respondo com o texto de Cl 1:26,27 que, embora possam conhecer as coisas que o evangelho revela, não conhecem as riquezas e a glória do mesmo; que o mesmo rico conhecimento daquele que fala a Palavra eles não o têm, e portanto não o conhecem; um menino e um joalheiro olham os dois para uma pérola e chamam-lhe igualmente a mesma coisa; mas o menino não a conhece como uma pérola quanto ao valor e à riqueza da mesma, como o joalheiro, e portanto não se pode dizer que a conheçam de modo igual. Thomas Goodwin

O andar com Deus é a melhor maneira de conhecer a mente de Deus; os amigos que andam juntos comunicam entre si os segredos. O segredo do SENHOR é para aqueles que O temem. Noé andou com Deus e o Senhor revelou-lhe um grande segredo: que destruiria o velho mundo, e que o queria a ele numa arca.

Abraão andou com Deus, e Deus deixou-o entrar no Seu conselho privado: “Ocultarei eu a Abraão o que faço?” (Gn 18:17 e 24:40). Deus algumas vezes faz conhecer os segredos do Seu seio à alma em oração, e na Santa Ceia, assim também Cristo Se deu a conhecer Seus discípulos no acto de partir o pão (Lc 24:35). Thomas Wattson

Vers. 15. Os meus olhos estão continuamente no Senhor. O escritor diz que está fixo na sua confiança e na perseverança da sua expectativa; olha com confiança e aguarda com esperança. Podemos acrescentar a este olhar de fé e de esperança o olhar obediente do serviço, o olhar humilde da reverência, o olhar de admiração e assombro, o olhar diligente da meditação, e o tenro olhar do afeto. Felizes aqueles cujos olhos não se apartam nunca do seu Deus. “Os olhosdiz Salomãonão se fartam de ver”; mas esta vista é a que mais satisfaz no mundo.

Pois ele tirará os meus pés da rede. Observa a condição conflituosa em que uma alma cheia de graça se colocou; os seus olhos estão no céu, e, contudo, os seus pés estão às vezes na rede; a sua natureza mais nobre não cessa de contemplar as glórias de Deus, enquanto que a sua parte inferior está sofrendo as misérias do mundo. C. H. S.

Uma desgraçada pomba cujas patas tinham caído no laço do caçador é um perfeito emblema da alma, apanhada nos cuidados e prazeres do mundo, que sente o desejo de ter o poder da graça para fugir e estar em repouso com o seu Redentor glorificado. George Horne

Vers. 16. Olha para mim, e tem piedade de mim, porque estou solitário e aflito. Os seus próprios olhos estavam fixos em Deus, mas temia que o Senhor, irado, tivesse afastado o Seu rosto dele. Às vezes a incredulidade sugere que Deus dirige o Seu olhar apartando-o de nós. Se nós estivermos voltados para Deus, não temos por que temer que Ele Se afaste de nós, mas sim podemos exclamar com ousadia: “Olha para mim.”

Vers. 17. As ânsias do meu coração se têm multiplicado. Quando a tribulação penetra no coração, é verdadeiramente tribulação. No caso que temos diante o coração estava tumefacto de pena, como um lago cheio por causa de grandes vias; isto usa-o como argumento a favor da libertação, e é um argumento potente.

Quando chega a hora mais escura da noite esperamos a aurora; quando o mar está no seu ponto mais baixo, na maré, esta tem de cambiar, e quando as nossas tribulações têm aumentado ao máximo, então podemos orar confiados: Oh Senhor, tira-me das minhas ânsias! C. H. S.

Que nenhum homem se surpreenda de que a sua aflição seja grande e inexplicável. Sempre foi assim entre o povo de Deus. O caminho para o céu está humedecido de lágrimas e de sangue dos santos. William S. Plumer

Não nos podemos queixar de Deus, mas podemos queixar-nos a Deus. Com submissão à Sua santa vontade, podemos pedir sinceramente ajuda e libertação. William S. Plumer

Vers. 18. Olha para a minha aflição e para a minha dor, e perdoa todos os meus pecados. Nota as muitas provas dos santos; aqui temos não menos de seis palavras, todas elas para descrever aflição: “Aflição, dores, ânsias, trabalhos, tribulações, pena.” Mas também o espírito submisso e crente de um verdadeiro santo; tudo o que pede é: “Senhor, Olha para a minha aflição e para a minha dor.” Não pronuncia nem mesmo expressa uma queixa; um olhar de Deus deixa-o contente, e tendo ele sido concedido, não pede mais.

Ainda mais notável é a forma como o crente debaixo da aflição descobre a verdadeira causa do que sofre e põe o machado à raiz da mesma. “Perdoa todos os meus pecados” é o clamor de uma alma que está mais angustiada pelo pecado do que pela dor e quer mais ser perdoada do que ser curada. Bem-aventurado o homem para quem o pecado é mais insuportável do que a enfermidade; não demorará muito antes que o Senhor lhe tenha perdoado a iniquidade e lhe tenha curado a enfermidade. Os homens são lentos em dar-se conta da íntima conexão que existe entre o pecado e a aflição; somente um coração ensinado pela graça se dá conta disso. C. H. S.

É por causa da enfermidade da alma que Deus nos visita com a enfermidade do corpo. O Seu objetivo é curar a alma ao tocar o corpo. E, portanto, neste caso, quando Deus nos visita com a enfermidade, deveríamos pensar que a nossa tarefa está mais no céu com Deus do que entre os homens e os médicos. Richard Sibbes

Vers. 19. Olha para os meus inimigos, ou noutra versão, considera os meus inimigos. Ou seja, olha-os; mas com outra espécie de olhar; tal como o Senhor na coluna de fogo olhava para os egípcios e os perturbou (Ex 14:24), com um olhar de ira e de vingança. John Gill

Deus não precisa de fazer uso de muitas criaturas para disciplinar o homem; fá-lo por Sua conta. Não há nenhuma criatura tão prejudicial para o homem como ele mesmo. Algumas espécies prejudicam outras espécies e deixam em paz a sua própria, mas a humanidade destrói-se com toda a espécie de meios. Os homens são mais astutos contra os homens do que contra uma zorra, mais cruéis que um tigre, mais ferozes que um leão; numa palavra, se deixarmos o homem nas mãos de outro homem, este comporta-se como um diabo. William Struther

Vers. 20. Guarda a minha alma, e livra-me; não me deixes confundido, porquanto confio em ti, ou noutra versão, Guarda a minha alma do mal, e livra-me quando caio nele. Esta é outra versão da oração: E não nos induzas à tentação; mas livra-nos do mal, ou noutra versão, não nos deixe cair na tentação, mas livra-nos do mal.

Não me deixes confundido, ou noutra versão, não eu seja envergonhado. Este temor é como um espectro que gira ao redor da mente do Salmista. Treme para que a sua fé não seja objeto de ridículo por causa da dificuldade da sua aflição. Os corações nobres não podem tolerar a vergonha. David tinha um espírito cavalheiresco, que podia resistir a qualquer tortura, menos ao da desonra. C. H. S.


Tradução de Carlos António da Rocha

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