… Mas o melhor de tudo é crer em Cristo! Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 1580)

sábado, 8 de abril de 2017

SALMO 26


C. H. Spurgeon

O Tesouro de David

SALMO 26
Titulo: “Salmo de David.” O doce cantor do Israel está diante de nós neste Salmo como alguém que sofre recriminação; nisto era o tipo do grande Filho de David, e um exemplo encorajante para que levemos a carga da calúnia ao trono da graça. É uma suposição engenhosa que esta súplica feita ao céu foi escrita por David no tempo do assassínio de Isboseth por Baena e Recab, para protestar a sua inocência de qualquer participação naquele assassinato à traição. O teor do Salmo certamente está de acordo com a suposta ocasião, mas não é possível ir além da conjetura com dados tão débeis.



Vers. 1. Julga-me, Senhor. Uma súplica assim não deve ser feita de modo precipitado em nenhuma ocasião; e em toda a nossa vida não deveria fazer-se de modo algum, a menos que estejamos justificados em Cristo Jesus; uma oração muito mais apropriada para um pecador mortal é a súplica: “Não entres em juízo como Teu servo.” C. H. S.



Como um exemplo de uma súplica feita ao céu podemos citar a do grande pregador da Palavra, George Whitefield: “Embora alguns me considerem um saltimbanco ou um entusiasta, alguém que vos vai fazer dar voltas à cabeça com método, e podeis lançar-me toda espécie de invetivas, contudo, Cristo sabe tudo; Ele observa isso, e eu deixo que Ele defenda a minha causa, porque é um Amo misericordioso. Já vi que O é, e estou seguro que continuará a sê-Lo. A vingança é Sua, Ele retribuirá.” George Whitfield, 1714-1770.



Pois tenho andado em minha sinceridade. David tinha a sinceridade como princípio, ou noutra versão,tenho agido com rectidãoe andava nela como prática. Não tinha usado meios ocultos ou torcidos para ganhar a coroa e conservá-la; sabia perfeitamente que era guiado pelos princípios mais nobres da honra em todas suas ações referentes a Saul e à sua família.



Que consolo é ter a aprovação da própria consciência! Se há paz dentro da alma, as borrascas da calúnia que tanto ululam ao redor de nós não têm muita importância. Quando o passarinho no meu seio canta uma canção alegre, não me importa se ululam ao redor de mim cem corujas.



Tenho confiado também no Senhor; não vacilarei em ti, ou noutra versão, Senhor, confio sem vacilar. Por que devo roubar, quando Deus prometeu suprir a minha necessidade? Por que me devo vingar, quando sei que o Senhor adotou a minha causa? A confiança em Deus é a segurança mais efetiva contra o pecado.



Portanto, não vacilarei em ti, ou noutra versão, não escorregarei. O caminho é escorregadio, de modo que ando como sobre o gelo; apesar disso, a fé guarda os meus pés de cair e continuará fazendo-o. Os caminhos duvidosos mais tarde ou mais cedo farão cair ao que caminha por eles, mas os caminhos da honradez e da sinceridade, embora sejam ásperos, são sempre seguros. Não podemos confiar em Deus se andarmos por caminhos torcidos, ou seja, usando meios turvos; mas os caminhos retos e a fé simples levam o peregrino ao término feliz da sua jornada. C. H. S.



Vers. 2. Examina-me, Senhor, e prova-me: esquadrinha os meus rins e o meu coração. O Salmista usa três palavras: “examina”, “esquadrinha”, “prova”. Estas palavras têm por objeto incluir todos os modos em que a realidade de algo pode ser posta à prova; e implicam, juntos, que desejava que se fizesse a mais conscienciosa investigação; não tratava de esquivar-se à prova. Albert Barnes



Examina, esquadrinha, prova. Como o ouro é purificado da escória pelo fogo, assim a sinceridade do coração e a simplicidade do verdadeiro cristão se vêem melhor e se tornam mais evidentes nas tribulações e na aflição. Na prosperidade todo o homem parece piedoso, mas as aflições fazem sair do coração o que há nele, seja bom ou mau. Robert Cawdray



Vers. 3. E tenho andado na tua verdade. Alguns falam da verdade; é melhor andar nela. Alguns prometem obrar bem no futuro, mas as suas resoluções se desmoronam; só o homem regenerado pode dizer: “Ando em tua verdade.” C. R. S.



Vers. 3, 4. Tenho andado na tua verdade. Não me tenho assentado com homens vãos. Deus não vai dar a mão ao iníquo, como diz a Vulgata (Job 8:20), nem tampouco deve fazê-lo o homem piedoso. David demonstra a sinceridade do seu curso pelo cuidado com que evita estas companhias: Tenho andado na tua verdade. Não me tenho assentado com homens vãos. George Swinnock



Vers. 4. Não me tenho assentado com homens vãos. Longe de ser um ofensor aberto contra as leis de Deus, o Salmista nem ainda se tinha associado com os amadores do mal. Tinha-se mantido à parte dos homens do Belial. Um homem conhece-se pelos seus companheiros, e se nos temos mantido à distância dos maus, sempre será uma evidência a nosso favor, caso o nosso caráter seja impugnado. Aquele que nunca embarcou não pode ser aquele que afundou o barco.



Os verdadeiros cidadãos não têm relações com os traidores. David não se tinha sentado com homens hipócritas. Não eram seus amigos nas festas, nem seus conselheiros nos conselhos, nem seus amigos na conversação. Temos necessidade de ver, de falar e de tratar com os homens do mundo, mas não temos de ter o nosso espairecimento e distração numa sociedade frívola. Não só o homem de palavra soez, mas também o vão e o hipócrita devem ser evitados. Todos os que são superficiais, enganadores e frívolos, são indignos da amizade de um cristão. C. H. S.



O que têm de fazer as pombas de Cristo entre as aves de rapina? O que têm de ver as virgens com as rameiras? A companhia dos maus contamina; é como o passear entre os que têm a praga. “Misturaram-se com os pagãos e aprenderam as suas obras.” Se juntas uma armadura brilhante com outra ferrugenta, a brunida não tornará brilhante a ferrugenta, mas sim a ferrugenta estragará a outra. Faraó ensinou José a jurar, mas José não ensinou a Faraó a orar. Thomas Watson



Não me ajunto com os ímpios. Noutras versões: Nem me associo aos hipócritas ou Nem entrei com os que andam simuladamente. A congregação dos hipócritas é tal que não merece que tenhamos comunhão com ela. Deixemos de nos relacionar com eles logo, pois mais adiante é possível que não sintamos o desejo de fazê-lo. C. H. S.



O hipócrita, noutras versões o ímpio, tem muito de anjo por fora, mas mais de diabo por dentro. É ardente em palavras, gelado em obras; fala a varas, faz bem a polegadas. É um esterqueiro hediondo coberto de neve; um moinho que continua girando mas não mói nada; uma galinha que cacareja, mas que não põe. Thomas Adams



Vers. 4, 5. Não me tenho assentado com homens vãos, nem converso com os homens dissimulados. Tenho aborrecido a congregação de malfeitores; não me ajunto com os ímpios. “É difícil, inclusivamente em caso de um milagre, guardar os mandamentos de Deus e ter más companhias ao mesmo tempo.” Lewis Stuckley



Vers. 5. Tenho aborrecido a congregação de malfeitores. Noutras versões: Detesto a reunião dos homens perversos ou Aborreci a reunião dos malignos. Uma frase severa, mas não muito severa. Um homem que não aborrece o mal a fundo não ama o bem de coração. Aos homens, como homens, sempre temos de amá-los, porque são nossos próximos, e portanto temos de amá-los como a nós mesmos; mas os malfeitores, como tais, são traidores do grande Rei, e nenhum súbdito leal pode amar aos traidores. O que Deus aborrece temos de aborrecê-lo nós. A congregação ou assembleia dos malfeitores significa homens violentos, aliados para derrocar o inocente; estas sinagogas de Satanás hão-de ser aborrecidas.



Que reflexão tão triste é a de que deveria haver uma congregação de malfeitores, assim como uma congregação de justos; uma igreja de Satanás, e uma igreja de Deus; uma semente da serpente, assim como uma semente da mulher; uma antiga Babilónia, assim como uma nova Jerusalém; uma grande rameira sentada sobre as muitas águas, para ser julgada em ira, assim como uma casta esposa do Cordeiro que seja coroada na Sua vinda. C. H. S.



Tenho aborrecido a congregação de malfeitores. O ódio aos inimigos, enquanto que eles são inimigos (sim, ter-lhes verdadeiro ódio), tão completamente o oposto ao indiferentismo dos nossos dias, sempre foi uma marca dos seus servos antigos. Pense-se em Finéas (Sl 106:31, ARC, Pt): “E isto lhe foi reputado por justiça, de geração em geração, para sempre”; Samuel com Agag; Elias com os sacerdotes de Baal. E notemos o elogio do anjo do Éfeso: “que não podes sofrer os maus;” (Ap 2:2, ARC, Pt). J. M. Neale



Não me ajunto com os ímpios. Ou noutras versões: Não convivo com os malvados, ou, E com os ímpios nunca me sentei. Os santos têm um assento noutra mesa, e nunca deixam as viandas do Rei pelas cascas da pocilga. É melhor estar sentado com os cegos, coxos e manetas na mesa da misericórdia que com os iníquos nas suas festas ímpias; sim, é melhor estar sentado na cinza com Job que com Faraó no trono. Que cada leitor procure a boa companhia, porque a que tenhamos neste mundo é provável que seja a mesma que teremos no próximo. C. H. S.



Quão poucos são os que consideram que o seu contato com os iníquos os endurece, enquanto que o apartar-se deles poderia dar por resultado que se sentissem envergonhados! Enquanto que nos divertimos com eles, fazemo-los crer que a sua condição não é deplorável, que o seu perigo não é grande; pelo contrário, se os evitarmos, como evitamos uma parede que se desaba, enquanto que continuam sendo inimigos do Senhor, isto poderia fazer-lhes bem, pois sobressaltá-los-ia e despertá-los-ia da segurança e do engano em que agora se encontram. Lewis Stuckley



Vers. 6. Lavo as minhas mãos na inocência; e assim andarei, Senhor, ao redor do teu altar ou noutra versão Lavo as minhas mãos, em sinal de inocência e aproximo-me, Senhor do teu altar. Digam o que quiserem os psicólogos de Roma fazendo ver o poder da natureza e da livre vontade, a nós, miseráveis pecadores, ensina-nos a darmos melhor conta da nossa própria debilidade. O mesmo apóstolo de Cristo, o forte Tomé, falhou na fé da Sua ressurreição; Pedro (cuja cadeira agora se quer fazer ver que é a sede da infalibilidade) negou o seu Mestre; David, “um homem segundo o coração de Deus”, teve necessidade de ser purificado; e, quem pode dizer: “Sou puro à vista do Senhor”? Certamente, oh Senhor, nenhuma carne é justa perante a Tua vista. Isaac Bargrave



Vers. 7. E contar todas as tuas maravilhas ou E proclamando as tuas maravilhas. O povo de Deus não deveria ter a língua travada. As maravilhas da graça divina são bastantes para fazer falar como um mudo. As obras do amor de Deus são maravilhosas se considerarmos o pouco valor de seus objetos, o custo do seu método e a glória do seu resultado. E se como homens achamos grande prazer em falar de coisas notáveis e assombrosas, da mesma maneira os santos regozijam-se contando as grandes coisas que o Senhor tem feito por eles. C. H. S.



Vers. 8. Senhor, eu tenho amado a habitação da tua casa. “Tenho na minha congregação” disse um ministro venerável do evangelho “uma senhora anciã que durante muitos anos foi surda como uma taipa, mas é sempre das primeiras a sentar-se na hora da reunião.



“Ao lhe perguntar a razão da sua assistência constante, embora não pudesse ouvir o sermão, respondeu: “Se bem que eu não posso ouvi-lo, venho à casa de Deus porque quero fazê-lo, e quero achar-me nos Seus caminhos; e Deus me dá pensamentos doces sobre o versículo quando no indica; outra razão é que estou entre a melhor companhia aqui, na presença mais imediata de Deus, e entre os seus santos, os dignos da terra. Não fico satisfeita a servir a Deus em privado; o meu dever e privilégio é honrá-lO regularmente em público” “Que repreensão há aqui para os que podem ouvir, se é que se apresentam e não chegam a tempo ao lugar de adoração, se é que chegam! K. Arvine



Vers. 9. Não juntes a minha alma com a dos pecadores ou noutras versões Não colhas a minha alma com a dos pecadores ou Não me ceifes a vida com a dos pecadores. “Não juntes a minha alma com a dos pecadores” por causa do lagar da sua ira eterna! Marcião de Sínope, ou Marcion, o herege, vendo Policarpo, admirava-se de que ele não o reconhecesse. “Não me conheces, Policarpo?” “Sim” respondeu-lhe Policarpo”, “Conheço-te como o primogénito do diabo”, e desprezou-te. George Swinnock



A morte é o momento da colheita para Deus, em que Ele recolhe as almas que Lhe pertencem e o diabo recolhe as que lhe pertencem a ele. Num tempo andaram juntas, mas logo se separam; e os santos são levados para a congregação dos santos, e os pecadores para a congregação dos pecadores. E o que nós temos de dizer é: “Não juntes a minha alma com a dos pecadores.” Sejam quais forem os nossos aqui, ou o povo de Deus ou o do diabo, a morte vai juntar as nossas almas com as deles.



Será algo horrível ver-se junto com os pecadores no outro mundo. O mero ato de pensar que as nossas almas possam ser juntas com as deles, basta para nos arrepiar os cabelos.



Há agora muitos que se juntam de boa vontade com os pecadores; é o deleite dos seus corações; a sua vida é atrevida, divertida aos seus olhos. É-lhes uma carga juntar-se com os santos, ocupar-se do Senhor e das Suas coisas os domingos.



Mas o ser juntado com eles no outro mundo é algo terrível. A) Os santos temem-no, como no versículo. David nunca temeu tanto a companhia dos enfermos, dos perseguidos, etc., como a dos pecadores. Estava contente ao reunir-se com os santos de qualquer condição; mas, “Senhor” diz, “não juntes a minha alma com a dos pecadores”. B) Os malvados mesmos têm horror perante essa perspectiva. “A minha alma morra da morte dos justos, e seja o meu fim como o seu” (Nm 23:10, ARC, Pt), ou na versão aBÍbliaparatodos, Pt, Nm 23:10, “Quem me dera ter um fim igual ao destes homens bons, um futuro semelhante ao deste povo! “ diz o iníquo Balaam. Se bem que estejam contentes vivendo com eles na vida, as suas consciências lhes dão testemunho de que estão horrorizados perante a ideia de estar com eles na morte. Querem viver com os pecadores, mas morrer com os santos. Uma ideia pobre, que se condena a si mesma. Thomas Boston



Vers. 10. Em cujas mãos há malefício, e cuja mão direita está cheia de subornos, ou noutra versão, Gente cheia de maldade, sempre pronta para o suborno



Com o que se podem tornar todas as doutrinas

Claras, honestas e aceitáveis? Muito simples.

Basta com duzentas libras anuais.

E se for necessário demonstrar

Que o reto é torcido, ou viceversa?

Fácil! Duzentas libras mais!

Samuel Butler (1600-1680), in Hudibras. Part 3. Canto 1.

Tradução de Carlos António da Rocha

****

Esta tradução é de livre utilização, desde que a sua ortografia seja respeitada na íntegra porque já está traduzida no Português do Novo Acordo Ortográfico e que não seja nunca publicada nem utilizada para fins comerciais; seja utilizada exclusivamente para uso e desfruto pessoal.

Sem comentários: